O Homem Duplo

Philip K. Dick · Capítulo 2 de 18

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O Homem Duplo

Capítulo 1

1

Certa vez, um suj eito passou o dia todo sacudindo insetos do cabelo. O m édico disse a ele que não havia insetos em seu cabelo. Depois de tom ar um banho de oito horas, parado interm inavelm ente sob a água quente, sofrendo a dor dos insetos, ele saiu e se secou e ainda havia insetos no cabelo; na verdade, havia insetos em todo o corpo. Um m ês depois, ele tinha insetos nos pulm ões.

Sem nada m ais a fazer ou pensar, ele com eçou a tentar entender o ciclo vital dos insetos e, com a aj uda da Britannica, identificar especificam ente aqueles insetos. Agora eles enchiam a casa. Ele leu sobre m uitos tipos diferentes e por fim percebeu insetos do lado de fora, então concluiu que eram afídios. Depois que lhe ocorreu, essa conclusão não m udou, independentem ente do que os outros lhe dissessem , com o: “Os afídios não picam as pessoas.”

Eles diziam isso porque as picadas interm ináveis dos insetos o atorm entavam continuam ente. Na loj a 7-11, de um a cadeia espalhada pela m aior parte da Califórnia, ele com prou latas de spray de Raid, Black Flag e Yard Guard. Prim eiro ele borrifou a casa, depois a si m esm o. O Yard Guard pareceu funcionar m elhor.

No aspecto teórico, ele percebeu três estágios no ciclo dos insetos. Prim eiro, eles apareciam e o contam inavam por interm édio do que ele cham ava de “gente-correio”, que eram pessoas que não entendiam seu papel na distribuição dos insetos. Durante essa fase, os insetos não tinham m axilar nem m andíbula (ele aprendeu essa palavra durante as sem anas de pesquisa acadêm ica, um a ocupação incom um ente livresca para um cara que trabalhava na Handy Brake and Tire realinhando os tam bores de freios dos outros). A gente-correio, portanto, nada sentia. Ele costum ava se sentar no canto m ais distante da sala de estar para observar diferentes pessoas-correio entrarem — a m aioria delas ele conhecia havia algum tem po, m as algum as eram novas para ele — cobertas de afídios na fase específica em que não picavam . Ele m eio que sorria para si m esm o, porque sabia que a pessoa estava sendo usada pelos insetos e não se desesperava com isso.

— Do que está rindo, Jerry ? — diziam elas.

Ele se lim itava a rir.

Na fase seguinte, os insetos desenvolviam asas ou coisa parecida, m as na verdade não eram exatam ente asas; de qualquer m odo, eram um a espécie de apêndice funcional que lhes perm itia enxam ear e era assim que m igravam e se dissem inavam — em especial para ele. A essa altura o ar ficava cheio deles; deixavam a sala de estar e toda a casa nevoentas. Nessa fase, ele procurava não os inalar.

Acim a de tudo, ele lam entava pelo cachorro, porque podia ver os insetos pousando e se fixando em todo o corpo e provavelm ente entrando nos pulm ões do cão, com o entraram no dele próprio. Provavelm ente — pelo m enos lhe disse sua capacidade de ter em patia — o cachorro estava sofrendo tanto quanto ele. Será que devia expulsar o cão para ter conforto? Não, decidiu; agora o cachorro estava infestado sem querer e carregaria os insetos com ele a toda parte.

Às vezes, ele ficava debaixo do chuveiro com o cão, tentando lim par o cachorro tam bém . Não tinha m ais sucesso com ele do que consigo m esm o. Doía sentir o cão sofrer; ele nunca deixou de tentar aj udá-lo. De certa form a, essa era a pior parte, o sofrim ento do anim al, que não podia reclam ar.

— Que m erda você está fazendo o dia todo no chuveiro com a droga do cachorro? — perguntou seu am igo Charles Freck certa vez, aparecendo durante o banho.

Jerry disse:

— Tenho de tirar os afídios dele. — Ele tirou Max, o cachorro, do chuveiro e com eçou a secá-lo. Charles Freck observava, aturdido, enquanto Jerry esfregava óleo de bebê e talco no pêlo do cão. Por toda a casa, latas de spray inseticida, frascos de talco, óleo e condicionadores para bebê estavam em pilhados e j ogados, a m aioria vazia; ele agora usava m uitas latas por dia.

— Não estou vendo afídio nenhum — disse Charles. — Aliás, o que é um afídio?

— Um dia ele te m ata — disse Jerry. — Assim é um afídio. Eles estão no m eu cabelo, na m inha pele e nos m eus pulm ões e a m aldita dor é insuportável... vou ter de ir para o hospital.

— Com o é que eu não consigo vê-los?

Jerry baixou o cão, que estava enrolado num a toalha, e se aj oelhou no tapete puído.

