O Homem Duplo

Philip K. Dick · Capítulo 3 de 18

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O Homem Duplo

Capítulo 2

2

 

— Cavalheiros do Lions Club de Anaheim — disse o hom em ao m icrofone o Condado de Orange nos deu a m aravilhosa oportunidade esta tarde, com o verão, de ouvir... e depois participar de um a sessão de perguntas e respostas... um agente disfarçado da divisão de narcóticos do Departam ento de Polícia do Condado de Orange. — Ele exultava, o hom em com seu terno cor-de-rosa de fibra de waffle, gravata plástica am arela, cam isa azul e sapatos de couro falso; era um hom em com peso dem ais, idade dem ais e anim ado dem ais m esm o quando havia pouco ou nenhum m otivo para ser anim ado.

Observando-o, o agente disfarçado da divisão de narcóticos sentiu náuseas.

— Agora vocês vão perceber — disse o anfitrião do Lions Club — que m al podem ver esse indivíduo, que está sentado bem à m inha direita, porque ele está usando o que se cham a um traj e m isturador, e é esse traj e m esm o que ele usa... e, na verdade, deve usar... em algum as, de fato, na m aioria de suas atividades diárias de agente da lei. Mais tarde ele explicará por quê.

O público, que espelhava as virtudes do anfitrião de todo j eito possível, observou o indivíduo no traj e m isturador.

— Esse hom em — declarou o anfitrião —, que cham arem os de Fred, porque esse é o codinom e com o qual relata as inform ações que colhe, depois de que veste o traj e m isturador não pode ser identificado pela voz, nem ao m enos por tecnologia de im pressão vocal, nem pela aparência. Não acham que ele parece um vago borrão, nada além disso? Não estou certo? — Ele abriu um largo sorriso. Seu público, achando que isso era m esm o divertido, deu seu próprio sorrisinho.

O traj e m isturador era um a invenção da Bell Laboratories, obtido por acidente por um funcionário cham ado S. A. Powers. Alguns anos antes, ele estava fazendo experiências com substâncias desinibidoras que afetam o tecido neural e, num a noite, depois de ter adm inistrado em si m esm o um a inj eção intravenosa considerada segura e levem ente cuforizante, teve um a queda desastrosa de fluido GABA no cérebro. Subj etivam ente, testem unhou um a horripilante atividade de fosfeno proj etada na parede de seu quarto, um a m ontagem que progredia freneticam ente a partir do que, na época, ele deduziu que fossem pinturas abstratas da era m oderna.

Por cerca de seis horas, em transe, S. A. Powers viu m ilhares de pinturas de Picasso alternando-se na velocidade de um raio e depois ele se deleitou com Paul Klees, com m ais do que o pintor produzira em toda a vida. S. A. Powers, agora vendo telas de Modigliani se sucedendo num a velocidade furiosa, conj ecturou (é preciso ter um a teoria para tudo) que os rosa-cruzes estavam irradiando telepaticam ente pinturas para ele, provavelm ente im pulsionadas por sistem as avançados de m icrorrelé; m as depois, quando as pinturas de Kandinsky com eçaram a im portuná-lo, ele lem brou que o m aior m useu de arte de Leningrado era especializado nesse tipo de m oderno abstrato e concluiu que os soviéticos estavam tentando entrar em contato telepático com ele.

Pela m anhã, ele se lem brou de que um a queda drástica no fluido GABA do cérebro norm alm ente produzia essa atividade de fosfeno; ninguém estava tentando entrar em contato telepático com ele, com ou sem im pulsionador de m icroondas. Mas isso deu a ele a idéia do traj e m isturador. Basicam ente, seu desenho consistia em lentes de quartzo m ultifacetadas conectadas a um com putador m iniaturizado cuj o banco de m em ória guardava até um m ilhão e m eio de frações de representações fisionôm icas de várias pessoas: hom ens, m ulheres e crianças,, com cada variante codificada e em seguida proj etada igualm ente, em todas as direções, em um a m em brana superfina sem elhante a um m anto, grande o suficiente para se aj ustar a um ser hum ano m édio.

