O Homem Duplo
Capítulo 4
4
Dentro do traj e m isturador, o borrão nebuloso indicava que Fred estava diante de outro borrão nebuloso que se apresentava com o Hank.
— Nada com Donna, nem Charley Freck, e... deixe-m e ver... — A voz m onótona e m etálica de Hank estalou por um segundo. — Tudo bem , você cobriu Jim Barris. — Hank fez um a anotação no bloco diante dele. — Doug Weeks, segundo você acha, deve estar m orto ou fora da área.
— Ou escondido ou inativo — disse Fred.
— Já ouviu falar neste nom e: Earl ou Art De Winter?
— Não.
— E num a m ulher cham ada Molly ? Um a grandalhona.
— Não.
— E num a dupla de crioulos, irm ãos, uns 20 anos, cham ados qualquer coisa Hatfield? Possivelm ente traficando sacos de m eio quilo de heroína.
— Meio quilo? Sacos de m eio quilo de heroína?
— É isso m esm o.
— Não — disse Fred. — Eu m e lem braria disso.
— Um sueco, alto, nom e sueco. Cum priu pena, senso de hum or distorcido. Alto e m agro, anda com m uito dinheiro, provavelm ente da partilha de um em barque no início do m ês.
— Vou ficar de olho nele — disse Fred. — Meio quilo. — Ele sacudiu a cabeça ou pelo m enos o borrão nebuloso balançou.
Hank arrum ou as notas holográficas.
— Bom , este está na cadeia. — Ele ergueu um a foto brevem ente, depois leu o verso. — Não, está m orto, estão com
o corpo lá em baixo. — Ele separou. O tem po passou. — Acha que a Jora está se prostituindo?
— Duvido. — Jora Kaj as só tinha 15 anos. Já dom inada pela Substância D inj etável, ela m orava em um quarto de um cortiço em Brea; o único calor que irradiava era de um aquecedor a água, sua fonte de renda era um a bolsa de estudos do estado da Califórnia que ela ganhara. Não com parecia às aulas, pelo que ele sabia, havia seis m eses.
— Quando ela aprontar, m e inform e. Depois podem os procurar os pais dela.
— Tudo bem — assentiu Fred.
— Rapaz, a garotada está descendo a ladeira rapidinho. Tivem os um a aqui outro dia... ela parecia ter uns cinqüenta anos. Cabelo grisalho ralo, sem dentes, olhos no buraco, os braços um as varetas... Perguntam os a idade dela e ela disse: “Dezenove.” Verificam os a inform ação. “Sabe que idade parece ter?”, disse aquela m atrona a ela. “Olhe-se no espelho.” Então ela se olhou no espelho. E com eçou a chorar. Perguntei a ela há quanto tem po estava inj etando.
— Um ano — disse Fred.
— Quatro m eses.
— As coisas na rua estão bem ruins — disse Fred, sem tentar im aginar a garota, de 19 anos, com o cabelo caindo.
- Malhadas com porcarias piores do que o norm al.
— Sabe com o a garota entrou nessa? Os irm ãos dela, os dois, eram traficantes, foram ao quarto dela um a noite, prenderam ela na cam a e inj etaram , depois treparam com ela. Os dois. Para j ogá-la num a nova vida, eu acho. Ela j á estava nessa havia m eses quando nós a trouxem os para cá.
— Onde eles estão agora? — Ele pensou que podia esbarrar nos dois.
— Cum prindo um a sentença de seis m eses por posse. A garota tam bém pegou gonorréia e não percebeu isso. A doença foi bem fundo nela, com o costum a acontecer. Os irm ãos dela acharam isso hilário.
— Gente boa... — disse Fred.
— Vou te contar um a que com toda certeza vai te derrubar. Está sabendo dos três bebês no Fairfield Hospital que precisam receber um as doses todo dia porque ainda são novos dem ais para retirar a droga? Um a enferm eira tentou...
— Você j á m e derrubou — disse Fred, com voz m ecânica. — Já ouvi o bastante, obrigado.
Hank continuou:
— Quando se pensa em recém -nascidos viciados em heroína porque...
— Obrigado — repetiu o borrão nebuloso cham ado Fred.
— Que castigo você daria a um a m ãe que dá um a dose de heroína a um recém -nascido para acalm á-lo, para evitar que chore? Pernoite na fazenda do condado?
— Algum a coisa assim — disse Fred m onotonam ente. — Talvez um fim de sem ana, com o fazem com os bêbados. Às vezes, eu queria saber com o pirar. Eu esqueci.
— É um a arte esquecida — disse Hank. — Talvez haj a um m anual de instruções.
— Tinha um film e lá pelos anos 70 — disse Fred — cham ado Operação França, sobre dois hom ens da narcóticos de heroína, e quando eles fizeram sucesso um deles ficou totalm ente pirado e com eçou a atirar em todo m undo que via, inclusive nos superiores. Não fez diferença algum a.
