O Homem Duplo

Philip K. Dick · Capítulo 8 de 18

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O Homem Duplo

Capítulo 7

7

 

No dia seguinte, Fred apareceu com o traj e m isturador para saber da instalação do

gram po.

— Os seis holo-scanners agora estão operando no local; por enquanto seis devem ser suficientes, segundo pensam os; transm item para um apartam ento seguro na rua, no m esm o bloco da casa de Arctor — explicou Hank, estendendo um a planta baixa da casa de Bob Arctor na m esa de m etal entre os dois. Ver isso deu arrepios em Fred, m as não abertam ente. Ele pegou a folha de papel e analisou as localizações dos vários scanners nos vários côm odos, aqui e ali, de m odo que tudo parecia sob constante escrutínio de vídeo, bem com o de áudio.

— Então eu faço a gravação no apartam ento — disse Fred.

— Usam os o apartam ento com o ponto m onitor de gravação para um as oito... talvez agora nove... casas ou apartam entos sob análise neste bairro em particular. Então você vai topar com outro agente disfarçado fazendo gravações. Sem pre use seu traj e.

— Vão m e ver indo para o apartam ento. Fica perto dem ais.

— Acho que sim , m as é um prédio enorm e, com centenas de unidades, e é o único que encontram os que era eletronicam ente viável. Terá de fazer, pelo m enos até que consigam os expropriação legal de outra unidade em outro lugar. Estam os trabalhando nisso, fica a duas quadras de distância, onde você será m enos visível. Um a sem ana m ais ou m enos, eu acho. Se os holo-scanners puderem ser transm itidos com um a resolução aceitável por cabos de m icrorrelé e linhas ITT com o o anterior...

— Vou usar a desculpa de que estou transando com um a garota do prédio se Arctor, Luckm an ou qualquer um dos doidões m e vir entrando. — Na verdade, não era um a questão com plicada; reduziria seu tem po não rem unerado em trânsito, o que era um fator im portante. Ele podia m uito bem dirigir para o apartam ento seguro, ver as gravações do scanner, determ inar o que era relevante para seus relatórios, o que podia ser descartado e depois voltar rapidam ente para...

Para m inha própria casa, pensou ele. A casa de Arctor. Naquela rua, na casa onde sou Bob Arctor, o drogado suspeito que está sendo vigiado sem saber, e depois de dois em dois dias encontro um pretexto para descer a rua e entrar no apartam ento, onde sou Fred repassando quilôm etros de gravação para ver o que eu fiz; todo esse negócio, pensou ele, realm ente m e deprim e. A não ser pela proteção — as inform ações pessoais valiosas — que m e dará.

Provavelm ente quem está m e perseguindo será pego pelos holo-scanners na prim eira sem ana.

Percebendo isso, ele se sentiu bem .

— Ótim o — disse ele a Hank.

— Então está vendo onde foram colocados os holos. Se precisarem de m anutenção, você provavelm ente poderá fazer sozinho enquanto estiver na casa de Arctor e ninguém estiver por perto. Você entra na casa dele norm alm ente, não é?

Mas que m erda!, pensou Fred. Se eu fizer isso, aparecerei nas gravações. E então, quando eu as entregar a Flank terei de ser, obviam ente, um dos indivíduos visíveis nelas e isso vai estragar tudo.

Até agora ele não pressionara Hank sobre com o ele sabia que sabia sobre seus suspeitos; ele m esm o com o Fred, o dispositivo de varredura eficaz que levava as inform ações. Mas agora áudio e holo-scanners, que não editavam autom aticam ente com o o relatório verbal que fazia, identificando m enções a si m esm o. Haveria Robert Arctor m exendo nos holos quando funcionassem m al, seu rosto crescendo e enchendo a tela. Mas, por outro lado, ele seria o prim eiro a tocar as gravações, ele ainda podia editar. Só que isso ia requerer tem po e cuidado.

Mas editar o quê? Editar Arctor — inteiram ente? Arctor era o suspeito. Exatam ente Arctor, quando fosse m exer nos holos.

— Vou editar a m im m esm o — disse ele. — Então você não vai m e ver. Um a questão de proteção convencional.

— É claro. Já fez isso antes? — Hank estendeu a m ão para m ostrar a ele algum as im agens. — Você usa um dispositivo apagador que elim ina qualquer seção onde aparece com o inform ante. Isso nos holos, é claro; para o áudio não há um a política a ser seguida. Mas você não terá problem a. Sabem os que você é um dos indivíduos do círculo de am igos de Arctor que freqüentam aquela casa; você ou é Jim Barris ou Ernie Luckm an, ou Charles Freck ou Donna Hawthorne...

— Donna? — Ele riu. O traj e riu, na verdade. À sua m aneira.