À m edida que o com putador fazia o circuito pelo banco, ele proj etava cada cor de olho, cor de cabelo, form ato e tipo de nariz, estrutura dos dentes, configuração da estrutura óssea facial, cada traço concebível — toda a m em brana-m anto assum ia quaisquer características físicas que fossem proj etadas em um dado nanossegundo e depois passava à seguinte. Assim , para tornar o traj e m isturador m ais eficaz, S. A. Powers program ou o com putador para random izar a seqüência de características dentro de cada conj unto. E, para baixar os custos (os federais sem pre gostavam disso), ele encontrou a fonte para o m aterial da m em brana em um subproduto de um a grande indústria que j á fazia negócios com Washington.

De qualquer form a, o usuário do traj e m isturador era Todo Mundo e em todas as com binações (até com binações de um m ilhão e m eio de sub-bits) a cada hora. Daí, nenhum a descrição dele — ou dela — tinha sentido. É desnecessário dizer que S. A. Powers alim entou as unidades de com putação com suas próprias características fisionôm icas, de form a que, enterrado na perm utação frenética de traços faciais, os dele vinham à superfície e se com binavam em m édia, segundo ele calculou, a cada 15 anos por traj e, fornecido e rem ontado, desde que o traj e sobrevivesse tanto tem po. Era o m ais próxim o da im ortalidade que ele podia pretender.

— Vam os ouvir o borrão vago! — disse o anfitrião em voz alta e houve um aplauso da m assa.

Em seu traj e m isturador, Fred, que era tam bém Robert Arctor, rosnou e pensou: “Isso é horrível.”

Um a vez por m ês, um agente disfarçado da divisão de narcóticos do condado era designado aleatoriam ente para falar em reuniões de cabeças-ocas com o esta. Hoj e era a vez dele. Olhando para seu público, ele percebeu o quanto detestava os caretas. Eles pensavam que tudo estava ótim o. Eles estavam sorrindo. Estavam se divertindo.

Talvez nesse m om ento os com ponentes quase incontáveis de seu traj e m isturador tenham exibido S. A. Powers.

— Mas, para falar a sério por um m om ento — disse o anfitrião —, este hom em aqui... — Ele se interrom peu, tentando se lem brar.

— Fred — disse Bob Arctor. S. A. Fred.

— Fred, isso. — O anfitrião, revigorado, reassum iu, retum bando na direção do público. — Vej am vocês que a voz de Fred é com o um a daquelas vozes com putadorizadas de robô do banco em San Diego, quando se entra perfeitam ente sem tom e artificial. Não deixa qualquer característica em nossa m ente, exatam ente com o acontece quando ele se reporta aos superiores no Program a, é..., de Abuso de Drogas do Condado de Orange. — Ele fez um a pausa sugestiva. — Vej am vocês que esses policiais correm um risco terrível, porque as forças das drogas, com o sabem os, penetraram com um a habilidade extraordinária nas várias instâncias da lei em toda a nossa nação, ou podem bem ter penetrado, de acordo com os especialistas m ais inform ados. Assim , para a proteção desses hom ens dedicados, é necessário esse traj e m isturador.

Um leve aplauso para o traj e m isturador. E depois olhares de expectativa para Fred, que se escondia dentro de sua m em brana.

— Mas, em sua linha de trabalho no cam po — acrescentou por fim o anfitrião enquanto se afastava do m icrofone para abrir espaço para Fred —, é claro que ele não usa isso. Ele se veste com o vocês ou eu, em bora, evidentem ente, com as roupas hippies daqueles vários grupos da subcultura nos quais ele penetra de form a incansável.

Ele fez um m ovim ento para Fred se levantar e se aproxim ar do m icrofone. Fred, Robert Arctor, j á fizera isso seis vezes e sabia o que dizer e o que lhe estava reservado: perguntas idiotas e estupidez opaca em graus variados. Um a perda de tem po para ele, além da raiva por esse papel e a eterna sensação de inutilidade.

— Se vocês m e vissem na rua — disse ele ao m icrofone, depois que os aplausos esm oreceram —, diriam : “Lá vai um drogado viciado e doidão.” E sentiriam aversão e se afastariam .

Silêncio.

— Eu não sou com o vocês — disse ele. — Não posso ser. Minha vida depende disso. — Na verdade, ele não era assim tão diferente. E, de qualquer m odo, ele teria vestido o que vestia diariam ente, a trabalho ou não. Ele gostava das roupas que usava. Mas o que ele estava dizendo fora escrito, em linhas gerais, pelos outros e colocado diante dele para que m em orizasse. Ele podia se desviar um pouco, m as todos usavam um form ato padrão. Introduzido alguns anos antes por um chefe de divisão que queria m ostrar serviço, agora se tornara obrigatório.