— Talvez sej a m elhor você não saber quem eu sou, então — disse Hank. — Só pode m e pegar por acidente.
— Um dia — disse Fred — alguém vai nos pegar.
— Vai ser um alívio. Um alívio e tanto. — Avançando em sua pilha de anotações, Hank disse: — Jerry Fabin. Bom , vam os cancelar esse. Não é m ais cidadão. Os rapazes do final do corredor contaram que Fabin, a cam inho da clínica, disse aos policiais que um hom enzinho de um m etro de altura, sem pernas, em um carrinho, rolava atrás dele dia e noite. Mas ele nunca contou a ninguém porque, se contasse, iam se irritar e o diabo a quatro e depois ele não teria am igos, ninguém com quem conversar.
— É — disse Fred estoicam ente. — Fabin está bem ferrado. Li a análise de EEG da clínica. Não podem os nos esquecer dele.
Sem pre que se sentava de frente para Hank e fazia esse relatório ele vivia um a certa m udança profunda em si m esm o. Só percebia isso depois, em bora na hora sentisse que, por algum m otivo, ele assum ia um a atitude calculada e bem distante. Para ele, nenhum acontecim ento e ninguém tinha significado em ocional durante essas sessões.
No início, ele acreditava que eram os traj es m isturadores que os dois usavam ; eles não podiam sentir fisicam ente um ao outro. Mais tarde conj ecturou que os traj es não faziam qualquer diferença, era a situação em si. Hank, por m otivos profissionais, m enosprezava intencionalm ente o valor habitual, a excitação habitual em todos os sentidos; nenhum a raiva, nenhum am or, nenhum tipo de em oção forte aj udaria qualquer um dos dois. Com o é que o envolvim ento em ocional intenso podia ser de algum a utilidade quando eles estavam discutindo crim es, crim es graves, com etidos por pessoas próxim as a Fred e até, com o no caso de Luckm an e Donna, pessoas queridas a ele? Ele precisava se neutralizar; os dois faziam isso, ele m ais do que Hank. Eles ficavam neutros, falavam de form a neutra, pareciam neutros. Aos poucos ficou fácil conseguir isso, sem com binação prévia.
E depois todos os seus sentim entos voltavam de m ansinho.
A indignação com m uitos dos acontecim entos que testem unhava, até o pavor, em retrospectiva: o choque. Grandes seqüências esm agadoras para as quais não havia trailer. Com o áudio sem pre alto dem ais dentro de sua cabeça.
Mas, enquanto estava sentado à m esa, de frente para Hank, ele não sentia nada disso. Teoricam ente, podia descrever, im passível, qualquer coisa que testem unhasse. Ou ouvir qualquer coisa de Hank.
Por exem plo, ele podia dizer descuidadam ente: “Donna está m orrendo de hepatite e usa a agulha para elim inar o m áxim o de am igos que pode. A m elhor coisa neste caso seria dar um as coronhadas nela até ela parar com isso.” A própria garota dele... se ele tivesse observado isso ou tivesse certeza... Ou: “Outro dia Donna sofreu um a vasoconstrição m aciça com um análogo de LSD vagabundo e m etade dos vasos sangüíneos do cérebro dela m orreu.” Ou: “Donna está m orta.” E Hank registraria isso e talvez dissesse: “Quem vendeu a droga a ela e onde foi feita?” ou “Onde vai ser o funeral? Devem os conseguir núm eros de licença e nom es”, e ele discutiria isso sem sentim ento nenhum .
Esse era Fred. Mas depois Fred evoluía para Bob Arctor, em algum lugar na calçada entre o Pizza Hut e o posto de gasolina Arco (gasolina com um agora a 25 cents o litro), e as cores terríveis voltavam a ele, gostasse ou não.
Essa m udança nele com o Fred era um a econom ia das paixões. Bom beiros, m édicos e agentes funerários faziam a m esm a viagem em seu trabalho. Nenhum deles podia pular e exclam ar a cada m om ento; eles prim eiro esgotavam a si m esm os e ficavam im prestáveis, e depois esgotavam os outros, com o técnicos no trabalho e com o seres hum anos. Um indivíduo tinha energia lim itada.
Hank não forçava essa im parcialidade nele, ele lhe perm itia ser assim . Para o próprio bem . Fred gostava disso.
— E Arctor? — perguntou Hank.
Além de todos os outros, Fred, em seu traj e m isturador, subordinava naturalm ente a si m esm o. Se não fosse assim , seu superior — e através dele todo o aparato da lei — ficaria ciente de quem era Fred, com ou sem traj e. Os agentes plantados transm itiriam a inform ação e m uito em breve ele, com o Bob Arctor, sentado em sua sala fum ando bagulho e tom ando droga com os outros viciados, acharia que tinha um hom enzinho de um m etro de altura em um carrinho deslizando atrás dele tam bém . E não estaria alucinado, com o acontecia com Jerry Fabin.