— Ou Bob Arctor — continuou Hank, analisando a lista de suspeitos.

— Faço relatórios sobre m im m esm o o tem po todo — disse Fred.

— Então você terá de se incluir de vez em quando nas holofitas que nos entregar, porque se editar sistem aticam ente a si m esm o podem os deduzir quem é você por um processo de elim inação, quer você queira ou não. O que você deve fazer, na verdade, é elim inar a si m esm o na edição... com o devo cham ar isso?... de form a inventiva, artística... que droga, a palavra é criativa... com o, por exem plo, durante os breves intervalos em que você estiver sozinho na casa e fizer a busca, revirando papéis e gavetas ou consertando um scanner no cam po de visão de outro scanner ou...

— Você devia sim plesm ente m andar alguém uniform izado à casa um a vez por m ês — disse Fred. — E ele diria: “Bom -dia! Estou aqui para fazer a m anutenção dos dispositivos de m onitoram ento instalados em sua casa, em seu telefone e em seu carro.” Talvez Arctor acabe pagando a conta.

— Arctor provavelm ente sairia e depois desapareceria.

O traj e m isturador Fred disse:

— Se Arctor está escondendo tanto assim . Isso não foi provado.

— Arctor pode estar escondendo m uito. Reunim os e estam os analisando inform ações m ais recentes sobre ele. Não há um a dúvida substancial sobre isso: ele é um em buste, ele sim plesm ente não existe. E um im postor. Então fique de olho nele até que ele caia, até que a gente tenha o bastante para prendê-lo e provar sua culpa.

— Quer que eu plante coisas?

— Vam os discutir isso m ais tarde.

— Acha que ele está aprontando m uito na, você sabe, agência S. D.?

— O que achamos não tem im portância no nosso trabalho — disse Hank. — Nós avaliam os; você inform a, com suas próprias conclusões lim itadas. Isso não é um a descortesia contigo, m as tem os inform ações, m ontes delas, que não estão disponíveis para você. O quadro m ais am plo. O quadro com putadorizado.

— Arctor está condenado — disse Fred. — Está aprontando algum a. E eu tenho um pressentim ento, baseado no que você diz, que é ele.

— Logo vam os ter um processo contra ele — disse Hank. — E depois podem os fechar este caso, o que agradará a todos nós.

Fred m em orizou estoicam ente o endereço e o núm ero do apartam ento e, de repente, se lem brou de que tinha visto um j ovem casal do tipo doidão que havia pouco tem po

desaparecera de repente e de vez em quando entrava e saía do prédio. Foram pegos e o apartam ento fora tom ado para isso. Ele gostava deles. A garota tinha cabelo com prido cor-de-linho e não usava sutiã. Um a vez ele passou por ela de carro enquanto ela carregava um as com pras e lhe ofereceu um a carona; eles conversaram . Ela era do tipo orgânico, de m egavitam inas, kelp e luz do sol, sim pática, tím ida, m as rej eitou a carona. Agora ele podia entender por quê. Evidentem ente os dois eram usuários. Ou, m ais provavelm ente, traficavam . Por outro lado, se o apartam ento era necessário, um a batida por posse resolveria e sem pre se conseguia isso.

Ele se perguntou o que as autoridades fariam com a casa desordenada e grande de Bob Arctor quando ele fosse preso. Um centro ainda m aior de processam ento de inform ações, m ais provavelm ente.

— Você gostou da casa de Arctor — disse ele em voz alta.

— Está em ruínas e é suj a com o as casas de drogados, m as é grande. Tem um bom quintal. Montes de arbustos.

— Foi isso que a turm a de instalação relatou. Algum as possibilidades excelentes.

— Eles o quê? Eles relataram que é “cheia de possibilidades”, foi isso? — A voz do traj e m isturador estalou irritantem ente sem tom nem ressonância, o que o deixou com um a raiva ainda m aior. — O quê, por exem plo?

— Bem , um a possibilidade óbvia: a sala tem vista para um cruzam ento, então os veículos que passam podem ser diagram ados e as placas... — Hank analisou seus m uitos, m uitos docum entos. — Mas Burt Qual-é-a-cara-dele, que chefiou a equipe, achou que deixaram que a casa se deteriorasse tanto que não valeria a pena a tom arm os. Com o um investim ento.

— De que m aneira? A casa se deteriorou de que form a?

— O telhado.

— O telhado está perfeito.

— A pintura por dentro e por fora da casa. O estado do piso. Os arm ários da cozinha...

