O Duque e Eu
Capítulo 19
Daphne deu um sorriso fraco para a governanta.
– Achei que fosse a criada – murmurou.
– Eu tinha assuntos para resolver na sala ao lado, então pensei em lhe trazer o chá pessoalmente – respondeu a Sra. Colson.
Daphne sabia que ela estava mentindo, mas assentiu mesmo assim.
– A criada me disse para não trazer biscoitos – acrescentou a Sra. Colson –, mas eu sei que a senhora não tomou café da manhã, então coloquei alguns na bandeja mesmo assim.
– Foi muito atencioso de sua parte.
Daphne não reconheceu a própria voz. Teve a sensação de que pertencia a outra pessoa.
– Garanto que não foi trabalho algum. – A governanta deu a impressão de que queria dizer mais alguma coisa, mas apenas se endireitou e perguntou: – É só isso?
Daphne assentiu.
Quando a Sra. Colson estava prestes a sair da sala, Daphne quase a chamou e lhe pediu que se sentasse e tomasse o chá com ela. Então teria lhe contado seus segredos e sua vergonha, e derramado suas lágrimas.
E não porque ela fosse particularmente próxima da governanta, mas apenas porque não tinha mais ninguém.
No entanto, ela continuou em silêncio e a Sra. Colson se retirou.
Daphne deu uma mordida num biscoito. Talvez, pensou, estivesse na hora de ir para casa.
CA P Í T U L O 1 9
A nova duquesa de Hastings foi flagrada hoje em Mayfair. Philipa Featherington avistou a ex-Srta. Daphne Bridgerton tomando ar fresco enquanto dava uma volta no quarteirão. Ela chegou a chamá-la, mas a duquesa fingiu não escutar.
E todos sabemos que só podia estar fingindo mesmo, porque, afinal, é preciso ser surdo para não ouvir um grito da Srta. Featherington.
CRÔNICAS DA SOCIEDADE DE LADY WHISTLEDOWN,
9 DE JUNHO DE 1813
Daphne acabou descobrindo que a dor de um coração partido nunca vai embora, apenas ca anestesiada. O sofrimento agudo e penetrante que se sente a cada respiração acaba dando lugar a uma sensação embotada e menos intensa, do tipo que quase – mas nunca completamente – se consegue ignorar.
Ela deixou o castelo de Clyvedon no dia seguinte à partida de Simon, indo para Londres com a intenção de retornar à casa de sua família. Porém, fazer isso pareceu de certa forma uma admissão de fracasso. Então, no último minuto, Daphne instruiu o cocheiro a levá-la à casa de Simon. Estaria perto da família se sentisse necessidade do apoio e da companhia deles, mas agora era uma mulher casada.
Devia ter a própria residência.
Assim, ela se apresentou à nova equipe, que a aceitou sem questionamentos (mas não sem uma considerável curiosidade), e deu início à sua nova vida de esposa abandonada.
A mãe foi a primeira a visitá-la. Daphne não se dera o trabalho de avisar a mais ninguém sobre seu retorno à cidade, de modo que a aparição da viscondessa não foi uma surpresa.
– Onde ele está? – perguntou Violet sem preâmbulos.
– O meu marido?
– Não, o seu tio-avô Edmund – disse sua mãe, praticamente explodindo. – É
claro que estou me referindo a seu marido.
Daphne não conseguiu encará-la.
– Acho que ele está tratando de negócios em uma de suas propriedades no campo.
– Você acha?
– Bem, eu sei – corrigiu Daphne.
– E você sabe por que não está com ele?
Ela pensou em mentir, em inventar alguma história sobre uma emergência envolvendo inquilinos, cabeças de gado, uma doença ou qualquer outra coisa. Mas, no m, seus lábios estremeceram e seus olhos começaram a car marejados. Foi com a voz terrivelmente baixa que disse:
– Porque ele não quis me levar junto.
Violet segurou as mãos da filha.
– Ah, Daff – suspirou a Sra. Bridgerton. – O que aconteceu?
