O Homem Duplo

Philip K. Dick · Capítulo 9 de 18

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O Homem Duplo

Capítulo 8

8

 

A cam inho da casa de Bob Arctor, onde em geral se podia encontrar um bando de doidões

para ficar ligado e relaxar por algum tem po, Charles Freck im aginou um a piada para enganar o velho Barris, retribuindo a sacanagem do baço no Restaurante Fiddler’s Three naquele dia. Em sua cabeça, enquanto evitava habilidosam ente os radares que a polícia tinha em toda parte (as vans de radar da polícia que verificavam os m otoristas em geral eram disfarçadas de velhas vans VW suj as, pintadas de um m arrom desbotado, dirigidas por uns caras barbados; quando ele via um a dessas vans, reduzia), ele passou um a pré-estréia de fantasia de sua pegadinha:

FRECK: (Casualmente.) Com prei um a produção de m et hoj e que vai dar que nem m ato.

BARRIS: (Com uma expressão irritada.) A m etanfetam ina é um a bolinha, com o o speed, é anfetam ina, feita sinteticam ente em laboratório. Então não é orgânica, com o a m aconha. Não existe isso de m et dar que nem m ato com o existe m aconha dando que nem m ato.

FRECK: (Soltando o final da piada.) Eu quis dizer que herdei quarenta m il de um tio e com prei um a fábrica escondida na garagem de um cara, onde ele faz m et. Quer dizer, ele tem um a fábrica onde produz m etanfetam ina. É dar que nem m ato no sentido de...

 

Ele não conseguiu elaborar a frase exata enquanto dirigia, porque parte de sua m ente estava nos veículos em volta dele e nos sinais, m as sabia que, quando chegasse à casa de Bob, ia se dar bem para cim a de Barris. E, especialm ente se um m onte de gente estivesse ali, Barris ficaria na berlinda e rapidinho ficaria claro para todos que ele era um idiota. E essa seria um a boa vingança, porque Barris, m enos do que qualquer um , não agüentava que se divertissem à custa dele.

Quando encostou o carro, Freck encontrou Barris do lado de fora trabalhando no carro de Bob Arctor. O capô estava erguido e Barris e Arctor estavam j untos com um a pilha de ferram entas.

— Oi, cara — disse Freck, batendo a porta e peram bulando casualm ente. — Barris — disse ele im ediatam ente, de form a fria, colocando a m ão no om bro de Barris para atrair a atenção dele.

— Depois — grunhiu Barris. Ele estava com as roupas de conserto; graxa e sim ilares cobriam um tecido que j á estava suj o.

Freck disse:

— Com prei um a produção de m et hoj e que vai dar que nem m ato.

Com um a carranca im paciente, Barris disse:

— De que tam anho?

— Com o assim ?

— Um m ato de que tam anho?

— Bem — disse Freck, im aginando com o prosseguir.

— Quanto pagou por ela? — disse Arctor, tam bém cheio de graxa do conserto do carro. Ele tinham tirado o carburador, com o viu Freck, o filtro de ar, as m angueiras e tudo.

Freck disse:

— Uns dez paus.

— Jim podia ter conseguido m ais barato — disse Arctor, reassum indo o trabalho. — Não podia, Jim ?

— Eles praticam ente m e dão m atagais de m etanfetam ina — disse Barris.

— Fica na porra de um a garagem ! — protestou Freck. — Um a fábrica! Produz um m ilhão de com prim idos por dia, com a m aquinaria de rolar as bolinhas e tudo. Tudo!

— E isso tudo custou dez dólares? — disse Barris, com um largo sorriso.

— Onde fica? — disse Arctor.

— Não fica perto daqui — disse Freck, inquieto. — Aí, fodam -se os dois.

Fazendo um a pausa no trabalho — Barris fazia m uitas pausas no trabalho, quer estivessem falando com ele ou não Barris disse:

— Sabe de um a coisa, Freck, se você tom ar ou inj etar m uita m et vai com eçar a falar com o o Pato Donald.

— E daí? — disse Freck.

— Daí que ninguém vai entender o que você falar.

Arctor disse:

— O que você disse m esm o, Barris? Não consegui entender.

Com o rosto dançando de contentam ento, Barris im itou a voz do Pato Donald. Freck e Arctor sorriram e gostaram . Barris continuou, gesticulando, por fim , para o carburador.

— E o carburador? — disse Arctor, agora sem sorrir.

Barris, com a voz norm al, m as ainda com um sorriso largo, disse:

— A haste do afogador entortou. Todo o carburador tem de ser refeito. Caso contrário, o afogador vai parar enquanto você estiver dirigindo pela via expressa e depois você vai ver que seu m otor está inundado e m orto e um babaca vai te rebocar. E é bem possível que, além disso, essa gasolina bruta inunde as paredes do cilindro, se sair por bastante tem po vai inundar a lubrificação, então seus cilindros vão se acabar e ficar estragados para sem pre. E depois vai precisar que sej am retificados.

— Por que a haste do afogador entortou? — perguntou Arctor.

Dando de om bros, Barris voltou a desm ontar o carburador e não respondeu. Ele deixou essa para Arctor e Charles

Freck, que nada sabiam de m otores, em especial de consertos com plexos com o esse.

Vindo da casa, Luckm an, usando um a cam isa da m oda e j eans Levis apertados de cós alto, portando um livro e usando óculos de sol, disse:

— Eu telefonei e eles vão ver se conseguem um carburador retificado para um carro desses. Vão telefonar daqui a algum tem po, então eu deixei a porta da frente aberta.

Barris disse:

— Não pode colocar um de quatro cilindros, em vez desse de dois, enquanto estiver em atividade. Mas vai ter de colocar um cano de distribuição novo. Podem os conseguir um usado m ais barato.

— Vai girar dem ais em falso — disse Luckm an — com um Rochester de quatro cilindros... é o que quer dizer? E não ia m udar a m archa adequadam ente. Não ia subir.

— Os pulverizadores de ponto m orto podem ser substituídos por pulverizadores m enores — disse Barris — que iam com pensar. E com um tacôm etro ele pode ver as rotações, então não terá m uita rotação. Ele ia saber pelo tacôm etro quando não estava subindo. Em geral, só de soltar o pedal do acelerador j á dá para subir, se a ligação autom ática para a transm issão não fizer isso. Eu sei onde podem os conseguir um tacôm etro tam bém . Na verdade, eu tenho um .

— Tá — disse Luckm an —, bem , se ele pegar pesado ao reduzir a m archa para ter m uito torque num a em ergência na via expressa, vai aum entar tanto a rotação que vai explodir a vedação ou coisa pior, m uito pior: explodir todo o m otor.

Barris, pacientem ente, disse:

— Ele ia ver a agulha do tacôm etro pular e ia soltar o pedal.

— Enquanto ultrapassa? — disse Luckm an. — No m eio de um a ultrapassagem de um a porra de j am anta? Que m erda, ele ia ter de continuar abusando dos cilindros, com alta rotação ou não; ia ter de acelerar o m otor, em vez de reduzir, porque se reduzisse nunca ia contornar o que estava tentando ultrapassar.

— Um m om ento — disse Barris. — Em um carro com esse peso, o m om ento levaria ele até se ele reduzisse.

— E num a subida? — disse Luckm an. — O m om ento não ia te levar m uito longe num a subida se você estivesse ultrapassando.

Para Arctor, Barris disse:

— O que este carro... — Ele se curvou para ver qual era. — Este... — Seu lábios se m exeram . — Olds.

— Ele pesa uns 450 quilos — disse Arctor. Charles Freck o viu piscar para Luckm an.

— Tem razão, então — concordou Barris. — Não haveria m uita m assa inercial com um peso tão pequeno. Ou haveria? — Ele procurou por um a caneta e algum a coisa onde escrever. — Quatrocentos e cinqüenta quilos viaj ando a 130 por hora dá um a força igual a...

