O Homem Duplo
Capítulo 10
10
No traj e m isturador, Fred estava sentado diante do turbilhão de um a bateria de holos gravados, vendo Jim Barris lendo um livro sobre cogum elos na sala de Bob Arctor. Por que cogum elos?, perguntou-se Fred, e colocou a gravação na velocidade alta, avançando para um a hora depois. Barris ainda estava sentado, m uito concentrado na leitura e tom ando notas.
Barris baixou o livro e deixou a casa, saindo do alcance do scanner. Quando voltou, trazia um saquinho de papel pardo que depositou na m esa de centro e abriu. Dele retirou cogum elos secos, que com eçou a com parar, um por um , com as fotos coloridas no livro. Com um vagar excessivo, incom um em Barris, ele com parou cada um dos cogum elos. No final, deixou de lado um cogum elo que parecia desprezível e recolocou os dem ais no saco; do bolso tirou um punhado de cápsulas vazias e, depois, com o m esm o cuidado, com eçou a esfarelar um determ inado cogum elo nas cápsulas e fechou cada um a delas.
Depois disso, Barris com eçou a telefonar. O gram po telefônico gravou os núm eros discados.
“Alô, é o Jim .”
“E aí?”
“Eu arranj ei um a.”
“Tá brincando.”
“Psilocybe mexicana.”
“O que é isso?”
“Um cogum elo alucinógeno raro, usado em cultos de m istério da Am érica do Sul m ilhares de anos atrás. Você fica invisível, entende o que os anim ais falam ...”
“Não, obrigado.” Clique.
Rediscando.
“Alô, é o Jim .”
“Jim ? Que Jim ?”
“O da barba... óculos verdes, calça de couro. Eu te conheci num a inauguração em Wanda...”
“Ah, sim . Jim . Sei.”
“Está interessado em com prar uns psicodélicos orgâni- co sr
“Bem , sei lá...” Inquietação. “Tem certeza de que é o Jim ? Não parece ser ele.”
“Consegui um a coisa incrível, um cogum elo orgânico raro da Am érica do Sul, usado em cultos de m istério dos índios há m ilhares de anos. Você voa, fica invisível, seu carro desaparece, você consegue entender o que os anim ais falam ...”
“Meu carro desaparece o tem po todo. Quando eu o deixo em um a área suj eita a reboque. Rá, rá.”
“Posso te arrum ar um as seis cápsulas desse Psilocy be.”
“Por quanto?”
“Cinco dólares a cápsula.”
“Chocante! Tá de sacanagem ? Aí, vou te encontrar em algum lugar.” Depois, suspeita. “Sabe de um a coisa, acho que m e lem brei de você... você m e ferrou um a vez. Onde arrum ou essas doses de cogum elo? Com o vou saber que não são ácido fraco?”
“Elas foram trazidas para os Estados Unidos dentro de um ídolo de barro”, disse Barris.
“Com o parte de um carregam ento de arte cuidadosam ente guardado para um m useu com esse ídolo m arcado. Os cretinos da alfândega nem desconfiaram .” Barris acrescentou: “Se não bater, eu te devolvo o dinheiro.”
“Bom , isso não vai querer dizer nada se m inha cabeça for devorada e eu ficar m e balançando nas árvores.”
“Eu tom ei um faz uns dois dias”, disse Barris. “Para testar. A m elhor viagem que j á tive... m ontes de cores. Melhor do que m escalina, pode acreditar. Não quero ferrar m eus clientes. Eu sem pre testo m inhas coisas prim eiro em m im . É garantido.”
Atrás de Fred, agora outro traj e m isturador tam bém estava vendo o holom onitor.
— O que ele está vendendo? Mescalina, foi isso que ele disse?
— Ele colocou cogum elos em cápsulas — disse Fred — que ou ele colheu ou alguém colheu na cidade m esm o.
— Alguns cogum elos são extrem am ente tóxicos — disse o traj e m isturador atrás de Fred.
Um terceiro traj e m isturador interrom peu a análise que fazia em seu holo e agora estava de pé com eles.
