O Homem Duplo

Philip K. Dick · Capítulo 6 de 18

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O Homem Duplo

Capítulo 5

5

 

Era necessário que Bob Arctor estivesse fora de casa por algum tem po para que ela fosse

adequadam ente (o que significa infalivelm ente) gram peada, inclusive o telefone, em bora as ligações telefônicas fossem gravadas de outro lugar. Em geral, o procedim ento consistia em observar a casa envolvida até que vissem todos saírem , de form a a sugerir que não iam voltar logo. As autoridades às vezes tinham de esperar dias ou até várias sem anas. Por fim , se nada m ais funcionasse, arranj ava-se um pretexto: os m oradores eram inform ados de que um fum igador ou um a dessas personalidades sem im portância ia aparecer por toda um a tarde e todos teriam de sair até, digam os, às 18 horas.

Mas, nesse caso, o suspeito Robert Arctor saiu obsequiosam ente de casa, levando os dois am igos, para ver um cefalocrom oscópio que poderiam usar até que Barris estivesse trabalhando novam ente. Os três foram vistos saindo no carro de Arctor parecendo sérios e decididos. Mais tarde, em um local conveniente, que era um telefone público de um posto de gasolina, usando a grade de áudio de seu traj e m isturador, Fred ligaria para relatar que não haveria absolutam ente ninguém em casa pelo resto do dia. Ele ouvira os três hom ens decidindo atravessar todo o cam inho até San Diego em busca de um cefscópio barato e roubado que um cara tinha para vender por cinqüenta pratas. Um a bagatela. Esse preço valia a longa viagem de carro e todo o tem po consum ido.

Além de tudo, com isso as autoridades tiveram a oportunidade de fazer algum a busca ilegal, além do que seu pessoal disfarçado fazia quando ninguém estava vendo. Eles

abriram gavetas do escritório para ver o que estava colado no fundo. Tiraram lâm padas de lum inárias para ver se surgiam centenas de tabletes. Olharam dentro de privadas para ver que tipo de pacotinhos em papel higiênico abrigavam -se fora de vista, onde a água corrente autom aticam ente os descarregaria. Olharam o congelador para ver se alguns pacotes de ervilhas e feij ões congelados continham droga congelada, m arcados dissim uladam ente. Enquanto isso, os com plicados holo-scanners eram m ontados, com os policiais sentados em vários lugares para testar os scanners. O m esm o fizeram com os dispositivos de áudio. Mas a parte do vídeo era m ais im portante e levou m ais tem po. E é claro que os scanners não deveriam ficar visíveis. Era preciso habilidade para m ontá-los. Vários locais tinham de ser testados. Os técnicos que faziam isso eram bem pagos, porque, se errassem e m ais tarde um holo-scanner fosse detectado por um ocupante da casa, todos os ocupantes saberiam que foram invadidos e estavam sob vigilância e m oderariam suas atividades. E além disso eles às vezes arrancavam todo o sistem a de varredura e o vendiam .

Fora difícil nos tribunais, refletia Bob Arctor enquanto ia para o sul pela San Diego Freeway, conseguir condenações por roubo e venda de dispositivos de detecção eletrônica instalados ilegalm ente na casa de um a pessoa. A polícia só podia fazer o flagrante em outro lugar, por outra violação dos estatutos. Porém , os traficantes, em um a situação análoga, reagiam diretam ente. Ele se lem brava de um caso em que um traficante de heroína, para ferrar um a garota, plantara dois pacotes de heroína no punho do ferro de passar, depois telefonou para o WE TIP, o serviço de denúncias anônim as, com um a dica sobre ela. Antes que a denúncia pudesse ser com provada, a garota encontrou a heroína, m as, em vez de se livrar da droga, ela a vendeu. A polícia chegou, não encontrou nada, fez um a im pressão vocal da denúncia telefônica e prendeu o traficante por dar inform ações falsas às autoridades. Fora da cadeia, o traficante visitou a garota de m adrugada e quase a m atou por espancam ento. Quando preso e indagado por que tinha arrancado um dos olhos e quebrado os dois braços e várias costelas da garota, ele explicou que ela havia encontrado dois pacotes de heroína que pertenciam a ele, vendera-os por um bom lucro e não dividira a grana com ele. Essa, refletiu Arctor, era a m entalidade de um traficante.