— São 450 quilos — acrescentou Arctor — com os passageiros, o tanque cheio de gasolina e um a carga de tij olos na m ala.

— Quantos passageiros? — disse Luckm an, fingido seriedade.

— Doze.

— Isso dá seis atrás — disse Luckm an — e seis na...

— Não — disse Arctor. — São 11 atrás e o m otorista sozinho na frente. Então, com o vê, teria m ais peso nas rodas traseiras, para m ais tração. Assim não ia guinar.

Barris olhou, alerta.

— Este carro dá guinada?

—A não ser que você leve 11 pessoas atrás — disse Arctor.

— Então é m elhor colocar sacos de areia na m ala — disse Barris. — Sacos de 1.500 quilos. Assim os passageiros podiam ser distribuídos m ais igualm ente e teriam m ais conforto.

— E um a caixa de 300 quilos de ouro na m ala? — perguntou Luckm an a ele. — Em vez de sacos de 150 quilos...

— Dá um tem po, tá legal? — disse Barris. — Estou tentando calcular a força inercial desse carro viaj ando a 130 por hora.

— Eu não faço 130 — disse Arctor. — Ele tem um cilindro acabado. Foi o que quis dizer a você. Ele perdeu um a biela ontem à noite, quando eu vinha da 7-11.

— Então, por que estam os tirando o carburador? — quis saber Barris. — Tem os de tirar todo o cabeçote. Na verdade, m uito m ais. Na verdade, você pode ter um m otor rachado. Bom , é por isso que não dá a partida.

— Seu carro não dá a partida? — perguntou Freck a Bob Arctor.

— Ele não dá a partida — disse Luckm an — porque tiram os o carburador.

Confuso, Barris disse:

— Por que a gente tirou o carburador? Eu esqueci.

— Para substituir todas as m olas e pecinhas pequenininhas — disse Arctor. — Assim não vai se foder de novo e quase nos m atar. O m ecânico do posto Union nos aconselhou a fazer isso.

— Se vocês, cretinos, calassem essas m atracas — disse Barris — de doidões de speed, eu podia concluir m eus cálculos e dizer com o esse carro, com seu peso, lidaria com um carburador Rochester de quatro cilindros m odificado naturalm ente com pulverizadores m enores. — Agora ele estava genuinam ente irritado. — Então CALEM A BOCA!

Luckm an abriu o livro que trazia. Ele se inflou, depois, para m uito m aior do que o norm al; seu peito grande inchou e o m esm o aconteceu com os bíceps.

— Barris, vou ler para você. — Ele com eçou a ler o livro, de form a particularm ente fluente: — “Ele, a quem é dado ver Cristo m ais real do que qualquer outra realidade...”

— Com o é que é? — disse Barris.

Luckm an continuou a ler:

— “...do que qualquer outra realidade no m undo, Cristo presente em toda parte e em toda parte tornando-se m aior, Cristo, a determ inação final e o Princípio plasm ático do Universo...”

— O que é isso? — disse Arctor.

— Chardin. Teilhard de Chardin.

— Poxa, Luckm an! — disse Arctor.

— "... que o hom em vive em um a área em que nenhum a m ultiplicidade pode perturbá-lo e que é todavia a oficina m ais ativa da satisfação universal.” — Luckm an fechou o livro.

Muito apreensivo, Charles Freck se colocou entre Barris e Luckm an.

— Fica fria aí, gente.

— Sai da frente, Freck — disse Luckm an, recuando o braço direito, baixo, para dar um soco violento em Barris.

— Vem , Barris, eu vou te dar porrada até am anhã por falar de seus superiores desse j eito.

Com um berro de terror desenfreado e aterrador, Barris largou a esferográfica e o bloco de papel e fugiu erraticam ente para a porta aberta da casa, gritando enquanto corria.

— Eu ouvi o telefone tocar; deve ser sobre o carburador retificado.

Eles o observaram ir.

— Eu só estava brincando com ele — disse Luckm an, esfregando o lábio inferior.

— E se ele foi pegar a arm a com o silenciador? — disse Freck, o nervosism o extrapolando totalm ente. Ele andou devagar na direção do próprio carro estacionado, para se j ogar rapidam ente atrás dele se Barris reaparecesse atirando.

— Vam os — disse Arctor a Luckm an; eles voltaram j untos a trabalhar no carro, enquanto Freck se dem orava apre- ensivam ente perto de seu próprio veículo, perguntando- se por que tinha decidido dar as caras por ali hoj e. “Não havia nada de tranqüilo por aqui, absolutam ente nada, com o sem pre houve.” Ele sentiu as vibrações ruins com a brincadeira desde o com eço. Que porra estava errada?, ele se perguntou e voltou som briam ente para o próprio carro, para dar a partida.

Será que as coisas vão ficar pesadas e ruins por aqui tam bém , im aginou ele, com o aconteceu na casa de Jerry Fabin nas últim as sem anas? Eu costum ava relaxar aqui, pensou ele, todo m undo tom ava um a e ficava ligado, curtindo acid rock, em especial os Stones. Donna ficava sentada aqui com o casaco e as botas de couro, enchendo cápsulas, Luckm an enrolando baseados e contando do sem inário que pretendia dar na UCLA sobre fum ar e enrolar baseado e que um dia ele de repente ia enrolar o baseado perfeito e ele seria colocado debaixo de um vidro sob um a lâm pada de hélio no Constitution Hall, com o parte da história am ericana, j unto com aqueles outros obj etos de im portância sem elhante. Quando penso no passado, refletiu ele, até quando Jim Barris e eu estávam os sentados no Fiddlers no outro dia... era m elhor nessa época. Foi Jerry que com eçou isso, pensou ele; isso que baixou por aqui levou em bora o Jerry. Com o pode ser que os dias, os acontecim entos e os m om entos tão bons fiquem tão rapidam ente feios e sem nenhum m otivo, sem nenhum m otivo verdadeiro? Só m udam . Sem que nada tenha causado isso.

— Vou nessa — disse ele a Luckm an e Arctor, que estavam vendo a rotação do m otor.

— Não, fica aí, cara — disse Luckm an com um sorriso caloroso. — Precisam os de você. Você é um irm ão.

— Não, tô caindo fora.

Vindo da casa, Barris apareceu cautelosam ente. Trazia um m artelo.

— Foi engano — gritou ele, avançando com grande cautela, parando e olhando com o um caranguej o em um film e de drive-in.

— Para que é o m artelo? — disse Luckm an.

Arctor disse:

— Para consertar o m otor.

— Pensei que tinha trazido — explicou Barris enquanto voltava cauteloso para o Olds —, porque eu estava lá dentro e vi o m artelo.

— O tipo m ais perigoso de pessoa — disse Arctor — é aquela que tem m edo da própria som bra. — Essa foi a últim a coisa que Freck ouviu enquanto partia; ele refletiu sobre o que Arctor quis dizer, se se referiu a ele, Charles Freck. Sentiu vergonha. Mas que m erda, pensou, por que ficar aqui quando estão superm al desse j eito? Onde está a covardia nisso? Nunca participe de cenas ruins, lem brou-se ele; esse era o lem a de sua vida. Então ele partiu, sem olhar para trás. Deixe que se m atem , pensou. Quem precisa deles? Mas se sentiu m al, m uito m al, por deixá-los e ter testem unhado a m udança som bria, e se perguntou de novo por que e o que significava, m as lhe ocorreu que talvez as coisas m udassem de novo e m elhorassem e isso o anim ou. Na verdade, levou-o a rolar um a fantasia curta em sua cabeça enquanto dirigia, evitando carros da polícia invisíveis:

TODOS VÃO FICAR SENTADOS COMO ANTES.