— Alguns cogum elos Am anita contêm quatro toxinas que são agentes que detonam os glóbulos verm elhos. Levam duas sem anas para m orrer e não existe antídoto. É terrivelm ente doloroso. Só um especialista pode dizer que cogum elo está colhendo quando eles são silvestres.
— Eu sei — disse Fred e m arcou o núm ero de entrada desse trecho da fita para uso do departam ento.
Barris estava discando novam ente.
— Qual é o artigo do estatuto violado nesse caso? — disse Fred.
— Propaganda enganosa — disse um dos traj es m isturadores e os dois riram e voltaram a seus próprios m onitores. Fred continuou vendo.
No Holom onitor 4, a porta da frente da casa se abriu e Bob Arctor entrou com cara desanim ada.
“Oi!”
“E aí”, disse Barris, j untando suas cápsulas e enfiando-as bem fundo no bolso. “Com o se entendeu com a Donna?” Ele riu. “De várias m aneiras talvez, hein?”
“Tá, vai se foder”, disse Arctor, e passou do Holom onitor Quatro para ser pego em seu quarto um m om ento depois pelo scanner 5. Ali, com a porta trancada, Arctor puxou vários sacos plásticos cheio de tabletes brancos; ele ficou de pé por um m om ento, sem ter certeza do que fazer, e depois os enfiou debaixo das cobertas da cam a, fora de vista, e tirou o casaco. Parecia cansado e infeliz, seu rosto estava repuxado.
Por um m om ento, Bob Arctor ficou sentado na beira da cam a desfeita, im erso em pensam entos. Ele por fim sacudiu a cabeça, levantou-se, ficou parado, inseguro... depois alisou o cabelo e saiu do quarto, para ser captado pelo scanner central da sala enquanto se aproxim ava de Barris. Durante esse tem po, o scanner 2 tinha testem unhado Barris esconder o saco de papel pardo de cogum elos debaixo das alm ofadas do sofá e colocado o livro sobre cogum elos de volta à estante, onde não ficasse visível.
“O que estava fazendo?”, perguntou Arctor a ele.
Barris declarou: “Um a pesquisa.”
“Sobre o quê?”
“As propriedades de algum as entidades m icóticas de natureza delicada.” Barris riu. “Não com bina m uito com um a m exida nuns peitinhos de m oça, né?”
Arctor olhou para ele e foi para a cozinha ligar a cafeteira.
“Bob”, disse Barris, seguindo-o sossegadam ente. “Desculpe se eu disse algum a coisa que te ofendeu.” Ele ficou por ali enquanto Arctor esperava que a cafeteira aquecesse, tam borilando e zum bindo a esm o.
“Cadê o Luckm an?”
“Acho que saiu para tentar roubar um telefone público. Ele levou o m acaco hidráulico de eixo; em geral isso significa que ele vai arrancar um telefone público, não é?”
“Meu m acaco hidráulico”, repetiu Arctor.
“Sabe de um a coisa?”, disse Barris. “Eu podia te aj udar profissionalm ente nas suas tentativas de dar um a cantada na m ocinha...”
Fred avançou a gravação em alta velocidade. A leitura indicava um a passagem de duas horas.
“... pague seu m aldito aluguel ou vai trabalhar na porcaria do cefscópio”, dizia Arctor para Barris com vigor.
“Eu j á encom endei os resistores que...”
Novam ente Fred avançou a gravação. Mais duas horas se passaram .
Agora o Holom onitor 5 m ostrava Arctor no quarto, na cam a, um radiorrelógio FM sintonizado na KNX, tocando folk rock baixinho. O Monitor 2 da sala m ostrava Barris sozinho, novam ente lendo sobre cogum elos. Nenhum dos dois fez grande coisa por um bom tem po. Um a vez, Arctor se agitou e estendeu a m ão para aum entar o volum e do rádio enquanto tocava um a m úsica de que ele evidentem ente gostava. Na sala, Barris lia sem parar e m al se m exia. Arctor novam ente se deitou de costas na cam a e ficou im óvel.
O telefone tocou. Barris pegou o fone e levou ao ouvido. “Alô?”
No gram po do telefone, um hom em disse:
“Sr. Arctor?”