Ele largou Luckm an e Barris para fingir que ia roubar o cefscópio; isso não só prenderia os dois hom ens e evitaria que voltassem para casa enquanto continuava a instalação dos gram pos com o perm itiria que Bob verificasse um a pessoa que não via por m ais de um m ês. Ele raras vezes agia desse j eito, e a garota parecia não estar fazendo nada além de inj etar m etanfetam ina duas ou três vezes ao dia e se vender para pagar pela droga. Ela m orava com o traficante, que portanto era tam bém o cara dela. Em geral, Dan Mancher passava o dia fora, o que era bom . O traficante era tam bém viciado, m as Arctor não conseguira saber em quê. Evidentem ente num a variedade de drogas. De qualquer form a, o que quer que fosse, Dan tinha ficado estranho e perverso, im previsível e violento. Era surpreendente que a polícia não o tivesse apanhado havia m uito tem po por perturbação da paz. Talvez estivessem recebendo algum por fora. Ou, o que era m ais provável, eles sim plesm ente não se im portavam ; essas pessoas viviam em um a área de cortiços, entre cidadãos idosos e outros pobres. A polícia só entrava quando ocorriam crim es graves no conj unto de prédios, estacionam entos, ruas de cascalho da Crom well Village e de lixeiras sem elhantes.

Parecia não haver nada que contribuísse m ais para a im undície do que um m onte de estruturas em blocos de basalto proj etadas para tirar as pessoas da im undície. Ele estacionou, encontrou a escada certa fedida a urina, subiu no escuro, encontrou a porta do Prédio 4 m arcada com um G. Um a lata cheia de soda cáustica Drãno estava diante da porta e ele a pegou autom aticam ente, im aginando que m uitas crianças brincavam aqui e se lem brando, por um m om ento, das próprias filhas e da atitude protetora que assum ira por elas durante anos. Agora estava tendo um a atitude dessas, pegando a lata. Ele bateu na porta com ela.

Rapidam ente a fechadura da porta estalou e a porta se abriu, com a corrente passada por dentro; a garota, Kim berly Hawkins, espiou.

— Sim ?

— Oi, e aí? — disse ele. — Sou eu, Bob.

— O que você tem aí?

— Um a lata de Drãno — disse ele.

— Tá brincando. — Ela destravou a porta de form a apática; a voz dela tam bém era apática. Kim berly estava m al, ele podia ver: bem m al. Além disso, a garota estava com um olho roxo e o lábio cortado. E enquanto olhavam em volta, ele viu que as j anelas do apartam ento pequeno e bagunçado estavam quebradas. Havia cacos de vidro no chão, j unto com cinzeiros virados e garrafas de Coca-Cola.

— Está sozinha? — perguntou ele.

— Tô. Dan e eu brigam os e ele saiu. — A garota, m eio chicana, baixa e não m uito bonita, com a pele insípida de um a viciada em bolinha, olhou para baixo cegam ente e ele percebeu que a voz dela raspava quando ela falava. Algum as drogas faziam isso. E tam bém garganta inflam ada. O apartam ento não devia ter aquecim ento, não com as j anelas quebradas.

— Ele bateu em você. — Arctor pôs a lata de Drãno num a prateleira alta, em cim a de alguns rom ances pornôs em brochura, a m aioria antiga.

— Bom , ele não estava com a faca, graças a Deus. A faca Case, que ele agora usa num a bainha no cinto. — Kim berly se sentou em um a poltrona que cuspia enchim ento. — O que você quer, Bob? Eu estou na pior, de verdade.

— Quer que ele volte?

— Bom ... — Ela trem eu um pouco. — Quem sabe?

Arctor foi até a j anela e olhou para fora. Dan Mancher

sem dúvida apareceria cedo ou tarde: a garota era um a fonte de dinheiro e Dan sabia que ela ia precisar de doses regulares depois de que o suprim ento acabasse.

— Quanto tem po você agüenta? — perguntou ele.

— Mais um dia.

— Pode conseguir em outro lugar?

— Posso, m as não tão barato.

— Qual é o problem a com a sua garganta?

— Um a gripe — disse ela. — Do vento que entra aqui.

