O Duque e Eu
Capítulo 7
Simon ignorou a disputa e voltou sua atenção para o amigo.
– Você quer saber que diabo está acontecendo? É o seguinte...
CA P Í T U L O 7
Homens são como ovelhas. Aonde um vai, logo os outros vão atrás.
CRÔNICAS DA SOCIEDADE DE LADY WHISTLEDOWN,
30 DE ABRIL DE 1813
De modo geral, pensou Daphne, Anthony estava encarando tudo aquilo muito bem.
Quando Simon terminou de explicar o plano deles (com frequentes interrupções por parte dela, tinha que admitir), Anthony havia levantado a voz apenas sete vezes. O
que era cerca de sete vezes menos do que Daphne esperava.
Finalmente, depois que ela implorara que ele segurasse a língua até que ela e Simon tivessem terminado a história, Anthony deu um aceno discreto com a cabeça, cruzou os braços e apertou os lábios, cando calado até o m da narrativa. Sua cara feia seria capaz de assustar até as pessoas mais corajosas, mas ele manteve a palavra e ficou em silêncio absoluto até o final.
– E é isso – concluiu Simon.
Todos caram quietos. Fez-se um silêncio absoluto. Por mais ou menos dez segundos, ninguém disse nada, embora Daphne pudesse jurar que havia escutado os próprios olhos se mexendo nas órbitas enquanto se alternavam entre Anthony e Simon.
Então, enfim, Anthony perguntou:
– Vocês estão loucos?
– Achei que ele poderia ter essa reação – murmurou Daphne.
– Estão completa, irrevogável e abominavelmente fora de si? – A voz de Anthony virou um rugido. – Não sei qual dos dois é mais idiota.
– Quer falar baixo? – sussurrou Daphne. – Mamãe vai escutar!
– Ela morreria do coração se soubesse o que estão tramando – retrucou Anthony, em um tom mais baixo.
– Mas não vai ficar sabendo, não é? – disparou Daphne.
– Não, não vai – concordou Anthony, assumindo uma postura desa adora –, porque esse plano de vocês termina neste instante.
Daphne cruzou os braços.
– Você não pode fazer nada para me impedir.
Ele inclinou a cabeça na direção de Simon.
– Eu posso matá-lo.
– Não seja ridículo.
– Homens já duelaram por muito menos.
– Homens idiotas!
– Permitam que eu interrompa – disse Simon baixinho.
– Ele é seu melhor amigo! – protestou Daphne.
– Não mais – decretou Anthony, as palavras marcadas por uma violência mal contida.
Daphne se virou para Simon com ar irritado:
– Você não vai dizer nada?
Os lábios dele se abriram num meio sorriso divertido.
– E quando eu tive chance de fazer isso?
Anthony se virou para ele.
– Quero você fora desta casa.
– Posso me defender antes?
– A casa é minha também – lembrou Daphne, furiosa –, e eu quero que ele fique.
Anthony fuzilou a irmã com o olhar, claramente exasperado.
– Muito bem – retrucou ele –, eu lhes dou dois minutos para expor seus argumentos. Nem um segundo a mais.
Daphne olhou de forma hesitante para Simon, perguntando-se se ele iria querer usar esse tempo. Mas tudo o que ele fez foi dizer:
– Vá em frente. Ele é seu irmão.
Ela respirou fundo, colocou as mãos nos quadris sem sequer se dar conta do gesto e começou:
– Antes de mais nada, devo dizer que tenho muito mais a ganhar com esse plano do que o duque. Segundo ele, eu serei útil para manter as outras mulheres...
– E as mães delas – interrompeu Simon.
– ... e as mães delas a distância. Mas, para ser sincera – prosseguiu Daphne, olhando para Simon ao dizer isso –, acho que ele está errado. As mulheres não irão parar de persegui-lo só por acharem que ele está interessado em outra jovem... especialmente se essa jovem for eu.
– E qual é o problema com você? – quis saber Anthony.
Ela começou a explicar, mas então percebeu os dois homens trocando um olhar estranho.
– O que significa isso?
– Nada – resmungou seu irmão, parecendo ligeiramente encabulado.
– Expliquei a ele sua teoria sobre o porquê de você não ter mais pretendentes –
contou Simon calmamente.
– Sei. – Daphne apertou os lábios enquanto tentava decidir se era algo com que deveria ficar irritada. – Bem, ele poderia ter se dado conta disso sozinho.
Simon fez um barulho estranho que poderia muito bem ser uma risada.