— Arctor não tem feito m uita coisa — disse Fred, com o sem pre fazia. — Trabalha no Blue Chip Stam p em lugar nenhum , tom a uns tabletes de m orte batizada com m et durante o dia...
— Não tenho certeza disso. — Hank rem exeu em um a determ inada folha de papel. — Tem os um a dica aqui de um inform ante cuj as dicas em geral são boas e ele diz que Arctor tem capital acim a do que o Blue Chip Redem ption Center paga a ele. Ligam os para eles e perguntam os qual é o salário líquido de Arctor. Não é m uito. E depois investigam os o porquê disso e descobrim os que ele não está em um em prego de tem po integral a sem ana toda.
— Tá brincando — disse Fred m eio lúgubre, percebendo que o capital “acim a” era claram ente aquele que ele recebia com o agente da Narcóticos. Toda sem ana ele pegava um a certa quantia em notas baixas em um aparelho disfarçado de m áquina de Dr. Pepper, em um bar e restaurante m exicano em Placentia. Eram essencialm ente pagam entos por inform ações que ele dava e que resultavam em prisões. Às vezes, essa som a se tornava excepcionalm ente alta, quando ocorria um a im portante apreensão de heroína.
Hank leu ponderadam ente:
— E de acordo com esse inform ante, Arctor som e e aparece m isteriosam ente, em especial pelo pôr-do-sol. Depois que chega em casa ele com e, depois arranj a um a desculpa para sair de novo. Às vezes m uito rápido. Mas ele nunca sai por m uito tem po. — Ele ergueu os olhos. — O traj e m isturador ergueu os olhos — para Fred. — Tem observado algum a dessas coisas? Pode verificar? Será que significa algum a coisa?
— Mais provavelm ente a garota dele, Donna — disse Fred.
— Bem , “m ais provavelm ente”. Você devia saber.
— E Donna. Ele transa com ela dia e noite. — Ele se sentia verdadeiram ente pouco à vontade. — Mas vou verificar e te inform ar. Quem é esse inform ante? Pode estar aprontando para cim a do Arctor.
— Porra, não sabem os. É tudo por telefone. Nada im presso... ele usou um tipo de grade eletrônica vagabunda. — Hank deu um a risada; parecia estranha, saindo tão m etálica daquele j eito. — Mas funcionou. Satisfatoriam ente.
— Meu Deus — protestou Fred —, é aquele m aluco ferrado do Jim Barris j ogando seu ressentim ento esquizóide pra cim a do Arctor! Barris fez cursos interm ináveis de conserto de eletrônicos nas forças arm adas, além de m anutenção de m aquinaria pesada. Eu não daria nem um centavo a ele com o inform ante.
Hank disse:
— Não sabem os se é Barris e, de qualquer m odo, pode haver m ais em Barris do que um “m aluco ferrado”. Conseguim os várias pessoas que investigaram isso. Nada do que eu ache seria de utilidade para você, pelo m enos por enquanto.
— Mas é um dos am igos de Arctor — disse Fred.
— Sim , indubitavelm ente é arm ação por vingança. Esses viciados... eles te telefonam toda vez que ficam irritados. Na realidade, ele parecia conhecer Arctor m uito intim am ente.
— Gente boa — disse Fred com am argura.
— Bem , foi assim que descobrim os — disse Hank. — Qual é a diferença entre isso e o que você está fazendo?
— Não estou fazendo isso por rancor — disse Fred.
— Por que está fazendo, na realidade?
Fred, depois de um intervalo, disse:
— Bem que eu gostaria de saber.
— Você perdeu o Weeks. Acho que por enquanto vou m andar você observar Bob Arctor. Ele tem um nom e do m eio? Usa a inicial...
Fred fez um ruído engasgado, de robô.
— Por que Arctor?
— Financiado às ocultas, envolvido às ocultas, fazendo inim igos por suas atividades. Qual é o nom e do m eio de Arctor? — A caneta de Hank pacientem ente postada. Ele esperou para saber.
— Postlethwaite.
— Com o se escreve isso?
— Não sei. Não sei dessa porra — disse Fred.
— Postlethwaite — disse Hank, escrevendo algum as letras. — De que nacionalidade é?
— Galês — disse Fred rispidam ente. Ele m al conseguia ouvir, seus ouvidos tinham se toldado e seus sentidos tam bém , um por um .
— São aquelas pessoas que cantam sobre os hom ens de Harlech? O que é “Harlech”? Um a cidade de algum lugar?