Daphne afundou num sofá, puxando a mãe para perto dela.
– Eu nunca conseguiria explicar.
– Por que não tenta?
Ela balançou a cabeça. Nunca guardara um segredo da mãe. Nunca houvera nada que achasse que não poderia discutir com ela.
Mas nunca havia acontecido nada parecido com aquilo. Deu um tapinha na mão da mãe.
– Vou ficar bem.
Violet não pareceu convencida.
– Tem certeza?
– Não. – Daphne olhou xamente para o chão por um instante. – Mas preciso acreditar nisso.
Então sua mãe foi embora. Daphne pôs a mão na barriga e rezou.
Colin foi o próximo a aparecer. Mais ou menos uma semana depois da visita da mãe, Daphne voltou de uma rápida caminhada no parque e o encontrou em sua sala de estar com os braços cruzados e a expressão furiosa.
– Estou vendo que soube da minha volta – disse Daphne, tirando as luvas.
– Que diabo está acontecendo? – quis saber ele.
Daphne reparou que seu irmão claramente não havia herdado a sutileza de Violet para falar.
– Responda! – latiu Colin.
Ela fechou os olhos apenas por um instante, para tentar aliviar a dor de cabeça que a incomodava havia dias. Não queria conversar sobre seus infortúnios com Colin. Não queria lhe contar nem mesmo o que tinha dito à mãe, embora imaginasse que ele já estivesse ciente de tudo. As notícias sempre voavam na Casa Bridgerton. Daphne não soube de onde tirou forças para isso, mas achava que era bom exibir uma boa imagem, então endireitou os ombros, ergueu uma sobrancelha e
perguntou:
– O que você quer que eu responda?
– Quero que me diga – resmungou Colin – onde está o seu marido.
– Está resolvendo alguns problemas – respondeu Daphne.
Isso soava muito melhor do que “Ele me deixou”.
– Daphne... – A voz de Colin soava ameaçadora.
– Você veio sozinho? – indagou ela, ignorando o tom dele.
– Anthony e Benedict foram passar o mês no campo, se é isso que quer saber –
informou Colin.
Ela quase suspirou de alívio. A última coisa que precisava naquele momento era encarar o irmão mais velho. Já tinha impedido que ele matasse Simon uma vez.
Não estava certa de que conseguiria repetir o feito. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, no entanto, Colin acrescentou:
– Daphne, exijo que você me diga imediatamente onde aquele canalha está se escondendo.
Daphne sentiu as costas se enrijecerem. Talvez ela tivesse o direito de xingar o marido ausente, mas seu irmão por certo não tinha.
– Imagino – disse ela friamente – que por “canalha” você esteja se referindo a meu marido.
– Pode ter certeza que eu...
– Tenho que pedir que você vá embora.
Colin olhou para ela como se a irmã de repente tivesse ganhado chifres.
– Como?
– Não tenho a menor intenção de discutir meu casamento com você. Então, se não consegue deixar de expressar suas opiniões não solicitadas, terá que ir embora.
– Você não pode me mandar embora – retrucou ele, incrédulo.
Ela cruzou os braços.
– Esta é a minha casa.
Colin a encarou, então olhou ao redor – a sala de estar da duquesa de Hastings –, depois olhou de novo para Daphne, como se só então tivesse se dado conta de que sua irmãzinha, que ele sempre vira como uma extensão cheia de alegria de si mesmo, havia se tornado uma mulher.
Pegou a mão dela.
– Daff – disse ele baixinho –, vou deixá-la lidar com a situação da forma que considerar adequada.
– Obrigada.
– Por ora – alertou ele. – Não pense que vou permitir que esta situação continue indefinidamente.
Mas isso não ia acontecer, Daphne pensou meia hora depois, quando Colin foi embora. Aquela situação não poderia continuar inde nidamente. Em duas semanas, ela saberia.
Todas as manhãs, Daphne acordava prendendo a respiração. Mesmo antes da data prevista para a chegada de sua menstruação, ela mordia o lábio inferior, fazia uma oração e levantava cuidadosamente as cobertas da cama procurando por sangue.