— Você devia...

— Se eu for a um m édico — disse ela —, ele vai ver que estou cheia de bolinha. Não posso ir.

— Um m édico não ia ligar.

— É claro que ia. — Ela o ouviu, o som do escapam ento do carro, irregular e alto. — É o carro do Dan? O Ford Torino verm elho 79?

Na j anela, Arctor olhou o estacionam ento im undo, viu um Torino verm elho e batido parando, os canos de descarga duplos exalando fum aça escura, a porta do m otorista se abrindo.

-É.

Kim berly trancou a porta: duas trancas extras.

— Ele deve estar com a faca.

— Você tem telefone?

— Não — disse ela.

— Devia ter um telefone.

A garota deu de om bros.

— Ele vai te m atar — disse Arctor.

— Agora não. Você está aqui.

— Mas depois, quando eu for em bora.

Kim berly voltou a se sentar e deu de om bros de novo.

Depois de alguns segundos, eles ouviram passos do lado de fora e um a batida na porta. E então Dan gritou para ela abrir a porta. Ela gritou que não e que estava com alguém ali.

— Tudo bem — gritou Dan, num a voz aguda —, vou cortar seus pneus. — Ele desceu correndo e Arctor e a garota viram pela j anela quebrada j untos enquanto Dan Mancher, um cara m agrelo, de cabelo curto e que parecia hom ossexual, acenar com um a faca, aproxim ar-se do carro dela, ainda gritando para ela, as palavras audíveis a todos no conj unto habitacional.

— Vou cortar seus pneus, a porra dos seus pneus! E depois vou te m atar! — Ele se curvou e cortou prim eiro um pneu e depois outro do Dodge velho da garota.

Kim berly de repente despertou, disparou para a porta do apartam ento e com eçou freneticam ente a abrir as várias trancas.

— Preciso parar o Dan! Ele está cortando todos os m eus pneus! Eu não tenho seguro!

Arctor a deteve.

— Meu carro está aqui. — Ele não estava arm ado, é claro, e Dan tinha a faca Case e estava descontrolado. — Pneus não são...

— Meus pneus! — Guinchando, a garota lutava para abrir a porta.

— E o que ele quer que você faça — disse Arctor.

— Lá em baixo. — Ofegou Kim berly. — Podem os telefonar para a polícia... eles têm telefone. Me deixa sair! — Ela o afastou com um a força trem enda e conseguiu abrir a porta.

— Vou ligar para a polícia. Meus pneus! Um deles é novo!

— Eu vou com você. — Ele a agarrou pelo om bro; ela tropeçou na frente dele na escada e ele m al conseguiu acom panhá-la. Ela j á havia alcançado o apartam ento seguinte e estava batendo na porta.

— Abra, por favor! — gritou ela. — Por favor, quero cham ar a polícia! Por favor, m e deixe ligar para a polícia!

Arctor se colocou atrás dela e bateu.

— Precisam os usar seu telefone — disse ele. — E um a em ergência.

Um idoso, vestindo suéter cinza, calças form ais com vinco e gravata, abriu a porta.

— Obrigado — disse Arctor.

Kim berly entrou, correu ao telefone e discou para a telefonista. Arctor ficou parado de frente para a porta, esperando que Dan aparecesse. Não havia qualquer som agora, a não ser de Kim berly balbuciando com a telefonista: um relato deturpado, algo sobre um a briga a respeito de um par de botas que valia sete dólares.

— Ele disse que eram dele porque eu com prei para ele no Natal — ela tagarelava —, m as eram m inhas porque eu paguei por elas e depois ele com eçou a pegá-las e eu arranhei as costas delas com um abridor de latas, então ele... — ela se interrom peu; depois, assentindo: — Tudo bem , obrigada. Sim , vou esperar.

O idoso olhou para Arctor, que olhou para ele. No côm odo ao lado, um a senhora idosa de vestido estam pado observava em silêncio, o rosto enrij ecido de m edo.

— Deve ser ruim para vocês — disse Arctor aos dois idosos.

— Acontece o tem po todo — disse o velho. — Nós ouvim os esses dois a noite toda, noite após noite, brigando, e ele dizendo o tem po todo que vai m atá-la.