Até as pessoas que estavam m ortas ou ferradas, com o Jerry Fabin. Todas estavam sentadas aqui e ali num a espécie de luz branca e clara, que não era a luz do dia, m as um a luz m elhor do que essa, um a espécie de m ar que se estendia em baixo e acim a deles.

Donna e outras duas garotas estavam m uito gostosas — vestiam tops e calças sensuais ou tops sem sutiã. Ele podia ouvir m úsica, em bora não conseguisse distinguir que faixa era e de que disco. Talvez Hendrix!, pensou ele. E, um a faixa do velho Hendrix ou agora, de repente, era J. J. Todos eles: Jim Croce e J. J., m as especialm ente Hendrix. “Antes de m orrer”, m urm urava Hendrix, “deixe-m e viver m inha vida com o eu quiser”, e depois, im ediatam ente, a fantasia sum iu porque ele tinha se esquecido de que Hendrix estava m orto e de com o Hendrix e Joplin m orreram , para não falar de Croce. Hendrix e J. J. Overdose de heroína, os dois, duas pessoas tão bacanas, dois seres hum anos sensacionais, e ele se lem brou de que soube que o em presário de Janis só perm itia que ela recebesse algum as centenas de dólares de vez em quando; ela não podia ter o resto, tudo o que ganhava, por causa do vício. E depois ele ouviu em sua cabeça a canção de Janis “Ali Is Loneliness” e com eçou a chorar. E, nesse estado, dirigiu para casa.

Na sala, sentado com os am igos e tentando decidir se precisava de um carburador novo, um carburador retificado ou um a m odificação carburador-e-cano, Robert Arctor percebeu o exam e constante e silencioso, a presença eletrônica dos holo-scanners. E se sentiu bem com isso.

— Você parece legal — disse Luckm an. — Perder um as 100 pratas não ia m e deixar legal.

— Eu decidi andar pela rua até encontrar um Olds igual ao m eu — explicou Arctor e depois desparafusar o carburador e não pagar nada. Com o todo m undo que conhecem os.

— Especialm ente Donna — disse Barris, concordando.

— Eu queria que ela não tivesse vindo aqui no outro dia, quando a gente estava fora. Donna rouba as coisas que pode carregar e, se não puder carregar, ela telefona para uns am igos de um a gangue de ladrões e eles aparecem e levam para ela.

— Vou te contar um a história que soube da Donna — disse Luckm an. — Um a vez, ela pôs um a m oeda num a dessas m áquinas autom áticas de selo que operam com rolos e a m áquina estava com defeito e só ficava rolando selos para fora. No final, ela estava com um a cesta de com pras cheia. A m áquina ainda ficou vom itando os selos. No final das contas, ela teve tipo... ela e os am igos ladrões contaram ... m ais de 18 m il selos am ericanos de 15 cents. Bom , isso foi legal, só que o que Donna Hawthorne ia fazer com eles? Ela nunca escreveu um a carta na vida, a não ser para o advogado, para processar um cara que ferrou com ela num a parada de drogas.

— A Donna fez issó* — disse Arctor. — Ela tem um advogado para usar em um processo por um a transação ilegal? Com o pode fazer isso?

— Ela deve dizer sim plesm ente que o cara deve um a grana a ela.

— Im agine receber um a carta irritada, do tipo ou-paga- ou-vai-para-o-tribunal, de um advogado sobre um negócio ilegal — disse Arctor, surpreendendo-se com Donna, com o freqüentem ente acontecia.

— Mas aí — continuou Luckm an — lá estava ela com um a cesta cheia de pelo m enos 18 m il selos am ericanos de 15 cents e que diabos fazer com eles? Não dá para vender aos correios. Porque aí, quando os correios fizessem a m anutenção na m áquina, iam ver que estava com defeito e qualquer um que aparecesse em um guichê com todos aqueles selos de 15 cents, em especial um rolo deles... que m erda, eles iam sacar; na verdade, eles iam esperar por Donna, né? Então ela pensou nisso... depois de, é claro, colocar o rolo de selos no MG dela e arrancar... e depois ela telefonou para outros daqueles ladrões com quem ela trabalhava e pediu que eles viessem com algum tipo de britadeira, resfriada a água e com silencioso a água, um daqueles troços especiais que, m eu Deus, eles roubaram tam bém , eles arrancaram a m áquina de selos do concreto no m eio da noite e levaram para a casa dela na traseira de um Ford Ranchero. Que eles devem ter roubado tam bém . Para os selos.

— Quer dizer que ela vendeu os selos? — disse Arctor, surpreendendo-se. — De um a m áquina de venda? Um por um ?

— Eles a rem ontaram ... foi isso que eu soube... eles recolocaram a m áquina de selos em um cruzam ento m ovim entado por onde passa m uita gente, m as fora de vista, onde nenhum cam inhão dos correios visse, e colocaram a m áquina para funcionar de novo.

— Eles teriam sido m ais espertos se sim plesm ente tivessem quebrado a caixa de m oedas — disse Barris.

— E aí eles ficaram vendendo selos — disse Luckm an — por tipo algum as sem anas até que a m áquina zerou, com o tinha de acontecer naturalm ente um dia. E que m erda fizeram depois? Posso im aginar o cérebro de Donna trabalhando naquelas sem anas, aquele cérebro de ladra da roça... A fam ília dela é de origem cam ponesa, de um país europeu. Mas aí, quando a m áquina ficou sem rolo, Donna decidiu convertê-la em m áquina de refrigerantes, que é dos correios... eles estavam realm ente precavidos. E você é incrim inado para sem pre por isso.

— Isso é verdade? — disse Barris.

— O que é verdade? — disse Luckm an.

Barris disse:

— Essa garota é perturbada. Ela devia ser internada. Percebe que todos os nossos im postos aum entaram porque ela roubou aqueles selos? — Ele estava com raiva novam ente.

— Escreva ao governo e conte a eles — disse Luckm an, a face fria de repulsa por Barris. — Peça a Donna um selo para postar a carta, ela vai te vender um .

— Sem desconto — disse Barris, igualm ente irritado.

Os holos, pensou Arctor, terão quilôm etros e quilôm etros disso em suas fitas caras. Não quilôm etros e quilôm etros de nada, m as quilôm etros e quilôm etros de um a trip gravada.

Não im portava tanto o que ocorria enquanto Robert Arctor estava sentado diante de um holo-scanner, pensou ele; era o que acontecia — pelo m enos para ele... para quem ?... para Fred — enquanto Bob Arctor estava em outro lugar, ou dorm indo, e os outros dentro do alcance do scanner. Então eu devia ir em bora, pensou ele, com o havia planej ado, deixando esses caras, e m andar outras pessoas que eu conheço para cá. Eu devia tornar m inha casa superacessível de agora em diante.

E depois um a idéia pavorosa e feia surgiu dentro dele. Suponha, quando eu tocar as gravações, que eu vej a Donna quando ela está aqui, abrindo um a j anela com um a colher ou com a lâm ina de um a faca, entrando de m ansinho e destruindo m eus bens e roubando. Outra Donna: a garota que ela realm ente é ou que ela é quando eu não posso vê-la. Com o é a Donna quando ninguém está por perto para observá-la?

Será, perguntou-se ele, que um a garota gentil, adorável, sagaz e m uito delicada, superdelicada se transform a instantaneam ente em um a sonsa? Será que vou ver um a m udança que vai acabar com a m inha cabeça? Donna ou Luckm an, alguém de quem eu gosto. Com o seu gato ou cachorro de estim ação quando você está fora de casa... o gato esvazia um travesseiro e com eça a enfiar seus bens valiosos nele: relógio elétrico e rádio de cabeceira, barbeador, tudo que pode enfiar antes de que você volte: outro gato inteiram ente diferente enquanto você está fora, roubando você e em penhando suas coisas ou acendendo seus baseados ou andando pelo telhado, ou fazendo interurbano para as pessoas... Só Deus sabe. Um pesadelo, outro m undo estranho através do espelho, um a cidade de terror toda ao contrário, com entidades rastej antes irreconhecíveis; Donna arrastando-se de quatro, com endo de tigelas de anim ais... um tipo de viagem psicodélica m aluca, im ensurável e horrenda.