-Vou te m ostrar um — disse ele. O tapete estava coberto de afídios; eles saltavam por toda parte, para cim a e para baixo, alguns m ais alto do que outros. Ele procurou por um especialm ente grande, devido à dificuldade que as pessoas tinham de vê-los. — Traga um a garrafa ou um vidro — disse ele —, procure em baixo da pia. Vam os cobrir um ou colocar um a tam pa nele e depois posso levá-lo com igo quando for ao m édico e ele vai poder analisá-lo.

Charles Freck lhe trouxe um vidro de m aionese. Jerry com eçou a busca e por fim conseguiu interceptar um afídio que pulou no ar pelo m enos 120 centím etros. O afídio tinha três centím etros de com prim ento. Ele o apanhou, levou-o para o vidro, largou-o cuidadosam ente dentro dele e atarraxou a tam pa. Depois ergueu o vidro, triunfante.

— Está vendo? — disse ele.

— Ééééééé — disse Charles Freck, os olhos arregalados enquanto analisava o conteúdo do vidro. — Que grandão! Uau!

— Me aj ude a encontrar m ais para o m édico poder ver — disse Jerry, novam ente se agachando no tapete, o vidro ao lado dele.

— Claro — disse Charles Freck e obedeceu.

Meia hora depois, eles tinham três vidros cheios dos insetos. Charles, em bora novo no assunto, encontrou alguns dos m aiores.

Era m eio-dia, em j unho de 1994. Na Califórnia, em um a região de casas de plástico baratas, m as duráveis, havia m uito desocupadas pelos caretas. Mas Jerry, anteriorm ente, tinha borrifado tinta m etálica em todas as j anelas para evitar a luz; a ilum inação da sala vinha de um a lum inária em que só atarraxara lâm padas de luz dirigida, que brilhavam dia e noite, de form a a abolir o tem po para ele e os am igos. Ele gostava disso; gostava de se livrar do tem po. Deste m odo, podia se concentrar em coisas im portantes, sem ser interrom pido. Com o isto: dois hom ens aj oelhados em um tapete velho, encontrando um inseto após outro e colocando-os em vidro após vidro.

— O que vam os conseguir com isso? — disse Charles Freck, m ais tarde. — Quer dizer, será que o m édico vai pagar um a recom pensa ou coisa assim ? Um prêm io? Um a grana?

— Tenho de aj udar a aperfeiçoar um a cura para eles desse j eito — disse Jerry. A dor, constante, tornara-se insuportável, ele não conseguia se acostum ar com ela e sabia que nunca se acostum aria. O im pulso ou anseio de tom ar outro banho o subj ugava. — Ei, cara — ele arfou, endireitando-se —, vai colocando os insetos no vidro enquanto eu tom o um banho. — Ele partiu para o banheiro.

— Tudo bem — disse Charles, as pernas com pridas cam baleando enquanto gingava para um vidro, as m ãos em concha. Era um ex-veterano e ainda tinha um bom controle m uscular, porém ; ele conseguiu pegar o vidro. Mas depois disse de repente: — Olha, Jerry... esses insetos m eio que m e assustam . Não gosto de ficar sozinho com eles. — Ele se levantou.

— Seu cretino covarde — disse Jerry, arfando de dor enquanto hesitava no banheiro por um m om ento.

— Será que você podia...

— Tenho de tom ar um banho! — Ele bateu a porta e girou as torneiras do chuveiro. A água j orrou.

— Estou com m edo. — A voz de Charles Freck chegou fraca, em bora ele evidentem ente estivesse gritando.

— Então vai se foder! — respondeu Jerry aos gritos e entrou no chuveiro. Que porra de am igos são esses?, perguntou-se am argam ente. Nada bom , nada bom ! Não é nada bom m esm o!

— Essas m erdas picam ? — gritou Charles, bem j unto à porta.

— E, eles picam — disse Jerry enquanto passava xam pu no cabelo.

— Foi o que eu pensei. — Um a pausa. — Posso lavar m inhas m ãos, m e livrar deles e esperar por você?

Covarde, pensou Jerry com um a furia am argurada. Ele não disse nada, apenas continuou seu banho. O cretino não valia resposta algum a. Ele não deu atenção a Charles Freck, só a si m esm o. A suas necessidades vitais, exigentes, terríveis e urgentes. Todo o resto teria de esperar. Não havia tem po, tem po nenhum , essas coisas não podiam ser adiadas. Todo o resto era secundário. A não ser o cachorro; ele se perguntou sobre Max, o cão.

Charles Freck telefonou para alguém que ele esperava que estivesse vendendo.

— Pode m e passar um as dez m ortes?

— Cara, estou totalm ente zerado... estou tentando arrum ar para m im . Me avise quando encontrar alguém , eu podia usar.

— Qual é o problem a com o fornecim ento?

— Acho que teve algum as quebras.