Ela lançou um olhar penetrante para os dois.
– Espero sinceramente que meus dois minutos não incluam todas essas interrupções.
Simon deu de ombros.
– É ele quem controla o tempo.
Anthony começou a apertar a borda da mesa com as mãos, provavelmente para não avançar no pescoço de Simon, pensou Daphne.
– E ele – disse Anthony de forma ameaçadora – vai acabar sendo atirado pela janela se não calar a boca.
– Sempre suspeitei que os homens fossem todos uns idiotas – resmungou Daphne–, mas nunca tive certeza. Até hoje.
Simon sorriu.
– Descontando as interrupções – retrucou Anthony, lançando mais um olhar furioso para o amigo enquanto falava com a irmã –, você ainda tem um minuto e meio.
– Muito bem – falou ela, dirigindo-se a ele. – Então vou resumir esta conversa a um único fato. Hoje recebi a visita de seis pretendentes. Seis! Você lembra a última vez que isso aconteceu?
Anthony apenas a encarou inexpressivamente.
– Eu não lembro – continuou Daphne, agora mais calma. – Porque nunca tinha acontecido. Seis homens subiram os degraus da entrada, bateram em nossa porta e entregaram seus cartões a Humboldt. Seis homens me trouxeram ores,
conversaram comigo, e um deles até recitou uma poesia.
Simon se retraiu.
– E você sabe por quê? – perguntou ela, levantando a voz de novo. – Sabe?
Anthony, com sua percepção um pouco tardia, ficou em silêncio.
– Tudo porque ele – prosseguiu ela, apontando para Simon – foi gentil o bastante para fingir que estava interessado em mim ontem à noite no baile de Lady Danbury.
O duque, que estava apoiado de modo descontraído na beirada da mesa, de repente se empertigou.
– Ora – atalhou –, eu não colocaria as coisas dessa maneira.
Ela se virou para ele com o olhar impressionantemente firme.
– E como você colocaria?
Simon não conseguiu dizer muita coisa.
– Eu...
Ela o interrompeu e acrescentou:
– Porque posso garantir que aqueles homens nunca julgaram conveniente me procurar antes.
– Se eles são cegos – disse Simon, baixinho –, por que se importa com o que acham?
Ela cou em silêncio e recuou um pouco. O duque suspeitou que tivesse dito algo muito, muito errado, mas não teve certeza até vê-la piscando rapidamente.
Ah, que droga.
Então ela secou os olhos. Tentou disfarçar fingindo que estava tossindo e cobrindo a boca com a mão, mas Simon ainda se sentia a pior das criaturas.
– Veja o que você fez – acusou Anthony. Fuzilando o duque com o olhar, pousou a mão reconfortante no braço da irmã. – Não ligue para ele, Daphne. É um idiota.
– Talvez – fungou ela. – Mas é um idiota inteligente.
Anthony soltou um suspiro cansado.
– Você recebeu mesmo a visita de seis homens hoje?
Ela assentiu.
– Sete, contando o próprio Hastings.
– E você estaria interessada em se casar com algum deles? – perguntou ele com delicadeza.
Simon percebeu que estava apertando as próprias pernas com força e obrigou-se a repousar as mãos sobre a mesa.
Daphne assentiu novamente.
– São todos homens com quem eu já cultivara uma certa amizade. Só que eles nunca me viram como candidata a um romance antes que Hastings abrisse o caminho. Se tivesse a oportunidade, eu poderia desenvolver uma ligação com algum deles.
– Mas... – balbuciou Simon, depois se calou.
– Mas o quê? – indagou Daphne, virando-se para ele com um olhar curioso.
Simon ia dizer que, se aqueles homens haviam notado os encantos de Daphne apenas porque um duque demonstrara interesse por ela, então eles eram idiotas, de modo que ela não devia sequer considerar a possibilidade de se casar com um deles.
Mas, lembrando que o próprio Simon tinha argumentado que o interesse dele por ela lhe traria mais pretendentes... Bem, francamente, parecia que fazer essa observação seria dar um tiro no pé.
– Nada – retrucou ele, a nal, erguendo a mão como um sinal para que o ignorassem. – Não é nada.
Daphne olhou para ele por alguns instantes, como se esperasse que mudasse de ideia, e então se voltou de novo para o irmão.
– Então reconhece que nosso plano é inteligente?
– Inteligente pode ser um pouco exagerado, mas... – titubeou Anthony, parecendo sofrer para admitir – posso entender por que você acha que pode ser beneficiada.