Ele esperou enquanto absorviam o que acabara de dizer.

— Não vou dizer a vocês — disse ele — o que estou tentando fazer com o policial disfarçado, envolvido na identificação de traficantes e na m aior parte de toda a fonte das drogas ilegais nas ruas de nossas cidades e corredores de nossas escolas aqui no Condado de Orange. Vou contar a vocês — ele fez um a pausa, com o o haviam treinado nas aulas de RP na academ ia — do que eu tenho m edo — concluiu ele.

Isso os fisgou; agora eles eram só olhos.

— Meu m edo — disse ele —, dia e noite, é de que nossos filhos, seus filhos e m eus filhos... — Novam ente ele fez um a pausa. — Eu tenho dois — disse ele. Depois, m uito baixinho: — Pequenos, m uito pequenos. — E depois ele ergueu a voz enfaticam ente: — Mas não pequenos dem ais para se viciarem , para serem viciados de form a calculada, por lucro, por aqueles que destruiriam esta sociedade. — Outra pausa. — Ainda não sabem os — continuou ele logo em seguida, m as com calm a — especificam ente quem são estes hom ens... ou m elhor, anim ais... que pilham nossos filhos, com o se estivessem num a selva, com o num país estrangeiro e não no nosso. A identidade dos fornecedores dos venenos do lixo que destrói o cérebro, inj etado diariam ente, tom ado por via oral diariam ente, fum ado diariam ente por vários m ilhões de hom ens e m ulheres... ou m elhor, que um dia foram hom ens e m ulheres... aos poucos está sendo revelada. Mas finalm ente, se Deus quiser, terem os certeza.

Um a voz do público:

— Acaba com eles!

Outra voz, igualm ente entusiasm ada:

— Pega os com unas!

Robert Arctor parou. Olhando para eles, para os caretas com seus ternos gordos, suas gravatas gordas, seus sapatos gordos, ele pensou, a Substância D não pode destruir o cérebro deles porque eles não têm cérebro.

— Conte com o é — gritou um a voz um pouco m enos enfática, um a voz de m ulher. Procurando, Arctor localizou um a senhora de m eia-idade, não tão gorda, as m ãos batendo de ansiedade.

— Todo dia — disse Fred, Robert Arctor, que sej a — essa doença cobra seu tributo de nós. No final de cada dia que passa, o fluxo dos lucros... e para onde eles vão, nós... — ele se interrom peu. Mesm o que sua vida dependesse disso, ele não conseguia puxar o resto da frase da m em ória, em bora a houvesse repetido um m ilhão de vezes, tanto em aula com o nas palestras anteriores.

Todos no salão estavam em silêncio.

— Bem — disse ele m as não são os lucros. É outra coisa. O que vocês vêem acontecer.

Eles não notaram qualquer diferença, percebeu ele, em bora ele tenha largado o discurso preparado e estivesse divagando, por conta própria, sem a aj uda dos rapazes da RP do Centro Cívico do Condado de Orange. Que diferença fazia, afinal?, pensou ele. E daí? O que realm ente faz com que eles saibam ou se im portem ? Os caretas, pensou ele, m oram em seus enorm es com plexos de apartam entos fortificados guardados por seus seguranças, prontos para abrir fogo em qualquer drogado que suba no m uro com um a fronha vazia para roubar em piano ou relógio elétrico ou barbeador ou aparelho de som pelos quais não tiveram de pagar, para poder conseguir sua dose, conseguir a m erda que, se não tiverem , talvez eles m orram , m orram rápida e com pletam ente da dor e do choque da abstinência. Mas, pensou ele, quando se m ora em um lugar que parece seguro, seu m uro é eletrificado e sua segurança é arm ada, por que pensar nisso?

— Se vocês fossem diabéticos — disse ele — e não tivessem dinheiro para um a inj eção de insulina, roubariam para conseguir o dinheiro? Ou sim plesm ente m orreriam ?

Silêncio.

Nos fones de ouvido de seu traj e m isturador um a vozinha disse: “Acho m elhor você voltar ao texto preparado, Fred. Eu o aconselho a fazer isso.”

