O Homem Duplo

Philip K. Dick · Capítulo 10 de 18

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O Homem Duplo

Capítulo 9

9

 

— Ei, Donna, aí — disse ele. — Você gosta de gatos?

Ela pestanej ou, os olhos verm elhos.

— Coisinhas piegas. Andando acim a do chão.

— Acim a não, em cim a do chão.

— Piegas. Atrás dos m óveis.

— Florezinhas de prim avera, então — disse ele.

— É — disse ela. — Essa eu saco... florezinhas de prim avera, com um am arelo nelas. As prim eiras que aparecem .

— Antes — disse ele. — Antes de alguém .

— É. — Ela assentiu, os olhos fechados, na própria trip.

— Antes que alguém pise nelas e elas... m orram .

— Você m e entende — disse ele. — Você entende o que eu digo.

Ela se deitou de costas, baixando o cachim bo de haxixe. Tinha acabado.

— Não entendo m ais — disse ela e seu sorriso lentam ente desapareceu.

— Qual é o problem a? — disse ele.

— Nada. — Ela sacudiu a cabeça e só.

— Posso te abraçar? — disse ele. — Eu queria segurar você. Tudo bem ? Te abraçar? Tudo bem ?

Os olhos escuros, alargados, sem foco e cansados abriram -se.

— Não — disse ela. — Não, você é feio dem ais.

— Quê? — disse ele.

— Não! — disse ela, agora incisivam ente. — Eu cheirei m uita coca, tenho de ser supercuidadosa porque cheirei m uita coca.

— Feio! — ecoou ele, furioso com ela. — Vai se foder, Donna!

— Só deixe o m eu corpo em paz — disse ela, encarando-o.

— Claro — disse ele. — Claro. — Ele se levantou e recuou.

— Pode acreditar nisso. — Ele teve vontade de ir até o carro, pegar a pistola no porta-luvas e atirar na cara dela, explodindo o crânio e os olhos de Donna. E depois isso passaria essa m istura de ódio e fúria. — Vai se foder — disse ele com tristeza.

— Não gosto que as pessoas peguem m eu corpo — disse Donna. — Eu tenho de tom ar cuidado com isso porque uso m uita coca. Um dia pretendo ir para a fronteira do Canadá com dois quilos de coca na m inha buceta. Vou dizer que sou católica e virgem . Aonde você vai? — Agora ela estava alarm ada, ela ergueu m eio corpo.

— Vou cair fora — disse ele.

— Seu carro está na sua casa. Eu te levo. — A garota lutou para se levantar, desgrenhada, confusa e m eio adorm ecida, vagando até o arm ário para pegar o casaco de couro. — Eu te levo lá. Mas você pode entender por que eu tenho de proteger m inha buceta. Dois quilos de coca valem ...

— De j eito nenhum — disse ele. — Você está chapada dem ais para dirigir até por três m etros e não deixa ninguém dirigir a porra do seu patim .

Encarando-o, ela gritou furiosa:

— Isso porque ninguém m ais consegue dirigir a porra do m eu carro! Ninguém faz direito, especialm ente nenhum hom em ! Nem dirigir nem nada! Você estava com as m ãos no m eu...

E depois ele estava em algum lugar do lado de fora, na escuridão, andando, sem casaco, em um a parte estranha da cidade. Ninguém com ele. Totalm ente só, pensou ele, e depois ouviu Donna correndo atrás dele, tentando alcançá-lo, ofegando, porque ultim am ente ela andava fum ando m aconha e haxixe dem ais e os pulm ões estavam m eio obstruídos de resina. Ele parou, ficou parado, sem se virar, esperando, sentindo-se m uito deprim ido.

Aproxim ando-se dele, Donna reduziu o ritm o, ofegando.

— Eu peço m il desculpas por ter m agoado você. Pelo que eu disse. Eu estava pirada.

— E — disse ele. — Feio dem ais!

— As vezes, quando eu trabalho o dia todo e estou super, supercansada, o prim eiro tapa m e deixa doidona. Quer voltar? Ou o quê? Quer ir ao drive-in? E o Southern Com fort? Não posso com prar... não vão vender para m im — disse ela e fez um a pausa. — Eu sou m enor de idade, né?

— Tudo bem — disse ele. Juntos, eles voltaram cam inhando.

— E um haxixe dos bons, não é? — disse Donna.

Bob Arctor disse:

— E haxixe preto, o que significa que é saturado de alcalóides do ópio. O que você está fum ando é ópio e não haxixe... sabia disso? E por isso que custa tão caro... sabia disso? — Ele ouviu a própria voz se elevar; parou de andar.