— Que besteira! — disse Fred m onotonam ente. — Arctor pode ter deixado pilhas de pratos e lixo e não ter lim pado a casa, m as, afinal, três caras m orando ali sem m ulher nenhum a? A esposa dele o deixou, são as m ulheres que devem fazer essas coisas. Se Donna Hawthorne tivesse se m udado para lá, com o queria o Arctor, com o ele lhe im plorou, ela teria cuidado disso. De qualquer form a, qualquer serviço profissional de faxina pode colocar toda a casa em ordem e até lim par tudo na m etade de um dia. No que diz respeito ao telhado, isso realm ente m e deixa louco, porque...

— Então você nos recom enda adquiri-la depois que Arctor for preso e perder a escritura.

Fred, o traj e, encarou-o.

— E então? — disse Hank, im passível, a esferográfica a postos.

— Não tenho opinião. De um a form a ou de outra. — Fred se levantou da cadeira para ir em bora.

— Você ainda não vai sair — disse Hank, acenando para que ele se sentasse novam ente. Ele vasculhou os papéis em sua m esa. — Tenho um m em orando aqui...

— Você sem pre tem m em orandos — disse Fred. — Para todo m undo.

— Este m em orando — disse Hank — m e instrui a te m andar para a Sala 203 antes de você ir em bora hoj e.

— Se é sobre a palestra antidrogas que dei no Lions Club, j á m e esculacharam o bastante.

— Não, não é isso. — Hank atirou para ele o bilhete. — E um a coisa diferente. Term inei com você, então por que não vai lá agora e encerra o assunto?

 

Ele se viu confrontando um a sala com pletam ente branca com acessórios, cadeiras e m esa de aço, tudo aparafusado, um a sala que parecia de hospital, purificada, estéril e fria, com a luz forte dem ais. Na realidade, à direita havia um a balança com a placa AJUSTADA SOMENTE POR TÉCNICOS. Dois agentes o olharam , am bos com uniform e com pleto do escritório do xerife do Condado de Orange, m as com divisas m édicas.

— Você é o policial Fred? — disse um deles, com um bigode de pontas viradas.

— Sim , senhor — disse Fred. Ele estava com m edo.

— Tudo bem , Fred, prim eiro deixe-m e dizer que, com o sem dúvida deve estar ciente, seus relatórios e interrogatórios são m onitorados e depois repassados para análise, para o caso de algum a coisa ter sido perdida nas sessões originais. Isso é padrão, é claro, e é válido para todos os policiais que fazem relatórios verbais, não só para você.

O outro agente m édico disse:

— Além de todos os outros contatos que você m antém com o departam ento, com o contatos telefônicos e atividades adicionais, com o sua recente palestra em Anaheim para os rapazes do Rotary Club.

— Do Lions — disse Fred.

— Você tom a a Substância D? — perguntou o agente m édico, canhoto.

— Essa pergunta — disse o outro — é discutível porque consideram os que em seu trabalho você é levado a isso. Então não responda. Não que sej a incrim inador, m as sim plesm ente porque é discutível. — Ele indicou um a m esa em que havia um m onte de blocos e outros obj etos baratos de plástico colorido, além de itens peculiares que o policial Fred não conseguiu identificar. — Venha aqui e se sente, policial Fred. Vam os lhe aplicar, brevem ente, vários testes fáceis. Não vai consum ir m uito o seu tem po e não haverá nenhum desconforto físico.

— Sobre a palestra que eu dei... — disse Fred.

— Isto aqui — disse o agente m édico canhoto, enquanto se sentava e pegava um a caneta e alguns form ulários — tem origem em um recente levantam ento departam ental que m ostra que vários agentes que trabalham sob disfarce nesta área foram adm itidos nas clínicas de afasia neurai no m ês passado.

— Você está ciente do alto fator viciante da Substância D? — indagou o outro agente a Fred.

— Claro — disse Fred. — É claro que estou.

— Vam os lhe aplicar estes testes agora — disse o agente sentado nesta ordem , a com eçar pelo que cham am os de FF ou...

— Acha que sou viciado? — disse Fred.

— Se você é ou não viciado não é a principal questão, um a vez que esperam os um agente bloqueador da Divisão de Guerra Quím ica do exército nos próxim os cinco anos.

— Estes testes não dizem respeito às propriedades viciantes da Substância D, m as... bem , deixe-m e prim eiro aplicar o Teste de Figura e Fundo, que determ ina sua capacidade de distinguir prontam ente um a figura do fundo. Vê este diagram a geom étrico? — Ele estendeu na m esa um cartão desenhado diante de Fred. — Dentro das linhas aparentem ente sem sentido está um obj eto fam iliar que todos reconheceríam os. Você vai m e dizer qual é...