No m icrofone em sua garganta, Fred, Robert Arctor, quem quer que fosse, disse: “Eu esqueci.” Só seu superior no Q. G. do Condado de Orange, que não era o sr. F., isto é, Hank, podia ouvir isso. Era um superior anônim o, designado a ele som ente para essa ocasião.

“Legaaaaaal”, disse o m inúsculo ponto no fone de ouvido. “Vou ler para você. Repita, m as procure transm itir despreocupação.” Um a leve hesitação, um revirar de páginas. “Vam os ver... A cada dia, o fluxo de lucros, para onde eles vão, nós...’ Foi aí que você parou.”

“Eu tenho um bloqueio com esse troço”, disse Arctor. logo vam os identificar’”, disse o ponto do policial, distraído, ‘“e a punição rapidam ente virá. E nesse m om ento eu não gostaria de estar no lugar deles.’”

“Sabe por que eu tenho um bloqueio com esse troço?”, disse Arctor. “Porque é isso que leva as pessoas à droga.” Ele pensou, é por isso que você tropeça e se torna um drogado, esse tipo de coisa. É por isso que você desiste e parte. De desgosto.

Mas então ele olhou m ais um a vez para o público e percebeu que para eles não era assim . Essa era a única m aneira de alcançar aquela gente. Ele estava falando para patetas. Sim plórios m entais. Tinha de ser dito da m esm a form a com o na prim eira série: A de Abacate e Abacate é Redondo.

— D — disse ele em voz alta para o público — é a Substância D. Que significa Desespero e Desilusão, e Desdém , o desdém de seus am igos por você, de você por eles, de todos por todos, isolam ento, solidão, ódio e suspeitas m útuas. D — disse ele então — é, por fim , Death, Morte. Slow Death, Morte Lenta. Nós... — Ele se interrom peu. — Nós, os drogados — disse ele —, cham am os assim . — Sua voz ficou rouca e falhou. — Com o vocês devem saber. Slow Death. Da cabeça para baixo. Bom , é isso. — Ele voltou à sua cadeira e se sentou novam ente. Em silêncio.

“Você deturpou o texto”, disse seu superior, a voz no ponto. “Vá falar com igo em m eu escritório quando voltar. Sala 430.”

“É”, disse Arctor. “Eu deturpei.”

Estavam olhando para ele com o se ele tivesse urinado no palco diante de todos. Mas ele não tinha certeza do m otivo.

Andando pom posam ente para o m icrofone, o anfitrião do Lions Club disse:

— Antes desta palestra, Fred m e pediu que fosse principalm ente um fórum de perguntas e respostas, com apenas um a pequena declaração introdutória feita por ele. Eu esqueci de m encionar isso. Muito bem — ele levantou a m ão direita —, quem será o prim eiro, gente?

Arctor de repente se levantou de novo, desaj eitado.

— Parece que Fred tem algo m ais a dizer — disse o anfitrião, acenando para ele.

Voltando lentam ente ao m icrofone, Arctor disse, de cabeça baixa, falando claram ente:

— Só um a coisa. Não os expulsem quando eles se viciarem . Os usuários, os viciados. Metade deles, a m aioria deles, em especial as m ulheres, não sabe onde entrou nem que está se m etendo em algum a coisa. Apenas im peçam as pessoas, qualquer um de nós, de entrar nessa. — Ele ergueu os olhos brevem ente. — Olha, eles dissolvem um as pílulas verm elhas de secobarbital em um a taça de vinho, os traficantes, quero dizer... eles dão a bebida a um a garota, um a m enor de idade, com oito a dez verm elhas nela, e ela desm aia, e depois eles inj etam nela a m istura, que é m etade heroína e m etade Substância D... — Ele se interrom peu. — Obrigado — disse ele.

Um hom em gritou:

— Com o vam os deter essa gente, senhor?

— Matem os traficantes — disse Arctor e voltou à sua cadeira.

Ele não teve vontade de voltar direto para o Centro Cívico do Condado de Orange, então vagou por um a das ruas com erciais de Anaheim , inspecionando as loj as de McDonaldburger, os lava-j atos, postos de gasolina, Pizza Huts e outros prodígios.