E todas as manhãs ela via apenas a roupa de cama branca como a neve.
Com uma semana de atraso de suas regras, ela se permitiu os primeiros vislumbres de esperança. Seu ciclo nunca havia sido perfeitamente regular. Portanto, sua menstruação ainda poderia chegar a qualquer momento. Mas, mesmo assim, ela nunca estivera tão atrasada.
Depois de mais uma semana, via-se sorrindo todas as manhãs, agarrada a seu segredo como se ele fosse um tesouro. Ainda não estava pronta para dividir isso com ninguém. Nem com a mãe, nem com os irmãos, e certamente não com Simon.
Não se sentia muito culpada por esconder a novidade dele. A nal, ele havia lhe recusado sua semente. Porém, mais importante que isso, ela temia que a reação dele fosse péssima, e simplesmente não estava pronta para deixar que o desagrado de Simon arruinasse seu momento perfeito de alegria. Apesar disso, rabiscou um bilhete ao mordomo do marido pedindo que ele lhe informasse seu novo endereço.
Então, nalmente, depois da terceira semana de atraso, sua consciência falou mais alto e ela se sentou à mesa para escrever uma carta para ele.
Infelizmente para Daphne, o selo da carta não tinha sequer secado quando Anthony, que havia acabado de chegar de sua estada no campo, entrou em sua sala fazendo um grande estardalhaço. Como Daphne estava no andar de cima, em seu cômodo particular, onde não deveria receber visitas, ela nem quis pensar em quantos criados ele havia ferido no caminho até lá.
Seu irmão parecia furioso, e Daphne sabia que talvez fosse melhor não provocá-lo, mas como ele sempre lhe inspirava comentários sarcásticos, ela perguntou:
– Ué, como você chegou aqui? Eu não tenho um mordomo?
– Você tinha um mordomo – resmungou ele.
– Ah, meu Deus...
– Cadê ele? – indagou Anthony.
– Pelo visto não está aqui.
Não fazia sentido fingir que não sabia de quem ele estava falando.
– Eu vou matá-lo!
Daphne levantou-se furiosa.
– Não vai, não!
Anthony, que estava parado com as mãos nos quadris, inclinou-se para a frente e lançou-lhe um olhar fuzilante.
– Fiz uma promessa a Hastings antes de ele se casar com você, sabia?
Daphne balançou a cabeça.
– Eu lembrei a ele que estava preparado para matá-lo por arruinar sua reputação. Portanto, que Deus o livrasse de destruir sua alma.
– Ele não destruiu minha alma, Anthony. – Levou a mão à barriga. – Aliás, muito pelo contrário.
Ela jamais saberia se o irmão achara suas palavras estranhas, porque os olhos dele se desviaram para a escrivaninha e se estreitaram.
– O que é aquilo? – perguntou.
Daphne seguiu a linha do olhar dele até a pequena pilha de papel formada por suas tentativas frustradas de escrever para Simon.
– Não é nada – a rmou ela, estendendo a mão para pegar as provas do que estivera fazendo.
– Você está escrevendo uma carta para ele, não está? – A expressão já furiosa de Anthony se tornou totalmente transtornada. – Ah, pelo amor de Deus, não tente mentir para mim. Eu vi o nome dele nos papéis.
Daphne amassou as folhas e as jogou num cesto embaixo da mesa.
– Não é da sua conta.
Anthony olhou para o cesto como se estivesse prestes a mergulhar embaixo da mesa para recuperar as correspondências pela metade. Finalmente, encarou a irmã e afirmou:
– Não vou permitir que ele se safe disso.
– Anthony, isto não é da sua conta.
Ele não se dignou a responder.
– Eu vou encontrá-lo, está entendendo? E depois vou matá-lo...
– Ora, pelo amor de Deus! – gritou Daphne, nalmente explodindo. – Este é o meu casamento, Anthony, não o seu. E se você interferir nos meus problemas, juro que nunca mais lhe dirijo a palavra.
