O Homem Duplo

Philip K. Dick · Capítulo 18 de 18

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O Homem Duplo

Capítulo 17

17

 

No final de agosto daquele ano, dois m eses depois de ele ter entrado na New-Path, foi transferido para um a fazenda em Napa Valley, que se localiza no interior da Califórnia. E um a área dedicada ao vinho, onde existem m uitas boas vinícolas da Califórnia.

Donald Abraham s, o diretor executivo da New-Path Foundation, assinou a ordem de transferência. Por sugestão de Michael Westaway, um m em bro da equipe que se tornara especialm ente interessado em ver o que podia ser feito com Bruce. Em particular, desde que o Jogo não conseguia m ais aj udá-lo. Na verdade, fizera-o deteriorar-se m ais.

— Seu nom e é Bruce — disse o adm inistrador da fazenda, enquanto Bruce saía desaj eitado do carro, trazendo a m ala.

— Meu nom e é Bruce — disse ele.

— Vam os tentar com você na fazenda por algum tem po, Bruce.

— Tudo bem .

— Acho que vai gostar m ais daqui, Bruce.

— Acho que vou gostar — disse ele. — Mais daqui.

O adm inistrador da fazenda o analisou.

— Eles rasparam sua cabeça há pouco tem po.

— Sim , eles rasparam a m inha cabeça. — Bruce estendeu a m ão para tocar a cabeça careca.

— Para quê?

— Eles rasparam m eu cabelo porque m e acharam no setor das m ulheres.

— Foi a sua prim eira vez?

— Foi a m inha segunda vez. — Depois de um a pausa, Bruce disse: — Um a vez eu fiquei violento. — Ele ficou parado, ainda segurando a m ala; o adm inistrador gesticulou para ele baixá-la no chão. — Eu quebrei a regra da violência.

— O que você fez?

— Atirei um travesseiro.

— Tudo bem , Bruce — disse o adm inistrador. — Venha com igo e vou te m ostrar onde você vai dorm ir. Não tem os um a residência central aqui, cada grupo de seis pessoas tem um a pequena cabana. Elas dorm em , fazem suas refeições e m oram ali quando não estão trabalhando. Não existem sessões do Jogo aqui, só trabalho. Não vai m ais haver Jogo para você, Bruce.

Bruce pareceu satisfeito, um sorriso apareceu em seu rosto.

— Gosta das m ontanhas? — O adm inistrador da fazenda indicou-lhe a direita. — Olhe lá. Montanhas. Sem neve, m as m ontanhas. Santa Rosa fica à esquerda; cultivam um a uva ótim a na encosta daquelas m ontanhas. Não cultivam os uva algum a. Vários outros produtos agrícolas, m as não uva.

— Eu gosto de m ontanhas — disse Bruce.

— Olhe para elas. — O adm inistrador novam ente apontou. Bruce não olhou. — Vam os arrum ar um chapéu para você — disse o adm inistrador. — Não pode trabalhar no cam po com a cabeça careca sem usar chapéu. Não saia para trabalhar enquanto não te derm os um chapéu. Está bem ?

— Não vou sair para trabalhar enquanto não tiver um chapéu — disse Bruce.

— O ar é bom aqui — disse o adm inistrador.

— Eu gosto do ar — disse Bruce.

— É — disse o adm inistrador, indicando para Bruce pegar a m ala e segui-lo. Ele se sentia estranho olhando para Bruce, não sabia o que dizer. Um a experiência com um para ele quando chegavam pessoas assim . — Todos gostam os do ar, Bruce. Gostam os de verdade. Tem os isso em com um . — Ele pensou: “Ainda tem os isso.”

— Eu vou ver m eus am igos? — perguntou Bruce.

— Quer dizer, de antes de vir para cá? Na instalação de Santa Ana?

— Mike e Laura e George e Eddie e Donna e...

— As pessoas das instalações residenciais não saem das fazendas — explicou o adm inistrador. — São operações fechadas. Mas você provavelm ente vai voltar um a ou duas vezes por ano. Fazem os reuniões no Natal e tam bém no...

Bruce tinha parado.

— A próxim a — disse o adm inistrador, novam ente indicando para que ele continuasse andando — é o Dia de Ação de Graças. Mandam os os trabalhadores de volta a suas residências de origem para isso, por dois dias. Eles voltam para cá até o Natal. Então você vai vê-los de novo. Se eles não forem transferidos para outras instalações. Isso daqui a três m eses. Mas você não deve fazer qualquer relacionam ento pessoal aqui na New-Path... não te disseram isso? Você deve se relacionar som ente com a fam ília.

— Eu entendo — disse Bruce. — Eles m e fizeram m em orizar isso com o parte do Credo da New-Path. — Ele olhou em volta e disse: — Posso beber água?

— Vam os te m ostrar a sua fonte de água aqui. Você tem um a na sua cabana, m as tem um a pública, para toda a fam ília daqui. — Ele levou Bruce para um a das cabanas pré-fabricadas. — As instalações desta fazenda são fechadas porque tem os safras experim entais e híbridas e querem os evitar a infestação de insetos. As pessoas que vêm para cá, até da equipe, trazem pragas nas roupas, nos sapatos e nos cabelos. — Ele escolheu um a cabana ao acaso. — A sua é a 4-G — concluiu ele. — Pode se lem brar dela?

— Elas parecem iguais — disse Bruce.

— Você pode pregar um obj eto pelo qual reconheça esta cabana. Para você poder se lem brar facilm ente. Algo colorido. — Ele abriu a porta da cabana; o ar quente e pungente soprou neles. — Acho que vam os colocar você com as alcachofras prim eiro — rum inou ele. — Vai ter de usar luvas... elas têm espinhos.