— Não está fum ando haxixe, m eu bem . Estava fum ando ópio e isso significa um hábito de toda a vida a um custo de... Vendem o quilo de haxixe por quanto? E você vai ficar fum ando e dando cabeçada, não vai conseguir engrenar seu carro e colar em cam inhões, e precisará dele todo dia antes de ir para o trabalho...

— Eu preciso agora — disse Donna. — Preciso dar uns tapas antes de ir trabalhar. E ao m eio-dia, e assim que eu chegar em casa. E por isso que eu trafico, para com prar m eu haxixe. Haxixe relaxa. Haxixe é o bicho.

— Ópio — repetiu ele. — Por quanto vendem o haxixe agora?

— Uns vinte m il dólares o quilo — disse Donna. — O dos bons.

— Meu Deus! Quase o preço da heroína.

— Eu nunca uso agulha. Nunca usei e nunca vou usar. Você dura seis m eses quando com eça a tom ar pico, qualquer coisa que aplicar. Até água da bica. Você pega o vício...

— Você j á tem um vício.

Donna disse:

— Todos nós tem os. Você tom a a Substância D. E daí? Qual é a diferença? Eu estou feliz. Você não está feliz? Preciso ir para casa e fum ar um haxixe do bom a noite inteira... é a m inha viagem . Não procure m e m udar. Nem tente m e m udar. A m im ou a m eus costum es. Eu sou o que sou. E viaj o com haxixe. E a m inha vida.

— Algum a vez j á viu fotos de um velho fum ante de ópio? Com o na China, nos velhos tem pos? Ou um fum ante de haxixe na índia agora, que parece que eles usam quando ficam m ais velhos?

Donna disse:

— Eu não espero viver m uito. E daí? Não quero ficar por aqui m uito tem po. Você quer? Por quê? O que tem neste m undo? E você j á viu... que m erda, o Jerry Fabin; aí está alguém que foi longe dem ais na Substância D. O que tem realm ente neste m undo, Bob? E um lugar de parada para o próxim o, onde eles nos castigam aqui porque nascem os m aus...

— Você é m esm o católica.

— A gente está sendo castigada aqui; então, se puderm os fugir em um a trip de vez em quando, que se foda, vam os fugir. Outro dia eu quase bati com m eu MG quando ia para o trabalho. Eu tinha ligado o aparelho de som de oito faixas, estava fum ando m eu haxixe e não vi aquele velho num Ford Im perator 84...

— Você é m uito tapada — disse ele. — Supertapada.

— Eu, sabe com o é, eu vou m orrer cedo. De qualquer form a. O que quer que eu faça? Provavelm ente na via expressa, m al tenho freio no m eu MG, tá entendendo? E eu recebi quatro m ultas por velocidade só este ano. Agora tenho de ir para a escola de direção. E um saco! Seis m eses inteiros lá.

— Então um dia — disse ele —, de repente, eu não vou m ais te ver. Não é? Nunca m ais.

— Por causa da escola de direção? Não, depois dos seis m eses...

— No cem itério — explicou ele. — Morta antes de ter perm issão, de acordo com as leis da Califórnia, a porra das leis da Califórnia, de com prar um a lata de cervej a ou um a garrafa de birita.

— E! — exclam ou Donna, alerta. — O Southern Com fort! Agora! Vam os com prar um a garrafa de Southern Com fort e tom ar nos film es dos Macacos? Vam os? Ainda faltam oito, inclusive aquele...

— Olha aqui — disse Bob Arctor, pegando-a pelo om bro; ela instintivam ente se afastou.

— Não — disse ela.

Ele disse:

— Sabe o que eles devem deixar você fazer um a vez? Talvez só um a vez? Deixar você ser ilegal só um a vez e com prar um a lata de cervej a.

— Por quê? — disse ela, assom brada.

— Um presente pra você porque você é boa — disse ele.

— Eles m e serviram um a vez! — exclam ou Donna, deliciada. — Em um bar! A garçonete... eu estava toda produzida e com algum as pessoas... m e perguntou o que eu queria e eu disse: “Vou tom ar um Collins de vodca” e ela m e serviu. Foi no La Paz, tam bém , que é um lugar bem legal. Cara, dá pra acreditar nisso? Eu tinha decorado, o Collins de vodca, de um anúncio que vi. Então, se eu um dia tivesse de pedir em um bar com o esse, ia ficar bacana. Não é? — Ela de repente passou o braço pelo dele e o abraçou enquanto andavam , algo que ela quase nunca fazia. — Foi a m aior superviagem da m inha vida.