– Anthony, eu preciso encontrar um marido. Além do fato de mamãe não sair do meu pé, eu quero um marido. Quero me casar e ter minha própria família.
Quero mais do que você pode imaginar. E, até agora, ninguém aceitável pediu minha mão.
Simon não sabia como Anthony poderia rejeitar o apelo daqueles olhos escuros.
E, como era de esperar, ele se curvou sobre a mesa e soltou um gemido exausto.
– Muito bem – falou de olhos fechados, como se não pudesse acreditar no que
estava dizendo. – Se é preciso, concordo com o plano de vocês.
Daphne pulou e jogou os braços ao redor dele.
– Ah, Anthony, eu sabia que você era o melhor dos irmãos. – Ela lhe deu um beijo no rosto. – Você só se equivoca um pouco às vezes.
Ele revirou os olhos antes de encarar Simon.
– Está vendo o que tenho que aguentar? – indagou, balançando a cabeça. Usou aquele tom de voz específico que só os homens colocados contra a parede entendem.
Simon riu ao pensar em que momento havia deixado de ser um sedutor perverso e voltado a ser um bom amigo.
– Mas tenho algumas condições – avisou Anthony, fazendo Daphne recuar.
Ela não disse nada. Apenas esperou que o irmão continuasse.
– Em primeiro lugar, isso não sai desta sala.
– Combinado – concordou ela rapidamente.
Anthony olhou para Simon.
– É claro – respondeu ele.
– Mamãe ficaria arrasada se descobrisse a verdade – completou Anthony.
– Na verdade – murmurou Simon –, acho que Lady Bridgerton até aplaudiria nossa engenhosidade, mas já que obviamente a conhecem há muito mais tempo, concordo com a decisão de vocês.
Anthony lhe lançou um olhar de gelo e continuou:
– Em segundo lugar, vocês dois não podem car sozinhos sob nenhuma circunstância. Nunca.
– Bem, isso vai ser fácil – disse Daphne –, já que não poderíamos car a sós mesmo que ele estivesse de fato me cortejando.
Simon se lembrou do breve encontro dos dois no corredor da casa de Lady Danbury e achou uma pena não poder mais car sozinho com Daphne, mas sabia reconhecer um obstáculo intransponível quando via um, principalmente quando esse obstáculo atendia pelo nome de Anthony Bridgerton. Então apenas assentiu e murmurou sua concordância.
– Em terceiro lugar...
– Terceiro? – perguntou Daphne.
– Haveria trinta condições se eu conseguisse pensar em tantas – resmungou Anthony.
– Muito bem – assentiu ela, parecendo muito magoada. – Se é isso que quer...
Por uma fração de segundo, Simon achou que Anthony seria capaz de estrangulá-la.
– Do que está rindo? – indagou o amigo.
Foi só então que o duque percebeu que deixara escapar uma risada.
– De nada – retrucou ele rapidamente.
– Acho bom – falou Anthony –, porque a terceira condição é a seguinte: se alguma vez, uma única vez sequer, eu agrar você em algum comportamento que a
comprometa... se algum dia pegá-lo beijando a mão dela sem um acompanhante, arrancarei sua cabeça.
Daphne piscou.
– Não acha que está sendo um pouco exagerado?
Anthony olhou friamente para ela.
– Não.
– Ah.
– Hastings?
Simon não teve escolha além de assentir.
– Muito bem – retrucou Anthony asperamente. – E agora que terminamos, você pode ir embora – disse ele, acenando com a cabeça na direção de Simon.
– Anthony! – exclamou Daphne.
– Suponho que isso queira dizer que estou desconvidado para o jantar desta noite
– disse Simon.
– Isso mesmo.
– Não! – Daphne deu um soco no braço do irmão. – Ele foi convidado para o jantar? Por que você não me disse nada?
– Isso foi muito antes dessa confusão toda – resmungou Anthony.
– Foi na segunda-feira – informou Simon.
– Bem, então você deve se unir a nós – decretou Daphne. – Mamãe cará encantada. E você – completou, cutucando o braço de Anthony –, pare de pensar em formas de envenená-lo.
Antes que seu irmão pudesse responder, o duque descartou a observação dela com uma risada.
– Não se preocupe comigo, Daphne. Não esqueça que estudei com ele por quase dez anos. Ele nunca compreendeu os princípios da química.
