O Duque e Eu
Capítulo 21
persistente e brilhante. Eu conheço você. Aprendeu a falar por seu próprio mérito, não por causa dele.
Como ele não disse nada, ela acrescentou num tom suave:
– A única diferença é que, se ele tivesse lhe dado amor, tudo teria sido muito mais fácil.
Simon começou a balançar a cabeça em uma negativa, mas ela deu um apertão na mão dele e o interrompeu.
– Eu fui uma criança amada. Tudo o que conheci na infância foi amor e devoção.
Acredite em mim, isso torna tudo mais fácil.
Ele cou imóvel por vários minutos. O único som que se ouvia era o da respiração dele tentando vencer as emoções. Por m, quando Daphne já começava a temer que o tivesse perdido, ele a encarou com uma expressão totalmente arrasada.
– Eu quero ser feliz – murmurou.
– Você vai ser – prometeu ela, passando os braços ao redor dele. – Você vai ser.
CA P Í T U L O 2 1
O duque de Hastings voltou!
CRÔNICAS DA SOCIEDADE DE LADY WHISTLEDOWN,
6 DE AGOSTO DE 1813
Simon não disse nada enquanto os dois voltaram cavalgando devagar para casa. A égua de Daphne havia sido encontrada pastando alegremente numa faixa de gramado a cerca de 20 metros, e embora ela tivesse garantido que estava bem para montar, Simon respondera que não queria saber. Depois de amarrar as rédeas do animal a seu próprio cavalo, ele zera Daphne sentar em sua sela, montara atrás dela e tomara o caminho de volta para a Grosvenor Square.
Além disso, ele precisava abraçá-la.
Estava começando a se dar conta de que precisava se agarrar a alguma coisa na vida, e talvez ela tivesse razão quando dizia que a raiva não era a solução. Quem sabe ele conseguiria aprender a se agarrar ao amor...
Quando os dois chegaram à Casa Hastings, um cavalariço correu para cuidar dos animais enquanto Simon e Daphne subiam a escada de entrada e entravam no saguão.
Assim que colocaram os pés para dentro, deram de cara com Colin, Benedict e Anthony Bridgerton.
– Que diabo vocês estão fazendo na minha casa? – perguntou Simon.
Tudo o que queria era correr para o andar de cima e fazer amor com sua esposa.
Em vez disso, teria que lidar com aquele trio brigão. Eles estavam parados em poses idênticas – pernas abertas, mãos na cintura, queixo projetado para a frente. Se Simon não estivesse tão irritado com eles, poderia ter tido a presença de espírito de car levemente assustado.
Ele não tinha dúvidas de que se sairia bem em um embate com um deles – talvez até dois –, mas contra os três era um homem morto.
– Ficamos sabendo que você tinha voltado – disse Anthony.
– Pois é, voltei – respondeu Simon. – Agora podem se retirar.
– Não tão rápido – retrucou Benedict, cruzando os braços.
Simon se virou para Daphne.
– Qual deles eu posso matar primeiro?
Ela fez uma careta direcionada aos irmãos.
– Tanto faz.
– Temos algumas exigências antes de permitir que você que com Daphne –
informou Colin.
– O quê? – berrou ela.
– Daphne é minha mulher! – rugiu Simon.
– Antes de ser sua mulher, ela é nossa irmã – atalhou Anthony. – E você a magoou.
– Isso não é da conta de vocês – insistiu Daphne.
– Tudo o que acontece com você é da nossa conta – retrucou Benedict.
– Na verdade, o que acontece com ela é da minha conta – replicou Simon –, então agora saiam da minha casa.
– Quando vocês estiverem casados, poderão pensar em me oferecer conselhos –
atalhou Daphne, furiosa –, mas por enquanto guardem suas opiniões para si mesmos.
– Sinto muito, Daff – disse Anthony –, mas não vamos deixar isso para lá.
– Deixar o que para lá? – reagiu ela. – Vocês não têm o direito de se intrometer no meu casamento. Isso não é assunto de vocês!
Colin deu um passo para a frente.
– Não vamos sair daqui até estarmos convencidos de que ele ama você.
Daphne sentiu o sangue se esvair do rosto. Simon nunca tinha dito que a amava.