Vagando sem rum o desse j eito na rua pública com todo tipo de gente, ele sem pre tinha a estranha sensação de quem era. Com o ele disse ao pessoal do Lions no salão, ele parecia um drogado quando estava sem o traj e m isturador; ele falava com o um drogado; as pessoas à sua volta agora sem dúvida o tom avam por um drogado e reagiam de acordo com isso. Outros drogados — olha aí, pensou ele, “outros”, por exem plo — davam -lhe um olhar de “paz, irm ão”, e os caretas, não.

Vista um a batina e m itra de bispo, refletiu ele, e se andar com o um bispo e as pessoas se curvarem e se aj oelharem e coisas assim e tentarem beij ar seu anel, se não a sua bunda, logo você será um bispo. Por assim dizer. O que é identidade?, ele se perguntou. Onde term ina a atuação? Ninguém sabe.

O que realm ente estragava o senso que tinha de quem era e o que era acontecia quando os Hom ens o interrogavam . Quando detetives, patrulheiros ou policiais em geral, qualquer um deles, por exem plo, aproxim avam -se lentam ente dele pelo m eio-fio de um a form a intim idadora enquanto ele andava, analisando-o com um olhar intenso, incisivo, frio e vazio, e depois, em geral, isso não acontecia, evidentem ente porque dava na veneta, estacionavam e acenavam para ele.

— Tudo bem , quero ver sua identidade — dizia o policial, estendendo a m ão; e depois, enquanto Arctor-Fred-Deus- Sabe-Quem vasculhava o bolso, o policial gritava com ele: “Já foi PRESO?” Ou, com o um a variação, acrescentando: “ANTES?” Com o se ele estivesse prestes a ir para a cadeia naquele m om ento.

— O que é que tá pegando? — ele dizia em geral, quando dizia algum a coisa. Um a m ultidão naturalm ente se form ava. A m aioria achava que ele fora apanhado traficando na esquina. Eles sorriam inquietos e esperavam para ver o que ia acontecer, em bora alguns, em geral chicanos, negros ou doidões óbvios, dem onstrassem raiva. E depois de um curto intervalo, aqueles que dem onstravam raiva com eçavam a ter consciência de que dem onstravam raiva e m udavam rapidam ente para um a atitude im passível. Porque todos sabiam que qualquer um que dem onstrasse raiva ou inquietação — não im portava qual das duas coisas — perto de policiais devia estar escondendo algum a coisa. Os policiais em especial sabiam disso, eram lendários por isso e abordavam essas pessoas autom aticam ente.

Dessa vez, porém , ninguém incom odou. Muitos doidões estavam em evidência, ele era apenas um entre m uitos.

O que eu sou realm ente?, perguntou-se ele. Por um m om ento ele quis seu traj e m isturador. Depois, pensou, eu podia continuar a ser um borrão vago e as pessoas que passassem na rua aplaudiriam . Vam os ouvir o borrão vago, pensou ele, fazendo um a pequena reprise. Que m aneira de conseguir reconhecim ento! Com o, por exem plo, eles poderiam ter certeza de que não era outro borrão vago e não o borrão certo? Podia ser alguém e não Fred ali dentro ou outro Fred e eles nunca saberiam , nem m esm o quando Fred abrisse a boca e falasse. Eles não saberiam realm ente. Nunca saberiam . Podia ser Todo Mundo fingindo ser Fred, por exem plo. Podia ser qualquer um ali, o traj e podia até estar vazio. No Q. G. do Condado de Orange, ele podia transm itir um a voz para o traj e m isturador, anim ando-o a partir da sala do xerife. Fred, nesse caso, poderia ser qualquer um que por acaso estivesse à sua m esa naquele dia e por acaso pegasse o roteiro e o m icrofone ou um com posto de todos os tipos de caras e suas m esas.

Mas acho que o que eu disse no final, pensou ele, acabou com isso. Que não havia ninguém no escritório. Era sobre isso que os caras no escritório queriam falar com igo.

Ele não ansiava por isso, então continuou a vagar e se arrastar, indo a lugar nenhum , indo a toda parte. No sul da Califórnia não fazia diferença para onde você ia; sem pre havia os m esm os McDonaldburgers repetidam ente, com o um a pista circular que passava por você enquanto você fingia ir a algum lugar. E quando finalm ente você sentisse fom e e fosse a um McDonaldburger e com prasse um ham búrguer do McDonald, era aquele que lhe venderam da últim a vez e antes disso e assim por diante, voltando a antes de você nascer, e além disso pessoas cruéis — m entirosas — diziam que era feito de m oela de peru.