– Eu vou matá-lo – disse Anthony a si mesmo. – Antes do nal desta semana, vou matá-lo.
– Não vai, não – falou Daphne despreocupadamente. – Até amanhã, os dois já não se lembrarão mais disso e estarão fumando charutos no White’s.
– Não tenha tanta certeza – afirmou Anthony de forma ameaçadora.
– É claro que estarão. Não acha, Simon?
O duque analisou o rosto do melhor amigo e notou em seus olhos algo que nunca tinha visto. Algo sério.
Seis anos antes, quando Simon deixara a Inglaterra, ele e Anthony eram garotos.
Na época, pensavam que eram homens. Iam a cassinos, a bordéis, e frequentavam eventos sociais com toda a arrogância típica da idade, mas agora as coisas eram diferentes.
Agora eles eram homens de verdade.
Simon sentira a mudança por que passara durante a viagem ao redor do mundo.
Fora uma transformação lenta, ocorrida com o tempo, conforme ele enfrentava
novos desa os. Mas agora se dava conta de que havia retornado à Inglaterra ainda pensando em Anthony como o garoto de 22 anos que deixara para trás.
Percebeu que errara ao não se dar conta de que o amigo também crescera.
Anthony tinha responsabilidades com as quais Simon nem sequer sonhara. Tinha irmãos para orientar, irmãs para proteger. Simon tinha um ducado, mas Anthony tinha uma família.
Essa era uma diferença signi cativa entre os dois, e Simon viu que não podia culpá-lo por seu comportamento superprotetor e de certa forma teimoso.
– Eu acho – disse Simon lentamente, en m respondendo à pergunta de Daphne –
que seu irmão e eu somos muito diferentes do que éramos quando eu saí do país, há seis anos. E desconfio que talvez isso não seja algo ruim.
Algumas horas depois, a casa dos Bridgertons estava um caos. Daphne usava um vestido de festa de veludo verde-escuro e vagava pelo hall, tentando encontrar uma forma de acalmar os nervos da mãe.
– Eu não acredito – falou Violet, levando uma das mãos ao peito – que Anthony se esqueceu de me dizer que convidou o duque para o jantar. Não tive tempo para preparar nada. Nada.
Daphne olhou para o menu em sua mão, que começava com sopa de tartaruga e passava por mais três pratos antes de terminar com um cordeiro ao molho bechamel (seguido, é claro, por quatro opções de sobremesa). Tentou disfarçar o sarcasmo ao dizer:
– Acho que o duque não terá motivo algum para reclamar.
– Tomara que não – respondeu Violet. – Mas, se soubesse que ele viria, teria incluído um prato de carne no menu. Não se pode receber sem um prato de carne.
– Ele sabe que é uma refeição informal.
Violet lançou-lhe um olhar severo.
– Nenhuma refeição é informal quando há um duque presente.
Daphne olhou para a mãe, pensativa. Violet contorcia as mãos e rangia os dentes.
– Mamãe, não creio que o duque seja do tipo que espera que os outros modi quem drasticamente os planos para o jantar por causa dele – observou a jovem.
– Ele pode não esperar – argumentou Violet –, mas eu espero. Daphne, a sociedade tem regras. Expectativas. E, francamente, não compreendo como você pode estar tão calma e desinteressada.
– Não estou desinteressada!
– Pois com certeza não parece nervosa. – Violet olhou para a lha descon ada. –
Como pode? Pelo amor de Deus, Daphne, esse homem está pensando em se casar com você.
Ela conseguiu se conter antes de soltar um gemido.
– Ele nunca chegou a dizer isso, mamãe.
– Nem precisava. Por que outra razão a teria tirado para dançar ontem à noite?
A única moça além de você que ele honrou com uma dança foi Penelope Featherington, e nós duas sabemos que deve ter sido por pena.
– Eu gosto de Penelope – comentou Daphne.
– Eu também – concordou Violet –, e espero que um dia sua mãe se dê conta de que uma menina com a pele dela não pode usar roupas de cetim cor de tangerina, mas isso não vem ao caso.
– E o que vem ao caso?
– Eu não sei! – Foi praticamente um lamento.
Daphne balançou a cabeça.
– Vou ver onde está Eloise.
– Sim, faça isso – disse Violet distraidamente. – E se certi que de que Gregory tomou banho direito. Ele nunca lava atrás das orelhas. E Hyacinth... Meu Deus, o que vamos fazer com Hyacinth? Hastings não deve esperar uma criança de 10 anos de idade à mesa.