Inform ação. Em j ulho de 1969, Joseph E. Bogen publicou seu artigo revolucionário “O Outro Lado do Cérebro: um a Mente Aposicional”. Nesse artigo, ele citou um obscuro dr. A. L. Wigan, que escreveu em 1844:

“A m ente é essencialm ente dual, com o os órgãos pelos quais é exercitada. Essa idéia

m e ocorreu e eu a analisei por m ais de um quarto de século, sem conseguir descobrir um a só obj eção válida ou m esm o plausível. Acredito que sou capaz de provar (1) que cada m etade do cérebro é um todo distinto e perfeito com o órgão do pensam ento; (2) que um processo separado e distinto de pensam ento ou raciocínio pode ser realizado em cada m etade do cérebro sim ultaneam ente.”

Nesse artigo, Bogen concluiu: “Acredito [com o Wigan] que cada um de nós tem duas m entes em um a pessoa. Há um a série de detalhes a dispor neste caso. Mas um dia devem os confrontar diretam ente a principal resistência à concepção de Wigan, isto é, a sensação subj etiva que cada um de nós possui de que som os Um . Essa convicção íntim a da Unidade é um a opinião m uito valorizada pelo hom em ocidental...”

— ... o obj eto e apontá-lo no cam po.

Estão brincando de tira bom /tira m au com igo, pensou Fred.

— O que significa tudo isso? — disse ele, olhando para o agente e não para o diagram a. — Aposto que é a palestra do Lions Club — disse ele. Ele foi incisivo.

O agente sentado disse:

— Em m uitos que tom am a Substância D, acontece um a divisão entre os hem isférios direito e esquerdo do cérebro. Há um a perda de gestaltism o adequado, que é um defeito nos sistem as de percepção e cognição, em bora aparentemente o sistem a de cognição continue a funcionar norm alm ente. Mas o que agora se recebe do sistem a de percepção é contam inado pela divisão e tam bém esse, portanto, deixa aos poucos de funcionar, deteriorando-se progressivam ente. Já localizou o obj eto conhecido neste desenho? Pode apontá-lo para m im ?

Fred disse:

— Não está falando de depósitos de vestígios de m etais pesados nos sítios neurorreceptores, está? Irreversíveis...

— Não — disse o agente de pé. — Não é dano cerebral, m as um a form a de toxicidade, de toxicidade cerebral. E um a psicose tóxica do cérebro que afeta o sistem a de percepção, dividindo-o. O que tem diante de você, este teste FF, m ede a precisão de seu sistem a de percepção para agir com o um todo unificado. Consegue ver a form a aqui? Deve estar saltando diante de seus olhos.

— Vej o um a garrafa de Coca-Cola — disse Fred.

— Um a garrafa de refrigerante, está correto — disse o agente sentado e afastou o desenho, substituindo-o por outro.

— Percebeu algum a coisa — disse Fred — no estudo de m eus relatórios e coisas assim ? Algum a baboseira? — Na palestra, pensou ele. — E a palestra que eu dei? — disse ele.

— Eu m ostrei disfunção bilateral ali? É por isso que fui m andado aqui para estes testes? — Ele tinha lido sobre os testes de cérebro dividido, aplicados pelo departam ento de tem pos em tem pos.

— Não, isso é rotina — disse o agente sentado. — Entendem os, policial Fred, que os agentes disfarçados precisam tom ar drogas no cum prim ento do dever; aqueles que tiveram de ir para as federais...

— Perm anentem ente? — perguntou Fred.

— Não m uitos perm anentem ente. Repito, essa é um a contam inação que pode, com o passar do tem po, ser retificada com o...

— Trevas — disse Fred. — As trevas encobrem tudo.

— Está passando por algum diálogo cruzado? — perguntou um dos agentes a ele de repente.

— Com o é? — disse ele, inseguro.

— Entre os hem isférios. Se houver dano no hem isfério esquerdo, onde norm alm ente estão localizadas as habilidades lingüísticas, às vezes o hem isfério direito com pensa com o m áxim o de sua capacidade.

— Eu não sei — disse ele. — Não que eu tenha percebido.

— Pensam entos que não são seus. Com o se outra pessoa ou outra m ente estivesse pensando. Mas diferente do m odo com o você pensaria. Até palavras estrangeiras que você não conhece. Que são aprendidas de sua percepção periférica de vez em quando durante a sua vida.

— Nada parecido com isso. Eu não percebi.

— Provavelm ente perceberia. Pelo que inform aram pessoas com danos no hem isfério esquerdo, evidentem ente é um a experiência m uito perturbadora.

— Bom , acho que não percebi.

— Antigam ente se acreditava que o hem isfério direito não tinha faculdades lingüísticas, m as isso foi antes de tanta gente arruinar o hem isfério esquerdo com drogas e dar ao lado direito a oportunidade de aparecer. Para preencher o vazio.

— Certam ente vou ficar atento para isso — disse Fred e ouviu a m era qualidade m ecânica de sua voz, com o a de um a criança diligente na escola. Concordando em obedecer a qualquer ordem estúpida que lhe fosse im posta por um a autoridade. Aos que eram superiores a ele e em condições de im por sua força e vontade sobre ele, quer isso fosse razoável ou não.