— Devíam os ter voltado para Denver — disse a idosa. — Eu lhe disse isso, devíam os ter voltado para lá.

— Essas brigas horríveis — disse o idoso. — E coisas quebrando e o barulho. — Ele olhou para Arctor, m agoado, talvez apelando por aj uda, ou talvez com preendendo. — Sem parar, o tem po todo, e depois, o que é pior, sabe que toda vez...

— Sim , conte a ele — instou a idosa.

— O que é pior — disse o idoso com dignidade — é que toda vez que saím os, sem pre que vam os fazer com pras ou vam os ao correio, pisam os em ... sabe no quê, o que os cachorros fazem .

— Os cachorros fazem — disse a idosa, indignada.

O carro da polícia chegou. Arctor depôs com o testem unha, sem se identificar com o agente da lei. O policial pegou o depoim ento dele e tentou pegar o de Kim berly, com o parte queixosa, m as o que ela dizia não fazia sentido; ela tagarelava repetidam ente sobre as botas e por que as pegara, o quanto significavam para ela. O policial, sentado com a prancheta e o papel, olhou um a vez para Arctor e considerou-o com um a expressão fria que Arctor não conseguiu interpretar, m as de que não gostou nem um pouco. O policial por fim aconselhou Kim berly a instalar um telefone e ligar se o suspeito voltasse e causasse m ais algum problem a.

— Anotou os pneus cortados? — disse Arctor enquanto o policial ia em bora. — Exam inou o veículo no estacionam ento e anotou pessoalm ente o núm ero de pneus cortados, os invólucros rasgados com um instrum ento cortante, feito recentem ente... ainda está escapando ar?

O policial olhou de novo para ele com a m esm a expressão e saiu sem fazer com entário.

— É m elhor você não ficar aqui — disse Arctor a Kim berly. — Ele devia ter te aconselhado a dar o fora. Devia ter perguntado se havia outro lugar para você ficar.

Kim berly se sentou no sofá puído da sala im unda, os olhos apáticos novam ente, agora que acabara o esforço inútil de tentar explicar sua situação ao investigador. Ela deu de om bros.

— Eu te levo a algum lugar — disse Arctor. — Sabe de algum am igo onde possa...

— Dá o fora daqui, porra! — disse Kim berly abruptam ente, com rancor, num tom de voz parecido com o de Dan Mancher, só que m ais áspero. — Dá o fora daqui, Bob

Arctor... Cai fora, cai fora, que m erda! Vai cair fora? — A voz dela se elevou e depois se interrom peu de desespero.

Ele saiu e desceu lentam ente a escada, degrau por degrau. Quando chegou à base, algo bateu e rolou atrás dele: era a lata de Drãno. Ele a ouviu fechar a porta, um a tranca após a outra. Trancas inúteis, pensou ele. Tudo inútil. Com o pode ficar assim , sem sair do apartam ento? E Dan Mancher ia esfaqueá-la com o fez com os pneus. E — lem brando-se da queixa dos velhos do andar de baixo — ela provavelm ente vai dar o prim eiro passo e depois cair m orta na m erda de cachorro. Ele se sentia com o se risse histericam ente das prioridades dos velhos; não só tinham um doidão ferrado no andar de cim a noite após noite espancando e am eaçando m atar, e talvez logo m atasse, um a j ovem viciada que se prostituía e que sem dúvida tinha inflam ado a garganta, se não m uito m ais além disso, m as além disso...

Enquanto levava Luckm an e Barris de carro para o norte, ele riu em voz alta.

— Merda de cachorro — disse ele. — Merda de cachorro.

- Hum or sobre m erda de cachorro, pensou ele, vej a se dá para entender isso! Merda de cachorro engraçada.

— É m elhor trocar de pista e passar aquele cam inhão da Safeway — disse Luckm an. — O grandalhão m al está andando.

Ele passou para outra pista, à esquerda, e ganhou velocidade. Mas então, quando tirou o pé do acelerador, o pedal desabou no carpete do piso, ao m esm o tem po o m otor roncou furiosam ente e o carro disparou para a frente num a velocidade louca e enorm e.

— Reduz! — gritaram Luckm an e Barris j untos.