– Sim, ele espera – a rmou Daphne, paciente. – Anthony lhe disse que seria um jantar de família.
– A maior parte das famílias não permite que os lhos mais novos jantem à mesa – observou Violet.
– Isso é problema delas. – Daphne en m se rendeu à exasperação e soltou um suspiro alto. – Mamãe, eu falei com o duque. Ele sabe que não é uma refeição formal. E me disse especi camente que estava em busca de uma mudança de ritmo.
Como não tem família, nunca participou de nada parecido com um jantar nosso.
– Deus nos ajude.
Violet estava pálida.
– Ora, mamãe – continuou Daphne –, eu sei o que está pensando, e posso garantir que não precisa se preocupar com Gregory colocando purê de batatas na cadeira de Francesca. Tenho certeza de que ele já passou da fase desse tipo de comportamento infantil.
– Ele fez isso semana passada!
– Bem, então... então estou certa de que ele aprendeu a lição.
A vincondessa lançou à filha um olhar bastante duvidoso.
– Muito bem, então – disse Daphne, com o tom bem mais descontraído. – Então eu simplesmente o ameaçarei de morte caso faça qualquer coisa que envergonhe a senhora.
– A morte não irá assustá-lo, mas talvez eu possa dizer que venderei o cavalo dele – brincou Violet.
– Ele nunca acreditaria nisso.
– É, você tem razão. Eu tenho o coração mole. – Violet franziu a testa. – Mas talvez ele acredite se eu ameaçar proibi-lo de dar sua cavalgada diária.
– Isso pode funcionar – concordou Daphne.
– Bom, é melhor eu ver onde ele está. – Violet deu dois passos e se virou. – Ter filhos é um desafio tão grande...
A jovem apenas sorriu. Sabia que era um desafio que a mãe adorava.
A viscondessa pigarreou suavemente, indicando que tocaria em um assunto mais sério.
– Espero que esse jantar corra bem, Daphne. Acho que Hastings pode ser um excelente marido para você.
– Pode? – provocou Daphne. – Pensei que a senhora achasse que duques fossem bons maridos mesmo que tivessem duas cabeças e cuspissem fogo quando falassem.
– Deu uma risada. – Das duas bocas!
Violet abriu um sorriso largo.
– Talvez você ache difícil de acreditar, Daphne, mas eu não quero ver você casada com qualquer um. Se a apresento a dezenas de homens, é apenas porque quero que tenha o máximo de pretendentes possível para poder escolher um marido. Meu maior sonho é que seja tão feliz como eu fui com seu pai.
E então, antes que Daphne pudesse responder, sua mãe desapareceu pelo corredor, deixando-a sozinha com suas ideias.
Pensando bem, talvez esse plano com Hastings não fosse tão bom, a nal. Violet caria arrasada quando os dois rompessem a falsa aliança. Simon tinha dito que poderia ser Daphne a terminar tudo, mas estava começando a se perguntar se o contrário não seria melhor. Sim, seria humilhante para ela ser dispensada pelo duque, mas pelo menos dessa forma ela não teria de suportar a ladainha de uma Violet confusa perguntando “Por quê?”.
A mãe ia achar que ela estava louca de deixá-lo escapar.
E Daphne acabaria se perguntando se ela não tinha razão.
Simon não estava preparado para o jantar com os Bridgertons. Tinha sido um evento barulhento e movimentado, com muita risada e, felizmente, apenas um incidente, envolvendo uma ervilha voadora.
(A ervilha em questão havia partido de onde Hyacinth estava, mas a caçula da família parecia tão inocente e angelical que Simon não conseguia acreditar que ela realmente mirara o irmão com a bolinha.)
Ainda bem que Violet não notara o acontecido, apesar de a semente ter sobrevoado sua cabeça num arco perfeito.
Mas Daphne, que estava sentada em frente a Simon, com certeza viu, porque cobriu a boca com o guardanapo com impressionante diligência. A julgar pela forma como seus olhos estavam enrugados nos cantos, era claro que ela estava rindo por trás do tecido.
O duque pouco falou durante a refeição. Verdade seja dita, era muito mais fácil escutar os Bridgertons do que tentar conversar com eles de fato, especialmente considerando a quantidade de olhares hostis que recebia de Anthony e Benedict.
Mas Simon estava sentado na ponta oposta aos dois (certamente não tinha sido por acaso que Violet decidira o lugar onde ele caria), de modo que foi fácil ignorá-los e apreciar a interação de Daphne com o resto da família. De vez em quando, um deles lhe fazia uma pergunta direta, que ele respondia e então retornava à sua posição de observador silencioso.
