O Homem Duplo
Capítulo 3
3
Charles Freck tam bém andava pensando em visitar a New-Path. O doidão do Jerry Fabin gostava m uito dele.
Sentado com Jim Barris na Cafeteria Fiddlers Three, em Santa Ana, ele brincava, rabugento, com o donut açucarado.
— É um a decisão difícil — disse ele. — O que eles fazem é crise de abstinência. Eles só m antêm você dia e noite lá para que você não se m ate nem m orda seu braço, m as nunca te dão nada. Um m édico vai receitar. Valium , por exem plo.
Com um a risadinha, Barris exam inou seu sanduíche patty, que tinha im itação de queij o derretido e ham búrguer de carne falsa em pão orgânico especial.
— Que tipo de pão é esse? — perguntou ele.
— Olha o cardápio — disse Charles Freck. — Está explicado aí.
— Se você entrar nessa — disse Barris —, vai ter sintom as que surgem dos fluidos básicos do corpo, especificam ente aqueles localizados no cérebro. Estou m e referindo às catecolam inas, com o a noradrenalina e a serotonina. Olha só, suas funções são assim : a Substância D, na verdade todas as drogas viciantes, m as sobretudo a Substância D, interage com as catecolam inas de tal form a que o envolvim ento fica travado no nível subcelular. Houve um a contra-adaptação biológica e de certa form a para sem pre.
— Ele com eu um pedaço enorm e do lado direito do sanduíche. — Antigam ente acreditavam que isso só acontecia com os entorpecentes alcalóides, com o a heroína.
— Eu nunca tom ei pico de heroína. Ela baixa a bola.
A garçonete, atraente e elegante com o uniform e am arelo, com peitos em pinados e cabelo louro, aproxim ou-se da m esa deles.
— Oi — disse ela. — Está tudo bem ?
Charles Freck olhou para ela com m edo.
— Seu nom e é Patty ? — perguntou Barris a ela, sinalizando a Charles Freck que estava tudo bem .
— Não. — Ela apontou o crachá no peito direito. — É Beth.
Im agino do que cham ariam o esquerdo, pensou Charles Freck.
—A garçonete da últim a vez era Patty — disse Barris, olhando a garçonete grosseiram ente. — Com o o sanduíche.
— Deve ter sido um a Patty diferente do sanduíche. Acho que se escreve com i.
— Está tudo ótim o — disse Barris. Acim a da cabeça dele, Charles Freck podia ver um balão de pensam ento em que Beth estava tirando as roupas e gem endo para ser com ida.
— Não com igo — disse Charles Freck. — Eu tenho um m onte de problem as que ninguém m ais tem .
Num a voz som bria, Barris disse:
— Mais gente do que você pensa. E m ais a cada dia. Este é um m undo doentio e fica cada vez pior. — Acim a da cabeça dele, o balão de pensam ento tam bém ficava pior.
— Gostaria de pedir sobrem esa? — perguntou Beth, sorrindo para eles.
— O que tem aqui? — disse Charles Freck, desconfiado.
— Tem os torta de m orango e torta de pêssego — disse Beth, sorrindo — que nós m esm os fazem os.
— Não, não vam os com er sobrem esa — disse Charles Freck. A garçonete saiu. — Isso é coisa de velha — disse ele a Barris —, essas tortas de fruta.
— A idéia de se entregar para a reabilitação — disse Barris
— certam ente está te deixando apreensivo. Isto é um a m anifestação de sintom as negativos voluntários, o seu m edo. E a droga falando, para evitar que você entre na New-Path e para im pedir que você saia dessa. Com o pode ver, todos os sintom as são voluntários, sej am negativos ou positivos.
— Tá de sacanagem — m urm urou Charles Freck.
— Os negativos se m anifestam com o ânsias, que são deliberadam ente geradas por todo o corpo para obrigar seu dono... neste caso, você... a procurar freneticam ente...
— A prim eira coisa que eles te fazem quando você vai para a New-Path — disse Charles Freck — é cortar sua pica. Com o um a aula prática. E depois eles cortam pra todo lado a partir dali.
— Seu baço vem depois — disse Barris.
— Eles o que, eles cortam ... O que isso faz, um baço?
— Aj uda a digerir sua com ida.
— Com o?
— Rem ovendo a celulose dela.
— Então acho que depois disso...
— Só alim entos sem celulose. Nada de folhas nem alfafa.
— Quanto tem po se pode viver desse j eito?