Charles Freck desligou e passou um núm ero de fantasia na cabeça enquanto se arrastava desanim ado da cabine telefônica — nunca se usava o telefone de casa para um a cham ada dessas — de volta ao Chevy estacionado. Em sua fantasia, ele estava passando de carro pela Thrifty Drugstore e eles tinham um a vitrine enorm e; frascos de Slow Death, latas de Slow Death, vidros e banheiras e tonéis e tigelas de Slow Death, m ilhões de cápsulas e tabletes e inj eções de Slow Death, Slow Death batizada com speed e heroína e barbitúricos e psicodélicos, tudo — e um a placa gigante: VOCÊ TEM CRÉDITO AQUI. Para não falar de: PREÇOS MUITO BAIXOS, OS MAIS BAIXOS DA CIDADE.

Mas, na realidade, a Thrifty em geral tinha um a vitrine de nada: pentes, frascos de óleo m ineral, latas de desodorante spray, sem pre porcarias assim . Mas aposto que nos fundos da farm ácia tem Slow Death trancada a chave que não é m alhada, de um a form a pura, sem adulteração, sem m istura, pensou ele enquanto dirigia do estacionam ento para o Harbor Boulevard, entrando no trânsito da tarde. Mais ou m enos um saco de 25 quilos.

Ele se perguntou quando e com o eles descarregavam o saco de 25 quilos da Substância D na Thrifty Drugstore toda m anhã, de onde ele vinha — só Deus sabia, talvez da Suíça ou de outro planeta, onde vivia algum a raça sábia. Eles deviam entregar bem cedo e com seguranças arm ados - os Hom ens parados ali com rifles a laser parecendo m aus, com o os Hom ens sem pre estavam . Qualquer um que tentar levar m inha Slow Death, pensou ele com a cabeça de um dos Hom ens, eu apago.

Provavelm ente a Substância D é um ingrediente de toda m edicação legal que vale algum a coisa, pensou ele. Um pouquinho aqui e ali, de acordo com a fórm ula secreta exclusiva do fabricante da Alem anha ou Suíça que a inventou. Mas, na verdade, ele sabia m ais do que isso; as autoridades ou apagavam ou m andavam todo m undo vender ou transportar ou usar então nesse caso a Thrifty Drugstore — todos os m ilhões de Thrifty Drugstores — seria alvej ada a tiros ou bom bardeada ou sairia do negócio ou acabaria de algum a form a. Mais provavelm ente acabaria. A Thrifty tinha pistolão. Com o é que se fecha um a cadeia de grandes drogarias? Ou as m ata?

Eles conseguem coisas extraordinárias, pensou ele enquanto circulava. Ele se sentiu repugnante porque só tinha trezentos tabletes de Slow Death no esconderij o. Enterrados em seu quintal debaixo da cam élia, aquela híbrida de flores grandes que não ficavam m arrons de queim adas na prim avera. Eu só tenho suprim ento para um a sem ana, pensou ele. E quando estiver sem nada? Merda!

Im agine que todos na Califórnia e em partes do Oregon fiquem sem nada no m esm o dia, pensou ele. Caram ba!

Essa era a m aior fantasia de terror de todos os tem pos que lhe passava na cabeça, essa de cada entorpecente acabando. Todo o lado leste dos Estados Unidos sem nada ao m esm o tem po e todo m undo entrando em colapso no m esm o dia, provavelm ente lá pelas seis da m anhã. Dom ingo de m anhã, enquanto os caretas se vestiam para a porra das orações.

Cena: a Prim eira Igrej a Episcopal de Pasadena, às oito e m eia da m anhã, de um Dom ingo de Colapso.

“Sagrados paroquianos, vam os apelar a Deus agora, neste m om ento, para pedir Sua intervenção na agonia daqueles que estão se agitando em suas cam as com privação.”

“Sim , sim .” A congregação concorda com o pastor.

“Mas antes que Ele intervenha com um novo suprim ento de...”

Um preto-e-branco evidentem ente percebeu algum a coisa no m odo com o Charles Freck dirigia que ele próprio não notou; tinha saído de seu ponto de estacionam ento e seguia atrás dele no trânsito, até agora sem as luzes e sirene, m as...

Talvez eu estej a andando em ziguezague ou coisa assim , pensou ele. Merda de m alditas viaturas m e vendo fodido. Eu im agino bem o quê.

POLICIAL: “Muito bem , qual é o seu nom e?”

“Meu nom e?” (NÃO CONSIGO PENSAR NO NOME.)

“Não sabe seu próprio nom e?” O policial sinaliza para outro na radiopatrulha. “Esse cara está chapado pra valer.” “Não atire em m im aqui.” Charles Freck em sua fantasia de terror induzida pela visão do preto-e-branco vindo na direção dele. “Pelo m enos m e leve para a delegacia e atire em m im lá, fora de vista.”