De acordo com a placa nova, eles agora vendiam o m esm o ham búrguer original cinqüenta bilhões de vezes. Ele se perguntou se era a m esm a pessoa. A vida em Ana- heim , na Califórnia, era um com ercial reprisado interm inavelm ente. Nada m udava, só se alastrava m ais e m ais com o um pântano de néon. O que sem pre havia de m ais fora congelado na perm anência havia m uito tem po, com o se a fábrica autom ática que produzia esses obj etos aos m ontes estivesse em perrada na posição liga. Com o a Terra virou plástico, pensou ele, lem brando-se do conto de fadas “Com o o m ar virou sal”. Um dia, pensou ele, seria obrigatório que todos vendêssem os ham búrguer do McDonald da m esm a form a com que com právam os; venderem os de um para o outro para sem pre em nossa sala de estar. Assim , nem vam os precisar sair.

Ele olhou o relógio. Duas e m eia: hora de dar um telefonem a. De acordo com Donna, ele podia conseguir, por interm édio dela, talvez uns m il tabletes de Substância D batizada com m etanfetam ina.

Naturalm ente, depois que com prasse, ele levaria a partida para o Abuso de Drogas do condado para que fosse analisada e depois destruída ou o que quer que fizessem com ela. Tom ando eles m esm os, talvez, ou assim dizia outra lenda. Ou a venderiam . Mas a com pra não era para prendê- la por tráfico; ele tinha com prado m uitas vezes dela e nunca a prendera. Não era isso que interessava, prender um a traficante local m enor, um a garota que considerava legal e incrível traficar drogas. Metade dos agentes da narcóticos do Condado de Orange sabia que Donna traficava e a reconhecia de vista. Donna vendia às vezes no estacionam ento da loj a 7-11, na frente do holo-scanner autom ático que a polícia tinha por ali e escapava im pune. De certa form a, Donna não podia ser presa, independentem ente do que fizesse e na frente de quem fizesse.

O que representava sua transação com Donna, com o todas as anteriores, era um a tentativa de abrir cam inho para chegar ao fornecedor de quem ela com prava. E assim , aos poucos, ele aum entava a quantidade do que com prava com ela. No início, ele a cantara — se essa era a palavra — a arranj ar dez tabletes para ele, com o um favor; coisa de am igos. Depois, m ais tarde, ele conseguiu um saco de cem com o recom pensa, depois três sacos. Agora, se tivesse sorte, podia arranj ar m il, o que significava dez sacos. Um dia, ele com praria um a quantidade que estivesse além da capacidade econôm ica de Donna; ela não poderia adiantar a grana para o fornecedor e garantir a parada. E assim ela perderia, em vez de ter um bom lucro. Eles discutiriam ; ela insistiria em que ele adiantasse pelo m enos parte do dinheiro; ele se recusaria; ela não podia adiantar sozinha para a sua fonte; o tem po passaria — até em um negócio pequeno cresceria um a certa tensão; todos ficariam im pacientes; o fornecedor dela, quem quer que fosse, estaria esperando e irritado porque ela não aparecera. E então um dia, se tudo desse certo, ela desistiria e diria a ele e ao fornecedor: “Olha, é m elhor vocês negociarem diretam ente. Eu conheço os dois, os dois são legais. Eu garanto os dois. Vou m arcar lugar e hora e vocês dois podem se encontrar. Então, de agora em diante, Bob, você pode com eçar a com prar direto, se vai m esm o com prar essa quantidade.” Porque nessa quantidade ele seria, para todos os fins, um traficante; estavam se aproxim ando de quantidades de tráfico. Donna acharia que ele estava revendendo a um lucro por centena, um a vez que ele com prava m il de cada vez, pelo m enos. Dessa form a ele podia subir a escada e chegar ao próxim o da fila, tornar-se traficante com o Donna, e depois, m ais tarde, talvez subisse outro degrau, e outro, à m edida que a quantidade fosse aum entando.

Um dia — esse era o nom e do proj eto — ele conheceria alguém superior o bastante para valer um a prisão. Isso significava alguém que soubesse de algum a coisa, o que significava alguém que ou tivesse contato com os que fabricavam ou fosse das relações do fornecedor que conhecesse a fonte.