— Foi em Harlech que a defesa heróica contra os y orkistas em 1468... — Fred se interrom peu. Merda, pensou ele. Isso é horrível.
— Espere, quero tom ar nota disso — estava dizendo Hank, escrevendo com a caneta.
Fred disse:
— Isso significa que você vai gram pear a casa e o carro de Arctor?
— Sim , com o novo sistem a holográfico; é m elhor e, atualm ente, tem os vários deles parados. Você vai gravar e im prim ir tudo. E o que eu suponho. — Hank anotou isso tam bém .
— Vou pegar o que eu puder — disse Fred. Ele se sentia totalm ente por fora de tudo isso, queria que a sessão de relatório term inasse e pensou: se ao m enos eu pudesse tom ar uns tabletes...
Na frente dele, o borrão sem form a escrevia e escrevia, preenchendo todos os núm eros de registro de todas as engenhocas tecnológicas que, se aprovadas, logo estariam disponíveis para ele, com as quais m ontaria um sistem a de m onitoram ento constante de últim a geração em sua própria casa, nele m esm o.
* * *
Por m ais de um a hora, Barris ficou tentando aperfeiçoar um silenciador feito de m ateriais caseiros com uns que não custavam m ais de 11 cents. Ele quase conseguira fazer um , com chapa de alum ínio e um pedaço de espum a de borracha.
Na escuridão da noite, no quintal de Bob Arctor, entre os m ontes de m ato e lixo, ele se preparava para disparar a pistola com o silenciador caseiro instalado.
— Os vizinhos vão ouvir — disse Charles Freck, inquieto. Ele podia ver j anelas acesas em toda parte, m uitas pessoas provavelm ente vendo TV ou enrolando baseados.
Luckm an, fora de vista, m as capaz de ver, disse:
— O único cham ado por assassinato neste bairro.
— Por que precisa de um silenciador? — perguntou Charles Freck a Barris. — Quer dizer, eles são ilegais.
Barris disse, m al-hum orado:
— Em nossa época, com o tipo de sociedade degenerada em que vivem os e a depravação do indivíduo, todo m undo que vale algum a coisa precisa de um a arm a o tem po todo. Para se proteger. — Ele sem icerrou os olhos e disparou a pistola com o silenciador caseiro. Soou um estrondo enorm e, ensurdecendo tem porariam ente os três. Latiram cães em quintais distantes.
Sorrindo, Barris com eçou a desenrolar a chapa de alum ínio da espum a de borracha. Ele parecia estar se divertindo.
— Mas é um silenciador e tanto — disse Charles Freck, perguntando-se quando a polícia ia aparecer. Num m onte de carros.
— O que ele fez — explicou Barris, m ostrando a ele e a Luckm an trechos crestados de preto e queim ados na espum a de borracha — foi aum entar o som , em vez de abafá-lo. Mas eu quase cheguei lá. Consegui em princípio, aliás.
— Quanto vale essa arm a? — perguntou Charles Freck. Ele nunca teve um a arm a. Por várias vezes teve um a faca, m as alguém sem pre a roubava dele. Um a vez um a garota a roubou, enquanto ele estava no banheiro.
— Não m uito — disse Barris. — Uns trinta dólares, usada, o que ela é. — Ele a estendeu a Freck, que recuou apreensivam ente. — Vou vender para você — disse Barris. — Você devia ter um a m esm o, para se proteger de quem pode te m achucar.
— Eles são m uitos — disse Luckm an de seu j eito irônico, com um sorriso. — Eu vi no Times de Los Angeles, outro dia, que estão dando um rádio transistor para os que tiverem m ais sucesso em ferir Freck.
— Vou trocar com você por um tacôm etro Borg-Warner — disse Freck.
— Que você roubou da oficina do cara do outro lado da rua — disse Luckm an.
— Bom , a arm a tam bém deve ser roubada — disse Charles Freck. A m aioria das coisas que valiam algum dinheiro foi originalm ente roubada de algum a form a; isso indicava que o obj eto tinha valor. — Na realidade — disse ele —, o cara do outro lado da rua roubou o tacôm etro prim eiro. Deve ter trocado de m ãos um as 15 vezes. Quer dizer, é um tacôm etro realm ente legal.
— Com o você sabe que ele roubou? — perguntou-lhe Luckm an.
— Que droga, cara, ele tem oito tacôm etros ali na oficina, todos pendurados por fios! O que m ais ele estaria fazendo com eles, com tantos, quero dizer? Quem é que sai e com pra oito tacôm etros?
Para Barris, Luckm an disse:
— Pensei que você estivesse ocupado trabalhando no cefscópio. Já term inou?
— Não posso trabalhar continuam ente dia e noite, porque sai caro dem ais — disse Barris. — Tive de dar um a parada. — Ele cortou, com um canivete com plicado, outra seção de espum a de borracha. — Este vai ficar totalm ente sem som .
— O Bob pensa que você está trabalhando no cefscópio — disse Luckm an. — Ele está deitado ali na cam a do quarto, im aginando isso, enquanto você está aqui fora atirando com a pistola. Não concorda com Bob que o aluguel que você deve seria com pensado por seu...
— Com o se fosse m oleza — disse Barris — um a reconstrução intrincada e trabalhosa de um aparelho eletrônico danificado...
— Atire com o m aior silenciador de 11 cents de nossos tem pos — disse Luckm an e arrotou.
Estou lascado, pensou Robert Arctor.
Ele estava deitado sozinho à m eia-luz de seu quarto, de costas, olhando carrancudo para o nada. Debaixo do travesseiro tinha o revólver .32 especial da polícia; ao som do .22 de Barris sendo disparado no quintal, ele por reflexo pegou a própria arm a sob a cam a e a colocou em um lugar m ais fácil de alcançar. Um m ovim ento seguro, contra todo e qualquer perigo; nem precisava pensar nele conscientem ente.
Mas o .32 sob o travesseiro não seria m uito bom contra algo tão indireto com o sabotagem de seu bem m ais precioso e caro. Assim que chegou em casa, depois do relatório com Hank, ele verificou todos os outros aparelhos e viu que estava tudo bem — especialm ente o carro, sem pre o carro prim eiro — num a situação dessas. O que quer que acontecesse, pelo que fosse que passasse, seria um a covardia e um a trapaça: um suj eito sem integridade ou coragem escondido na periferia de sua vida, dando tiros nele a esm o, de um a posição oculta e segura. Não um a pessoa, porém m ais um a espécie de sintom a am bulante e escondido de seu j eito de viver.
Houve um a época, antigam ente, quando ele não vivia assim , com um .32 debaixo do travesseiro, um lunático nos fundos disparando um a pistola Deus sabe por quê, outro m aluco ou talvez o m esm o colocando em curto um a im pressão encefálica dele m esm o em um cefscópio inacreditavelm ente caro e valioso que todo m undo na casa, além de todos os am igos, adorava e do qual desfrutava. Antigam ente Bob Arctor cuidava de suas coisas de form a diferente: havia um a esposa, com o m uitas outras esposas, duas filhas pequenas, um a casa estável que era varrida, lim pa e esvaziada diariam ente, os j ornais antigos sequer abertos levados da calçada da frente para a lata de lixo ou até, às vezes, lidos. Mas um dia, enquanto pegava um a pipoqueira elétrica debaixo da pia, Arctor bateu a cabeça na quina de um arm ário de cozinha que estava bem acim a dele. A dor, o corte no couro cabeludo, tão inesperado e inj usto, por algum m otivo elim inou as teias de aranha. Ele entendeu de im ediato que não odiava o arm ário da cozinha: odiava a esposa, as duas filhas, toda a casa, o quintal com o aparador de gram a elétrico, a garagem , o sistem a de aquecim ento, o j ardim , a cerca, toda a porra do lugar e tudo o que havia nele. Ele quis o divórcio, ele quis se separar. E assim fez logo em seguida. E entrou, aos poucos, em um a vida nova e som bria, em que tudo isso estava ausente.
Provavelm ente ele devia ter se arrependido da decisão que tom ou. Ele não se arrependera. Aquela vida não tinha entusiasm o, não tinha aventura. Era segura dem ais. Todos os elem entos que a caracterizavam estavam bem diante dos olhos dele e não se podia esperar nada de novo. Certa vez, ele pensou que era com o um barquinho de plástico que navegaria para sem pre, sem incidentes, até que finalm ente afundasse, o que seria um alívio secreto para todos.
Mas, nesse m undo escuro em que ele agora vivia, coisas feias, coisas surpreendentes e de vez em quando coisas assom brosas caíam em cim a dele constantem ente; ele não podia confiar em nada. Com o os danos deliberados e cruéis a seu cefalocrom oscópio Altec, em torno do qual ele construiu a parte prazerosa de sua vida, a parte do dia em que todos relaxavam e se acalm avam . Não tinha sentido alguém destruir isso, se visto racionalm ente. Mas não havia m uito em m eio a essas longas som bras escuras da noite que fosse verdadeiram ente racional, pelo m enos no sentido estrito. O ato m isterioso podia ter sido com etido por qualquer um , por quase qualquer m otivo. Por qualquer pessoa que ele conhecesse ou tivesse encontrado. Qualquer um a das oito dúzias de esquisitões, doidões variados, drogados fodidos, paranóicos psicóticos com ressentim entos alucinatórios dem onstrados na realidade e não na fantasia. Alguém , na verdade, que ele nunca vira. Que o escolhera aleatoriam ente da lista telefônica.
Ou seu am igo m ais íntim o.
Talvez Jerry Fabin, pensou ele, antes de o levarem daqui. Era um a casca seca e ferrada, envenenado. Ele e seus bilhões de afídios. Culpando Donna — culpando todas as m ulheres, na verdade — por “contam inarem -no”. A bicha. Mas, pensou ele, se Jerry tivesse de pegar alguém , teria sido Donna e não eu. Ele pensou: “E eu duvido de que Jerry soubesse com o retirar a placa da base da unidade; ele podia tentar, m as ainda estaria ali agora, abrindo e fechando o m esm o parafuso. Ou ia tentar tirar a placa com um m artelo.” De qualquer form a, se Jerry Fabin tivesse feito isso, a unidade estaria cheia de ovos de inseto, que cairiam dela. Dentro de sua cabeça, Bob Arctor sorriu de um j eito pervertido.
Pobre fodido, pensou ele, e seu sorriso íntim o desapareceu. Pobre filho-da-m ãe: depois que quantidades vestigiais de m etais pesados com plexos entraram no cérebro dele — bom , isso acabou com ele. Mais um em um a longa linha, um a entidade m elancólica entre m uitas outras iguais a ele, um núm ero quase interm inável de retardados com o cérebro arruinado. A vida biológica continua, pensou ele. Mas a alm a, a m ente — todo o resto está m orto. Um a m áquina de reflexos. Com o um inseto. Repetindo padrões determ inados, um único padrão, agora sem parar. Adequados ou não.
É incrível que ele fosse assim , refletiu ele. Não conhecia Jerry por m uito tem po. Charles Freck afirm ou que antes Jerry estava m uito bem . Eu precisava ver isso, pensou Arctor, para acreditar.
Talvez eu deva contar a Hank sobre a sabotagem no m eu cefscópio, pensou ele. Eles iam saber de im ediato o que isso im plica. Mas o que podem fazer por m im ? Esse é o risco que se corre quando se faz esse tipo de trabalho.
Não vale tudo isso, esse trabalho, pensou ele. Nem por todo o dinheiro da porra do planeta. Mas não era pelo dinheiro, de qualquer form a. “Com o é que você faz esse troço?”, perguntou Hank a ele. O que qualquer hom em , nesse tipo de trabalho, sabia sobre seus verdadeiros m otivos? Tédio, talvez, o desej o de um pouco de ação. Hostilidade secreta com relação a todos em volta dele, todos os am igos, até com relação às m ulheres. Ou um m otivo positivo horrível: ter observado um ser hum ano que você am ou profundam ente, de quem era realm ente íntim o, que abraçou e com quem dorm iu, que beij ou e com quem se preocupou, am parou e, acim a de tudo, adm irou — ver a pessoa generosa e viva arder a partir de dentro, queim ar do coração para fora. Até que ficou estalando feito um inseto, repetindo um a frase sem parar. Um a gravação. O ciclo com pleto de um a fita.
“... Eu sei que se eu conseguisse outra dose...”
Eu ia ficar bem , pensou ele. E, ainda dizendo isso, com o Jerry Fabin, quando três quartos do cérebro eram um m ingau.
“... eu sei, se eu tivesse só outra dose, que m eu cérebro ia se consertar sozinho.”
E aí ele teve um a idéia: o cérebro de Jerry Fabin com o a fiação fodida do cefalocrom oscópio: fios cortados, curto-circuito, fios torcidos, peças sobrecarregadas e im prestáveis, oscilações de corrente, fum aça e um cheiro ruim . E alguém sentado lá com um voltím etro, seguindo o circuito e m urm urando: “Cara, precisa trocar um m onte de resistores e condensadores” e assim por diante. E finalm ente sairia de Jerry Fabin um zum bido de 60 ciclos. E eles desistiriam .
E na sala de Bob Arctor seu cefscópio de m il dólares produzido pela Altec, depois de supostam ente consertado, lançaria em um pontinho na parede em cinza baço:
EU SEI QUE SE CONSEGUISSE
SÓ MAIS UMA DOSE...
Depois disso eles atirariam o cefscópio, destruído e sem conserto, e Jerry Fabin, destruído e sem conserto, na m esm a lata de lixo.
Ah, bem , pensou ele. Quem precisa de Jerry Fabin? A não ser talvez Jerry Fabin, que antigam ente im aginava proj etar e m ontar um sistem a de console som -e-TV de quase três m etros com o presente para um am igo, e quando indagado sobre com o ia tirá-lo de sua garagem e colocar na casa do am igo, sendo tão im enso quando m ontado e pesando tanto, ele respondeu: “Tudo bem , cara, eu vou dobrá-lo — j á com prei as dobradiças para ele — dobrar, entendeu, dobrar a coisa toda, colocar num envelope e m andar pelo correio pra ele.”