Só concorde, pensou ele. E faça o que m andarem .

— O que está vendo nesta segunda im agem ?

— Um a ovelha — disse Fred.

— Mostre-m e a ovelha. — O agente sentado inclinou-se e girou a im agem . — Um a deterioração na discrim inação figura-fundo pode m etê-lo em um m onte de problem as... em vez de não perceber form as, você percebe form as im perfeitas.

Com o m erda de cachorro, pensou Fred. Merda de cachorro certam ente seria considerada um a form a im perfeita. Por qualquer padrão. Ele...

“Os dados indicam que o hem isfério m enor e m udo é especializado na percepção

Gestalt, sendo principalm ente um sintetizador ao lidar com as inform ações recebidas. O hem isfério m aior e falante, ao contrário, parece operar de m aneira m ais lógica, analítica, com o de com putador, e as descobertas sugerem que um possível m otivo para a lateralização cerebral no hom em é um a incom patibilidade fundam ental de funções de linguagem , de um lado, e funções de percepção sintética, de outro.”

... se sentia doente e deprim ido, quase com o se sentiu durante a palestra no Lions Club. — Não tem ovelha algum a, não é? — disse ele. — Mas cheguei perto?

— Isto não é um teste de Rorschach — disse o agente sentado —, onde um a m ancha confusa pode ser interpretada de m uitas m aneiras por m uitas pessoas. Neste, um obj eto específico, por exem plo, foi delineado e há som ente um . Neste caso, é um cachorro.

— Um o quê? — disse Fred.

— Um cachorro.

— Com o pode dizer que é um cachorro? — Ele não viu cachorro algum . — Me m ostre. — O agente...

“Essa conclusão encontra sua prova experim ental no anim al de cérebro dividido cuj os

dois hem isférios podem ser treinados para perceber, considerar e agir de form a independente. No ser hum ano, em que o pensam ento proposicional em geral é lateralizado em um hem isfério, o outro hem isfério evidentem ente se especializa em um m odo diferente de pensam ento, que pode ser cham ado aposicional. As regras ou m étodos pelos quais o pensam ento proposicional é elaborado ‘nesse’ lado do cérebro (o lado que fala, lê e escreve) têm sido subm etidos a análise de sintaxe, sem ântica, lógica m atem ática etc. há m uitos anos. As regras pelas quais o pensam ento aposicional é elaborado no outro lado do cérebro precisarão de estudo por m uitos anos ainda.”

... virou o cartão; no verso, o perfil form al, cabal e sim ples de um CACHORRO tinha sido inscrito e agora Fred o reconhecia com o a form a desenhada dentro das linhas na frente do cartão. Na verdade, era um tipo específico de cão: um grey hound, com a tripa desenhada.

— O que significa — disse ele — eu ter visto um a ovelha?

— Provavelm ente só um bloqueio psicológico — disse o agente de pé, passando o peso de um a para a outra perna.

— Só quando todo o conj unto de cartões é m ostrado e depois tem os os vários outros testes...

— Este é um teste superior ao de Rorschach — interrom peu o agente sentado, pegando o desenho seguinte —, porque não é interpretativo; há m uitas respostas erradas em que você pode pensar, m as só um a resposta certa. O obj eto correto que o Departam ento de Psigrafia dos EUA desenhou nele e certificou, para cada cartão; isso é o que é certo, porque foi passado de Washington. Ou você consegue ou não consegue e, se dem onstrar um a série sem conseguir, então tem os um problem a de deterioração funcional na percepção e vam os afastá-lo por algum tem po, até que seu teste sej a bom .

— Um a clínica federal? — disse Fred.

— Sim . Agora, o que você vê neste desenho, entre estas linhas pretas e brancas?

Cidade da Morte, pensou Fred enquanto analisava o desenho. E o que eu vej o: m orte m ultiform e, não naquela form a correta, m as total. Hom enzinhos de um m etro em carrinhos.

— Só m e diga um a coisa — disse Fred —, foi a palestra no Lions Club que alertou vocês?

Os dois agentes m édicos trocaram olhares.

— Não — disse por fim o de pé. — Teve a ver com um a conversa que foi... na verdade... de im proviso, na realidade, só um a besteirada entre você e Hank. Há cerca de duas sem anas. Perceba que há um atraso tecnológico no processam ento de todo esse lixo, todas essas inform ações cruas que aparecem . Eles ainda não analisaram sua palestra. Na realidade, vão levar m ais uns dias.

— O que foi essa besteirada?