Para sobreviver neste Estado policial fascista, pensou ele, sem pre é preciso ser capaz de soltar um nom e, o seu nom e. Em todas as ocasiões. Esse é o prim eiro sinal que eles procuram de que você está doidão, quando você não consegue saber quem diabos você é.

O que vou fazer, concluiu ele, é parar assim que encontrar um a vaga, parar voluntariam ente antes que ele acenda as luzes ou faça algum a coisa, e depois, quando ele vier para o m eu lado, eu digo que estou com o volante frouxo ou com outro problem a m ecânico.

Eles sem pre acham isso ótim o, pensou ele. Quando você desiste desse j eito e não consegue continuar. Com o se você se atirasse no chão com o faz um anim al, expondo sua barriga m acia, indefesa e desprotegida. Vou fazer isso, pensou ele.

E ele fez, parando à direita e batendo as rodas dianteiras do carro no m eio-fio. O carro da polícia passou por ele.

Parei por nada, pensou ele. Agora vai ser difícil voltar com o trânsito tão pesado. Ele desligou o m otor. Talvez eu fique sentado aqui, parado, por algum tem po, concluiu ele, e alfa-m edite ou entre em vários estados alterados de consciência. Possivelm ente vendo as gatas passando a pé. Eu m e pergunto se fabricam um bioscópio para se ficar excitado. Em vez de ficar em alfa. Ondas de excitação, prim eiro bem curtas, depois m ais longas, m aiores, m aiores, até que saem da escala.

Isso não está levando a lugar algum , percebeu ele. Eu devia estar tentando localizar alguém que venda. Tenho de conseguir m eu suprim ento ou logo, logo vou ficar descontrolado e depois não vou conseguir fazer nada. Nem m e sentar no m eio-fio com o estou agora. Nem vou saber quem sou, não vou saber sequer onde estou ou o que está acontecendo.

O que está acontecendo?, perguntou-se ele. Que dia é hoj e? Se eu soubesse que dia era, saberia de todo o resto, voltaria tudo aos pedacinhos.

Quarta-feira, no centro de Los Angeles, no bairro Westwood. Na frente, um daqueles shoppings gigantescos cercados por um m uro onde você quica feito um a bola de borracha — a não ser que tenha um cartão de crédito e o passe pelo aro eletrônico. Sem ter nenhum cartão de crédito para nenhum dos shoppings, ele só podia se fiar no relato verbal para saber com o eram as loj as por dentro. Todo um m onte delas, evidentem ente, vendendo produtos bons aos caretas, em especial às esposas caretas. Ele viu os seguranças arm ados e uniform izados no portão do shopping verificando cada pessoa. Vendo se o hom em ou a m ulher correspondia a seu cartão de crédito e se não tinha sido rasgado, vendido, com prado, usado fraudulentam ente. Pencas de pessoas passando pelo portão, m as ele deduziu que m uitas sem dúvida iam olhar as vitrines. Nem toda aquela gente podia ter a grana ou o im pulso para com prar a essa hora do dia, refletiu ele. É cedo, m al passa das duas. À noite, essa é a hora. As loj as todas ilum inadas. Ele podia — todos os irm ãos e irm ãs podiam — ver as luzes de fora, com o chuva de faíscas, com o um parque de diversões para crianças adultas.

As loj as desse lado do shopping não exigiam cartão de crédito, não tinham guardas arm ados nem valiam grande coisa. Loj as de utilidade: um a sapataria e um a loj a de TVs, um a padaria, consertos de pequenos aparelhos, um a lavanderia autom ática. Ele viu um a garota que usava um casaco de plástico curto e calças stretch vagando de loj a em loj a; tinha o cabelo bonito, m as ele não conseguiu ver o rosto, ver se ela era gostosa. Não era nada m á, pensou ele. A garota parou por um tem po em um a vitrine onde eram exibidos obj etos de couro. Ela olhou um a bolsa com borlas; ele a podia ver espiando, preocupando-se, tram ando com a bolsa. Aposto que ela vai entrar e pedir para ver, pensou ele.

A garota entrou na loj a, com o ele im aginou.

Apareceu outra garota no m eio do trânsito da calçada com um a blusa de babados, saltos altos, cabelo prateado e m aquiagem dem ais. Tentando parecer m ais velha do que é, pensou ele. Nem deve ter saído do secundário. Depois dela, nada digno de m enção, então ele tirou o cordão que fechava o porta-luvas e pegou um m aço de cigarros. Acendeu um e ligou o rádio do carro, em um a estação de rock. Antigam ente ele tinha um toca-fitas estéreo, m as um dia, finalm ente, enquanto tom ava um a, esqueceu-se de trazê- lo para dentro quando fechou o carro; naturalm ente, quando voltou, todo o sistem a de som tinha sido roubado. É nisso que dá ser descuidado, pensou ele, e então agora ele só tinha o rádio ordinário. Um dia eles o levariam tam bém . Mas ele sabia onde podia conseguir outro por quase nada, usado. De qualquer form a, o carro um dia ia ser destruído; os anéis de óleo estavam deform ados e a com pressão tinha caído. Evidentem ente, ele havia queim ado um a válvula na via expressa quando ia para casa num a noite cheio de um m onte de coisas boas; às vezes, quando pegava pesado m esm o, ele ficava paranóico — não tanto com a polícia, m as com outros doidões dilacerando-o. Um doidão desesperado de abstinência e podre com o um filho-da-puta.