“Sim , sou eu”, disse Barris.
Vou ser fodido por um babaca, disse Fred a si m esm o. Ele estendeu a m ão para aum entar o volum e do gram po do telefone.
“Sr. Arctor”, disse a voz não identificada, de form a arrastada e baixa. “Lam ento incom odá-lo tão tarde, m as seu cheque voltou...”
“Ah, sim ”, disse Barris. “Eu pretendia ligar para o senhor sobre isso. A situação é a seguinte, senhor: eu tive um a gripe grave, com perda de calor corporal, espasm os pilóricos, cólicas... Sim plesm ente agora eu não tenho condições de cobrir esse chequezinho de vinte dólares e, francam ente, não pretendo fazer isso.”
“Com o?”, disse o hom em , sem sobressaltos, m as com a voz rouca. Agourentam ente.
“Sim , senhor”, disse Barris, assentindo. “O senhor m e ouviu bem , senhor.”
“Sr. Arctor”, disse o hom em , “esse cheque j á voltou do banco duas vezes, e esses sintom as de gripe que o senhor descreveu...”
“Acho que alguém m e passou um troço bem ruim ”, disse Barris com um sorriso duro na cara.
“Eu acho”, disse o hom em , “que o senhor é um daqueles...” Ele procurou pela palavra.
“Pense o que quiser”, disse Barris, ainda sorrindo.
“Senhor Arctor”, disse o hom em , respirando audivelm ente no fone. “Vou à prom otoria com esse cheque e, aproveitando que estou no telefone, tenho algum as coisas a dizer ao senhor sobre o que eu acho...”
“Ligando, desligando e adeus”, disse Barris, e desligou o telefone.
A unidade de gram po telefônico registrou autom aticam ente o núm ero do hom em que ligou, pegando-o eletronicam ente de um sinal inaudível, gerado assim que o circuito foi acionado. Fred leu o núm ero agora visível em um m ostrador, depois fechou o transportador de gravação de todos os seus holo-scanners, ergueu o telefone da polícia e pediu o registro do núm ero.
— Chaveiro Englesohn, Harbor, 1.343, em Anaheim — disse a telefonista das inform ações policiais a ele. — Garotão.
— Chaveiro — disse Fred. — Tudo bem . — Ele escrevera os dados e agora desligou. Um chaveiro... Vinte dólares, um a quantia redonda: isso sugeria um trabalho fora da oficina — provavelm ente saiu de carro e fez um a cópia de chave. Quando a chave “do proprietário” sum iu.
Teoria. Barris fingiu ser Arctor, telefonou para o chaveiro Englesohn para fazer um a “cópia” de chave ilicitam ente, para a casa ou para o carro ou as duas coisas. Dizendo a Englesohn que tinha perdido todo o j ogo de chaves... Mas depois o chaveiro, fazendo um a verificação de segurança, tinha pedido a Barris um cheque com o identificação. Barris entrou na casa e roubou um talão em branco de Arctor e preencheu um cheque para o chaveiro. O cheque não tinha fundos. Mas por que não? Arctor tinha um saldo alto na conta; um cheque tão pequeno não ia voltar. Mas, se voltou, Arctor teria visto no extrato e o reconheceria não com o dele, m as de Jim Barris. Então Barris tinha vasculhado os arm ários de Arctor e localizou — provavelm ente j á há algum tem po — um talão velho de um a conta abandonada e o usou. Com o a conta estava encerrada, o cheque não bateu. Agora Barris estava em apuros.
Mas por que Barris não pagava o cheque em dinheiro? A atitude dele irritara o credor que telefonara e por fim levaria o caso à prom otoria. Arctor descobriria. Ia cair um m onte de m erda para cim a de Barris. Mas, pelo m odo com o Barris falara ao telefone ao j á ultraj ado credor, ele havia espicaçado ainda m ais a hostilidade dele e com isso o chaveiro podia fazer qualquer coisa. E pior — a descrição que Barris fez da “gripe” era um a descrição da privação de heroína e qualquer um entenderia isso. E Barris tinha encerrado o telefonem a com um a insinuação de que ele era um drogado pesado, e daí? Indicou tudo isso com o Bob Arctor.