Que droga!, pensou ele; nesse aspecto, talvez Bob Arctor acorde no m eio da noite de seu sono profundo e faça trips com o essa. Tem relações sexuais com a parede. Ou aparecem uns caras m isteriosos que ele nunca viu, um bando deles, com cabeças especiais que giram com pletam ente, feito coruj as. E os áudio-scanners vão pegar rapidinho os conspiradores dem entes que m aquinaram contra ele e depois explodir o banheiro dos hom ens do posto Standard, enchendo a privada de explosivos plásticos por Deus sabe que propósito de doidão. Talvez esse tipo de coisa aconteça toda noite enquanto ele sim plesm ente im agina que está dorm indo — e tudo passe durante o dia.

Bob Arctor, especulou ele, pode receber novas inform ações sobre si m esm o, m ais do que está preparado, m ais do que desej a saber sobre Donna e seu casaquinho de couro e Luckm an em suas roupas da m oda e até Barris — talvez, quando ninguém está por perto, Jim Barris m eram ente vá dorm ir. E durm a até que eles reapareçam .

Mas ele duvidava disso. Era m ais provável que Barris sacasse um transm issor escondido da bagunça e do caos do quarto dele — que, com o todos os outros côm odos da casa, agora pela prim eira vez estava sob varredura 24 horas por dia — e m andasse um sinal secreto para outro bando de filhos-da-puta secretos com quem ele conspirava por quaisquer pessoas com o ele ou eles conspiravam . Outro ram o, refletiu Bob Arctor, das autoridades.

Por outro lado, Hank e aqueles caras do centro não ficariam m uito satisfeitos se Bob Arctor deixasse a casa agora que os m onitores tinham sido instalados de form a cara e elaborada e nunca fosse visto novam ente: nunca m ais aparecesse em ponto nenhum das gravações. Ele não podia ir em bora para satisfazer seus planos de vigilância pessoal à custa dos outros. Afinal, era o dinheiro deles.

No roteiro sendo film ado, ele teria de ser o ator principal o tem po todo. Ator, Arctor, pensou ele. Bob, o Ator, que está sendo caçado, ele que é o procurado núm ero um .

Dizem que você não reconhece a própria voz quando a ouve pela prim eira vez num a gravação. E quando você se vê em um videoteipe, ou com o, nesse caso, em um hologram a em 3D, você não se reconhece visualm ente tam bém . Você se im aginava gordo, alto e de cabelo preto, m as em vez disso é um a m ulher m agrela e baixinha sem cabelo nenhum ... É assim ? Tenho certeza de que vou reconhecer Bob Arctor, pensou ele, pelo m enos pelas roupas que ele usa ou por um processo de elim inação. Quem não for Barris ou Luckm an e m orar aqui deve ser Bob Arctor. A não ser que sej a um dos cães ou dos gatos. Vou tentar m anter m eu olho profissional treinado em qualquer coisa que ande ereta.

— Barris — disse ele vou sair pra ver se arranj o uns grãos. — Depois ele fingiu se lem brar de que não tinha carro; fez um a expressão desse tipo. — Luckm an — disse ele —, seu Falcon está legal?

— Não — disse Luckm an pensativam ente, depois de ponderar —, acho que não.

— Posso pegar o seu carro, Jim ? — perguntou Arctor a Barris.

— Estou m e perguntando... se você sabe lidar com o m eu carro — disse Barris.

Isso sem pre surgia com o um a defesa quando alguém tentava pegar o carro de Barris em prestado, porque Barris tinha feito m odificações secretas inespecíficas nele, em

(a) suspensão,

(b) m otor,

(c) transm issão,

(d) pára-choque traseiro,

(e) trem de direção,

(f) sistem a elétrico,

(g) pára-choque frontal e volante

(h) e tam bém no velocím etro, acendedor de cigarros, cinzeiro, porta-luvas. Em particular, o porta-luvas. Barris o m antinha sem pre trancado. O rádio tam bém tinha sido sutilm ente alterado (nunca explicou com o ou por quê). Quando se sintonizava num a em issora, só se conseguiam sinais eletrônicos a intervalos de um m inuto. Todos os botões levavam a um a m esm a transm issão que não fazia sentido e, estranham ente, nunca tocava rock algum . Às vezes, quando eles estavam acom panhando Barris num a com pra e Barris estacionava e saía do carro, deixando-os sozinhos, ele sintonizava num a determ inada em issora e colocava o volum e m uito alto. Se eles m udassem enquanto Barris estava fora, ele ficava incoerente e se recusava a falar no assunto ou até explicar. Ele ainda não tinha explicado isso. Provavelm ente, quando sintonizado nessa freqüência, o rádio dele transm itia

(a) às autoridades,

(b) a um a determ inada organização política param ilitar,

(c) ao sindicato,

(d) a extraterrestres de inteligência superior.

— O que eu quero dizer — disse Barris — é que ele vai rodar...

— Ah, vai se foder! — interrom peu Luckm an asperam ente. — É um m otor com um de seis cilindros, seu m ané. Quando a gente estacionou no centro de Los Angeles, o m anobrista dirigiu. Então, por que o Bob não pode? Seu babaca!

Bob Arctor tam bém tinha alguns dispositivos, algum as m odificações encobertas e em butidas no rádio de seu próprio carro. Mas ele não ia falar nelas. Na verdade, era Fred que tinha. Ou outra pessoa, e eles fizeram algum as coisas um pouco com o o que Barris afirm ava que faziam seus vários dispositivos eletrônicos e, por outro lado, não faziam .

Por exem plo, toda viatura policial em ite um a determ inada interferência de am plo espectro que parece, nos rádios com uns de carro, um defeito nos supressores de faísca do veículo. Com o se a ignição da viatura policial estivesse com defeito. Contudo, Bob Arctor, com o policial, tinha recebido um a engenhoca que lhe dizia m uita coisa quando ele a instalou dentro do rádio do carro, enquanto os ruídos não davam aos outros — à m aioria das pessoas — absolutam ente qualquer inform ação. Essas outras pessoas nem m esm o reconheciam a estática com o inform ação. Prim eiro, os subsons diferentes avisavam a Bob Arctor que ele estava perto do carro da polícia e, depois, que variedade de departam ento ele representava: cidade ou condado, Patrulha Rodoviária ou federal, o que fosse. Ele tam bém pegava os sinais com intervalos de um m inuto que agiam com o um controle de tem po para um carro estacionado; quem estivesse no carro estacionado podia determ inar quantos m inutos tinha esperado sem nenhum gesto óbvio do braço. Isso era útil, por exem plo, quando eles concordavam em chegar a um a casa em exatam ente três m inutos. O zt zt zt no rádio de seus carros lhes dizia precisam ente quando se passaram três m inutos.

Ele sabia tam bém sobre a em issora AM que tocava as dez m úsicas de m aior sucesso e entre elas um a enorm e falação dos DJs, o que às vezes não era falação, de certa form a. Se essa em issora fosse sintonizada e a barulheira enchesse seu carro, qualquer um que casualm ente escutasse ouviria um a em issora de m úsica pop convencional e a típica tagarelice chata de um DJ e ou não prestaria atenção ou entenderia de algum a form a o fato de que o cham ado DJ, de repente, exatam ente no m esm o estilo tagarela anim adinho em que dizia: “Agora aqui vai um a para Phil e Jane, um a nova canção de Cat Stevens cham ada...”, de vez em quando dizia algum a coisa com o: “Veículo azul seguindo a um quilôm etro ao norte para Bastanchury e as outras unidades vão...” e assim por diante. Ele nunca — m esm o com todos os m uitos caras e garotas que andavam com ele, m esm o quando tinha sido obrigado a se m anter sintonizado na infoinstrução da polícia, com o acontecia quando havia um a prisão im portante ou qualquer grande ação que poderia envolvê-lo — viu alguém perceber. Ou, se percebiam , provavelm ente pensavam que estavam chapados e paranóicos e se esqueciam do assunto.