Agora havia um a m ulher andando que cham ou a atenção dele. Cabelo preto, bonita, m ovim entos lentos; usava um a blusa até a barriga e calças brancas de brim que foram m uito lavadas. Ei, ele a conhecia, pensou. É a m ulher de Bob Arctor. Essa é a Donna.

Ele abriu a porta do carro e saiu. A garota o olhou e continuou. Ele a seguiu.

Ela acha que estou m e preparando para cair em cim a, pensou ele enquanto a seguia em m eio às pessoas. Com que facilidade ela ganhou velocidade; agora ele m al podia vê-la enquanto ela olhava para trás. Um rosto firm e, calm o... Ele viu olhos grandes que o avaliavam . Calculavam a velocidade dele e se ele a alcançaria. Não neste ritm o, pensou ele. Ela andava de verdade.

Na esquina, as pessoas tinham parado em um sinal que dizia SIGA, em vez de PARE; os carros estavam virando à esquerda com o loucos. Mas a garota continuou, rápida, m as com dignidade, avançando entre os carros m alucos. Os m otoristas olhavam indignados para ela. Ela não pareceu perceber.

— Donna! — Quando o sinal brilhou SIGA, ele atravessou correndo atrás dela e a alcançou. Ela desistiu de correr, apenas andava rapidam ente. — Você não é a m ulher do Bob? — perguntou ele. Ele conseguiu se colocar diante dela para exam inar o rosto.

— Não — disse ela. — Não. — Ela foi para ele, diretam ente para ele; ele recuou porque ela segurava um a faca curta apontada para a barriga dele. — Cai fora — disse ela, continuando a andar sem reduzir o passo nem hesitar.

— Claro que é — disse ele. — Eu te conheci na casa dele.

— Ele m al podia ver a faca, só um pedacinho do m etal da lâm ina, m as sabia que ela estava ali. Ela podia esfaqueá-lo e continuar andando. Ele continuava a recuar, protestando. A garota segurava a faca tão bem escondida que provavelm ente ninguém , os outros que andavam , perceberia. Mas ele percebeu, ia direto para ele à m edida que ela se aproxim ava sem hesitação. Ele deu um passo para o lado, então, e a garota passou por ele em silêncio.

— Porra!- disse ele às costas dela. Eu sei que é a Donna, pensou ele. Ela só não se tocou de quem eu sou, que ela m e conhece. Assustada, acho; com m edo de que eu vá atacá-la. E preciso ter cuidado, pensou ele, quando você se aproxim a de um a estranha na rua; agora todas estão preparadas. Já aconteceu coisas dem ais com elas.

Que faquinha engraçada, pensou ele. As garotas não deviam portar essas facas, qualquer cara podia girar o pulso e a lâm ina se voltaria para ela quando ele quisesse. Eu podia ter feito isso. Se realm ente quisesse fazer. Ele ficou parado ali, sentindo-se irritado. Eu sei que era a Donna, pensou.

Ao com eçar a voltar para o carro estacionado, ele percebeu que a garota tinha parado, não acom panhava o m ovim ento dos transeuntes e agora olhava silenciosam ente para ele.

Ele andou com cautela na direção dela.

— Um a noite — disse ele eu, Bob e outra garota tínham os um as fitas velhas de Sim on and Garfunkel e você estava sentada lá... — Ela estava enchendo cápsulas com m orte de alta qualidade, um a por um a, dolorosam ente. Por m ais de um a hora. El Prim o. Num ero Uno: Morte. Depois de term inar, ela deu um a cápsula para cada um deles e eles tom aram , todos j untos. Menos ela. Eu só vendo, ela dissera. Se com eçar a tom ar, vou devorar m eus lucros.

A garota disse:

— Pensei que você ia m e derrubar e querer transar com igo.

— Não — disse ele. — Eu só m e perguntava se você... — Ele hesitou. — Assim , se queria um a carona. Na calçada? — disse ele, sobressaltado. — Em plena luz do dia?

— Talvez na soleira de um a porta. Ou m e em purrar para um carro.

— Eu conheço você — protestou ele. — E o Arctor ia m e m atar se eu fizesse isso.

— Bom , eu não te reconheci. — Ela deu três passos na direção dele. — Eu sou m eio m íope.