— Algo sobre um a bicicleta roubada — disse o outro agente. — Um a cham ada bicicleta de sete m archas. Você ficou tentando deduzir onde foram parar as três m archas perdidas, foi isso? — Novam ente eles se olharam , os dois agentes m édicos. — Você achou que tinham ficado no chão da garagem de onde foi roubada?

— Que droga! — protestou Fred. — Foi culpa do Charles Freck, não m inha; ele deixou todo m undo m aluco com um a algazarra sobre isso. Eu só achei engraçado.

BARRIS: (Parado no m eio da sala com um a bicicleta nova, reluzente e grande, m uito satisfeito.) Olha o que eu com prei por vinte dólares.

FRECK: O que é?

BARRIS: Um a bicicleta, um a bicicleta de corrida de dez m archas, praticam ente nova. Vi no j ardim do vizinho e perguntei sobre ela, e eles tinham quatro, então ofereci vinte dólares em dinheiro e eles m e venderam essa. Um pessoal de cor. Eles até a levantaram pela cerca para m im .

LUCKMAN: Não sei com o conseguiu um a bicicleta de dez m archas quase nova por vinte dólares. É incrível o que se consegue com vinte dólares.

DONNA: Parece com a que roubaram faz um m ês de um a garota que m ora na frente da m inha casa. Eles devem ter roubado dela, aqueles negros.

ARCTOR: Claro que sim , eles tinham quatro. E vender assim tão barato.

DONNA: Você devia devolver à garota da m inha rua, se é dela. Ou devia deixar ela dar um a olhada para ver se é dela m esm o.

BARRIS: E um a bicicleta m asculina. Então não pode ser dela.

FRECK: Por que você diz que tem dez m archas quando só tem sete?

BARRIS: (Atordoado.) Com o é que é?

FRECK: (Aproxim ando-se da bicicleta e apontando.) Olha, cinco m archas aqui, duas aqui na outra ponta da corrente. Cinco e dois...

“Quando o quiasm a ótico de um gato ou de um m acaco é dividido sagitalm ente, as

inform ações recebidas pelo olho direito vão som ente para o hem isfério direito e, da m esm a form a, o olho esquerdo inform a som ente ao hem isfério esquerdo. Se um anim al com essa operação é treinado para escolher entre dois sím bolos enquanto usa som ente um olho, testes posteriores m ostram que ele pode fazer a escolha adequada com o outro

olho. Mas, se as com issuras, em especial o corpo caloso, forem seccionadas antes do treinam ento, o olho inicialm ente coberto e seu hem isfério ipsolateral deverão ser treinados desde o início. Isto é, o treinam ento não será transferido de um hem isfério para outro se as com issuras forem cortadas. Esse é o experim ento de divisão cerebral fundam ental de My ers e Sperry (1953; Sperry , 1961; My ers, 1965; Sperry , 1967).”

... dão sete. Então é um a bicicleta de só sete m archas.

LUCKMAN: É, m as nem um a bicicleta de corrida de sete m archas vale vinte dólares. Ele ainda conseguiu um a pechincha.

BARRIS: (Confuso.) Aqueles negros m e disseram que tinha dez m archas. Isso é roubo.

(Todos se reúnem para exam inar a bicicleta. Eles contam as m archas repetidam ente.)

FRECK: Agora contei oito. Seis na frente, duas atrás. Dá oito.

ARCTOR: (Logicam ente.) Mas devia ter dez. Não existem bicicletas de sete ou oito m archas. Não que eu saiba.

O que acha que aconteceu com as m archas que estão faltando?

BARRIS: Aqueles caras de cor devem ter trabalhado nela, desm ontando-as com ferram entas inadequadas e sem conhecim ento técnico, e quando rem ontaram deixaram três m archas no chão da garagem deles. Provavelm ente elas ainda estão lá.

LUCKMAN: Então a gente devia pedir as m archas de volta.

BARRIS: (Refletindo com raiva.) Mas é aí que está o roubo: eles vão se oferecer para m e vender as m archas e não dá-las a m im , com o deviam . Im agino o que m ais eles estragaram . (Inspeciona toda a bicicleta.)

LUCKMAN: Se todos form os j untos, eles vão dar as m archas para a gente; pode apostar nisso, cara. Vam os todos, está bem ? (Olha em volta procurando por aprovação.)

DONNA: Tem certeza de que só tem sete m archas?

FRECK: Oito.

DONNA: Sete, oito. Quer dizer, antes de vocês irem lá, perguntem a alguém . Quer dizer, não m e parece que eles fizeram nada do tipo desm ontar a bicicleta. Antes de você ir lá e pegar pesado com eles, descubra. Sacou?

ARCTOR: Ela tem razão.

LUCKMAN: A quem vam os perguntar? Quem aqui conhece um a autoridade em bicicletas de corrida?

FRECK: Vam os perguntar à prim eira pessoa que encontrarm os. Vam os levar a bicicleta para a porta e, quando um cara passar, a gente pergunta a ele. Assim vam os ter um a opinião neutra.