Ela manteve o olhar rme e o tom de voz incisivo, o que deixou Anthony levemente abalado.
– Muito bem – concedeu ele –, não vou matá-lo.
– Obrigada – disse Daphne com sarcasmo.
– Mas vou descobrir onde ele está – prometeu Anthony. – E vou deixar bem claro meu desagrado.
Daphne olhou para o irmão e soube que ele estava falando sério.
– Muito bem – falou ela, procurando a carta nalizada que havia escondido em uma gaveta. – Deixarei que lhe entregue isto.
– Ótimo.
Ele estendeu a mão para pegar o envelope, mas Daphne o afastou de seu alcance.
– Mas só se você me fizer duas promessas.
– Que promessas?
– Primeiro, que não vai ler a carta.
Ele pareceu mortalmente ofendido pelo fato de ela ter sequer pensado que ele faria isso.
– Não venha com essa cara para cima de mim – decretou Daphne, bufando. –
Eu conheço você, Anthony Bridgerton, e tenho certeza que não pensaria duas vezes antes de fazer isso se achasse que não seria descoberto.
Anthony a fuzilou com o olhar.
– Mas também tenho certeza – continuou ela – que você jamais descumpriria uma promessa feita a mim. Então, preciso que prometa, Anthony.
– Não há necessidade disso, Daff.
– Prometa! – ordenou ela.
– Ora, tudo bem – resmungou ele –, eu prometo.
– Muito bem.
Daphne entregou o envelope ao irmão, que olhou para ele com curiosidade.
– Em segundo lugar – prosseguiu ela, forçando-o a voltar sua atenção para ela –, você tem que prometer que não irá machucá-lo.
– Ah, tenha dó, Daphne – explodiu Anthony. – Você está pedindo demais.
Ela estendeu a mão.
– Então me devolva a carta.
Ele escondeu o envelope às suas costas.
– Agora já está comigo.
Ela sorriu.
– Mas você não tem o endereço.
– Posso conseguir sem sua ajuda – retrucou Anthony.
– Não pode, não, e você sabe disso – enfatizou Daphne. – Simon é dono de inúmeras propriedades. Você levaria semanas para descobrir em qual delas ele está.
– Rá! – gritou Anthony triunfantemente. – Então ele está em alguma das propriedades. Isso quer dizer que você acabou de me dar uma pista importantíssima.
– Ué, isto é um jogo? – perguntou Daphne, espantada.
– Só me diga logo onde ele está.
– Não, a menos que você prometa o que eu pedi. Nada de violência, Anthony. –
Ela cruzou os braços. – Estou falando sério.
– Tudo bem – resmungou ele.
– Prometa com todas as letras.
– Você é uma mulher difícil, Daphne Bridgerton.
– É Daphne Basset, e eu tive com quem aprender.
– Eu prometo – cedeu Anthony, falando bem baixo.
O que ele disse não ficou exatamente claro.
– Ainda não estou satisfeita – disse Daphne. – Vamos lá: “Eu prometo não...”
– Eu prometo não machucar o imbecil do seu marido – cuspiu Anthony. –
Pronto. Está bom assim?
– Ótimo – falou Daphne alegremente. Então en ou a mão na gaveta e pegou a carta em que o mordomo de Simon lhe informava o endereço dele. – Aqui está.
Anthony arrancou o papel das mãos dela, leu o que estava escrito e informou:
– Volto em quatro dias.
– Você vai hoje? – indagou Daphne, surpresa.
– Não sei por quanto tempo vou conseguir controlar meus impulsos violentos –
comentou ele.
– Então, por tudo o que é mais sagrado, vá hoje – pediu ela.
E ele obedeceu.
– Me dê um bom motivo para não arrancar seus pulmões pela boca.
Simon, que estava sentado em seu escritório, levantou a cabeça e viu Anthony Bridgerton, ainda empoeirado da viagem, espumando na porta.
– É um prazer ver você também, Anthony – murmurou.