— Devia usar lentes. — Ele pensou que os olhos dela eram escuros, grandes, calorosos e adoráveis. O que significava que ela não era junkie.

— Eu tinha. Mas caiu um a num a tigela de ponche. Ponche ácido, num a festa. Foi até o fundo e acho que alguém se serviu dele e bebeu. Espero que o gosto tenha sido bom porque m e custou 35 dólares.

— Quer um a carona para onde está indo?

— Você vai m e pegar no carro.

— Não — disse ele —, não consigo transar nessas últim as sem anas. Deve ser algum a coisa que estão usando para adulterar tudo. Algum a quím ica.

— Essa é um a desculpa legal, m as j á ouvi antes. Todo m undo transa com igo. — Ela se corrigiu. — Tentam , de qualquer form a. É nisso que dá ser m ulher. Estou processando um cara no tribunal agora, por m aus-tratos e agressão. Vam os pedir indenização por danos de m ais de quarenta m il.

— Até onde ele foi?

Donna disse:

— Pôs a m ão no m eu peito.

— Isso não vale quarenta m il.

Juntos, eles voltaram ao carro dele.

— Tem algum pra vender? — perguntou ele. — Estou procurando m esm o. Estou praticam ente sem nada, que droga, estou sem nada, im agina só. Mesm o um pouco, se você puder ceder um pouco.

— Posso te arrum ar algum .

— Tabletes — disse ele. — Eu não sei m e aplicar quando é líquido.

— Tá. — Ela assentiu intensam ente, de cabeça baixa. — Mas, olha, agora eles são bem raros... o suprim ento secou tem porariam ente. Você j á deve ter descoberto. Não posso te arrum ar m uito, m as... N

— Quando? — ele a interrom peu. Eles chegaram ao carro; ele parou, abriu a porta, entrou. Do outro lado, Donna entrou. Eles se sentaram lado a lado.

— Depois de am anhã — disse Donna. — Se eu puder pegar com um cara aí. Acho que posso.

Merda, pensou ele. Só depois de am anhã!

— Não dá antes? Não dá, digam os, am anhã?

— Am anhã é m uito cedo.

— Quanto?

— Sessenta dólares a centena.

— Porra! — disse ele. — Isso é roubo!

— São superbons. Eu com prei com ele antes, não são o que você costum a com prar. Pode acreditar em m im ... valem a pena. Na verdade, prefiro com prar com ele do que com qualquer outra pessoa. Olha, acho que ele viaj ou para o Sul há pouco tem po. Acabou de voltar. Ele próprio com prou, então eu sei que são bons, com toda a certeza. E você não precisa m e pagar adiantado. Só quando eu conseguir. Tudo bem ? Eu confio em você.

— Eu nunca adianto nada — disse ele.

— Às vezes, é preciso.

— Tudo bem — disse ele. — Então pode m e conseguir pelo m enos cem ? — Ele tentou calcular, rapidam ente, quanto conseguiria; em dois dias, provavelm ente podia levantar 120 dólares e com prar duzentos dela. E se ele fechasse um negócio m elhor nesse m eio-tem po, de outras pessoas que estavam vendendo, podia esquecer o trato com ela e com prar delas. Essa era a vantagem de nunca adiantar pagam ento, a vantagem de nunca ser roubado.

— Sorte sua você ter vindo atrás de m im — disse Donna enquanto ele dava a partida no carro e voltava para o trânsito. — Eu tenho de encontrar esse cara daqui a um a hora e ele deve ter arranj ado tudo o que eu posso com prar... você teve m uita sorte. Hoj e é o seu dia. — Ela sorriu e ele tam bém .

— Queria que você pegasse m ais cedo — disse ele.

— Se eu puder... — Abrindo a bolsa, ela tirou um bloquinho e um a caneta com a gravação REGULAGEM DE BATERIAS SPARKS. — Com o vou fazer para te encontrar? E esqueci seu nom e.

— Charles B. Freck — disse ele. Ele deu o telefone a ela

— não o dele, na verdade, m as um que ele costum ava usar, da casa de um am igo careta, para recados assim —, que anotou laboriosam ente. Que dificuldade a garota tinha para escrever, pensou ele. Perscrutando e rabiscando lentam ente... Não ensinam m ais as m erdas na escola às garotas, pensou ele. Analfabeta direta. Mas gostosa. Quer dizer que ela m al sabia ler e escrever, e daí? O que im porta num a gata são os peitos bonitos.

— Acho que m e lem bro de você — disse Donna. — Mais ou m enos. Naquela noite, tudo estava um a névoa só; eu estava chapada pra caram ba. Só m e lem bro de colocar o pó naquelas cápsulas pequenas... cápsulas de Librium ... depois que a gente esvaziou o conteúdo. Eu devo ter deixado cair m etade. No chão. — Ela o olhou de um j eito m editativo enquanto ele dirigia. — Você parece um cara tranqüilo — disse ela. — E vai ao m ercado depois? Vai querer m ais depois de um tem po?