Finalmente, Hyacinth, que estava sentada à direita de Daphne, encarou-o e disse:
– O senhor não é de falar muito, né?
Violet engasgou com o vinho.
– O duque – disse Daphne à irmã mais nova – está sendo muito mais educado do que todos nós, que interrompemos uns aos outros a todo momento, como se tivéssemos medo de não sermos ouvidos.
– Eu não tenho medo de não ser ouvido – argumentou Gregory.
– Eu não tenho medo disso também – comentou Violet asperamente. – Gregory, coma suas ervilhas.
– Mas Hyacinth...
– Lady Bridgerton – chamou Simon em voz alta –, eu poderia repetir essas deliciosas ervilhas?
– Ora, é claro que sim. – Violet levantou as sobrancelhas em direção a Gregory.
– Veja como o duque está comendo suas ervilhas.
O rapazinho imitou Simon e devorou suas leguminosas.
O homem sorriu consigo mesmo enquanto pegava mais uma colher de ervilhas, grato pelo fato de o jantar ser informal. Se tivesse que chamar um lacaio para servi-lo, teria sido difícil evitar que Gregory acusasse Hyacinth, com razão, de ser uma atiradora de ervilhas.
Simon começou a comê-las, já que não tinha alternativa além de consumir cada uma delas. Lançou um olhar de cumplicidade para Daphne, que estava com um sorrisinho misterioso nos lábios. Sua expressão era de um bom humor contagiante, e o duque sentiu os cantos da própria boca se arqueando também.
– Anthony, por que você está emburrado? – perguntou uma das meninas Bridgertons.
Simon achou que podia ser Francesca, mas era difícil dizer. As duas do meio eram parecidas demais, ambas com os olhos azuis da mãe.
– Não estou emburrado – explodiu Anthony, mas Simon, que era o alvo do mau humor dele havia quase uma hora, sabia que o amigo estava mentindo.
– Está, sim – disse Francesca ou Eloise.
– Se acha que vou responder “Não estou”, está redondamente enganada – falou Anthony, com o máximo de condescendência possível.
Daphne riu por trás do guardanapo mais uma vez.
Simon pensou que sua vida estava mais divertida do que vinha sendo fazia muito tempo.
– Sabem que acho que esta pode ser uma das noites mais agradáveis do ano? –
anunciou Violet de repente. – Mesmo que minha lha mais nova não pare de atirar ervilhas para baixo da mesa – continuou, olhando para Hyacinth.
Simon ergueu o olhar no momento exato em que a caçula gritou:
– Como a senhora sabe?
Violet balançou a cabeça enquanto revirava os olhos.
– Meus queridos filhos – disse ela –, quando vão aprender que eu sei de tudo?
O duque chegou à conclusão de que tinha muito respeito por Violet Bridgerton.
Mas, ainda assim, ela conseguiu confundi-lo completamente com uma pergunta seguida de um sorriso:
– Diga-me, Alteza, estará ocupado amanhã?
Apesar dos cabelos loiros e dos olhos azuis, ela se pareceu tanto com Daphne quando se dirigiu a ele que Simon cou perplexo por um instante. Que deve ter sido o único motivo pelo qual não conseguiu pensar antes de gaguejar:
– N...não. Não que me lembre.
– Ótimo! – exclamou Violet, encantada. – Então pode se juntar a nós em nossa ida a Greenwich.
– Greenwich? – repetiu Simon.
– Sim, estamos planejando um passeio em família há semanas. Pensamos em pegar um barco e talvez fazermos um piquenique às margens do Tâmisa. – Ela sorriu para ele de maneira confiante. – Irá conosco, não?
– Mamãe! – atalhou Daphne. – Estou certa de que o duque tem vários outros compromissos.
A viscondessa olhou para a lha com tanta frieza que Simon cou surpreso por nenhuma delas congelar.
– Bobagem – respondeu Violet. – Ele mesmo acabou de dizer que não estará ocupado. – Virou-se de novo para ele. – E também vamos visitar o Observatório Real, de modo que não precisa se preocupar que vá ser um passeio desinteressante.
Não está aberto ao público, é claro, mas como meu nado marido era um dos principais patrocinadores, teremos acesso garantido.
Simon olhou para Daphne. Ela apenas deu de ombros e se desculpou em silêncio.