— Então eu acho — disse ele — que você j á teve seu presente. Seu único presente.

— Tô entendendo — disse Donna. -Tô sacando! E claro que eles m e disseram depois... aquelas pessoas com quem eu estava... que eu devia ter pedido um a bebida m exicana feita de tequila, porque, olha só, é um bar m exicano, ali no Restaurante La Paz. Da próxim a vez eu vou saber; j á colei nos m eus bancos de m em ória, se eu for lá de novo. Sabe o que vou fazer um dia, Bob? Vou m e m udar para o norte, para o Oregon, e m orar na neve. Vou tirar a neve da calçada da frente toda m anhã. E ter um a casinha e um a horta.

Ele disse:

— Vai precisar econom izar para isso. Econom izar todo o seu dinheiro. Vai sair caro.

Olhando para ele, de repente tím ida, Donna disse:

— Ele vai m e dar. O Cara.

— Quem ?

— Você sabe. — A voz dela era delicada ao dividir aquele segredo. Dividindo com ele porque ele, Bob Arctor, era am igo dela e ela podia confiar nele. — O Sr. Perfeito. Eu sei com o ele vai ser... ele vai ter um Aston-Martin e vai m e levar para o norte nele. E lá estará a casinha antiquada na neve, ao norte daqui. — Depois de um a pausa, ela disse: — A neve deve ser legal, né?

Ele perguntou:

— Não conhece?

— Nunca estive na neve, a não ser um a vez, em San Berdoo, naquelas m ontanhas, m as aí estava m eio dura e cheia de lam a e eu caí. Não quis dizer neve assim , eu quis dizer neve de verdade.

Bob Arctor, com o coração m eio pesado, disse:

— Você se sente confiante com relação a isso? Vai m esm o acontecer?

— Vai acontecer! — Ela assentiu. — Está nas cartas, pra m im .

Eles andaram em silêncio. De volta à casa dela, para pegar o MG de Donna. Donna, envolvida em seus sonhos e planos, e ele — ele se lem brou de Barris e se lem brou de Luckm an, de Hank e do apartam ento seguro, e ele se lem brou de Fred.

— Olha só — disse ele —, posso ir com você para o Oregon? Quando você der o fora de vez?

Ela sorriu para ele, com gentileza e um a forte ternura, com a resposta não.

E ele entendeu, por conhecê-la, que ela foi sincera. E não ia m udar. Ele trem eu.

— Está com frio? — perguntou ela.

— Estou — disse ele. — Muito frio.

— Meu MG tem um bom aquecedor — disse ela — porque, quando estiverm os no drive-in... você vai ficar aquecido lá. — Ela pegou a m ão dele, apertou-a, segurou-a e depois, de repente, Donna a largou.

Mas esse toque real persistiu no coração dele. Continuou. Em todos os anos de vida à frente, os longos anos sem ela, sem nunca vê-la, ouvi-la ou saber algum a coisa sobre ela, se estava viva ou feliz ou m orta ou o quê, esse toque ficou dentro dele, selado nele, e nunca passaria. Esse toque da m ão de Donna.

 

Naquela noite, ele levou para casa um a linda viciadinha em pico cham ada Connie para trepar com ela em troca de um saco de dez doses da m istura.

Magra e de cabelo escorrido, a garota se sentou na beira da cam a dele, penteando o cabelo estranho; era a prim eira vez que ela ia para a casa dele — ele a conhecera em um a festa de doidões — e ele sabia m uito pouco dela, em bora tivesse seu núm ero de telefone fazia algum as sem anas. Sendo viciada em pico, ela era naturalm ente frígida, m as isso não era problem a; fazia com que fosse indiferente ao sexo com relação ao próprio prazer, m as, por outro lado, ela não se im portava com o tipo de sexo que teria.

Isso ficava óbvio só de observá-la. Connie estava sentada m eio vestida, sem sapatos, um gram po de cabelo na boca, olhando de m aneira apática, evidentem ente fazendo um a viagem particular na cabeça. O rosto dela, alongado e ossudo, tinha certa força; deve ser, concluiu ele, porque os ossos, em especial as linhas do queixo, eram pronunciados. Na face direita, havia um a espinha. Sem dúvida ninguém lhe disse e ela nem percebeu isso; com o o sexo, as espinhas pouco significavam para ela.