De qualquer form a, pensou Bob Arctor, não íam os ter de ficar varrendo afídios da casa depois de Jerry ter se ausentado. Ele teve vontade de rir ao pensar nisso; um a vez eles inventaram — principalm ente Luckm an, porque era bom nisso, divertido e inteligente — um a explicação psiquiátrica para a viagem de afídios de Jerry. Tinha a ver, naturalm ente, com Jerry Fabin quando criança. Jerry Fabin, vej a só, chega da escola prim ária um dia, com os livrinhos debaixo do braço, assoviando alegrem ente e, de repente, sentado na sala de j antar, ao lado da m ãe, há um grande afídio, de m ais de um m etro de altura. A m ãe está olhando para ele com afeto.
— O que está acontecendo? — pergunta o pequeno Jerry Fabin.
— Este é seu irm ão m ais velho — diz a m ãe —, que você ainda não conhecia. Ele veio m orar conosco. Eu gosto m ais dele do que de você. Ele sabe fazer um m onte de coisas que você não sabe.
E, a partir daí, a m ãe e o pai de Jerry Fabin com paravam -no continuam ente e de form a desfavorável com o irm ão m ais velho, que é um afídio. À m edida que os dois cresceram , Jerry adquiriu aos poucos um com plexo de inferioridade cada vez m aior — naturalm ente. Depois do secundário, o irm ão recebeu um a bolsa de estudos para a universidade, enquanto Jerry foi trabalhar no posto de gasolina. Depois disso, o irm ão afídio tornou-se m édico ou cientista fam oso, ganhou o prêm io Nobel; Jerry ainda estava girando pneus no posto de gasolina, ganhando um dólar e m eio por hora. A m ãe e o pai nunca deixam de lem brá-lo disso. Eles falam sem parar:
“Se ao m enos você pudesse ser com o o seu irm ão.”
Por fim , Jerry foge de casa. Mas subconscientem ente ele ainda acredita que os afídios são superiores a ele. No início, im agina que está seguro, m as com eça a ver afídios em toda parte do cabelo e pela casa, porque seu com plexo de inferioridade se transform ou num a espécie de culpa sexual e os afídios são um castigo que ele se inflige etc.
Agora isso não parecia engraçado. Agora que Jerry tinha sido arrastado no m eio da noite a pedido dos próprios am igos. Eles m esm os, todos presentes com Jerry naquela noite, decidiram fazer isso; não podia ser adiado nem evitado. Jerry, naquela noite, tinha em pilhado cada m aldito obj eto da casa contra a porta da frente, inclusive sofás, cadeiras, a geladeira e o aparelho de TV, e depois disse a todos que um afídio gigante e superinteligente de outro planeta estava lá fora preparando-se para invadir e pegá-lo. E outros pousariam m ais tarde, m esm o que ele conseguisse pegar esse. Esses afídios extraterrestres eram m uito m ais inteligentes do que qualquer ser hum ano e atravessariam as paredes, se necessário, revelando seus poderes secretos dessa m aneira. Para se salvar pelo m áxim o de tem po possível, ele tinha de encher a casa de gás de cianeto, o que estava preparado para fazer. Com o estava preparado para fazer isso? Ele j á havia vedado portas e j anelas. Depois propôs abrir as torneiras de água na cozinha e no banheiro, inundando a casa, dizendo que o tanque de água quente na garagem estava cheio de cianeto e não de água. Ele sabia disso havia m uito tem po e estava poupando isso para o final, com o um a últim a defesa. Todos eles se m atariam , m as pelo m enos se livrariam dos afídios superinteligentes.
Os am igos telefonaram para a polícia, a polícia irrom peu pela porta da frente e arrastou Jerry para a Clínica A. F. A últim a coisa que Jerry disse a eles foi: “Levem m inhas coisas depois... levem m eu casaco novo com as m içangas nas costas.” Ele tinha acabado de com prar. Era do que ele m ais gostava, achava que todo o resto que possuía estava contam inado.
Não, pensou Bob Arctor, não parecia engraçado agora, e ele se perguntou por que achou graça antes. Talvez tivesse origem no m edo, o m edo pavoroso que todos sentiram nas últim as sem anas perto de Jerry Às vezes, à noite, segundo Jerry dizia a eles, ele rondava pela casa com um a arm a, sentindo a presença de um inim igo. Preparando-se para atirar prim eiro, antes de ser alvej ado. Isto é, os dois.
E agora, pensou Bob Arctor, eu tenho um inim igo. Ou cheguei no rabo dele: sinais dele. Outro doidão piegas em seus últim os estágios, com o Jerry E quando batem os últim os estágios dessa m erda, pensou ele, ela realm ente bate. Melhor do que qualquer Ford ou GM especial j á patrocinado no horário nobre da TV.