Barris disse:
— Depende de sua atitude.
— Quantos baços tem a m édia das pessoas? — Ele sabia que o norm al era ter dois rins.
— Depende de seu peso e sua idade.
— Por quê? — Charles Freck sentiu um a desconfiança aguda.
— A pessoa desenvolve m ais baços com o passar dos anos. Quando chega aos 80...
— Está de sacanagem com igo.
Barris riu. Ele sem pre ria estranho, pensou Charles Freck. Um riso irreal, com o de algum a coisa se quebrando.
— Por que essa sua decisão — disse Barris agora — de se apresentar para terapia de internação no centro de reabilitação de drogas?
— Jerry Fabin — disse ele.
Com um gesto de leve repúdio, Barris disse:
— Jerry era um caso especial. Um a vez vi Jerry Fabin cam baleando e caindo, se cagando todo, sem saber onde estava, tentando m e convencer a pesquisar que veneno ele tinha apanhado, m ais provavelm ente sulfato de tálio... é usado em inseticidas e para m atar ratos. Era arm ação, alguém se vingando dele. Eu pude pensar em dez toxinas e venenos diferentes que podiam ...
— Há outro m otivo — disse Charles Freck. — Estou ficando sem suprim ento e não dá para suportar isso, ficar sem pre com pouco e sem saber se vou conseguir encontrar m ais dessa porra.
— Bom , nem podem os ter certeza de que verem os o sol nascer de novo.
— Mas que m erda... agora estou com tão pouco que é um a questão de dias. E, além disso, acho que estou sendo roubado. Não é possível que eu estej a tom ando tão rápido; alguém deve estar saqueando a porra do m eu esconderij o.
— Quantos tabletes você tom a por dia?
— É m uito difícil saber. Mas não são m uitos.
— Está tolerizando, você sabe disso.
— Claro, eu sei, m as não é isso. Não posso ficar sem nada. Por outro lado... — Ele refletiu. — Acho que consegui um a nova fonte. Aquela garota, a Donna. Donna qualquer coisa.
— Ah, a garota do Bob.
— A m ulher dele — disse Charles Freck, assentindo.
— Não, ele nunca conseguiu transar com ela. Ele tenta.
— Ela é de confiança?
— De que m aneira? Deitada ou... — Barris gesticulou: a m ão na boca e sorvendo...
— Que tipo de sexo é esse? — Depois ele entendeu. — Ah, sim , o últim o.
— De toda confiança. Meio desm iolada. O que você espera de um a garota, em especial das m ais caladonas? Tem o cérebro entre as pernas, com o a m aioria delas. Provavelm ente o esconderij o fica ali tam bém . — Ele riu. — O esconderij o de todo o tráfico que ela faz.
Charles Freck se inclinou para ele.
— Arctor nunca trepou com a Donna? Ele fala dela com o se tivesse trepado.
Barris disse:
— Esse é o Bob Arctor. Fala com o se tivesse feito m uita coisa. Não é a m esm a coisa, de j eito nenhum .
— Bom , com o é que ele nunca dorm iu com ela? Ele não conseguiu?
Barris refletiu sensatam ente, ainda m exendo no sanduíche; ele agora o dividira em pedacinhos.
— Donna tem problem as. E provável que ela sej a j unkie. A aversão que tem ao contato físico em geral... os j unkies perdem o interesse pelo sexo porque os órgãos incham com a vasoconstrição. E Donna, com o observei, m ostra um a falta incom um de excitação sexual, a um ponto que não é natural. Não só com relação a Arctor, m as com relação... — Ele se interrom peu, m al-hum orado — a outros hom ens.
— Que m erda, você quer dizer que ela não dá pra ninguém .
— Ela daria — disse Barris —, se fosse bem m anipulada. Por exem plo... — Ele ergueu os olhos de form a m isteriosa.
— Posso te m ostrar com o dorm ir com ela por 98 cents.
— Eu não quero dorm ir com ela. Só quero com prar dela. — Ele se sentia inquieto. Sem pre havia algo em Barris que revirava seu estôm ago. — Por que 98 cents? — disse ele.
— Ela não ia aceitar dinheiro, ela não trepa por dinheiro.
E, de qualquer form a, é m ulher do Bob.