Ao contrário das outras drogas, a Substância D só tinha — ao que parecia — um a fonte. Ela era sintética e não orgânica; portanto, vinha de um laboratório. Podia ser sintetizada e j á o fora em experim entos federais. Mas os com ponentes eram derivados de substâncias com plexas quase igualm ente difíceis de sintetizar. Teoricam ente, a Substância D podia ser fabricada por alguém que tivesse, prim eiro, a fórm ula e, segundo, capacidade tecnológica para m ontar um a fábrica. Mas, na prática, o custo era proibitivo. Além disso, quem a inventou e a estava disponibilizando vendia barato dem ais para haver concorrência. E a am pla distribuição sugeria que, em bora existisse um a única fonte, tinha um aparato diversificado, provavelm ente um a série de laboratórios em áreas-chave, talvez perto de cada grande centro urbano de usuários de drogas na Am érica do Norte e na Europa. Era um m istério o fato de nenhum deles ter sido localizado, m as suspeitava-se, tanto publicam ente e sem dúvida sob sigilo oficial, de que a Agência S. D. — com o as autoridades a batizaram arbitrariam ente — penetrara em tantos grupos policiais, m unicipais e nacionais, que aqueles que descobrissem algum a coisa de útil sobre suas operações ou não se im portavam , ou não existiam .

Naturalm ente ele tinha vários outros cam inhos no m om ento, além de Donna. Outros traficantes que ele pressionou, pedindo progressivam ente quantidades m aiores. Mas com o Donna era sua gatinha — ou ele esperava que fosse —, era m ais fácil para ele. Visitá-la, conversar com ela por telefone, levá-la ou convidá-la para sair — esse tam bém era um prazer pessoal. De certa form a, era a linha de m enor resistência. Se você tivesse de espionar e inform ar sobre alguém , m elhor que fosse um a pessoa com quem j á convivesse norm alm ente; era m enos suspeito e dava m enos trabalho. E se você não os visse com freqüência antes de com eçar sua vigilância, um dia teria de ver, de qualquer form a; no final, acabava dando certo.

Entrando na cabine telefônica, ele fez a cham ada.

Ring-ring-ring.

— Alô — disse Donna.

Cada telefone público do m undo era gram peado. Ou, se não fosse, algum a turm a em algum lugar largara o gram po havia pouco. As gravações eram alim entadas eletronicam ente em cilindros de arm azenagem em um local central e de dois em dois dias um policial, que ouvia m uitos telefonem as sem ter de sair de sua sala, fazia um relatório im presso. Ele apenas ligava os cilindros de arm azenagem e, a um sinal, eles tocavam , pulando todas as gravações inúteis. A m aioria das cham adas era inócua. O policial podia identificar prontam ente as que porventura não fossem . Essa era a habilidade dele. Era para isso que era pago. Alguns policiais eram m elhores do que outros.

Enquanto ele e Donna conversavam , portanto, ninguém estava ouvindo. A gravação seria tocada talvez no dia seguinte de m anhã cedo. Se eles discutissem algum a coisa notavelm ente ilegal e o policial do m onitoram ento pegasse, tirariam im pressões vocais. Mas só o que ela e ele tinham de fazer era continuar tranqüilos. O diálogo ainda podia ser reconhecido com o tráfico de drogas. Entrava em j ogo aqui um a certa econom ia governam ental — não valia a pena passar pela confusão de im pressões vocais e identificação com transações ilegais de rotina. Havia m uita coisa todo dia da sem ana, em m uitos telefones. Donna e ele sabiam disso.

— Com o está? — perguntou ele.

—Tudo bem . — Pausa na voz calorosa e rouca de Donna.

— Com o está sua cabeça hoj e?

— Meio avoada. Meio pra baixo. — Pausa. — Fiquei irritada com m eu chefe na loj a de m anhã. — Donna trabalhava no balcão de um a pequena perfum aria no Gateside Mall, na Costa Mesa, aonde ela ia toda m anhã em seu MG. — Sabe o que ele disse? Ele disse que aquele cliente, aquele velho, de cabelo grisalho, que nos enganou com dez pratas... ele disse que foi m inha culpa e que vou ter de pagar. Vai sair do m eu contracheque. Então vou perder dez pratas sem ter porra nenhum a... desculpe... de culpa.