Já demonstrara isso de mil formas, mas jamais pronunciara as palavras. Quando isso acontecesse, não queria que fosse por imposição de seus irmãos repressores.
Desejava que Simon as dissesse de livre e espontânea vontade, com o coração.
– Pare com isso, Colin – sussurrou ela, detestando o tom patético e suplicante de sua voz. – Vocês têm que me deixar lutar minhas próprias batalhas.
– Daff...
– Por favor – pediu ela.
Simon se posicionou no meio dos dois.
– Agora, se nos dá licença... – falou para Colin e, por extensão, para Anthony e Benedict.
Levou Daphne até a outra ponta do saguão, onde poderiam conversar em particular. Preferiria ter ido para outro ambiente, mas não con ava que os idiotas dos irmãos dela não fossem segui-los.
– Peço desculpas por eles – murmurou Daphne rapidamente. – São uns grosseirões estúpidos que não tinham o menor direito de invadir sua casa. Se eu pudesse matá-los, não pensaria duas vezes. Depois do que zeram, eu não me surpreenderia se você nunca quisesse ter filhos...
Simon pôs um dedo em seus lábios para silenciá-la.
– Em primeiro lugar, é nossa casa, não minha. E quanto aos seus irmãos... eles são totalmente irritantes, mas estão fazendo isso por amor. – Abaixou a cabeça só um pouco, mas o su ciente para que ela sentisse sua respiração. – Quem pode culpá-
los por isso? – sussurrou.
Daphne sentiu o coração parar de bater.
Simon se aproximou ainda mais, até seu nariz encostar no dela.
– Eu amo você, Daff – disse ele baixinho.
O coração dela começou a bater de novo, dessa vez com toda a força.
– Ama?
Ele assentiu, roçando o nariz no dela.
– Não pude evitar.
Os lábios dela se abriram num sorriso hesitante.
– Isso não é muito romântico...
– Mas é a verdade – retrucou ele, dando de ombros com uma expressão impotente. – Você sabe melhor do que ninguém que eu não desejava nada disso. Não queria casar nem ter uma família, muito menos me apaixonar. – Ele roçou os lábios nos dela com delicadeza, provocando arrepios pelo corpo dos dois. – Mas acabei descobrindo – continuou, seus lábios tocando os dela de novo –, contra minha vontade, que é impossível não amar você.
Daphne derreteu nos braços dele.
– Ah, Simon – suspirou.
A boca dele capturou a dela, tentando demonstrar com um beijo o que ainda estava aprendendo a expressar com palavras. Ele a amava. Idolatrava. Faria qualquer coisa por ela.
De repente notou que os três irmãos dela os assistiam.
Depois de interromper o beijo devagar, virou o rosto para o lado. Anthony, Benedict e Colin ainda estavam parados no foyer. O primeiro olhava para o teto, o segundo ngia que estava inspecionando as próprias unhas e o terceiro os encarava acintosamente.
Simon apertou Daphne ainda mais nos braços enquanto olhava para eles, furioso.
– Que diabo vocês ainda estão fazendo aqui?
Como era de esperar, nenhum deles tinha o que responder.
– Saiam! – rosnou Simon.
– Por favor.
O tom de Daphne também não foi exatamente gentil.
– Está bem – concordou Anthony, dando um tapa na cabeça de Colin. – Acho que nosso trabalho aqui acabou, rapazes.
Simon começou a conduzir Daphne na direção da escada.
– Acho que vocês conhecem o caminho da saída – disse por cima do ombro.
Anthony assentiu e empurrou os irmãos em direção à porta.
– Ótimo – comentou Simon. – Estamos indo lá para cima.
– Simon! – gritou Daphne.
– Como se eles não soubessem o que nós vamos fazer... – sussurrou ele no ouvido
dela.
– Mesmo assim... eles são meus irmãos!
– Que Deus nos proteja, então – murmurou ele.
Mas antes que os dois chegassem à metade da escada, a porta da frente se abriu e se seguiu uma corrente de xingamentos proferidos por uma voz feminina.
– Mãe? – disse Daphne, se engasgando.
Violet, porém, só tinha olhos para os filhos.
– Eu sabia que ia encontrar vocês aqui – falou em tom acusatório. – Nunca conheci pessoas mais teimosas e estúpidas...