Agora o carro tinha chegado a quase 160 por hora; à

frente, avultou-se um a van VW. O pedal do acelerador estava m orto: não voltava e não fazia nada. Luckm an, que estava sentado ao lado dele, e Barris, atrás, atiraram os braços para cim a, por instinto. Arctor girou o volante e passou pela van VW, à esquerda, onde havia um espaço lim itado antes de um Corvette preenchê-lo. O Corvette buzinou e eles ouviram o freio guinchar. Agora Luckm an e Barris estavam gritando; Luckm an de repente estendeu a m ão e desligou a ignição; enquanto isso, Arctor passava a m archa para ponto m orto. O carro reduziu e ele freou, passou para a pista à direita e depois, com o m otor finalm ente m orto e a transm issão interrom pida, seguiu até um recuo de em ergência e foi reduzindo até parar.

O Corvette, j á bem distante na rua, ainda buzinava sua indignação. E agora o cam inhão gigantesco da Safeway passou por eles e por um m om ento ensurdecedor soou sua própria buzina de alerta.

— Que diabos aconteceu? — disse Barris.

Arctor, com as m ãos, a voz e todo o resto trem endo, disse:

— O recuo de m ola no cabo do acelerador. Deve ter travado ou quebrou. — Ele apontou para baixo. Todos olharam para o pedal, que ainda estava encostado no piso. O m otor tinha girado até a rotação m áxim a, o que para esse carro era considerável. Não atingira sua m ais alta velocidade na estrada, provavelm ente bem m ais de 160. E, percebeu ele, em bora ele tivesse pisado nos freios por reflexo, o carro só reduziu.

Silenciosam ente, os três saíram para a pista de em ergência e ergueram o capô. Um a fum aça branca saía da tam pa do óleo e tam bém de baixo. E a água quase fervente chiava do bico transbordante do radiador.

Luckm an estendeu a m ão para o m otor e apontou.

— Não foi a m ola — disse ele. — É a união do pedal com o carburador. Está vendo? Está partida. — A haste com prida estendia-se despropositadam ente no bloco, pendurada im potente e inútil com o parafuso ainda no lugar. — Então o pedal do acelerador não voltou quando você tirou o pé.

Mas... — Ele exam inou o carburador por um m om ento, com o rosto franzido.

— Tem um gram po de segurança no carburador — disse Barris, sorrindo e m ostrando os dentes que pareciam sintéticos. — Este sistem a, quando as peças de transm issão...

— Por que se partiu? — interrom peu Arctor. — Este parafuso não devia prender a porca? — Ele passou o dedo no parafuso. — Com o isso foi quebrar desse j eito?

Com o se não estivesse ouvindo, Barris continuou:

— Se por qualquer m otivo a união cede, o m otor deve m orrer. Com o fator de segurança. Mas, em vez disso, ele girou com pletam ente. — Ele se curvou para dar um a olhada m elhor no carburador. — Este parafuso foi totalm ente solto — disse ele. — O parafuso da transm issão. Então, quando a haste se soltou, a m archa foi para outro lado, para cim a, em vez de ir para baixo.

— Com o isso pôde acontecer? — disse Luckm an em voz alta. — O parafuso pode se soltar sozinho desse j eito, por acidente?

Sem responder, Barris pegou o canivete, abriu a pequena lâm ina e com eçou lentam ente a apertar o parafuso de aj uste da transm issão. Ele contou em voz alta. Vinte voltas do parafuso para colocá-la no lugar.

— Para afrouxar o parafuso e a porca que seguram as hastes de transm issão do acelerador — disse ele — seria necessária um a ferram enta especial. Na verdade, duas. Acho que vou levar um a m eia hora para colocar isso no lugar. Eu tenho as ferram entas na m inha caixa.

— Sua caixa de ferram entas ficou em casa — disse Luckm an.

— Sim . — Barris assentiu. — Então vam os ter de ir até um posto de gasolina e pegar a deles em prestada ou trazer o reboque deles aqui. Sugiro que eles venham aqui para olhar antes de dirigir este carro de novo.

— Ei, cara — disse Luckm an em voz alta —, isso aconteceu por acidente ou foi feito de propósito? Com o o cefscópio?

Barris ponderou, ainda dando seu sorriso ardiloso e triste.