— O dinheiro não seria pago diretam ente a ela — disse Barris com seu j eito m eticuloso e educado. Ele se inclinou para Charley Freck, o prazer e a m alícia palpitando entre as narinas peludas. E não só isso, o tom verde dos óculos de sol tinha se vincado. — Donna gosta de coca. Para qualquer um que lhe dê um gram a de coca ela sem dúvida nenhum a vai abrir as pernas, principalm ente se um a certa substância quím ica rara for acrescentada de um a form a estritam ente científica que eu consegui à custa de m uita pesquisa.
— Gostaria de que não falasse desse j eito — disse Charles Freck. — Sobre Donna. E depois, agora um gram a de coca custa m ais de cem dólares. Quem tem isso tudo?
Meio espirrando, Barris declarou:
— Posso obter um gram a de cocaína pura, dos ingredientes a partir dos quais consigo, sem incluir m inha m ão-de-obra, a um custo total de m enos de um dólar.
— Besteira.
— Vou te dar um a dem onstração.
— De onde vêm esses ingredientes?
— Da loj a 7-11 — disse Barris e se colocou de pé, descartando pedaços de sanduíche em sua em polgação. — Pague a conta — disse ele —, vou te m ostrar. Montei um laboratório provisório em casa, até que consiga criar um m elhor. Pode m e ver extrair um gram a de cocaína de m ateriais com uns e sancionados com prados abertam ente na loj a 7-11 por um dólar de custo total. — Ele com eçou a andar pelo corredor. — Vam os. — O tom de voz dele era urgente.
— Claro — disse Charles Freck, pegando a conta e seguindo. Um cascateiro, pensou ele. Ou talvez não fosse. Com todos aqueles experim entos quím icos que ele fazia e lendo e relendo a biblioteca do condado... talvez houvesse algum a verdade na coisa. Im agine o lucro, pensou ele. Im agine o que podem os faturar!
Ele correu atrás de Barris, que estava pegando as chaves do Karm ann Ghia em seu m acacão de pára-quedista enquanto andava, passando pelo caixa.
Eles pararam no estacionam ento da 7-11, saíram do carro e entraram na loj a. Com o sem pre, um policial enorm e e caladão estava parado ali, fingindo ler um a revista grossa com o um livro no balcão da frente; na realidade, com o sabia Charles Freck, ele estava verificando todo m undo que entrava para ver se pretendiam assaltar o lugar.
— O que vam os com prar aqui? — perguntou ele a Barris, que estava andando casualm ente pelos corredores de pilhas de com ida.
— Um a lata de spray — disse Barris. — De Solarcaine.
— Spray para queim adura de sol? — Charles Freck não acreditava que isso estivesse acontecendo, m as, por outro lado, quem sabe? Quem podia ter certeza? Ele seguiu Barris até o balcão; dessa vez Barris pagou.
Eles com praram a lata de Solarcaine, passaram pelo policial e voltaram ao carro. Barris saiu rapidam ente do estacionam ento, pegou a rua e prosseguiu a toda, ignorando as placas de lim ite de velocidade, até que por fim reduziram e pararam diante da casa de Bob Arctor, com todos os j ornais velhos ainda fechados na gram a alta do j ardim .
Saindo do carro, Barris ergueu alguns obj etos com fios pendurados no banco traseiro para levar para dentro. Voltím etro, viu Charles Freck. E outro aparelho eletrônico de teste e um a pistola de solda.
— Para que isso? — perguntou ele.
— Tenho um trabalho longo e árduo a fazer — disse Barris, levando pela calçada os vários obj etos, além do Solarcaine, até a porta da casa. Ele passou a chave a Charles Freck. — E provavelm ente não vou receber nada por isso. Com o sem pre.
Charles Freck destrancou a porta e eles entraram na casa. Dois gatos e um cachorro partiram para cim a deles, fazendo barulhos esperançosos; ele e Barris afastaram os anim ais cuidadosam ente com as botas.
Ao longo das sem anas, Barris tinha m ontado um a espécie de laboratório estranho nos fundos da saleta de j antar, frascos e pedaços de refugo aqui e ali, obj etos aparentem ente sem valor que ele furtara de diferentes fontes. Barris, com o Charles Freck ouvira falar, não era tão adepto da parcim ônia, m as da engenhosidade. Você deve ser capaz de usar a prim eira coisa que cai em suas m ãos para conseguir seu obj etivo, pregava Barris. Um a tacha, um clipe de papel, parte de um aparelho que se quebrou ou se perdeu... Charles Freck teve a im pressão de que um sucateiro tinha m ontado oficina aqui e estava fazendo experim entos com o que agradava a um sucateiro.