Arctor disse:

— Ei, posso arranj ar algum a coisa com você?

Agora ela parecia soturna. Com o se não quisesse. O que era m eio decepcionante.

— Quanto... Quanto você quer? Eu não sei.

— Dez deles — disse ele. Com o eles haviam com binado, um significava cem ; esse era, então, um pedido de m il.

De fachada, se as transações tivessem de acontecer por com unicações públicas, um a boa opção consistia em m ascarar um a com pra grande com outra aparentem ente pequena. Eles podiam ficar negociando para sem pre com quantidades assim , sem que as autoridades tivessem algum interesse; caso contrário, as equipes de narcóticos dariam um a busca em apartam entos e casas em cada rua a toda hora do dia e pouco conseguiriam .

— Dez — resm ungou Donna, irritada.

— Estou na pior, de verdade — disse ele, com o um usuário. Em vez de traficante. — Vou te pagar depois, quando arranj ar.

— Não — disse ela rigidam ente. — Arranj o pra você grátis. Dez. — Agora, sem dúvida, ela estava especulando se ele estava traficando. Provavelm ente estava. — Dez. Por que não? Que tal daqui a três dias?

— Não dá m ais cedo?

— Tem os...

— Tudo bem — disse ele.

— Vou ficar sem nada.

— A que horas?

Ela calculou.

— Digam os um as oito da noite. Olha, eu quero te m ostrar um livro que peguei, alguém deixou na loj a. E legal. Tem a ver com lobos. Sabe o que os lobos fazem ? Os m achos? Quando derrotam o inim igo, eles não m atam , eles urinam nele. É verdade! Eles ficam ali, m ij am no inim igo derrotado e depois se separam . E isso. Eles brigam principalm ente por território. E pelo direito de trepar. Sabe com o é.

Arctor disse:

— Eu m ij ei num as pessoas faz um tem po.

— Tá brincando! Com o foi isso?

— Metaforicam ente — disse ele.

— Não do j eito de sem pre?

— Quer dizer — disse ele —, eu disse a eles... — Ele se interrom peu. Falando dem ais; um a m erda. Meu Deus, pensou ele. — Aqueles caras — disse ele — tipo m otoqueiros, saca? Pelo Fosters Freeze? Eu estava passando por ali e eles disseram um troço obsceno. Então eu m e virei e disse um a coisa do tipo... — Ele não conseguiu pensar em nada por um m om ento.

— Pode m e contar — disse Donna —, m esm o que sej a supergrosso. Você tem de ser supergrosso com esses m otoqueiros ou eles não entendem .

Arctor disse:

— Eu disse que um dia desses eu ia com er um a das galinhas deles.

— Essa eu não entendi.

— Bom , um a galinha é um a garota que...

— Ah, sim . Tudo bem . Agora entendi. Eca.

— Eu te vej o na m inha casa, com o você disse — disse ele.

— Tchau. — Ele com eçou a desligar.

— Posso levar o livro dos lobos pra te m ostrar? E de Konrad Lorenz. A capa diz que ele era a m aior autoridade em lobos do m undo. Ah, sim , m ais um a coisa. Seus colegas de quarto foram à loj a hoj e. Ernie não-sei-das-quantas e aquele Barris. Procurando por você, se você podia...

— O quê? — disse Arctor.

— Seu cefalocrom oscópio que te custou 900 dólares, que você sem pre liga e toca quando chega em casa... Ernie e Barris estavam tagarelando um a coisa assim . Eles tentaram usar hoj e e não funcionou. Sem cor nem nenhum padrão cef, nada. Então eles pegaram o kit de ferram entas de Barris e abriram a base.

— Mas o que é que você está dizendo! — disse ele, indignado.

— E eles disseram que estava todo ferrado. Sabotado. Fios cortados e um a coisa m eio estranha... sabe com o é, coisas anorm ais. Curtos e peças quebradas. Barris disse que ele tentou...

— Vou para casa agora — disse Arctor e desligou. A coisa que eu m ais valorizo, pensou ele com am argura. E aquele idiota do Barris m exendo nela. Mas não posso ir para casa agora, percebeu ele. Tenho de passar na New-Path para ver o que andaram aprontando.

Essa era sua designação: obrigatória.