— Não posso dizer com certeza. Norm alm ente, a sabotagem em um carro, o dano m aldoso para causar um acidente... — Ele olhou para Arctor, os olhos invisíveis por trás dos óculos de sol verdes. — Nós quase batem os. Se aquele Corvette estivesse vindo m ais rápido... quase não teve espaço. Você devia ter desligado a ignição assim que percebeu o que estava acontecendo.

— Eu coloquei o carro em ponto m orto — disse Arctor.

— Quando percebi. Por um segundo não consegui pensar em nada. — Ele pensou: se tivesse sido o freio, se o pedal de freio tivesse caído, eu teria entendido tudo antes, saberia m elhor o que fazer. Isso era tão... estranho.

— Alguém fez isso de propósito — disse Luckm an em voz alta. Ele andou em círculos, furioso, investindo com os dois punhos no ar. — MAS QUE PORRA! Nós quase m orrem os! Eles quase foderam a gente!

Barris, parado, visível ao lado da via expressa com todo o tráfego pesado zum bindo por eles, pegou um a caixinha de chifre com tabletes de m orte e tom ou vários. Ele passou a caixinha para Luckm an, que tom ou alguns, depois a passou para Arctor.

— Talvez sej a isso que estej a fodendo com a gente — disse Arctor, recusando, irritado. — Acabando com nosso cérebro.

— A droga não pode desparafusar um a transm issão de acelerador e o aj uste de carburador — disse Barris, ainda estendendo a caixinha para Arctor. — É m elhor tom ar pelo m enos três... são de prim eira, m as suaves. Batizadas com um pouco de m etanfetam ina.

— Sai pra lá com essa porcaria de caixinha — disse Arctor. Ele sentia, em seu cérebro, um a cantoria de vozes altas: um a m úsica horrível, com o se a realidade em torno dele tivesse ficado azeda. Agora tudo — os carros em alta velocidade, os dois hom ens, seu próprio carro com o capô erguido, o cheiro de fum aça, a luz quente e forte do m eio-dia —, tudo tinha certa rancidez, com o se o m undo dele tivesse apodrecido, em vez de qualquer outra coisa. Mas nem por isso ficou tudo perigoso ou assustador, m ais com o se apodrecesse, a visão, o som e o odor fedorentos. Deixou-o enj oado e ele fechou os olhos e teve arrepios.

— Está sentindo cheiro de quê? — perguntou Luckm an. — Um cheiro estranho, cara? Alguns m otores têm esse cheiro...

— Merda de cachorro — disse Arctor. Ele podia sentir o fedor, de dentro da área do m otor. Curvando-se, ele fungou, sentindo distintam ente seu cheiro, e m ais forte. Estranho, pensou ele. Mas que porra de coisa esquisita. — Estão sentindo cheiro de m erda de cachorro? — perguntou ele a Barris e Luckm an.

— Não — disse Luckm an, olhando para ele. Para Barris, ele disse: — Tem algum psicodélico nessa droga?

Barris, sorrindo, sacudiu a cabeça.

Enquanto estava curvado sobre o m otor quente, sentindo cheiro de m erda de cachorro, Arctor no fundo sabia que era um a ilusão, não havia cheiro de m erda de cachorro. Mas ele ainda sentia. E agora ele via, espalhadas pelo bloco do m otor, especialm ente em baixo das tam pas, m anchas m arrons escuras, um a substância feia. Óleo, pensou ele. Óleo vazado, óleo j ogado: pode ser que a j unta de vedação estej a vazando. Mas ele precisava estender a m ão e tocar para ter certeza, para fortalecer sua convicção racional. Seus dedos encontraram a m ancha m arrom pegaj osa e recuaram rapidam ente. Tinha passado os dedos em m erda de cachorro. Havia um a cam ada de m erda de cachorro em todo o bloco, por cim a dos cabos. Depois ele percebeu que tam bém estava no anteparo contra fogo. Olhando para cim a, ele a viu no revestim ento à prova de som do capô. O fedor o dom inou e ele fechou os olhos, trem endo.

— Ei, cara — disse Luckm an anim adam ente, segurando Arctor pelo om bro. — Está tendo um flashback, não é?

— Ingressos grátis para o teatro — concordou Barris e riu.