Daphne não escutou o resto do discurso da mãe. Simon estava rindo muito alto em seu ouvido.
– Ele a magoou! – protestou Benedict. – Como irmãos, é nosso dever...
– Respeitar a capacidade dela de resolver os próprios problemas – atalhou Violet.
– E ela não está parecendo muito magoada agora.
– Isso porque...
– Se disserem que foi porque vocês invadiram a casa dela feito um bando de débeis mentais, vou matá-los.
Os três se calaram.
– Agora – continuou Violet – acredito que está na hora de irmos embora, não acham?
Como os lhos não a obedeceram com a rapidez que ela gostaria, Violet estendeu a mão e...
– Por favor, mamãe! – uivou Colin. – Não a...
Ela o pegou pela orelha.
– ... orelha – concluiu ele tristemente.
Daphne agarrou o braço de Simon. Ele estava rindo tanto que ela teve medo que ele despencasse escada abaixo.
Violet guiou os lhos para a saída com um grito de “Andem!”, então se virou para Simon e Daphne.
– Bem-vindo a Londres, Hastings – disse ela, presenteando-o com um sorriso largo e brilhante. – Mais uma semana e eu mesma o teria arrastado de volta.
Então saiu e fechou a porta atrás de si.
Simon se virou para Daphne, ainda se sacudindo de tanto rir.
– Aquela era mesmo sua mãe? – perguntou.
– Ela pode ser bastante surpreendente.
– Percebi.
Daphne ficou séria.
– Desculpe se meus irmãos forçaram você...
– Bobagem – disse ele, interrompendo-a. – Seus irmãos jamais conseguiriam me obrigar a dizer algo que eu não sentisse. – Inclinou a cabeça para o lado e pensou por um instante. – Bem, não sem uma pistola.
Daphne deu um tapinha no ombro dele.
Simon a ignorou e puxou o corpo dela de encontro ao seu.
– Eu estava falando sério – murmurou, passando os braços pela cintura de Daphne. – Eu amo você. Já sei disso há algum tempo, mas...
– Tudo bem – retrucou ela, encostando o rosto no peito dele. – Não precisa explicar.
– Preciso, sim – insistiu ele. – Eu... – Mas as palavras não saíram. Havia muitas emoções misturadas dentro dele. – Deixe-me mostrar quanto eu a amo – falou com a voz rouca.
Daphne levantou o rosto para receber o beijo dele. E quando os lábios dos dois se tocaram, ela suspirou:
– Eu também amo você.
A boca de Simon devorou a dela e ele a abraçava como se ela pudesse desaparecer a qualquer instante.
– Vamos para o quarto – sussurrou ele. – Agora.
Ela assentiu, mas antes que pudesse dar um passo ele a pegou no colo e a carregou escada acima.
Quando chegaram ao segundo andar, seu corpo já estava duro como pedra e implorando por alívio.
– Em que quarto você está? – arquejou ele.
– No seu – disse ela, parecendo surpresa pela pergunta.
Ele soltou um gemido em aprovação e seguiu rapidamente para o quarto dele –
não, deles –, fechando a porta atrás de si com um chute.
– Eu amo você – falou ele quando os dois caíram sobre a cama.
Agora que já havia se declarado uma vez, não queria mais parar de dizer essas três palavras. Precisava ter certeza de que ela entendia como era importante para ele.
E, se precisasse dizer mil vezes, ele não se importava.
– Eu amo você – repetiu, com os dedos desamarrando freneticamente o vestido dela.
– Eu sei – afirmou ela, trêmula. Segurou o rosto dele e o encarou. – Eu também o amo.
Então puxou a cabeça dele em direção à sua e o beijou com uma inocência que deixou o corpo dele em chamas.
– Se algum dia eu a magoar de novo – retrucou Simon com fervor, beijando o canto da boca de Daphne –, você pode me matar.
– Nunca – respondeu ela, sorrindo.
Os lábios dele seguiram até o ponto sensível abaixo da orelha dela.
– Então me faça sofrer – murmurou ele. – Quebre meu braço, torça meu tornozelo.