Ele tam bém sabia das m uitas viaturas sem m arcas, com o velhos Chevy s elevados na traseira com colunas altas (ilegais) e listras de corrida, com uns hippies que pareciam m alucos dirigindo-os erraticam ente em alta velocidade — ele sabia o que o rádio deles em itia na form a de estação de inform ações especiais e todas as freqüências, quando um deles zum bia ou passava voando por ele. Ele sabia ignorar.

Além disso, quando ele apertava o botão que supostam ente trocava de AM para FM no rádio de seu carro, um a em issora em um a determ inada freqüência gem ia um a m úsica indefinida do tipo Muzak, m as esse ruído transm itido a seu carro era filtrado, purificado pelo m icrofone-transm issor dentro do rádio, de m odo que o que quer que dissessem dentro do carro era captado pelo equipam ento e transm itido às autoridades, m as esta estação esquisita, independentem ente do volum e, não era recebida por eles e não interferia em nada; a grade a elim inava.

O que Barris afirmava haver feito tinha certa sem elhança com o que ele, Bob Arctor, com o policial sob disfarce, tinha em seu próprio rádio do carro, m as além disso, com relação a outras m odificações, com o suspensão, m otor, transm issão etc., não havia alteração algum a. Isso não seria legal e seria óbvio. E, em segundo lugar, m ilhões de tarados tam bém podiam fazer m odificações perigosas em seus carros, então ele sim plesm ente conseguira verba para um a fresa bem potente para suas rodas e deixou ficar. Qualquer veículo de alta potência pode alcançar e deixar qualquer outro para trás. Barris era cheio de m erda com essas coisas; um a Ferrari tinha suspensão, direção e volante que “nenhum a m odificação especial” podia igualar; então, ao inferno com isso. E os policiais não podem dirigir carros esporte, nem os baratos. Muito m enos Ferraris. Definitivam ente, é a habilidade do m otorista que decide tudo.

Mas ele recebeu outra verba policial. Pneus m uito incom uns. Tinham m ais do que faixas de aço por dentro, com o a Michelin introduzira anos atrás em seus m odelos X. Eram todos de m etal e se gastavam rapidam ente, m as tinham vantagens na velocidade e na aceleração. Sua desvantagem era o custo, m as ele os conseguiu de graça, de sua verba de serviço, que não era um a m áquina de Dr. Pepper com o a do dinheiro. Funcionava bem , m as ele podia conseguir verba som ente quando era absolutam ente necessário. Os pneus ele m esm o colocou quando ninguém estava olhando. Com o tinha feito com as alterações no rádio.

O único m edo sobre o rádio não era a detecção por algum xereta com o Barris, m as o sim ples roubo. Tinha dispositivos adicionais cuj a substituição seria cara se fossem roubados; ele precisaria inventar um a desculpa.

Naturalm ente, ele tam bém levava um a arm a escondida no carro. Barris, em todas as suas fantasias sinistras de viagem de ácido, nunca teria descoberto seu esconderij o, onde a arm a realm ente estava. Barris teria im aginado um lugar exótico para escondê-la, com o um a coluna de direção em um a câm ara vazia. Ou dentro do tanque de gasolina, pendurada por um fio, com o a coca no clássico film e Easy Rider, aliás, esse lugar, com o esconderij o, era o pior em um a m oto. Todo policial que tivesse visto esse film e deduziu de im ediato o que psiquiatras inteligentes tinham concluído: que os dois m otoqueiros queriam ser pegos e, se possível, m ortos. A arm a dele, no carro dele, estava no porta-luvas.

O treco pseudo-engenhoso a que Barris continuam ente aludia em seu próprio carro devia ter algum a sem elhança com a realidade, a realidade do carro m odificado de Arctor, porque m uitos dos truques de rádio que Arctor usava eram procedim ento padrão e tinham sido dem onstrados em program as noturnos de TV, nos talk shows da rede, por especialistas em eletrônica que aj udaram a proj etá-los ou leram sobre eles em publicações especializadas ou os viram ou foram dem itidos de laboratórios da polícia e guardavam rancor. Então o cidadão m édio (ou, com o sem pre dizia Barris, de form a arrogante e quase educada, o cidadão m édio típico) agora sabia que nenhum preto-e- branco corria o risco de m andar encostar um Chevy 57 veloz e envenenado com o que parecia um adolescente doidão ao volante com um a cervej a Coors — e depois descobrir que ele tinha parado um veículo disfarçado da Narcóticos em plena caça de sua vítim a. Então o cidadão m édio típico, naquela época, entendia com o e por que existiam todos aqueles veículos da Narcóticos enquanto eles passavam rugindo, assustando velhas e caretas indignados que escreviam para reclam ar, continuam ente indicando sua identidade pelas ruas para os outros e para os colegas... Que diferença isso fazia? Mas o que faria m esm o a diferença — espantosa — seria se os punks, os donos de carros envenenados, os m otoqueiros e especialm ente os traficantes, m ulas e aviões conseguissem construir e incorporar em seus carros sim ilares esses dispositivos sofisticados.

Eles podiam então passar zunindo. Im punem ente.

— Então eu vou nessa — disse Arctor, que era o que ele queria fazer; ele tinha arm ado com Barris e Luckm an. Tinha de sair.

— Aonde você vai? — disse Luckm an.

— À casa da Donna. — Ir à casa dela a pé era quase im possível; ao dizer isso, ele garantia que nenhum hom em o acom panharia. Vestiu o casaco e dirigiu-se à porta da frente. — Depois a gente se vê.

— Meu carro... — continuou Barris com o quem se desculpa.

— Se eu tentasse dirigir seu carro — disse Arctor —, ia apertar o botão errado e ele flutuaria sobre o centro da Grande Los Angeles com o o dirigível da Goody ear e eles iam ter de m e despej ar borato nas cham as de um poço de petróleo.

— Ainda bem que você com preendeu m inha posição — m urm urou Barris quando Arctor fechou a porta.

Sentado ao lado do cubo de hologram a do Monitor 2, Fred, em seu traj e m isturador, assistia im passível enquanto o hologram a m udava continuam ente diante de seus olhos. No apartam ento seguro, outros observadores viam outros hologram as de outras fontes; a m aioria gravações. Fred, porém , via um hologram a ao vivo; gravava, m as ele tinha passado pela gravação para pegar a transm issão no m om ento em que ela era em itida da casa supostam ente arruinada de Bob Arctor.

Dentro do hologram a, em cores vivas, com alta resolução, estavam Barris e Luckm an sentados. Na m elhor poltrona da sala de estar, Barris estava curvado sobre um cachim bo de haxixe que ele vinha criando há dias. O rosto dele tornou-se um a m áscara de concentração enquanto ele passava a corda em volta do fornilho do cachim bo. Na m esa de centro, Luckm an curvou-se sobre um a refeição congelada de frango Swanson, com endo em grandes bocados enquanto via um western na TV. Quatro latas de cervej a — vazias — foram am assadas por seu punho forte na m esa; agora ele estendeu a m ão para a quinta lata pela m etade, derrubou-a, ela vazou, ele a pegou e xingou. Ao palavrão, Barris espiou, parecendo Mim e em O anel dos Nibelungos, e voltou a trabalhar.

Fred continuou a ver.

— Merda de program ação noturna da TV — gargarej ou Luckm an, a boca cheia de com ida, e depois, de repente, ele largou a colher e ficou de pé num pulo vacilante, cam baleou, girou para Barris as m ãos erguidas, gesticulando, sem dizer nada, a boca aberta e a com ida m eio m astigada caindo em suas roupas, no chão. Os gatos correram para ela ansiosam ente.

Barris parou a fabricação do cachim bo de haxixe e olhou para o infeliz Luckm an. Em um frenesi, agora gargarej ando barulhos horríveis, Luckm an, com um a das m ãos, varreu as latas de cervej a e a com ida da m esa de centro; tudo se espatifou no chão. Os gatos fugiram , apavorados. Ainda assim , Barris ficou sentado, olhando fixam ente para ele. Luckm an avançou alguns passos para a cozinha; o scanner dali, em seu cubo diante dos olhos apavorados de Fred, pegou Luckm an enquanto ele tateava às cegas na sem i-escuridão da cozinha procurando por um copo e tentava abrir a torneira para enchê-lo de água. No m onitor, Fred deu um pulo; transfixado, no Monitor Dois, ele viu Barris, ainda sentado, voltar a laboriosam ente enrolar a corda no fornilho de seu cachim bo de haxixe. Barris não desviou os olhos novam ente; o Monitor Dois m ostrou-o de novo m ergulhado intensam ente no trabalho.

O áudio explodia em sons de agonia dilacerantes; o sufocam ento hum ano e o alarido furioso de obj etos batendo no chão enquanto Luckm an atirava panelas, caçarolas, pratos e pires num a tentativa de atrair a atenção de Barris. Barris, em m eio ao barulho, continuava m etodicam ente com seu cachim bo e não desviou os olhos de novo.

Na cozinha, no Monitor Um , Luckm an desabou no chão, não devagar, de j oelhos, m as com pletam ente, com um baque surdo e ficou deitado ali, esparram ado. Barris continuou a enrolar a corda no cachim bo e agora um sorrisinho falso apareceu em seu rosto, nos cantos da boca.

De pé, Fred encarou chocado, ao m esm o tem po galvanizado e paralisado. Pegou o telefone da polícia ao lado do m onitor e parou, ainda observando.

Por vários m inutos, Luckm an ficou deitado no chão da cozinha, sem se m exer, enquanto Barris enrolava a corda. Barris estava curvado com o um a velha concentrada tricotando, sorrindo para si m esm o, sorrindo sem parar, e balançava-se um pouco; depois, de repente, Barris atirou longe o cachim bo de haxixe, levantou-se, olhou atentam ente para a form a de Luckm an no chão da cozinha, o copo de água quebrado ao lado dele, todos os cacos e panelas e pratos quebrados, e depois o rosto de Barris reagiu subitam ente com um terror fingido. Barris tirou os óculos escuros, os olhos arregalados grotescam ente, bateu os braços em um pavor desam parado, correu um pouco por ali, depois precipitou-se para Luckm an, parando a pouca distância dele, correu de volta, agora ofegando.

Estava fazendo sua cena, percebeu Fred. Estava encenando o Pânico e a Descoberta j untos. Com o se tivesse acabado de chegar. Barris, no cubo do Monitor 2, girou o corpo, arfou de pesar, o rosto verm elho-escuro, e depois cam baleou para o telefone, ergueu-o, deixou-o cair, pegou-o com os dedos trêm ulos... Ele acabara de descobrir que Luckm an, sozinho na cozinha, tinha m orrido sufocado com um pedaço de com ida. E agora Barris estava tentando freneticam ente conseguir aj uda. Tarde dem ais.

Ao telefone, Barris dizia, num a voz estranha, aguda e lenta: “Telefonista, cham e a brigada de inalação ou a brigada de ressuscitação.”

“Senhor”, guinchou o fone para Fred, “tem alguém incapaz de respirar? Quer que...”

“Acho que é um a parada cardíaca”, estava dizendo agora a voz de Barris ao telefone em seu tom calm o, lento, urgente, de profissional, um a voz im placável com a consciência do perigo, da gravidade e da escassez de tem po. “Ou isso ou aspiração involuntária de um a m assa de com ida no...”

“Qual é o endereço, senhor?”, interrom peu a telefonista. “O endereço”, disse Barris, “deixe-m e ver, o endereço é...” Fred, em voz alta, de pé, disse:

— Meu Deus!

De repente, Luckm an, estendido no chão, ergueu-se convulsivam ente. Estrem eceu e expeliu o m aterial que lhe obstruía a garganta, sacudiu-se e abriu os olhos, que encaravam num a confusão crescente.

“Olha, parece que está tudo bem agora”, disse Barris com delicadeza ao telefone. “Obrigado, não será necessária assistência algum a, afinal.” Ele desligou rapidam ente.

“Meu Deus”, m urm urou Luckm an num a voz grossa enquanto se levantava. “Que m erda!” Ele ofegava, tossindo e lutando para respirar.

“Você está bem ?”, perguntou Barris, num tom preocupado. “Eu devo ter engasgado. Eu desm aiei?”

“Não exatam ente. Mas você entrou em um estado alterado de consciência. Por alguns segundos. Provavelm ente um estado alfa.”

“Meu Deus! Eu m e suj ei!” De form a instável, cam baleando de fraqueza, Luckm an conseguiu se colocar de pé e ficou oscilando, tonto, segurando-se na parede para se apoiar. “Eu devo estar m esm o m e acabando”, m urm urou ele, com noj o. “Com o um doidão velho.” Ele foi até a pia para se lavar, os passos incertos.

Observando tudo isso, Fred sentiu o m edo se esvair dele. O hom em ia ficar bem . Mas Barris! Que tipo de pessoa era ele? Luckm an tinha se recuperado apesar dele. Mas que suj eitinho!, pensou. Que pervertido! Onde estava a cabeça dele para ficar parado daquele j eito?

“Assim um cara pode em pacotar”, disse Luckm an enquanto se lavava na pia.

Barris sorriu.

“Eu tenho um a constituição bem forte m esm o”, disse Luckm an, bebendo água de um a caneca. “O que você estava fazendo enquanto eu estava deitado aqui? Batendo um a punheta?”

“Você m e viu ao telefone”, disse Barris. “Cham ando os param édicos. Eu entrei em ação em ...”

“Um a ova”, disse Luckm an am argam ente e bebeu m ais água fresca. “Eu sei o que você ia fazer se eu m orresse: ia roubar m eu esconderij o. Você ia até vasculhar m eus bolsos.” “É incrível”, disse Barris, “a lim itação da anatom ia hum ana, o fato de que com ida e ar devem dividir a m esm a passagem . Então há risco de...”

Em silêncio, Luckm an m ostrou o dedo m édio a ele.

* * *

Pneus cantando. Um a buzina. Bob Arctor olhou rapidam ente para o trânsito noturno. Um carro esporte, o m otor ligado, j unto ao m eio-fio; dentro dele, um a garota acenava para ele.

Donna.

— Meu Deus — disse ele novam ente. Ele foi até o m eio-fio.

Abrindo a porta do MG, Donna disse:

— Eu te assustei? Passei por você quando estava indo para casa e percebi que era você andando, então peguei o retorno e voltei. Entra aí.

Silenciosam ente, ele entrou e fechou a porta do carro.

— Por que está a pé? — disse Donna. — Por causa do seu carro? Ainda não foi consertado?

— Acabei de ter um a viagem estranha — disse Bob Arctor. — Não com o um a viagem de fantasia, só... — ele estrem eceu.

Donna disse:

— Estou com as suas coisas.

— O quê? — disse ele.

— Mil tabletes de m orte.

— Morte? — ecoou ele.

— E, m orte de alta qualidade. E m elhor a gente ir. — Ela engrenou a prim eira, saiu do acostam ento e pegou a rua; quase de im ediato j á estava dirigindo rápido dem ais. Donna sem pre dirigia rápido dem ais e colava nos outros carros, m as sabia o que fazia.