(Eles levaram juntos a bicicleta para a frente, bem ao lado de onde os negros estacionam o

carro. Eles apontaram para as sete — oito?— marchas de forma questionadora e perguntaram quantas eram, embora pudessem ver — a não ser por Charles Freck — que eram somente sete: cinco em uma ponta da corrente, duas na outra. Cinco e dois somam sete. ELes puderam verificar isso com os próprios olhos. O que está pegando?)

JOVEM NEGRO: (Calm am ente.) O que vocês têm de fazer é m ultiplicar o núm ero de m archas na frente pelo núm ero da traseira. Não é som ar, m as m ultiplicar, porque, estão vendo, a corrente pula de um a m archa para outra e, em term os de proporção de m archa, vocês têm cinco (Ele indica as cinco m archas) vezes um a das duas da frente (Ele aponta para ela), o que dá um vezes cinco, que é cinco, e depois, quando você m uda com esta alavanca no punho (Ele dem onstra), a corrente pula para a outra das duas da frente e interage com as m esm as cinco de trás novam ente, o que dá m ais cinco. A adição envolvida é cinco m ais cinco, que dá dez. Estão vendo com o funciona? Viu, as proporções de m archas são sem pre derivadas de...

(Eles agradecem e silenciosamente levam a bicicleta de volta para dentro de casa. O jovem negro, que eles nunca viram na vida, não tem mais de 17 anos e dirige um carro incrivelmente surrado que parece de transportadora, foi trancar o carro e eles fecharam a porta da frente da casa eficaram parados ali.)

LUCKMAN: Alguém arrum ou algum bagulho? “Onde há substância, há esperança.” (Ninguém ...)

“Todas as evidências indicam que essa separação dos hem isférios cria duas esferas

independentes de consciência em um único crânio, isto é, dentro de um único organism o. Essa conclusão é perturbadora para algum as pessoas, que vêem a consciência com o um a propriedade indivisível do cérebro hum ano. Parece prem aturo para outros, que insistem em que as capacidades até agora reveladas pelo hem isfério direito perm anecem no nível do autom atism o. Há, certam ente, desigualdade hem isférica nos casos presentes, m as pode bem ser um a característica dos indivíduos que estudam os. E inteiram ente possível que, se um cérebro hum ano fosse dividido em um a pessoa m uito j ovem , os dois hem isférios poderiam , por conseqüência, desenvolver de form a separada e independente funções m entais de um a ordem superior ao nível que corresponde som ente ao hem isfério esquerdo de indivíduos norm ais.”

(... ri.)

— Sabem os que você era um a das pessoas naquele grupo — diz o agente m édico sentado. — Não im porta quem . Nenhum de vocês conseguiu olhar a bicicleta e perceber a sim ples operação m atem ática envolvida na determ inação do núm ero de seu pequeno sistem a de m archas. — Na voz do agente Fred sentiu um a certa com paixão, um a tentativa de ser gentil. — Um a operação dessas, que constitui um teste de aptidão de prim eiranista do secundário. Vocês estavam todos chapados?

— Não — disse Fred.

— Fazem testes de aptidão assim com as crianças — disse o outro agente m édico.

— Então, qual era o problem a, Fred? — perguntou o prim eiro agente.

— Esqueci — disse Fred. Ele se calou agora. E depois disse: — Isso m e parece um a m erda cognitiva e não per- ceptiva. Não tem pensam ento abstrato envolvido num a coisa dessas? Não...

— É o que você pode im aginar — disse o agente sentado.

— Mas os testes m ostram que o sistem a cognitivo falha, porque não está recebendo dados exatos. Em outras palavras, as inform ações são distorcidas de tal form a que, quando você raciocina sobre o que vê, raciocina erroneam ente, porque não... — O agente gesticulou, tentando encontrar um a form a de se expressar.

— Mas um a bicicleta de dez m archas tem sete m archas

— disse Fred. — O que vim os foi exato. Duas na frente, cinco atrás.

— Mas vocês não perceberam , nenhum de vocês, com o as m archas interagem : cinco atrás com cada um a das m archas da frente, com o disse o negro. Ele era um hom em m uito instruído?

— Provavelm ente não — disse Fred.

— O que o negro viu — disse o agente de pé — foi diferente do que todos vocês viram . Ele viu duas linhas de conexão separadas entre o sistem a de m archa traseira e o frontal, duas linhas diferentes e sim ultâneas, perceptíveis para ele, entre as m archas da frente, passando para cada um a das traseiras... O que vocês viram foi um a conexão para todas as traseiras.

— Mas isso daria seis m archas, então — disse Fred. — Duas m archas da frente m ais um a de conexão.