Anthony entrou no cômodo com a sutileza de um elefante, espalmou as mãos sobre a mesa de Simon e se inclinou para a frente de forma ameaçadora.
– Você quer me dizer por que minha irmã está em Londres, chorando todas as noites até dormir, enquanto você está em... – Olhou ao redor e fez uma careta. –
Onde diabos nós estamos?
– Em Wiltshire – informou Simon.
– Enquanto você está em Wiltshire de pernas para o ar em uma propriedade que não tem importância nenhuma?
– Daphne está em Londres?
– Já que você é o marido dela, imaginei que soubesse – resmungou Anthony.
– Sendo assim, você poderia imaginar várias outras coisas – murmurou Simon
–, e estaria errado na maioria delas.
Fazia dois meses que ele havia saído de Clyvedon. Dois meses desde que olhara para Daphne e não conseguira dizer uma palavra sequer. Dois meses de um vazio absoluto.
Simon cou sinceramente surpreso por Daphne ter demorado tanto a entrar em contato com ele, ainda que tivesse escolhido fazer isso por meio do irmão mais velho, que já tinha dado mostras de seu comportamento violento. Simon não sabia exatamente por quê, mas achara que ela o procuraria antes, nem que fosse apenas para tagarelar em seus ouvidos. Daphne não era o tipo de pessoa que se remoía em silêncio quando estava incomodada. De certa forma, ele esperara que ela fosse atrás
dele e explicasse de seis formas diferentes por que ele era um idiota completo.
E, para dizer a verdade, depois de mais ou menos um mês ele até começou a desejar que ela fizesse isso.
– Eu arrancaria sua cabeça fora – rosnou Anthony, invadindo os pensamentos de Simon –, se não tivesse prometido a Daphne que não o machucaria fisicamente.
– Tenho certeza de que não foi fácil para você prometer isso – comentou Simon.
Anthony cruzou os braços e o encarou com muita seriedade.
– Também não está sendo fácil manter a promessa.
Simon pigarreou enquanto pensava em como poderia perguntar sobre Daphne sem chamar atenção. Ele estava com saudade dela. Achava que era um idiota, um tolo, mas sentia sua falta – de sua risada, de seu perfume e da forma como às vezes, no meio da noite, ela enroscava as pernas nas dele.
Ele estava acostumado a ficar sozinho, mas não a se sentir tão solitário.
– Daphne mandou que você viesse me buscar? – perguntou ele enfim.
– Não. – Anthony en ou a mão no bolso, tirou um pequeno envelope cor de mar m e o jogou sobre a mesa. – Quando fui vê-la, ela estava prestes a chamar um mensageiro para lhe enviar isto.
Simon olhou xamente para o envelope com um horror crescente. Aquilo só podia signi car uma coisa. Tentou dizer algo neutro, como “Ah, sim”, mas sua garganta se fechou.
– Eu disse que caria feliz em trazer a carta para você – informou Anthony, cheio de sarcasmo.
Simon o ignorou. Pegou a correspondência, torcendo para que Anthony não visse como seus dedos estavam trêmulos.
Mas ele viu.
– O que foi? – perguntou abruptamente. – Você está com uma cara péssima.
Simon agarrou o envelope com toda a sua força.
– Você também está lindo – respondeu ele, conseguindo fazer uma brincadeira.
Anthony olhou xamente para ele, a batalha entre a raiva e a preocupação muito clara em seu rosto. Depois de pigarrear algumas vezes, ele en m perguntou, num tom surpreendentemente gentil:
– Você está doente?
– É claro que não.
Anthony ficou pálido.
– Daphne está doente?
Simon levantou a cabeça de repente.
– Não que ela tenha me dito. Por quê? Ela parece doente? Ela...
– Não, ela está ótima. – O olhar de Anthony se encheu de curiosidade. – Simon –
disse ele, balançando a cabeça –, o que você está fazendo aqui? É óbvio que você a ama. E, por mais que eu não consiga entender, ela parece amá-lo também.
Simon apertou as têmporas com as pontas dos dedos, tentando abrandar a dor
de cabeça latejante que nos últimos tempos não o deixava em paz.