— Aquele puto do Barris! — disse ele. — Sabe com o ele age? Ele não m ata ninguém que ele quer m orto; só fica por perto até surgir a situação em que eles m orrem . E ele só fica sentado ali, enquanto eles m orrem . Na verdade, ele os prepara para m orrer enquanto fica por perto. Mas não tenho certeza de com o faz isso. De qualquer form a, ele dá um j eito para que eles m orram . — Ele caiu em silêncio então, rum inando. — Tipo assim — disse ele Barris não conectaria explosivos plásticos no sistem a de ignição de seu carro. O que ele ia fazer...

— Está com o dinheiro? — disse Donna. — Para a parada? É de prim eira m esm o e preciso do dinheiro agora. Preciso ter o dinheiro esta noite porque vou ter de com prar outras coisas.

— Claro. — O dinheiro estava na carteira dele.

— Não gosto do Barris — disse Donna enquanto dirigia — e não confio nele. Acho que é m aluco. E quando você está perto dele, fica m aluco tam bém . E depois, quando você não está com ele, você fica legal. Agora você está m aluco.

— Estou? — disse ele, sobressaltado.

— Está — disse Donna calm am ente.

— Bom ... — disse ele. — Meu Deus! — Ele não sabia o que dizer a ela. Em especial porque Donna não estava errada.

— Olha — disse Donna com entusiasm o —, pode m e levar a um show de rock? No Anaheim Stadium , na sem ana que vem ? Você pode?

— Claro — disse ele m ecanicam ente. E depois percebeu o que Donna tinha dito: pedindo a ele para levá-la para sair. — Claaaaro! — disse ele, satisfeito. A vida voltou para ele. Novam ente, a garotinha de cabelo escuro que ele am ava tanto o havia restaurado. — Que noite?

— No dom ingo à tarde. Vou levar um pouco daquele haxixe gorduroso e preto e ficar bem chapada. Eles não vão saber a diferença, vai ter m ilhares de doidões por lá. — Ela olhou para ele, criticam ente. — Mas você vai ter de vestir um a roupa legal, não essas roupas esquisitas que às vezes usa. Quer dizer... — A voz dela se suavizou. — Eu queria que você ficasse um gato, porque você é um gato.

— Tudo bem — disse ele, encantado.

— Estam os indo para a m inha casa — disse Donna enquanto disparava pela noite no carrinho — e você está com o dinheiro e vai dar para m im e depois vam os tom ar uns tabletes, ficar doidões e bem relaxados e talvez você vá querer com prar pra gente um a garrafa de Southern Com fort e a gente pode ficar de porre tam bém .

— Legal! — disse ele com sinceridade.

— O que eu quero fazer m esm o hoj e à noite — disse Donna enquanto reduzia, entrava na rua em que m orava e chegava à entrada de carros — é ir a um drive-in. Com prei um j ornal e li, m as não consegui achar nada de bom , a não ser no Torrance Drive-in, m as j á com eçou o film e. Com eçou às cinco e m eia. Que saco!

Ele olhou o relógio.

— Então perdem os...

— Não, a gente ainda pode ver a m aior parte dele. — Ela deu um sorriso caloroso para ele enquanto parava o carro e desligava o m otor. — São todos os film es de O planeta dos macacos, todos os 11; eles com eçam às sete e m eia da noite e vão direto até as oito da m anhã de am anhã. Vou trabalhar diretam ente do drive-in, então tenho de m e trocar agora. Vam os ficar sentados lá no cinem a, chapados e bebendo Southern Com fort a noite toda. Cara, dá pra sacar?

— Ela olhou para ele cheia de esperança.

— Tudo bem — repetiu ele.

— Tá, tá, tá. — Donna saltou do carro e voltou para aj udá-lo a abrir a portinha. — Quando foi a últim a vez em que você viu os film es de O planeta dos m acacos? Eu vi a m aioria deles no início do ano, m as depois passei m al em um dos últim os e precisei sair. Foi um sanduíche de presunto que m e venderam no drive-in. Isso m e deixou m uito puta, perdi o últim o film e, onde revelavam que todas as pessoas fam osas da história, com o Lincoln e Nero, eram m acacos disfarçados e dirigiram toda a história hum ana desde o com eço. E por isso que eu quero tanto ir agora. — Ela baixou o tom de voz enquanto eles seguiam para a porta da casa. — Eles m e ferraram vendendo aquele sanduíche de presunto, e aí... não vai m e dedurar... da vez seguinte que a gente foi ao drive-in, aquele em La Habra, enfiei um a m oeda torta na fenda e em outras m áquinas de venda além daquela. Eu e Larry Talling... lem bra do Larry, aquele cara com quem eu estava saindo? Nós entortam os um m onte de m oedas de 25 e de cinqüenta usando o torno e um a chave inglesa dele. Tive o cuidado de ver se todas as m áquinas de venda eram da m esm a em presa, é claro, e depois arrasam os um m onte delas, praticam ente todas, pra dizer a verdade. — Ela abriu a porta da frente com a chave, lenta e arrastada, à luz fraca.

— Não é um bom negócio te enganar, Donna — disse ele enquanto os dois entravam na casa pequena e arrum ada.

— Não pise no carpete felpudo — disse ela.

— Onde vou pisar, então?

— Fique parado ou pise nos j ornais.

— Donna...

— Agora não vá ficar cheio de m erda por ter de andar em j ornais. Sabe quanto m e custou m andar lavar o carpete?

— Ela estava parada, desabotoando o casaco.

— Econom ia — disse ele, tirando o próprio casaco. — Econom ia de m erda. Já j ogou algum a coisa fora? Você guarda barbantes curtos dem ais para...

— Um dia — disse Donna, sacudindo o longo cabelo preto nas costas enquanto tirava o casaco de couro — vou m e casar e precisarei disso tudo, de tudo o que guardei. Quando você se casou, precisou de tudo isso. Tipo assim , você viu aquele espelho grande no j ardim ao lado da porta; foram necessárias três pessoas por m ais de um a hora para passar o espelho pela cerca. Um dia...

— Quanto do que você guarda foi com prado — perguntou ele — e quanto você roubou?

— Comprado? — Ela estudou o rosto dele sem ter certeza. — O que quer dizer com comprado?

— Com o quando você com pra drogas — disse ele. — Um a parada com as drogas. Com o agora. — Ele pegou a carteira. — Eu dou o seu dinheiro, não é?

Donna assentiu, observando-o obedientem ente (na verdade, m ais por educação), m as com dignidade. Com um a certa reserva.

— E depois você m e entrega o m onte de drogas por isso — disse ele, estendendo as notas. — O que eu quero dizer com comprar é um a extensão no m undo das transações hum anas dos negócios que tem os agora, conosco, com o a parada com as drogas.

— Acho que entendi — disse ela, os olhos grandes e escuros, plácidos, m as atentos. Ela estava disposta a aprender.

— Quantas... com o na vez em que roubou o cam inhão da Coca-Cola em que você ficou na cola naquele dia... quantas garrafas de Coca você roubou? Quantos engradados?

— O equivalente a um m ês — disse Donna. — Para m im e m eus am igos.

Ele olhou para ela de form a reprovadora.

— É um a form a de escam bo — disse ela.

— O que você... — Ele com eçou a rir. — O que você deu em troca?

— Eu dei a m im m esm a.

Agora ele riu alto.

— A quem ? Ao m otorista do cam inhão, que deve ter se dado bem ...

— A Coca-Cola Com pany é um m onopólio capitalista. Ninguém m ais pode fazer Coca-Cola, só eles, com o a com panhia telefônica, quando você quer ligar para alguém . Todos são m onopólios capitalistas. Você sabe — os olhos dela brilharam — que a fórm ula da Coca-Cola é um segredo m uito bem guardado, transm itido há séculos, que só algum as pessoas conhecem , todas da m esm a fam ília, e quando m orrer a últim a delas que tiver a fórm ula m em orizada não terá m ais Coca-Cola? Então tem um a fórm ula escrita em um lugar seguro — acrescentou ela, m editativam ente. — Queria saber onde — rum inou ela para si m esm a, os olhos vibrando.