A prim eira atitude no esquem a de Barris foi pegar um saco plástico do rolo perto da pia e nele esguichar o conteúdo da lata de spray , sem parar, até que a lata ou o gás acabou.
— Isso é irreal — disse Charles Freck. — Superirreal.
— O que eles fizeram deliberadam ente — disse Barris, cauteloso, enquanto trabalhava — foi m isturar a cocaína com óleo para que não possa ser extraída. Mas m eu conhecim ento de quím ica é tão bom que sei exatam ente com o separar a coca do óleo. — Ele com eçou a sacudir sal na gosm a pegaj osa do saco. Depois colocou tudo em um j arro de vidro. — Vou congelar — anunciou ele, sorrindo —, o que faz com que os cristais de cocaína subam , porque são m ais leves do que o ar. Do que o óleo, quero dizer. E depois a últim a etapa, é claro, eu guardo para m im m esm o, m as envolve um com plicado processo m etodológico de filtragem . — Ele abriu o congelador acim a da geladeira e colocou com cuidado o vidro dentro dele.
— Quanto tem po vai ficar aí? — perguntou Charles Freck.
— Meia hora. — Barris pegou um dos cigarros enrolados à m ão, acendeu e depois foi até o m onte de equipam ento eletrônico de teste. Ficou parado ali, m editando, esfregando o queixo barbado.
— É — disse Charles Freck —, m as quero dizer, então, m esm o que você consiga disso aí um gram a inteiro de coca pura, não posso usar em Donna para... sabe com o é, transar com ela. E com o com prá-la; é o que isto significa.
—Troca — corrigiu Barris. — Você dá um presente a ela, ela te dá outro. O presente m ais precioso de um a m ulher.
— Ela ia saber que estava sendo com prada. — Ele tinha visto Donna o suficiente para entender isso; Donna ia entender o engodo de im ediato.
— A cocaína é afrodisíaca — m urm urou Barris, m eio para si m esm o; estava instalando o equipam ento ao lado do cefalocrom oscópio de Bob Arctor. — Depois que cheirar um a boa parte, ela vai ficar feliz em se arreganhar.
— Que m erda, cara — protestou Charles Freck. — Está falando da garota do Bob Arctor. Ele é m eu am igo e é o cara com quem você e Luckm an m oram .
Barris ergueu a cabeça desgrenhada por um m om ento. Analisou Charles Freck por um tem po.
— Tem um a coisa ótim a sobre Bob Arctor que você não sabe — disse ele. — Que nenhum de nós sabe. Sua visão é sim plista e ingênua e você acredita sobre o Bob o que ele quer que você acredite.
— Ele é um cara cem por cento legal.
— Certam ente — disse Barris, assentindo e sorrindo. — Sem dúvida nenhum a, um dos m elhores do m undo. Mas eu tenho... nós tem os, nós que observam os Arctor com precisão e percepção... distinguindo nele algum as contradições. Tanto em relação à estrutura da personalidade com o no com portam ento. No total desligam ento com a vida. No, digam os assim , estilo inato dele.
— Pode ser m ais específico?
Os olhos de Barris, por trás das lentes verdes, dançaram .
— Seus olhos dançando não significam nada para m im — disse Charles Freck. — O que há de errado com o cefscópio em que você está trabalhando? — Ele se aproxim ou para olhar.
Inclinando o chassis central na ponta, Barris disse:
— Me diga o que está vendo aqui na fiação por baixo.
— Estou vendo fios cortados — disse Charles Freck. — E um m onte do que parecem curtos provocados. Quem fez isso?
Novam ente os olhos risonhos e sagazes de Barris dançaram com um prazer especial.
— Essa porcaria ordinária não significa m erda nenhum a para m im — disse Charles Freck. — Quem destruiu o cefscópio? Quando isso aconteceu? Você descobriu há pouco tem po? Arctor não disse nada da últim a vez em que eu o vi, e isso foi antes de ontem .
Barris disse:
— Talvez ele ainda não estivesse preparado para falar no assunto.
— Bom — disse Charles Freck —, para m im você está falando por enigm as de doidão. Acho que vou dar um pulo a um a das clínicas da New-Path, m e apresentar, passar pelo tratam ento de choque e fazer terapia, entrar no j ogo destrutivo deles e ficar com aqueles caras dia e noite, sem m alucos m isteriosos com o você que não dizem nada que faça sentido e eu não consigo entender. Posso ver que esse cefscópio foi destruído, m as você não está m e dizendo nada. Está tentando alegar que Bob Arctor fez isso, com o próprio equipam ento caro, não está? O que você está dizendo? Eu queria era m orar na New-Path, onde eu não precisaria passar por essa m erda cheia de significados que eu não entendo dia após dia, se não com você, então com algum doidão acabado com o você, igualm ente chapado. — Ele olhou de um j eito feroz.