– Existem algumas coisas que você não sabe – comentou ele com ar exausto, fechando os olhos por causa da dor. – Coisas que você jamais compreenderia.
Anthony cou em silêncio por um momento. Finalmente, justo quando Simon abriu os olhos de novo, ele se afastou da mesa e se dirigiu à porta do escritório.
– Não vou arrastá-lo de volta a Londres – informou em voz baixa. – Eu deveria fazer isso, mas não vou. Daphne precisa saber que você voltou por causa dela, não porque o irmão mais velho enfiou uma arma nas suas costas.
Simon quase relembrou que fora por esse motivo que ele se casara com ela, mas mordeu a língua. Isso não era verdade. Não completamente, pelo menos. Em outra vida, ele teria se ajoelhado e implorado pela mão dela.
– Mas você precisa saber – continuou Anthony – que as pessoas estão começando a comentar. Daphne voltou sozinha a Londres quinze dias depois do casamento de vocês, que foi às pressas. Ela está mantendo a tranquilidade, mas não deve ser fácil.
Ninguém chegou a insultá-la, mas existe um limite de olhares de pena que alguém é capaz de suportar. E aquela maldita Lady Whistledown tem escrito a respeito dela.
Simon estremeceu. Não fazia muito tempo que tinha voltado à Inglaterra, mas já entendera que a famosa fofoqueira era capaz de provocar muito estrago e sofrimento.
Anthony soltou um xingamento, cheio de nojo.
– Procure um médico, Hastings. E então volte para sua esposa.
Depois disso, retirou-se do escritório.
Simon cou olhando xamente para o envelope nas mãos durante vários minutos antes de abri-lo. Ver Anthony fora um choque. Saber que ele tinha acabado de ver Daphne fez o coração de Simon latejar de dor.
Droga. Ele não esperava sentir saudade dela.
No entanto, isso não queria dizer que sua raiva tinha passado. Daphne havia lhe tomado algo que ele realmente não desejava dar. Não queria lhos. Havia sido sincero. Ela se casara com ele sabendo disso. E o enganara.
Ou não enganara? Ele esfregou as mãos nos olhos cansados e na testa enquanto tentava se lembrar dos detalhes daquela manhã fatídica. A iniciativa do ato tinha sido de nitivamente de Daphne, mas ele se recordava com muita clareza da própria voz a estimulando. Não deveria ter encorajado o que sabia que não poderia interromper.
De qualquer maneira, era muito provável que ela não estivesse grávida. Sua mãe não havia levado mais de uma década para ter um único filho que nascesse vivo?
Mas à noite, deitado sozinho na cama, a verdade lhe vinha à mente. Ele não saíra de casa apenas porque Daphne o desobedecera ou porque havia a chance de ele ter gerado um filho.
Simon fugira porque não suportava o modo como cara diante dela. Daphne o reduzira à criança gaga e idiota que ele tinha sido. Deixara-o mudo e trouxera de volta aquela terrível sensação de asfixia, o horror de não conseguir dizer o que sentia.
Ele simplesmente não sabia se poderia viver com ela se isso signi casse voltar a ser o garoto que mal era capaz de falar. Tentou se lembrar da época em que a cortejava – de mentira, pensou com um sorriso –, de como era fácil estar e conversar com ela. Mas todas as recordações tinham sido manchadas pelo que havia acontecido: ele no quarto de Daphne naquela manhã detestável, tropeçando na língua e se engasgando sozinho.
E ele detestava ser daquela maneira.
Então fugiu para uma de suas propriedades no campo – sendo um duque, tinha várias. Essa casa especí ca cava em Wiltshire, não muito longe de Clyvedon.
Poderia retornar em um dia e meio, caso se apressasse. Se era tão fácil voltar, não era exatamente uma fuga, pensou.
E agora tudo indicava que ele seria obrigado a fazer isso.
Respirando fundo, Simon pegou o abridor de cartas e cortou o envelope. Tirou lá de dentro uma única folha de papel e leu: