O Homem Duplo

Philip K. Dick · Capítulo 17 de 18

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O Homem Duplo

Capítulo 16

16

 

Debaixo da pia da cozinha ele encontrou um pequeno fragm ento de osso, j unto com as caixas de sabão, escovas e baldes. Parecia hum ano e ele se perguntou se era de Jerry Fabin.

Isso o fez se lem brar de um evento que aconteceu m uito tem po antes em sua vida. Certa vez, ele havia m orado com dois caras e às vezes eles brincavam com a idéia de que tinham um rato cham ado Fred que m orava debaixo da pia. E quando eles conseguiram se acostum ar com isso, diziam às pessoas que tinham com ido o pobre e velho Fred.

Talvez esse sej a um dos fragm entos dos ossos dele, do rato que m orou debaixo da pia deles, que eles inventaram para ter com panhia.

 

Ouvindo-os conversando na sala de estar.

— O cara estava m ais ferrado do que aparentava. Eu sentia isso. Ele dirigia o Ventura um dia, andando por toda parte para encontrar um velho am igo no interior, em Oj ai. Reconheceu de vista a casa sem núm ero, parou e perguntou às pessoas se ele podia ver o Leo. “O Leo m orreu. Lam ento que não saiba disso.” Então o cara disse: “Tudo bem , vou voltar na quinta.” E ele foi em bora com o carro, voltou pelo litoral e acho que estava de volta na quinta procurando por Leo. Que tal isso?

Ele os ouviu conversar, bebendo o café.

— ... funcionou, a agenda telefônica só tinha um núm ero; você liga para esse núm ero para o que for. Escrito em um a página depois da outra... Estou falando de um a sociedade totalm ente ferrada. E em sua carteira você tem

esse núm ero, o núm ero, escrito em diferentes bilhetes e cartões, para diferentes pessoas. E se você esquecer o núm ero, não pode ligar para ninguém .

— Pode ligar para Inform ações.

— É o m esm o núm ero.

Ele ainda ouvia; era interessante esse lugar que eles estavam descrevendo. Quando você ligava, o núm ero telefônico estava fora de operação ou, se não estivesse, diziam : “Desculpe, é engano.” Então você ligava novam ente, o m esm o núm ero, e conseguia falar com a pessoa com que queria.

Quando um a pessoa ia ao m édico — só havia um e ele era especializado em tudo — havia apenas um rem édio. Depois do diagnóstico, ele lhe receitava o rem édio. Você levava a receita à farm ácia para que fosse aviada, m as o farm acêutico não conseguia ler o que o m édico havia escrito, então ele lhe dava o único com prim ido que tinha, que era aspirina. E isso curava o que quer que você tivesse.

Se você infringisse a lei, só havia um a lei, a que todos desobedeciam repetidam ente. A polícia escrevia laboriosam ente tudo, que lei, que infração a cada vez, a m esm a infração. E sem pre havia a m esm a punição para qualquer infração à lei, de atravessar fora da faixa, a traição: a punição era a pena de m orte e havia um m ovim ento para que ela fosse abolida, m as não podia ser porque, para o pedestre abusado, por exem plo, não haveria punição algum a. Então ela ficava nos livros e, por fim , a com unidade se ferrou toda e m orreu. Não, não se ferrou — eles j á estavam ferrados. Eles desapareceram , um por um , enquanto infringiam a lei, e m eio que m orreram .

Ele pensou: “Acho que quando as pessoas ouvissem que a últim a delas tinha m orrido, elas iam dizer: ‘Com o será que essas pessoas eram ? Vam os ver — bom , vam os voltar na quinta.’” Em bora ele não tivesse certeza, ele riu e, quando disse isso em voz alta, todos os outros na sala riram .

— Essa foi boa, Bruce — disseram eles.

Isso virou um a espécie de bordão; quando alguém na Sam arkand House não entendia um a coisa ou não conseguia descobrir o que m andaram pegar, com o um rolo de papel higiênico, dizia: “Bom , acho que vou voltar na quinta.” Geralm ente, era creditado a ele. O que ele disse, com o aconteceu com os seriados côm icos da TV, que repetiam o bordão toda sem ana. Tom ou conta da Sam arkand House e significava algum a coisa para todos eles.

Mais tarde, no Jogo em um a noite, quando eles deram crédito a cada pessoa pelo que levaram para a New-Path, com o os Conceitos, deram a ele o crédito por levar o hum or para lá. Ele o havia levado com um a capacidade de ver as coisas de m odo divertido, independentem ente do quanto se sentisse m al. Todos na roda bateram palm as e, olhando para cim a, sobressaltado, ele viu o círculo de sorrisos, os olhos de todos, calorosos de aprovação, e o barulho do aplauso continuou nele por um bom tem po, dentro de seu coração.