— Claro — disse ele, perguntando-se se podia derrubar o preço dela quando a visse novam ente; ele achava que podia, m ais provavelm ente. De qualquer form a, ele ganhava. Isto é, de qualquer form a ele arranj ava um .

A felicidade, pensou ele, é saber que você tem uns com prim idos.

O dia fora do carro e todas as pessoas ocupadas, a luz do sol e a atividade passavam num fluxo despercebidos; ele estava feliz.

Vej a o que ele tinha encontrado por acaso — porque, na verdade, um preto-e-branco o estava seguindo por acidente. Um novo suprim ento inesperado de Substância D.

O que m ais ele podia pedir da vida? Agora podia contar com m ais duas sem anas, quase m eio m ês, antes de em pacotar ou quase isso — a abstinência da Substância D igualava as duas coisas. Duas sem anas! Seu coração cantou e ele cheirou, por um m om ento, aproxim ando-se da j anela aberta do carro, a breve em polgação da prim avera.

— Quer ir com igo ver Jerry Fabin? — perguntou ele à garota. — Estou levando um as coisas para ele na Clínica Federal Núm ero Três, aonde o levaram ontem à noite. Só estou transportando um pouco, porque há um a possibilidade de ele poder voltar e eu não quero ter de arrastar tudo de volta.

— É m elhor eu não vê-lo — disse Donna.

— Você o conhece? Jerry Fabin?

— Jerry Fabin acha que eu o contam inei com aqueles insetos.

— Afídios.

— Bom , na época ele não sabia o que eram . É m elhor eu ficar longe. Da últim a vez que o vi, ele ficou bem hostil. São os sítios receptores dele, no cérebro, pelo m enos eu acho que são. Parece isso, pelo que dizem os folhetos do governo.

— Não pode ser restaurado, pode? — disse ele.

— Não — disse Donna. — É irreversível.

— O pessoal da clínica disse que eu poderia vê-lo e que acreditavam que ele podia ficar m eio, sabe com o é... — Ele gesticulou. — Não ser... — Novam ente ele gesticulou. Era difícil encontrar palavras para isso, o que ele estava tentando dizer sobre o am igo.

Olhando para ele, Donna disse:

— Você não tem danos no centro da fala, tem ? Em seu... com o é que se cham a?... lobo occipital.

— Não — disse ele. Vigorosam ente.

— Tem algum tipo de dano? — Ela bateu na cabeça.

— Não, é só que... sabe com o é. Eu tenho problem as para dizer isso, sobre essas clínicas de m erda; odeio as Clínicas de Afasia Neural. Um a vez eu fui visitar um cara, ele tentava encerar o chão... disseram que ele não podia encerar o chão, quer dizer, ele não podia entender com o fazer isso... O que m e pegou é que ele continuava tentando. Quer dizer, não só por um a hora; ele ainda estava tentando um m ês depois, quando eu voltei. Com o tinha feito, sem parar, quando eu o vi pela prim eira vez ali, quando fui visitá-lo ele pela prim eira vez. Ele não conseguia entender por que não podia fazer direito. Eu m e lem bro de olhar na cara dele. Ele tinha certeza de que ia fazer direito se continuasse tentando identificar o que fez de errado. “O que estou fazendo de errado?”, ele ficava perguntando. Não tinha j eito de dizer a ele. Quer dizer, eles disseram ... droga, eu disse a ele... m as ele não conseguia entender.

— Eu li que em geral são os sítios receptores do cérebro que vão prim eiro — disse Donna placidam ente. — O cérebro de um a pessoa, onde ela levou um a pancada forte, ou coisa assim , tipo pesada dem ais. — Ela estava olhando os carros na frente. — Olha, é um desses Porsches novos de dois m otores. — Ela apontou, anim ada. — Uau!

— Conheci um cara que fez um a ligação direta num desses Porsches novos — disse ele — e o levou pela Riverside Freeway e m eteu 120 por hora... destruiu. — Ele gesticulou. — Bem na traseira de um a carreta. Nunca vi um a coisa dessas. — Em sua cabeça, ele passou um núm ero de fantasia; ele m esm o ao volante de um Porsche, m as percebendo a carreta, todas as carretas. E todo m undo na via expressa - a Holly wood Freeway na hora do rush — vendo-o. Vendo-o com toda a certeza, o cara bonitão, m agro e de om bros largos no Porsche novo, andando a 300 por hora e a expressão de im potência de todos os policiais.

— Você está trem endo — disse Donna. Ela estendeu a m ão e pegou o braço dele. Um gesto suave com a m ão a que antigam ente ele reagia. — Calm a.