— Alcachofras — disse Bruce.

— Ora, tam bém tem os cogum elos aqui. Cultivo experim ental de cogum elos, fechado, é claro... E os cogum elos dom ésticos que crescem precisam estar fechados em seus cam pos para evitar que os esporos patogênicos voem e contam inem os leitos. Esporos de fungos, é claro, são transportados pelo ar. É um perigo para as culturas de cogum elos.

— Cogum elos — disse Bruce, entrando na cabana quente e escura. O adm inistrador o observou entrar.

— Sim , Bruce — disse ele.

— Sim , Bruce — disse Bruce.

— Bruce — disse o adm inistrador. — Acorde.

Ele assentiu, parado no escuro bolorento da cabana, ainda segurando a m ala.

— Tudo bem — disse ele.

Eles cabeceiam de sono assim que escurece, disse o adm inistrador para si m esm o. Feito galinhas.

Um vegetal entre vegetais, pensou ele. Fungo em m eio a fungo. Escolha o seu.

Ele puxou a corrente da luz elétrica da cabana e depois com eçou a m ostrar a Bruce com o operá-la. Bruce não pareceu se im portar; agora tinha captado um vislum bre das m ontanhas e estava parado, olhando para elas fixam ente, ciente delas pela prim eira vez.

— Montanhas, Bruce, m ontanhas — disse o adm inistrador.

— Montanhas, Bruce, m ontanhas — disse Bruce e olhou.

— Ecolalia, Bruce, ecolalia — disse o adm inistrador.

— Ecolalia, Bruce...

— Tá legal, Bruce — disse o adm inistrador e fechou a porta da cabana atrás dele, pensando: “Acho que vou colocá-lo com as cenouras. Ou beterrabas. Algum a coisa sim ples. Algo que não o confunda.”

E outro vegetal no outro beliche ali. Para que ele tenha com panhia. Eles podem bater cabeça pela vida j untos, em uníssono. Filas deles. Hectares inteiros.

Eles o colocaram de frente para o cam po e ele viu o m ilho, com o proj eções esfarrapadas. Ele pensou: “Lixo crescendo. Eles têm um a fazenda de lixo.”

Ele se curvou e viu, crescendo j unto ao solo, um a flor- zinha azul. Muitas delas, rasteiras, tilintando. Com o um a barba por fazer. Palha.

Um m onte delas, agora ele via que podia aproxim ar bem o rosto para entendê-las. Cam pos, com as filas m ais altas de m ilho. Aqui, escondidas por dentro, com o m uitos agricultores plantavam : um a safra dentro da outra, com o anéis concêntricos. Com o, lem brou-se ele, os agricultores do México plantam sua m arij uana: cercadas — aneladas — por plantas altas, para que os federales não as localizem de j ipe. Mas depois eles as localizam pelo ar.

E os federales, quando localizam um a plantação de m aconha ali — disparam a m etralhadora no fazendeiro, na esposa dele, nos filhos, até nos anim ais. E depois partem . E sua busca de helicóptero continua, apoiada pelos j ipes.

Essas adoráveis florzinhas azuis.

— Você está vendo a flor do futuro — disse Donald, o diretor executivo da New-Path. — Mas não para você.

— Por que não para m im ? — disse Bruce.

— Você j á teve dem ais do que é bom — disse o diretor executivo. Ele riu. — Então levante-se e pare com essa adoração... Isso não é m ais seu deus, seu ídolo, em bora antigam ente fosse. Um a visão transcendente, é o que está vendo crescer aqui? Parece que é. — Ele bateu firm em ente no om bro de Bruce e depois, estendendo a m ão para baixo, interrom peu a visão dos olhos congelados.

— Foram em bora — disse Bruce. — As flores de prim avera foram em bora.

— Não, você sim plesm ente não pode vê-las. E um problem a filosófico que você não ia entender. Epistem ologia... a teoria do conhecim ento.

Bruce só viu a palm a da m ão de Donald barrando a luz e ele a encarou por m il anos. Ela bloqueou, ela havia bloqueado; bloqueará para ele, bloqueará para sem pre para olhos m ortos até o fim dos tem pos, olhos que não podem olhar e certa m ão que não se m exeria. O tem po cessou enquanto os olhos olhavam e o universo se consolidava j unto com ele, pelo m enos para ele, congelava com ele e sua com preensão, enquanto sua inércia se tornava com pleta. Não havia nada que ele não soubesse, nada m ais aconteceria.

— Volte ao trabalho, Bruce — disse Donald, o diretor executivo.

— Eu vi — disse Bruce. Ele pensou: “Eu sabia. Era isso? Eu vi a Substância D crescendo, eu vi a m orte subindo da terra, do próprio chão, em um cam po azul, num a cor eriçada.”

O adm inistrador da fazenda e Donald Abraham s se olharam e depois se abaixaram até a figura aj oelhada, o hom em aj oelhado e a Mors ontologica plantada em toda parte, por dentro do m ilho que a cercava.

— Volte ao trabalho, Bruce — disse então o hom em aj oelhado e se colocou de pé.

Donald e o adm inistrador da fazenda afastaram -se para o Lincoln estacionado. Conversando. Ele observou — sem se virar, sem ser capaz de se virar — os dois partirem .

Abaixando-se, Bruce pegou um a das plantas azuis e eriçadas, depois a colocou no sapato direito, tirando-a de vista. Um presente para os m eus am igos, pensou ele, e ansiou, em sua m ente, onde ninguém podia ver, pelo Dia de Ação de Graças.

FIM

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