— Essa é um a percepção im precisa. Ninguém ensinou isso ao negro, o que lhe ensinaram a fazer, se alguém ensinou m esm o, foi deduzir, cognitivam ente, o significado daquelas duas de conexão. Vocês deixaram passar inteiram ente um a delas, todos vocês. O que vocês fizeram foi que, em bora contassem duas m archas na frente, perceberam as m archas com o um a hom ogeneidade.

— Vou m e sair m elhor da próxim a vez — disse Fred.

— Que próxim a vez? Quando com prar um a bicicleta de dez m archas roubada? Ou abstrair todas as inform ações diárias que percebe?

Fred continuou em silêncio.

— Vam os continuar o teste — disse o agente sentado. — O que vê neste, Fred?

— Merda de cachorro, de plástico — disse Fred. — Com o vendem aqui na região de Los Angeles. Posso ir agora? — Era a palestra do Lions Club toda de novo.

Os dois agentes, porém , riram .

— Está vendo, Fred — disse o sentado se você pode m anter seu senso de hum or com o agora, talvez consiga fazer.

— Fazer? — ecoou Fred. — Fazer o quê? A equipe? A garota? Sucesso? As conclusões? Fazer sentido? Dinheiro? Tem po? Defina o que quer dizer. A palavra latina para “fazer” é facere, que sem pre m e lem bra de fuckere, que é “foder” em latim , e eu não...

“O cérebro dos anim ais superiores, inclusive o hom em , é um órgão duplo, consistindo

em hem isférios direito e esquerdo, conectados por um istm o de tecido nervoso cham ado corpo caloso. Cerca de 15 anos atrás, Ronald E. My ers e R. W. Sperry, então na Universidade de Chicago, fizeram um a descoberta surpreendente: quando essa conexão entre as duas m etades do cérebro foi cortada, cada hem isfério funcionou de form a independente, com o se fosse um cérebro com pleto.”

— ... tenho entendido m erda algum a ultim am ente, m erda de plástico ou qualquer outra, qualquer tipo de m erda. Se vocês são psicólogos e andaram ouvindo m eus relatórios interm ináveis com Hank, com o é que se pega a Donna? Com o consigo chegar nela? Quer dizer, com o se faz? Com esse tipo de garota doce, singular e teim osa?

— Cada garota é diferente — disse o agente sentado.

— Quero dizer, chegar nela eticam ente — disse Fred. — E não a encher de verm elhas e álcool e depois m eter nela enquanto ela está deitada no chão da sala.

— Com pre flores para ela — disse o agente de pé.

— Quê? — disse Fred, arregalando os olhos filtrados pelo traj e.

— Nesta época do ano, você pode com prar um as florezinhas de prim avera. Na seção de plantas da, digam os, Penney ’s ou da K Mart. Ou um a azaléia.

— Flores — m urm urou Fred. — Quer dizer flores de plástico ou flores de verdade? As de verdade, eu acho.

— As de plástico não são boas — disse o agente sentado.

— Elas parecem ... bem , falsas. Meio falsas.

— Posso sair agora? — perguntou Fred.

Depois de um a troca de olhares, os dois agentes assentiram .

— Vam os avaliar você outra hora, Fred — disse o de pé. — Não é tão urgente. Depois Hank vai notificá-lo de um horário.

Por algum m otivo obscuro, Fred teve vontade de trocar um aperto de m ãos com eles antes de sair, m as não o fez; ele só saiu, sem dizer nada, m eio deprim ido e m eio desnorteado, devido, provavelm ente, à form a com o tinha sido dispensado, tão de repente. Eles vão repassar todo o m eu m aterial, pensou ele, tentando encontrar sinais de que estou ferrado e eles vão descobrir algum indício. O bastante, de qualquer m odo, para querer aplicar esses testes.

Flores de prim avera, pensou ele enquanto chegava ao elevador. Pequenininhas; elas provavelm ente crescem perto do solo e um m onte de gente pisa nelas. Elas são silvestres? Ou são criadas em vasos com erciais especiais ou em enorm es fazendas fechadas? Fico im aginando com o é o interior. Os cam pos e essas coisas, os cheiros estranhos. E, perguntou-se ele, onde se encontra isso? Aonde se vai e com o fazer para chegar lá e ficar por lá? Que tipo de viagem é essa e que tipo de passagem tem ? E de quem se com pra a passagem ?

E, pensou ele, eu queria levar alguém com igo quando fosse lá, talvez a Donna. Mas com o pedir isso a ela, pedir a um a garota assim , quando você nem sabe com o chegar nela? Quando você fica tram ando sobre ela sem conseguir nada, nem m esm o dar o prim eiro passo. A gente devia se apressar, pensou ele, porque depois todas as flores da prim avera de que eles falaram estarão m ortas.