– Não seja bobo – pediu ela, tocando o queixo de Simon e virando o rosto dele para ela. – Você não vai me magoar de novo.
O amor por aquela mulher inundou seu peito, fez os dedos de suas mãos formigarem e o deixou sem fôlego.
– Eu a amo tanto que às vezes co até assustado – sussurrou ele. – Se eu pudesse lhe dar o mundo, você sabe que eu daria, não sabe?
– Eu só quero você – disse ela baixinho. – Não preciso do mundo, só do seu amor. E talvez – acrescentou com um sorriso malicioso – que você tire as botas.
Simon abriu um sorriso enorme. De alguma forma, ela sempre sabia exatamente do que ele precisava. No momento exato em que ele estava sendo sufocado pelas emoções, chegando quase às lágrimas, ela aliviou o clima, fazendo-o sorrir.
– Seu desejo é uma ordem – falou, arrancando os calçados. – Mais alguma coisa, Alteza?
Ela inclinou a cabeça para o lado timidamente.
– Acho que pode tirar a camisa também.
Ele obedeceu, jogando a peça de linho em cima da mesa de cabeceira.
– Satisfeita?
– Isto aqui – respondeu ela, enganchando o dedo em um dos passadores da calça dele – só está atrapalhando.
– Concordo – murmurou Simon, tirando-a. Depois engatinhou para cima dela, envolvendo-a com a quentura de seu corpo. – E agora?
Daphne prendeu a respiração.
– Bem, agora você já está nu.
– É verdade – concordou ele, olhando para ela com ardor.
– E eu não.
– Isso também é verdade. – Ele deu um sorriso sensual. – Precisamos cuidar disso.
Ela assentiu, completamente sem palavras.
– Levante os braços – ordenou ele baixinho.
Ela obedeceu e, segundos depois, seu vestido já tinha sido tirado.
– Agora está muito melhor – comentou ele com a voz rouca, olhando faminto para os seios dela.
Os dois estavam ajoelhados um diante do outro sobre a imensa cama de dossel.
Daphne encarava o marido com os batimentos se acelerando diante da visão do amplo peito nu dele se movimentando a cada respiração ofegante. Estendeu uma mão trêmula e o tocou, passando os dedos levemente em sua pele quente.
Simon prendeu a respiração até que o indicador de Daphne tocou seu mamilo, então ele cobriu a mão dela com a sua.
– Eu quero você – disse ele.
Ela baixou os olhos e deu um pequeno sorriso.
– Estou vendo.
– Não – suspirou ele, puxando-a mais para perto. – Eu quero estar no seu
coração. Na sua... – todo o corpo dele estremeceu quando encostou no dela – alma.
– Ah, Simon – gemeu Daphne, afundando os dedos nos cabelos grossos e escuros dele. – Você já está.
Então não houve mais palavras, apenas lábios, mãos e pele.
Simon a acariciou de todas as formas que conhecia. Passou as mãos pelas pernas dela e beijou-as atrás dos joelhos. Apertou seus quadris e tocou seu umbigo. E
quando estava pronto para penetrá-la, esforçando-se para conter o desejo mais profundo que já sentira na vida, olhou para ela com tanta veneração que os olhos de Daphne se encheram de lágrimas.
– Eu a amo – sussurrou ele. – Em toda a minha vida, só existiu você.
Ela assentiu e, embora não tenha emitido qualquer som, sua boca formou as palavras:
– Eu também amo você.
Ele avançou devagar, implacável. E quando se acomodou completamente dentro dela, sentiu que estava em casa.
Fixou o olhar nela. Daphne estava com a cabeça atirada para trás e os lábios entreabertos, respirando com sofreguidão. Ele roçou os lábios nas bochechas rosadas dela.
– Você é a coisa mais linda que eu já vi – murmurou . – Eu nunca... eu não sei como...
Ela arqueou as costas.
– Apenas me ame – suspirou. – Por favor, me ame.
Simon começou a se mexer, subindo e descendo no ritmo mais antigo que existia.
As mãos de Daphne apertavam suas costas, cravando as unhas na pele dele a cada arremetida.
Ela não parava de gemer, e o corpo dele ardia com os sons da paixão. Estava perdendo o controle, seus movimentos ficando mais tensos, mais frenéticos.
– Não vou conseguir segurar por muito mais tempo – arquejou.
Ele queria esperar por ela, precisava saber que a satisfizera antes que se permitisse sentir o próprio prazer.
Mas então, no instante exato em que pensou que fosse explodir de desejo, Daphne estremeceu embaixo dele, com seus músculos mais íntimos apertando-o enquanto ela gritava seu nome.
Simon cou sem fôlego enquanto observava o rosto dela. Sempre se concentrara tanto em não derramar sua semente dentro dela que nunca vira o rosto de Daphne na hora do clímax. Ela estava com a cabeça atirada para trás, com as elegantes linhas do pescoço esticadas, e sua boca se abria num grito silencioso.
Ficou louco de paixão.
– Eu te amo – disse ele. – Ah, meu Deus, como eu amo você.
Então mergulhou mais fundo.
Os olhos de Daphne se abriram quando ele retomou o ritmo.
– Simon? – chamou, com um tom de urgência. – Você tem certeza?
Os dois sabiam o que ela queria dizer.
Ele assentiu.
– Não quero que você faça isso só por mim – continuou ela. – Tem que ser por você também.
Simon sentiu uma massa se formar em sua garganta, mas não era nada parecida com a sensação que o tomava quando ele gaguejava. Percebeu que era apenas amor. Sentiu lágrimas invadirem seus olhos e assentiu, absolutamente incapaz de falar. Mergulhou para a frente, explodindo dentro dela. A sensação foi maravilhosa.
Sensacional. Nada em sua vida já tinha sido tão bom.
Seus braços nalmente cederam e ele desabou em cima dela. O único som no quarto era o de sua respiração irregular.
Então Daphne afastou uma mecha de cabelo da testa dele e beijou sua sobrancelha.
– Eu amo você – sussurrou. – Vou amá-lo para sempre.
Simon afundou o rosto no pescoço dela, inalando seu perfume. Ela o abraçou e ele se sentiu completo.
Muitas horas depois, Daphne abriu os olhos. Começou a se espreguiçar, esticando os braços para cima, e notou que as cortinas estavam fechadas. Simon devia ter feito aquilo, pensou, bocejando. A luz entrava pelas frestas, banhando o quarto com um brilho suave.
Virou o pescoço para os dois lados, alongando-o, saiu da cama e foi até o quarto de vestir para pegar seu robe. Ela não costumava dormir durante o dia. Mas aquele não havia sido um dia comum.
Vestiu o robe e amarrou a faixa de seda na cintura. Onde Simon estava? Achava que ele não devia ter se levantado muito antes dela. Tinha uma vaga lembrança de estar deitada nos braços dele que de certa forma parecia muito recente.
A suíte principal era composta de cinco ambientes ao todo: dois quartos, cada um deles com o próprio toucador ao lado, ligados por uma grande sala de estar. A porta para este último cômodo estava entreaberta e a forte luz do sol passava por ali, o que queria dizer que as cortinas não estavam fechadas. Silenciosamente, Daphne foi até lá e olhou para dentro.
Simon estava parado em frente à janela, olhando para a cidade. Vestia um elegante roupão cor de vinho, mas ainda estava descalço. Seus olhos azul-claros estavam pensativos, dispersos e um pouco tristes.
Daphne franziu a testa, preocupada. Foi até ele e, quando estava a poucos
centímetros de distância, disse um “olá” bem baixinho.
Simon se virou ao som da voz dela e, ao vê-la, sua expressão cansada se suavizou.
– Olá – murmurou ele, puxando-a para seus braços.
Ele a posicionou com as costas aninhadas em seu peito largo e os dois caram olhando para a Grosvenor Square enquanto Simon pousava o queixo em cima da cabeça dela.
Daphne demorou vários instantes para reunir coragem e perguntar:
– Está arrependido?
Ela não podia vê-lo, mas sentiu o queixo dele se mexendo em seu couro cabeludo quando ele balançou a cabeça.
– De jeito nenhum – sussurrou Simon. – Só estou... pensando.
Algo na voz dele não a convenceu, então ela se virou nos braços dele até conseguir ver seu rosto.
– Simon, o que houve? – murmurou.
– Nada.
Mas ele não a encarou.
Daphne levou-o até um sofazinho e os dois se sentaram.
– Se você ainda não estiver pronto para ser pai – começou ela –, eu vou entender.
– Não é isso.
Mas ela não acreditou. Ele respondeu rápido demais, e algo na voz dele a estava deixando inquieta.
– Eu não me importo de esperar – prosseguiu. – Na verdade – acrescentou timidamente –, eu não acharia ruim ter um tempo só para nós.
Simon não disse nada, mas os olhos dele caram a itos, então ele os fechou enquanto coçava a sobrancelha.
Daphne foi tomada por uma onda de pânico e começou a tagarelar.
– Eu não queria ter um lho imediatamente. Eu só... gostaria de um dia ter, só isso, e acho que você também poderia querer, se pensasse no assunto. Fiquei chateada quando descobri que você só estava nos negando uma família para contrariar seu pai. Não é...
Simon pousou uma mão sobre a coxa dela.
– Daphne, pare – pediu ele. – Por favor.
A voz dele estava tão a ita que ela se calou no mesmo instante. Ela mordeu o lábio inferior, nervosa. Era a vez dele de falar. Claramente havia algo deixando o coração dele angustiado, e se ele precisasse do dia todo para encontrar as palavras e explicar o que era, ela poderia esperar.
Poderia esperar para sempre por aquele homem.
– Não posso dizer que adoro a ideia de ter um filho – disse Simon devagar.
Daphne percebeu que ele respirava com di culdade e pôs a mão em seu braço para reconfortá-lo.
Ele se virou para ela com olhos que imploravam por compreensão.
– Passei tanto tempo sem querer ter lhos, sabe? – Engoliu em seco. – N-não sei nem como começar a pensar nisso.
Daphne lhe ofereceu um sorriso tranquilizador que depois percebeu que se destinava aos dois.
– Você vai aprender – sussurrou. – E eu vou aprender com você.
– N-não é isso – retrucou ele, balançando a cabeça. Soltou um suspiro impaciente. – Eu não... quero... viver apenas p-para contrariar meu pai.
Simon se virou para ela e Daphne cou tocada pela emoção que transparecia em seu rosto. Estava com o queixo trêmulo e o pescoço incrivelmente tenso, como se toda a sua energia estivesse concentrada em proferir essas palavras.
Ela queria abraçá-lo, confortar o menininho dentro dele. Queria suavizar sua expressão e apertar sua mão. Queria fazer mil coisas, mas apenas cou em silêncio, seus olhos encorajando-o a continuar.
– Você tinha razão – reconheceu ele, com as palavras saindo de sua boca com di culdade. – Tinha razão o tempo todo. Sobre meu pai. Q-que eu estava deixando que ele vencesse.
– Ah, Simon – murmurou ela.
– M-mas e... – prosseguiu ele, com o rosto forte e bonito que normalmente era tão rme, tão controlado, todo franzido de preocupação. – E se... e se tivermos um filho e e-e-ele sair igual a mim?
Por um instante, Daphne não conseguiu dizer nada. Sentiu os olhos se encherem de lágrimas e a boca se abrir em choque.
Simon virou o rosto para o outro lado, mas não a tempo de esconder o grande tormento em seus olhos. Ela percebeu que ele prendeu a respiração por um momento e depois a soltou em um suspiro trêmulo, numa tentativa de se manter sob controle.
– Se tivermos um lho com gagueira – respondeu ela com cautela –, vou amá-lo e apoiá-lo. E... – Engoliu em seco, nervosa, torcendo para estar fazendo a coisa certa.
– E vou pedir sua ajuda, porque você também passou por isso e conseguiu vencer.
Ele se virou rapidamente para encará-la.
– Não quero que meu filho sofra como eu.
Daphne deu um sorriso involuntário, feliz por saber exatamente o que dizer.
– Mas ele não vai sofrer, porque você será o pai dele.
Os olhos de Simon brilharam com uma luz diferente, um lampejo de esperança.
– Você rejeitaria nosso filho se ele fosse gago? – perguntou Daphne baixinho.
Simon balançou a cabeça com veemência.
Ela sorriu suavemente.
– Então nossos filhos não terão o que temer.
Ele cou parado por mais um instante, então, num movimento brusco, puxou-a para si, enterrando o rosto em seu pescoço.
– Eu amo você – falou com a voz embargada. – Te amo mais que tudo.
E Daphne finalmente teve a certeza de que tudo daria certo.
Muitas horas depois, os dois ainda estavam aninhados no sofazinho da sala de estar.
Tinham passado a tarde de mãos dadas, com a cabeça repousando no ombro um do outro. Não precisaram dizer nada. Simplesmente car juntos havia sido o suficiente. O sol brilhava, os pássaros cantavam e eles eram um casal.
Era tudo de que necessitavam.
Mas alguma coisa ainda incomodava Daphne, e foi apenas quando seus olhos pousaram sobre os papéis de carta em cima da mesa que ela lembrou.
As cartas do pai de Simon.
Fechou os olhos e respirou fundo, reunindo coragem para entregá-las ao marido.
O duque de Middlethorpe tinha lhe dito, quando lhe confiara as correspondências, que ela saberia decidir o melhor momento de mostrá-las a ele.
Ela se desvencilhou dos fortes braços de Simon e foi pegá-las.
– Aonde você vai? – perguntou Simon com a voz sonolenta.
Tinha acabado cochilando sob o sol quente da tarde que entrava pela janela.
– Eu... eu preciso lhe mostrar uma coisa.
Provavelmente ele percebeu a hesitação na voz de Daphne, porque abriu os olhos e se virou para encará-la com curiosidade.
– Que coisa?
Ela virou as costas e apertou o passo em direção ao outro cômodo.
– Já volto – afirmou.
Havia guardado o maço de cartas amarrado por uma ta vermelha e dourada –
as cores dos Hastings – junto com seus pertences. Na verdade, chegara a se esquecer delas durante as primeiras semanas de volta a Londres e o maço cara intocado em seu antigo quarto na casa de sua família. Mas, em uma das visitas que tinha feito à mãe nesse período, deparara com elas. Violet sugeriu que a lha subisse para pegar algumas de suas coisas e, enquanto ela recolhia vidros de perfume e a fronha que bordara aos 10 anos de idade, Daphne as reencontrou.
Mais de uma vez sentira-se tentada a abri-las, nem que fosse para entender melhor o marido. E verdade seja dita: se os envelopes não estivessem lacrados, ela provavelmente teria abandonado os escrúpulos e lido todas.
Pegou o maço e voltou lentamente para a sala. Simon ainda estava no sofá, mas sentado e alerta, olhando para ela com expectativa.
– São para você – disse Daphne, mostrando as correspondências ao se aproximar dele.
– O que são? – indagou Simon.
Pelo seu tom de voz, ela imaginou que ele já soubesse.
– São cartas do seu pai. O duque de Middlethorpe me pediu que as guardasse.
Lembra que o encontramos naquela noite?
Ele assentiu.
– Também lembro que disse a ele para queimá-las.
Daphne deu um sorriso.
– Parece que ele não o obedeceu.
Simon encarou fixamente as cartas. Depois, evitou olhar para Daphne.
– Pelo visto, você também não – comentou ele baixinho.
Ela assentiu e se sentou ao lado dele.
– Você quer ler?
Ele ficou pensativo por vários instantes e, por fim, decidiu ser totalmente sincero:
– Não sei.
– Talvez isso o ajude a deixá-lo para trás.
– Ou pode piorar a situação.
– É verdade – concordou ela.
Simon continuou olhando para as cartas, que repousavam inocentemente nas mãos de Daphne. Ele esperava sentir ressentimento. Raiva. Mas, em vez disso, só sentiu... Nada.
Era muito estranho. Ali diante dele estava uma coleção de correspondências escritas pela mão de seu pai. E, no entanto, ele não teve nenhuma vontade de queimá-las ou rasgá-las em pedacinhos.
Mas, ao mesmo tempo, não teve nenhuma disposição para lê-las.
– Acho que vou esperar – concluiu Simon com um sorriso.
Daphne ficou perplexa, sem acreditar no que tinha ouvido.
– Você está dizendo que não quer ler nenhuma? – perguntou.
Ele negou com a cabeça.
– E também não quer atear fogo nelas?
Ele deu de ombros.