O chaveiro a essa altura sabia que tinha um devedor j unkie que lhe havia passado um cheque borrachudo e não dava a m ínim a, não tinha a intenção de cobrir. E o j unkie tinha essa atitude porque obviam ente estava ligadão, chapado, excitado dem ais pela droga e por isso não se im portava. E isso era um insulto à Am érica. Proposital e desagradável.
Na verdade, a últim a frase de Barris ao telefone foi um a citação direta do ultim ato estranho e original de Tim Leary ao establishment e a todos os caretas. E esse era o Condado de Orange. Cheio de gente disposta a dar um a surra de vara e pronta para entrar em ação. Com arm as. Procurando exatam ente pelos desbocados arrogantes dos drogados barbudos.
Barris tinha acionado um a bom ba-relógio para Bob Arctor. Um a prisão por cheque sem fundos, no m ínim o, um a bom ba-relógio ou outro enorm e golpe de retaliação, na pior das hipóteses, sem que Arctor tivesse algum a idéia do que estava acontecendo.
Por quê?, perguntou-se Fred. Ele anotou no bloco o código de identificação dessa seqüência da gravação, além do código de gram po telefônico. Do que Barris estava se desforrando em Arctor? O que diabos Arctor fizera? Arctor deve ter aprontado um a das grossas com ele por isso, pensou Fred. Era pura m aldade. Mesquinha, desprezível e cruel.
Esse Barris, pensou ele, é um filho-da-puta. Ele ainda vai conseguir m atar alguém .
Um dos traj es m isturadores no apartam ento seguro interrom peu sua introspecção:
— Você conhece m esm o esses caras? — O traj e gesticulou para os holom onitores, agora vazios, que Fred tinha diante de si. — Está infiltrado aí num a designação sob disfarce?
— É — disse Fred.
— Não seria m á idéia avisar a eles sobre a toxicidade desse cogum elo a que estão se expondo, que aquele palhaço de óculos verdes está vendendo. Pode passar isso a eles sem revelar seu disfarce?
O outro traj e m isturador falou, de sua cadeira giratória:
— Um a hora dessas um deles vai ter um a náusea violenta... às vezes é um a dica de envenenam ento por cogum elos.
— Parecendo estricnina? — disse Fred. Um insight frio grudou em sua cabeça, um a reprise do dia da m erda de cachorro de Kim berly Hawkins e o enj ôo dele no carro depois de...
Dele.
— Vou contar ao Arctor — disse ele. — Com ele eu posso falar. Sem que ele m e identifique. Ele é tratável.
— E é feio tam bém — disse um dos traj es m isturadores. — É o suj eito que chegou à porta de om bros arriados e ressaca?
— É — disse Fred e voltou a seus holos. Ah, que droga, pensou ele, naquele dia Barris nos deu tabletes na estrada — sua m ente deu voltas, viaj ou e depois se dividiu bem ao m eio. A próxim a coisa que ele sabia é que estava no banheiro do apartam ento seguro com um copo de água, lavando a boca, sozinho, onde podia pensar. Quando acabar com isso, eu serei Arctor, pensou ele. Sou o hom em nos scanners, o suspeito que Barris está fodendo com seu telefonem a estranho ao chaveiro e eu estava perguntando: “O que Arctor aprontou para Barris agir desse j eito com ele?” Eu estou acabado, m eu cérebro está acabado. Isso não é real. Não estou acreditando nisso, vendo o que sou eu, o que é Fred — era Fred ali, sem o traj e m isturador, é assim que Fred fica sem o traj e!
E outro dia Fred quase m orreu por fragm entos de cogum elo tóxico, percebeu ele. Ele quase não conseguiu vir para este apartam ento seguro para ver os holos. Mas agora estava ali.
Agora Fred tinha um a chance. Mas m uito fraca.
Droga de trabalho m aluco que m e deram , pensou ele. Mas, se eu não fizesse isso, outra pessoa ia fazer e podiam entender tudo errado. Eles iam incrim iná-lo, iam incrim inar Arctor. Iam entregá-lo em troca da recom pensa, iam plantar drogas nele e recolher a grana. Se alguém , pensou ele, tinha de vigiar esta casa, era m elhor que fosse eu, apesar das desvantagens; só proteger a todos do puto pervertido do Barris j á j ustificava estar ali.
E, se qualquer outro policial que m onitorasse os atos de Barris visse o que eu provavelm ente vou ver, vai concluir que Arctor é o m aior traficante de drogas do Oeste dos Estados Unidos e recom endar — m eu Deus! — um a m orte dissim ulada. Por nossas forças não-identificadas. Aquelas de preto que pegam os em prestado do Leste, que anda m uito na ponta dos pés e porta um a Winchester 803 com m ira telescópica. As novas m iras telescópicas de infraverm elho sincronizadas com proj éteis tróficos EE. Aqueles caras que não recebem pagam ento algum , nem de um a m áquina do Dr. Pepper; eles tiram a sorte no palitinho para ver qual deles vai ser o próxim o presidente dos EUA. Meu Deus, pensou ele, aqueles putos podem derrubar um avião. E fazer com que pareça que o m otor sugou um bando de pássaros. Aqueles proj éteis tróficos EE — por que eu, porra, pensou ele —, eles deixam vestígios de penas nos destroços dos m otores; eles arrum am os m otores assim .
Isso é pavoroso, refletiu ele, pensando no assunto. Não Arctor com o suspeito, m as Arctor com o... sei lá. Alvo. Vou ficar de olho nele; Fred vai continuar fazendo as coisas de Fred; eu vou ser m uito m elhor; posso editar, interpretar e apelar m uito para o “Vam os esperar até que ele realm ente” e assim por diante. E, percebendo isso, ele atirou a caneca longe e saiu do banheiro do apartam ento seguro.
— Você parece esgotado — disse a ele um dos traj es m isturadores.
— Bom — disse Fred aconteceu um a coisa engraçada com igo quando eu ia para o túm ulo. — Ele viu em sua m ente um a im agem do proj etor supersônico de feixe estreito que tinha levado um advogado de 49 anos a ter um ataque cardíaco fatal quando estava prestes a reabrir o caso de um assassinato político horrível e fam oso da Califórnia.
— Eu quase cheguei lá — disse ele em voz alta.
— Faltou o quase — disse o traj e m isturador. — Não está lá ainda.
— Ah — disse Fred. — E. Tá certo.
— Sente-se — disse um traj e m isturador — e volte ao trabalho ou não vai haver sexta-feira para você, só aj uda do governo.
— Dá para im aginar m encionar este trabalho com o habilidade profissional no... — com eçou Fred, m as os outros dois traj es m isturadores não acharam graça e, na realidade, sequer estavam ouvindo. Então ele se sentou novam ente e acendeu um cigarro. E recom eçou na bateria de holos.
O que eu devia fazer, decidiu ele, é voltar pela rua a pé até a casa, agora m esm o, enquanto estou pensando nisso, antes que alguém m e im peça, e ir até Barris rapidinho e dar um tiro nele.
No cum prim ento do dever.
Eu vou dizer: “Aí, cara, tô m eio m al... dá pra você apertar um baseado pra m im ? Eu te pago um dólar.” E ele vai fazer isso e depois vou prendê-lo, arrastá-lo para o m eu carro, atirá-lo lá dentro, dirigir pela via expressa e depois dar um a coronhada nele do lado de fora do carro, na frente de um cam inhão. E posso dizer que ele lutou para se soltar e tentar pular. Acontece o tem po todo.
Porque, se eu não fizer isso, nunca m ais vou poder com er ou beber qualquer com ida ou bebida aberta na casa, nem Luckm an, Donna ou Freck, senão vam os todos em pacotar com fragm entos de cogum elo tóxico e depois disso Barris vai explicar que estávam os todos no bosque catando os cogum elos aleatoriam ente e com endo-os e ele tentou nos dissuadir, m as nós não ouvim os porque não fizem os faculdade.
Mesm o que os psiquiatras do tribunal descubram que ele está totalm ente ferrado e m aluco e discutam o assunto para sem pre, alguém vai m orrer. Ele pensou: “Talvez Donna, por exem plo. Talvez ela vá zanzar por ali, chapada de haxixe, procurando por m im e pelas florezinhas de prim avera que eu prom eti a ela, e Barris vá oferecer a ela um a tigela de gelatina especial que ele m esm o fez e dez dias depois ela vai se debater de agonia em um a unidade de tratam ento intensivo e isso não vai lhe fazer bem algum .”
Se isso acontecer, pensou ele, eu vou ferver o Barris em soda cáustica, na banheira, em soda cáustica quente, até que só restem os ossos, e depois m ando os ossos pelo correio para a m ãe dele ou para os filhos, o que quer que ele tenha, e se ele não tiver nada disso, só atiro os ossos aos cães que passarem . Mas aquela garotinha será vingada de qualquer form a.
Eu estou lascado, pensou ele, e ligou os holos para não atrair m ais estática dos outros traj es no am biente seguro.
No Monitor 2, Barris estava falando com Luckm an, que aparentem ente tinha rolado na porta da frente torto de bêbado, sem dúvida de Ripple.
— Tem m ais pessoas viciadas em álcool nos Estados Unidos — dizia Barris a Luckm an, que tentava encontrar a porta para o quarto dele, para desm aiar e passar por um período terrível — do que viciados em outras form as de drogas. E os danos cerebrais e ao fígado provocados pelo álcool, além das im purezas...
Luckm an desapareceu sem sequer perceber que Barris estava ali. Boa sorte, pensou Fred. Mas não é um a política viável, não por m uito tem po. Porque o puto está ali.
Mas agora Fred está aqui tam bém . Mas só o que Fred podia fazer era olhar. A não ser, pensou ele, a não ser que talvez, se eu voltasse as hologravações... Então eu ia chegar prim eiro, antes de Barris. O que eu fizesse ia anteceder o que Barris fizesse. Se, com igo ali prim eiro, ele conseguisse fazer algum a coisa.
E depois o outro lado de sua cabeça se abriu e falou com ele m ais calm am ente, com o outro eu, com um a m ensagem m ais sim ples sobre com o lidar com a situação:
“Para regularizar o cheque do chaveiro”, disse a ele, “vá até Harbor am anhã bem cedo, pague o valor e pegue o cheque. Faça isso prim eiro, antes de qualquer outra coisa. Faça im ediatam ente. Reduza a possibilidade de crise. E depois disso faça outras coisas m ais sérias, depois que isso tiver term inado. Está bem ?” Está bem , pensou ele. Isso vai m e retirar da lista de inadim plentes. E por aí que vou com eçar.
Ele acelerou a gravação, sem parar, até que deduziu, pelos m ostradores, que apareceria um a cena noturna em que todos estivessem dorm indo. Para ter um a desculpa para term inar o dia de trabalho.
Agora apareciam as luzes apagadas, os scanners em infra. Luckm an na cam a em seu quarto, Barris na dele e, no próprio quarto, Arctor ao lado de um a garota, os dois dorm indo.
Vam os ver, pensou Fred. Algum a coisa. Ela está nos arquivos do com putador com o totalm ente doidona por drogas pesadas e tam bém prostituta e traficante. Um a verdadeira fracassada.
— Pelo m enos você não tem de ver seu suspeito transando — disse um dos outros traj es m isturadores, vendo de trás dele e afastando-se.
— Isso é um alívio — disse Fred, olhando estoicam ente as duas figuras dorm indo na cam a; sua m ente estava no chaveiro e no que tinha de fazer lá. — Eu sem pre odeio...
— É bom de fazer — concordou o traj e m isturador —, m as não é bom de olhar.
Arctor dorm ia, pensou Fred. Com a putinha dele. Bom , eu posso term inar logo, eles sem dúvida vão trepar quando acordarem , m as isso é problem a deles.
Mas ele continuou vendo. A visão de Bob Arctor dorm indo... sem parar, pensou Fred, hora após hora. E depois ele percebeu um a coisa que não tinha notado. Essa parece ser Donna Hawthorne!, pensou ele. Ali na cam a, deitada com Arctor.