— É m elhor se sentar — disse Luckm an; ele guiou Arctor até o banco do m otorista e o colocou sentado ali. — Cara, você está m esm o doidão. Fica sentado aqui. Relaxa. Ninguém m orreu e agora estam os prevenidos. — Ele fechou a porta ao lado de Arctor. — Estam os bem agora, tá entendendo?

Barris apareceu na j anela e disse:

— Quer um pedaço de m erda de cachorro, Bob? Para m ascar?

Abrindo os olhos, sentindo frio, Arctor o encarou. As lentes de vidro verde de Barris não diziam nada, nenhum a pista. Será que ele realm ente disse aquilo?, perguntou-se Arctor. Ou foi invenção da m inha cabeça?

— Que foi, Jim ? — disse ele.

Barris com eçou a rir. E riu sem parar.

— Deixa ele em paz, cara — disse Luckm an, em purrando Barris para trás. — Vai se foder, Barris!

Arctor disse a Luckm an:

— O que ele acabou de dizer? Que diabos ele m e disse exatam ente?

— Eu não sei — disse Luckm an. — Nem im agino m etade das coisas que o Barris j oga pra cim a das pessoas.

Barris ainda sorria, m as agora em silêncio.

— Barris, seu canalha — disse Arctor a ele. — Eu sei que você fez isso, destruiu o cefscópio e agora o carro. Você fez essa porra, seu filho-da-puta m aluco e pervertido. — Ele m al ouvia a própria voz, m as, enquanto gritava para o sorridente Barris, aum entava o fedor m edonho de m erda de cachorro. Ele desistiu de tentar falar e ficou sentado ali, ao volante inútil de seu carro, esforçando-se para não vom itar. Graças a Deus Luckm an veio conosco, pensou ele. Ou hoj e tudo estaria acabado para m im . Tudo estaria acabado nas m ãos desse noj ento fodido, esse puto que m ora na m esm a casa que eu.

— Relaxa, Bob — a voz de Luckm an chegou a ele filtrada por ondas de náusea.

— Eu sei que foi ele — disse Arctor.

— Mas que droga, por quê? — Luckm an parecia estar dizendo ou tentando dizer. — Desse j eito, ele ia se m atar tam bém . Por quê, cara? Por quê?

O cheiro de Barris ainda sorrindo sobrepuj ou Arctor e ele vom itou no painel do carro. Mil vozinhas tiniam , irradiando para ele, e o cheiro finalm ente passou. Um as m il vozinhas gritando sua estranheza: ele não as entendia, m as pelo m enos conseguia enxergar e o cheiro tinha desaparecido. Ele trem eu e pegou o lenço no bolso.

— O que tinha naqueles tabletes que você nos deu? — perguntou Luckm an para o sorridente Barris.

— Merda, eu tam bém tom ei — disse Barris —, e você tam bém . E não deu bad trip na gente. Então não foi a droga. E foi cedo dem ais. Com o pode ter sido a droga? O estôm ago não pode absorver...

— Você m e envenenou — disse Arctor furiosam ente, sua visão quase nítida, a m ente clareando, a não ser pelo m edo. Agora o m edo tinha com eçado, um a reação racional, em vez de insana. Medo do que quase aconteceu, do que isso significava, m edo, m edo terrível, m edo de Barris sorridente e da porra da caixinha dele e das explicações dele e das coisas assustadoras que ele dizia e do j eito e dos hábitos e dos costum es e das idas e vindas dele. E da denúncia anônim a por telefone que ele fez para a polícia sobre Robert Arctor, do dispositivo vagabundo que ele usou para esconder a voz e que funcionara m uito bem . Só que tinha de ser Barris.

Bob Arctor pensou: O puto está no m eu pé.

— Nunca vi ninguém ficar chapado tão rápido — estava dizendo Barris —, m as...

— Está bem agora, Bob? — disse Luckm an. — Vam os lim par o vôm ito, não se preocupe. É m elhor ir para o banco traseiro. — Ele e Barris abriram a porta do carro; Arctor deslizou para fora, tonto. A Barris, Luckm an disse: — Tem certeza de que não deu nada a ele?

Barris ergueu as m ãos para o alto, em protesto.