– Na verdade, não.
Ela olhou para os envelopes e de novo para o rosto dele.
– O que quer fazer, então?
– Nada.
– Nada?
Ele sorriu.
– Isso mesmo.
– Ah. – Ela cava adorável com aquela expressão de perplexidade. – Você quer que eu as guarde de volta?
– Se quiser...
– E elas vão simplesmente ficar comigo?
Simon segurou a faixa do robe de Daphne e começou a puxá-la em sua direção.
– Arrã.
– Mas... – balbuciou ela. – Mas... mas...
– Se disser outro “mas” – provocou ele –, vai começar a ficar parecida comigo.
Ela ficou de boca aberta. Simon não se surpreendeu com sua reação. Tinha sido a primeira vez na vida que ele conseguira fazer uma piada a respeito de suas dificuldades.
– As cartas podem esperar – explicou ele, assim que elas caíram do colo de Daphne para o chão. – Acabei de conseguir, graças a você, tirar meu pai da minha vida. – Balançou a cabeça, sorrindo. – Ler tudo isso agora apenas o convidaria a voltar.
– Mas você não quer saber o que ele tinha a dizer? – insistiu ela. – Quem sabe ele pediu desculpas... Talvez tenha até rastejado aos seus pés!
Daphne se abaixou para pegar os envelopes, mas Simon a apertou contra ele, de modo que ela não conseguisse alcançá-los.
– Simon! – gritou ela.
Ele levantou uma sobrancelha.
– Sim?
– O que você está fazendo?
– Tentando seduzir você. Estou conseguindo?
Daphne sentiu o rosto ficar corado.
– Acho que sim – murmurou ela.
– Só acha? Droga... Devo estar perdendo o jeito.
Deslizou a mão para as nádegas dela, o que a fez dar um gritinho.
– Acho que seu jeito está ótimo – disse ela apressadamente.
– Só ótimo? – Ele ngiu estremecer. – “Ótimo” não faz ninguém perder o fôlego, não acha?
– Bem – concordou ela –, talvez eu tenha me expressado mal.
Simon sentiu um sorriso se formar em seu coração. Quando o gesto en m chegou a seus lábios, ele já estava de pé, conduzindo a esposa na direção do quarto.
– Daphne – disse ele, tentando parecer sério –, eu tenho uma proposta.
– Proposta? – indagou ela, erguendo as sobrancelhas.
– Na verdade, um pedido – corrigiu ele.
Ela inclinou a cabeça para o lado e sorriu.
– Que pedido?
Ele a empurrou pela porta do quarto.
– É um pedido em duas partes.
– E posso saber que partes são essas?
– A primeira parte envolve nós dois e... – Simon a pegou no colo e a atirou em cima da cama em meio a um ataque de riso – esta cama antiga e resistente.
– Resistente?
– É bom que seja, pelo menos – murmurou ele enquanto engatinhava para o lado dela.
Ela riu e deu gritinhos enquanto se livrava das garras dele.
– Acho que é bastante resistente. E qual é a segunda parte do pedido?
– Bem, essa parte vai exigir de você certa disponibilidade de tempo. Ela estreitou os olhos, mas ainda sorria.
– Quanto tempo?
– Cerca de nove meses.
Os lábios de Daphne se abriram com a surpresa.
– Você tem certeza?
– Que leva nove meses? – Ele sorriu. – É o que sempre me disseram.
Agora ela não estava mais sorrindo.
– Você sabe que não era a isso que eu estava me referindo – disse ela baixinho.
– Eu sei – respondeu ele, cando sério também. – Mas sim, tenho certeza. E estou apavorado. E morrendo de empolgação. E sentindo milhões de outras emoções que nunca me permiti sentir antes de encontrar você.
Os olhos dela se encheram de lágrimas.
– Essa foi a coisa mais linda que você já me disse.
– É verdade – jurou ele. – Antes de conhecer você, estava vivo apenas pela metade.
– E agora? – sussurrou ela.
– Agora? – ecoou Simon. – “Agora” é sinônimo de felicidade, alegria e uma esposa que eu amo mais que tudo. Mas quer saber de uma coisa?
Ela balançou a cabeça, emocionada demais para falar.
Ele se abaixou e a beijou.