— Estou cansado — disse ele. — Fiquei acordado duas noites e dois dias contando insetos. Contando e colocando em vidros. E Finalm ente, quando tínham os acabado, a gente se levantou e se preparou para na m anhã seguinte colocar os vidros no carro, para levar ao m édico e m ostrar a ele, e não havia nada nos vidros. Vazios. — Agora ele m esm o podia sentir o trem or e vê-lo nas m ãos, no volante, as m ãos trêm ulas no volante, a 30 quilôm etros por hora. — Cada um a daquelas m erdas — disse ele. — Nada. Inseto nenhum . E depois eu percebi, eu percebi aquela porra. A ficha caiu, sobre o cérebro dele, o cérebro do Jerry .

O ar não cheirava m ais a prim avera e ele pensou, repentinam ente, que precisava com urgência de um a dose de Substância D; era m ais tarde do que ele percebera ou ele tinha m enos do que pensava. Felizm ente ele trazia o suprim ento portátil no fundo do porta-luvas. Ele com eçou a procurar um a vaga para estacionar.

— A m ente prega peças na gente — disse Donna, distante; ela parecia ter se retirado para si m esm a, ter se afastado. Ele se perguntou se sua direção errática a estava aborrecendo. Provavelm ente estava.

Outro film e de fantasia rolou de repente em sua cabeça, sem o consentim ento dele. Prim eiro, ele viu um grande Pontiac estacionado com um m acaco hidráulico escorregando na traseira e um garoto de uns 13 anos e cabelo com prido lutando para evitar que o carro rolasse enquanto pedia aj uda aos gritos. Ele viu Jerry Fabin e a si m esm o correndo j untos da casa. Da casa de Jerry, pela entrada cheia de latas de cervej a até o carro. Ele m esm o, ele pegou a porta do carro do lado do m otorista para abri-la, para pisar no pedal de freio. Mas Jerry Fabin, usando só as calças, sem sapatos até, o cabelo todo em baraçado e flutuando — ele estava dorm indo antes Jerry passou correndo para a traseira do carro e, com o om bro nu e branco que nunca viu a luz do dia, em purrou o garoto para longe do carro. O m acaco se inclinou e caiu, a traseira do carro arriou, o pneu e a roda rolaram para longe e o garoto estava bem .

— Tarde dem ais para o freio — disse Jerry , arfando, tentando tirar os cabelos feios e oleosos dos olhos e piscar. — Não deu tem po.

— Ele está bem ? — gritou Charles Freck. O coração ainda m artelava.

— Está. — Jerry ficou ao lado do garoto, arfando. — Merda! — gritou ele para o m enino, furioso. — Eu não te disse para esperar até que a gente fizesse isso com você? E quando um m acaco escorrega... Merda, cara, você não pode segurar 2.500 quilos! — Seu rosto se retorceu. O m enino, com o um bebum , parecia infeliz e se contorcia de culpa. — Eu te disse isso m il vezes!

— Eu procurei pelo freio — explicou Charles Freck, sabendo que sua idiotice, sua própria m erda, era tão grande quanto a do garoto e igualm ente letal. Um fracasso ao tentar reagir com o adulto. Mas ele queria se j ustificar de algum a form a, com o fez o garoto, em palavras. — Mas agora eu entendi... — gaguej ou ele e depois o núm ero de fantasia parou; era na verdade um a reprise de docum entário, porque ele se lem brava do dia em que isso aconteceu, quando todos m oravam j untos. O bom instinto de Jerry — caso contrário, o bebum ia parar debaixo da traseira do Pontiac com a coluna esm agada.

Os três andaram lentam ente de volta à casa, sem ir atrás da roda e do pneu, que ainda estavam rolando.

— Eu estava dorm indo — m urm urou Jerry enquanto eles entravam na casa escura. — Foi a prim eira vez em sem anas que os insetos m e deixaram dorm ir. Não durm o nada há cinco dias... Eu só fico rolando pra lá e pra cá. Achei que eles talvez tivessem ido em bora, que eles foram em bora. Achei que finalm ente tinham desistido e foram para outro lugar, para o vizinho, e saído totalm ente desta casa. Agora posso senti-los de novo. Esse é o décim o No Pest Strip que eu com pro ou o décim o prim eiro... Eles m e enganaram de novo, com o fizeram com todos os outros. — Mas agora a voz dele estava m ais branda, não com raiva, só lenta e perplexa. Ele pôs a m ão na cabeça do bebum e lhe deu um tapa. — Você, seu burro... quando um m acaco escorregar, saia de perto dele. Esqueça o carro. Não fique atrás tentando em purrar de volta, com toda aquela m assa, e bloquear com o seu corpo.

— Mas, Jerry , eu estava com m edo de que o eixo...

— Foda-se o eixo. Foda-se o carro. E a sua vida. — Eles atravessaram a sala escura, os três, e a reprise de um m om ento que agora era passado trem eluziu e desapareceu para sem pre.