Talvez ela não pudesse saber a diferença. Talvez, para ela, um a viciada em pico há tem pos, o sexo e as espinhas tivessem características sem elhantes ou fossem até idênticos. Que idéia, pensou ele, para surgir só de olhar um a doidona por um m om ento.

— Tem um a escova de dentes que eu possa usar? — disse Connie; ela com eçara a cabecear um pouco e a resm ungar, com o os doidões de pico tendiam a fazer àquela hora da noite. — Tá ferrado... dentes são dentes. Vou escovar. — A voz dela era tão baixa que ele não conseguia ouvi-la, em bora soubesse, pelo m ovim ento dos lábios, que ela estava falando m onotonam ente.

— Sabe onde fica o banheiro? — perguntou ele.

— Que banheiro?

— Desta casa.

Despertando, ela voltou a se pentear por reflexo.

— Quem são aqueles caras lá fora a esta hora? Enrolando baseados e falando sem parar? Acho que eles m oram aqui com você. Claro que m oram . Caras com o esses devem ...

— Dois deles m oram — disse Arctor.

Os olhos de peixe m orto de Connie viraram -se para se fixar nos dele.

— Você é viado? — perguntou Connie.

— Estou tentando deixar de ser. É por isso que você está aqui hoj e.

— Está travando um a batalhazinha contra isso?

— Pode acreditar que sim .

Connie assentiu.

— E, acho que estou prestes a descobrir. Se você é um gay latente, provavelm ente vai querer que eu tom e a iniciativa. Deita aí que eu faço. Quer que eu tire a sua roupa? Tudo bem , você fica deitado aí e eu faço tudo. — Ela estendeu a m ão para o zíper de Bob.

 

Mais tarde, na sem i-escuridão, ele cochilou — por assim dizer — com seu próprio dilem a. Connie roncava ao lado dele, deitada de costas, com os braços ao lado, fora das cobertas. Ele podia vê-la vagam ente. Eles dorm iam com o o Conde Drácula, pensou ele, os j unkies. Olhando para cim a até que de repente se sentavam , com o um a m áquina que passou da posição A para a B. “Deve... ser... dia...”, diz o j unkie, ou diz a gravação na cabeça dele. Toca as instruções para ele, a m ente de um j unkie é com o a m úsica que se ouve de um radiorrelógio... Às vezes é bonita, m as só está ali para levar você a fazer algum a coisa. A m úsica do radiorrelógio é para te acordar; a m úsica do j unkie é para conseguir que você se torne um m eio para ele obter m ais droga, da form a com que puder. Ele, um a m áquina, vai transform ar você na m áquina dele.

Todo junkie, pensou ele, é um a gravação.

Novam ente ele cochilou, m editando sobre essas coisas ruins. E por fim o j unkie, se for um a m ulher, nada tem a vender a não ser o corpo. Com o Connie, pensou ele, Connie, que estava bem ali.

Abrindo os olhos, ele se virou para a garota ao lado dele e viu Donna Hawthorne.

Bob se sentou de im ediato. Donna!, pensou ele. Ele podia distinguir o rosto dela com clareza. Sem dúvida. Meu Deus!, pensou ele, e estendeu a m ão para o abaj ur da m esa- de-cabeceira. Os dedos dele o tocaram , o abaj ur se inclinou e caiu. A garota, porém , continuou dorm indo. Ele ainda a encarava, e depois, aos poucos, viu Connie novam ente, o rosto fino e com prido, o m axilar frio, encovado, o rosto m acilento dt j unkie chapada, Connie e não Donna, um a garota, não a outra.

Ele deitou novam ente e, infeliz, de certa form a dorm iu, perguntando-se o que significava isso, perguntando- se repetidam ente, na escuridão.

— Não tô nem aí se ele fedia — m urm urou a garota ao lado dele depois, sonhadoram ente, enquanto dorm ia. — Eu ainda o am ava.

Ele se perguntou o que ela quis dizer. Um nam orado?

O pai dela? Um gato? Um brinquedo de pelúcia precioso da infância? Talvez todas essas coisas, pensou ele. Mas as palavras foram “Eu am ava”, e não “Ainda am o”. Evidentem ente ele, quem quer ou o que quer que fosse, não existia m ais. Talvez, refletiu Arctor, eles (o que quer que fossem ) a tenham obrigado a j ogar fora, porque ele fedia m uito.

Devia ser isso. Ele se perguntou que idade Connie tinha na época, a j unkie acabada, com suas recordações, que dorm itava ao lado dele.