— Você e seus am igos ladrões nunca vão descobrir a fórm ula da Coca-Cola, nem em um m ilhão de anos.

— QUEM VAI QUERER FABRICAR A PORRA DA COCA-COLA QUANDO PODE ROUBAR OS CAMINHÕES DELES? Eles têm um m onte de cam inhões. A gente vê eles andando por aí, o tem po todo, bem devagar. Eu colo na traseira deles sem pre que posso; eles m e deixam m aluca. — Ela deu um sorrisinho m isterioso, sagaz, adorável e travesso para ele, com o se tentasse seduzi-lo a entrar na estranha realidade dela, onde ela colava na traseira de um cam inhão lento, ficava cada vez m ais irritada e m ais im paciente, e depois, quando ele encostava, em vez de passar por ele com o fariam outros m otoristas, ela tam bém encostava e roubava tudo o que tinha no cam inhão. Não tanto por ser ladra ou por vingança, m as porque na hora em que finalm ente encostou ela vira os engradados por tanto tem po que deduziu o que podia fazer com todos eles. A impaciência rendera a engenhosidade. Ela estava com o carro — não o MG, m as um Cam aro m aior que dirigia na época, antes de acabar com ele — com engradados e m ais engradados de Coca-Cola, e depois, por um m ês, ela e todos os am igos bacacas beberam toda a Coca-Cola de graça que quiseram e depois disso...

Ela devolveu as garrafas vazias a diferentes loj as em troca do depósito.

— O que você faz com as tam pas das garrafas? — ele perguntou a ela um dia. — Em brulha em m usselina e guarda em sua arca de cedro?

— Eu j ogo fora — disse Donna, m al-hum orada. — Não se pode fazer nada com tam pas de Coca-Cola. Não tem m ais concurso, nem nada disso.

Agora ela desapareceu no outro côm odo e voltou com vários sacos de polietileno. — Quer contar estes? — perguntou ela. — Tem m il com toda a certeza. Eu pesei na m inha balança antes de pagar por eles.

— Está tudo bem — disse ele. Ele aceitou os sacos, ela aceitou o dinheiro e ele pensou: “Donna, m ais um a vez eu podia te entregar, m as provavelm ente nunca vou ligar para o que você faz, m esm o que sej a com igo, porque há algo m aravilhoso, cheio de vida e doce em você, e eu nunca destruiria isso. Não entendo, m as é assim .”

— Posso ficar com dez? — perguntou ela.

— Dez? Dez tabletes de volta? Claro. — Ele abriu um dos sacos — era difícil de desam arrar, m as ele era habilidoso — e contou precisam ente dez para ela. E depois dez para si m esm o. E am arrou o saco de novo. E depois levou todos os sacos para o casaco no arm ário.

— Sabe o que eles fazem agora nas loj as de fitas cassetes? — disse Donna toda anim ada quando ele voltou. Agora os dez tabletes não estavam à vista, ela j á os havia escondido. — As fitas de gravação?

— Eles te prendem — disse ele — se as roubar.

— Sem pre fizeram isso. Agora o que eles fazem ... sabe quando você leva um disco ou um a fita até o balcão e o vendedor tira a etiqueta de preço que está colada neles? Bom , adivinha só. Adivinha o que eu descobri, quase do pior j eito. — Ela se atirou em um a cadeira, sorrindo de expectativa, e pegou um cubinho em brulhado em alum ínio que ele identificou com o um fragm ento de haxixe m esm o antes de ela desem brulhar. — Não é só um a etiqueta colada. Tam bém é um pedacinho m inúsculo de um a liga m etálica e, se a etiqueta não for retirada pelo vendedor, e você tentar sair pela porta com ela, o alarm e dispara.

— Com o você descobriu isso quase do pior j eito?

— Um a adolescente tentou sair com um a debaixo do casaco na m inha frente, o alarm e disparou, eles pegaram e a polícia chegou.

— Quantos você colocou debaixo do casaco?

— Três.

— Você tam bém tinha drogas no seu carro? — disse ele. — Porque depois que foi pega por roubar as fitas eles iam recolher seu carro, porque você ia ser vigiada no centro, o carro seria rebocado o tem po todo e depois eles iam descobrir as drogas e te prender por isso tam bém . Aposto que não foi na cidade, aposto que você fez isso onde... — ele com eçara a dizer. Onde você não conhece ninguém da polícia que possa intervir. Mas ele não podia dizer isso, porque im plicava a si m esm o; se Donna fosse pega, pelo m enos onde ele tinha algum a influência, ele faria de tudo para aj udá-la. Mas ele não podia fazer nada, digam os, no condado de Los Angeles. E se isso acontecesse, o que um dia ia acontecer, assim seria: rápido dem ais para ele tom ar conhecim ento ou aj udar. Agora ele tinha um cenário tocando em sua cabeça, um a fantasia de terror: Donna, com o Luckm an, m orrendo sem que ninguém ouvisse, nem se im portasse, nem fizesse algum a coisa; eles podiam ouvir, m as eles, com o Barris, continuariam im passíveis e im óveis até que tudo estivesse acabado para ela. Ela não m orreria literalm ente, com o aconteceu com Luckm an — m orreria? Ele quis dizer que podia. Mas ela, sendo viciada na Substância D, não só estaria na cadeia, m as teria de passar pela crise de abstinência. E um a vez que ela traficava, não só usava — e havia punição por roubo tam bém —, ela iria em cana por algum tem po e um m onte de outras coisas, coisas apavorantes, aconteceriam com ela. E depois, quando ela voltasse, seria um a Donna diferente. A expressão suave e carinhosa de que ele gostava tanto, o calor — isso seria transform ado em Deus sabe o quê. Algo vazio e usado dem ais. Donna traduzida em um a coisa e era o que ia acontecer com todos eles um dia, m as com Donna, assim ele esperava, m uito m ais e bem além de sua própria vida. E não onde ele não pudesse aj udar.

— Fantasm inha — disse ele a ela agora, de um j eito infeliz —, m as nada Cam arada.

— O que é isso? — Depois de um m om ento, ela entendeu. — Ah, a terapia TA. Mas quando eu fum o um ... — Ela havia apanhado o próprio cachim binho de cerâm ica para haxixe, com o um corrupio, que ela m esm a fez, e estava acendendo. — Eu viro Soneca. — Olhando para ele, os olhos brilhantes e felizes, ela riu e estendeu o precioso cachim bo de haxixe. — Vou te sobrecarregar — declarou ela. — Senta aí.

Enquanto ele se sentava, ela se levantou, ficou fum ando o cachim bo anim adam ente, depois andou até ele, curvou-se e, enquanto ele abria a boca — com o um filhote de passarinho, pensou ele, com o ele sem pre pensava quando ela fazia isso —, ela exalou grandes j atos cinzentos e vigorosos de fum aça de haxixe nele, enchendo-o de seu próprio calor, ousadia e energia incorrigíveis, o que era ao m esm o tem po um tranqüilizante que relaxava os dois: ela, que sobrecarregava, e Bob Arctor, que recebia.

— Eu te am o, Donna — disse ele. Essa sobrecarga, isso era o substituto que ele tinha para as relações sexuais com ela, e talvez fosse m elhor; valia m uito; não só era íntim o e m uito estranho se visto dessa form a, porque prim eiro ela podia colocar algum a coisa dentro dele e depois, se ela quisesse, ele colocava algo dentro dela. Com o um a troca, de um lado para outro, até que o haxixe acabasse.

— E, eu entendo a sua paixão por m im — disse ela, dando um a risadinha, sentada ao lado dele, sorrindo, agora para dar um a tragada no cachim bo para ela m esm a.