Um a pancada na porta do quarto.
Tocando a arm a debaixo do travesseiro, ele pergunta:
— Que é?
Murm ura-m urm ura a voz de Barris.
— Entra — disse Arctor. Ele estende a m ão para acender um abaj ur na m esa-de-cabeceira.
Barris entrou, os olhos cintilando.
— Ainda acordado?
— Acordei com um sonho — disse Arctor. — Um sonho religioso. Nele teve um enorm e estrondo de trovão. De repente os céus se abriram e Deus apareceu e a voz Dele trovej ou para m im ... o que diabos Ele disse m esm o?... ah, sim : “Eu estou contrariado com você, m eu filho.” Ele disse. Ele estava carrancudo. Eu estava trem endo, no sonho, e olhei para cim a e disse: “O que eu faço agora, Senhor?” E Ele disse: “Você deixou a pasta de dentes destam pada de novo.” E depois percebi que era m inha ex-m ulher.
Sentando-se, Barris colocou a m ão em cada um dos j oelhos cobertos de couro, alisou-se, sacudiu a cabeça e confrontou Arctor. Ele parecia estar de excelente hum or.
— Bom — disse ele, anim ado —, eu tenho um a teoria inicial sobre quem pode ter destruído sistem aticam ente e com m aldade seu cefscópio e pode fazer isso de novo.
— Se vai dizer que foi Luckm an...
— Escute — disse Barris, balançando-se de agitação. — E-e-e se eu te dissesse que previ faz sem anas um defeito grave em um dos aparelhos da casa, especialm ente um caro e difícil de consertar? Minha teoria anunciou que isso ia acontecer! É um a confirm ação de toda a m inha teoria!
Arctor olhou para ele.
Afundando lentam ente, Barris reassum iu a calm a e o sorriso lum inoso.
— Você — disse ele, apontando.
— Acha que eu fiz isso — disse Arctor. — Estraguei m eu próprio cefscópio, sem ter seguro nenhum . — O desgosto e a raiva avultaram nele. E era tarde da noite, ele precisava dorm ir.
— Não, não — disse Barris rapidam ente, parecendo aflito. — Você está procurando pela pessoa que fez isso. Que barbarizou seu cefscópio. Essa era a frase com pleta que eu queria dizer, que não pude term inar.
— Você fez isso? — Desorientado, ele encarou Barris, cuj os olhos estavam som brios, num a espécie de triunfo obscuro. — Por quê?
— Quer dizer, segundo m inha teoria, eu fiz — disse Barris. — Sob sugestão hipnótica, evidentem ente. Com um bloqueio am nésico para eu não poder m e lem brar. — Ele com eçou a rir.
— Mais tarde a gente fala sobre isso — disse Arctor e desligou o abaj ur. — Bem m ais tarde.
Barris se levantou, trem endo.
— Olhe, você não entende? Eu tenho as habilidades eletrônicas e técnicas especializadas e avançadas e eu tenho acesso a ele... eu m oro aqui. Mas o que não consigo entender é o m eu m otivo.
— Você fez isso porque é m aluco — disse Arctor.
— Talvez eu tenha sido contratado por forças secretas — m urm urou Barris, perplexo. — Mas quais seriam os m otivos deles? Talvez para criar suspeita e problem as entre nós, para causar dissensão e nos separar, levando-nos a brigar, todos nós, sem ter certeza de em quem confiar, quem é nosso inim igo e coisas assim .
— Então eles conseguiram — disse Arctor.
— Mas por que querem fazer isso? — Barris estava falando enquanto ia para a porta; suas m ãos se agitavam com urgência. — Tanto trabalho... retirar aquela placa na base, conseguir a senha para a porta da frente...
Vou ficar feliz, pensou Bob Arctor, quando conseguirm os os holo-scanners e os instalarm os em toda esta casa. Ele tocou a arm a, sentiu-se tranqüilizado, depois se perguntou se devia se certificar de que ainda estava carregada. Mas então, percebeu ele, vou im aginar que o percussor sum iu ou que a pólvora foi retirada das balas e assim por diante, repetidam ente, obsessivam ente, com o um garotinho contando rachaduras na calçada para reduzir o m edo. O pequeno Bobby Arctor, voltando da escola com seus livrinhos, assustado com o desconhecido que tinha à frente.
Abaixando a m ão, ele tateou na cam a, prosseguindo até que os dedos tocaram a fita adesiva. Puxando, ele a tirou, com Barris ainda no quarto e olhando, dois tabletes de Substância D batizados com quaak. Levando-os à boca, ele os atirou na garganta, sem água, e depois deitou-se, suspirando.
— Cai fora — disse ele a Barris.
E dorm iu.