Isso não tem sentido, pensou ele, e estendeu a m ão para fechar os scanners. Ele voltou a gravação, depois avançou. Bob Arctor e um a garota, m as não era Donna! Era a j unkie, Connie! Ele tinha razão. Os dois indivíduos deitados ali, um ao lado do outro, os dois dorm indo.
E depois, enquanto Fred observava, as feições de Connie se derreteram , sum iram suavem ente e transform aram -se no rosto de Donna Hawthorne.
Ele parou a gravação de novo. Sentou-se ereto, confuso. Não entendo, pensou ele. Isso é... com o é que cham am m esm o? Dissolução! Um a técnica de cinem a. Porra, o que é isso? Pré-edição de TV? Por um diretor, usando efeitos visuais especiais?
Novam ente ele voltou a gravação e em seguida avançou; quando chegou à alteração nas feições de Connie, ele parou o rolo, deixando o hologram a se encher com um quadro congelado.
Ele girou o am pliador: todos os outros cubos sum iram ; um cubo enorm e se form ou dos oito anteriores. Um a única cena noturna; Bob Arctor, im óvel, em sua cam a, a garota im óvel, ao lado dele.
De pé, Fred entrou no holocubo, na proj eção tridim ensional, e se aproxim ou da cam a para analisar o rosto da garota.
Entre um a coisa e outra, concluiu ele. Ainda m eio Connie e j á m eio Donna. É m elhor levar isso ao laboratório, pensou, foi adulterada por um especialista. Eu recebi um a gravação falsa.
Quem adulterou?, perguntou-se ele. Ele saiu do holocubo, desligou-o e restaurou os oito pequenos. Ficou sentado ali, m editando.
Alguém fraudou Donna. Sobreposta em Connie. Evidência forj ada de que Arctor estava dorm indo com a garota Hawthorne. Por quê? Com o um bom técnico pode fazer com áudio ou vídeo e agora — com o testem unha — com holofitas. E difícil de fazer, m as...
Se isso era um scanner liga-desliga, pensou ele, tivem os um a seqüência m ostrando Arctor na cam a com a garota que ele nunca deve ter levado para a cam a e nunca levará, m as é o que está na gravação.
Ou talvez sej a um a interrupção visual ou paralisação eletrônica, refletiu ele. O que cham am de im pressão. Holoim pressão: de um a seção da gravação para outra. Se a fita parar por m uito tem po, se a am plificação da gravação for alta dem ais inicialm ente, fica im presso. Meu Deus!, pensou ele. Donna im pressa de um a cena anterior ou posterior, talvez da sala de estar.
Queria saber m ais sobre o aspecto técnico disso, refletiu ele. É m elhor adquirir m ais conhecim ento sobre isso antes de tom ar um a atitude precipitada. Com o outra em issora AM filtrando, interferindo...
Fala cruzada, concluiu ele. Assim m esm o: acidental.
Com o fantasm as na tela de TV. Funcional, um problem a funcional. Um transdutor aberto por pouco tem po.
De novo ele passou a gravação. Connie novam ente e Connie continuou. E em seguida... De novo, Fred viu Donna aparecer e, dessa vez, o hom em que dorm ia ao lado dela na cam a, Bob Arctor, acordou depois de um m om ento e se sentou abruptam ente, depois tateou, procurando pelo abaj ur ao lado dele; o abaj ur caiu no chão e Arctor estava encarando a garota que dorm ia, Donna dorm indo.
Quando o rosto de Connie voltou, Arctor relaxou e por fim afundou na cam a e dorm iu de novo. Mas teve um sono inquieto.
Bom , isso elim ina a teoria da “interferência técnica”, pensou Fred. Im pressão ou fala cruzada. Arctor tam bém viu. Acordou, viu, encarou e depois desistiu.
Meu Deus, pensou Fred, e desligou o equipam ento diante dele.
— Acho que para m im , por hoj e, chega — declarou e se levantou trêm ulo. — Estou arrasado.
— Viu algum sexo perverso, não viu? — perguntou um traj e m isturador. — Vai se acostum ar com esse trabalho.
— Eu nunca vou m e acostum ar com esse trabalho — disse Fred. — Pode escrever isso.