— Eu não destruí essa unidade de transm issão — disse Barris especulativam ente, coçando os pêlos da barba — e duvido m uito de que Ernie Luckm an tenha feito isso.
— Eu duvido m uito de que Ernie Luckm an tenha destruído qualquer coisa na vida, a não ser aquela vez em que ele se em polgou com um ácido ruim e atirou a m esa de centro da sala e todo o resto pela j anela do apartam ento que ele tinha, ele e aquela Joan, no estacionam ento. Isso é diferente. Norm alm ente Ernie não se descontrola m ais do que todos nós. Não, Ernie não sabotaria o cefscópio de ninguém . E Bob Arctor... é dele, não é? O que ele fez, levantou em segredo no m eio da noite sem saber e fez isso, estragando desse j eito o que era dele? Isso foi feito por alguém que queria acabar com ele. Foi isso que aconteceu. — Você deve ter feito isso, seu filho-da-puta noj ento, pensou ele. — Quem fez isso — disse ele — devia ir para um a clínica de afasia federal ou para a cova. De preferência, na m inha opinião, a últim a. Bob sem pre relaxava com esse cefscópio Altec; eu o vi usando sem pre, toda vez que chegava do trabalho à noite, assim que entrava pela porta. Todo cara tem algum a coisa que preza. Essa é a dele. Então eu digo que é um a m erda fazer isso com ele, cara, um a m erda.
— É o que eu quero dizer.
— O que você quer dizer?
— “Toda vez que chegava do trabalho” — repetiu Barris.
— Andei conj ecturando por um tem po quem é que realm ente em prega Bob Arctor, que organização específica é essa que ele não pode nos contar.
— E a porra do Blue Chip Redem ption Stam p Center, em Placentia — disse Charles Freck. — Ele j á m e contou.
— Eu m e pergunto o que ele faz lá.
Charles Freck suspirou.
— Tinge os selos de azul. — Na verdade, ele não gostava de Barris. Freck queria estar em outro lugar, talvez arranj ando um a com a prim eira pessoa que ele visitasse ou a quem telefonasse. Talvez sej a m elhor eu dar o fora, disse ele a si m esm o, m as lem brou-se do vidro de óleo e cocaína no congelador, 98 cents que valiam cem dólares.
— Aí — disse ele —, quando é que esse troço vai ficar pronto? Acho que você está m e enrolando. Com o o pessoal da Solarcaine vende esse troço por tão pouco se tem um gram a de coca pura? Com o é que eles têm lucro?
— Eles com pram — declarou Barris — em grandes quantidades.
Rolou na cabeça de Charles Freck um a fantasia instantânea: cam inhões basculantes cheios de cocaína indo à fábrica de Solarcaine, onde quer que fosse, talvez em Cleveland, descarregando toneladas e m ais toneladas de cocaína pura, sem m alho, sem m istura, de alta qualidade, em um a extrem idade da fábrica, onde era m isturada com óleo e gás inerte e outros trecos, e depois enfiada em latinhas de spray coloridas que seriam em pilhadas nos m ilhares de loj as 7-11, drogarias e superm ercados. O que devíam os fazer, rum inou ele, era parar um desses cam inhões e pegar a carga toda, uns 300 ou 400 quilos — que droga, m uito m ais. Quanto carrega um cam inhão basculante?
Barris levou para ele a lata de Solarcaine agora vazia, para que ele exam inasse; ele lhe m ostrou o rótulo, em que estavam relacionados todos os com ponentes.
— Está vendo? Benzocaína. O que só algum as pessoas dotadas sabem que é o nom e com ercial da cocaína. Se eles dissessem cocaína no rótulo, as pessoas iriam sacar e acabariam fazendo o que eu faço. As pessoas sim plesm ente não são instruídas para perceber isso. Não têm o treinam ento científico que eu tive.
— O que vai fazer com esse conhecim ento? — perguntou Charles Freck. — Além de deixar Donna Hawthorne ligadona?
— Pretendo escrever um best-seller um dia desses — disse Barris. — Um texto para a m aioria das pessoas sobre com o fabricar droga segura na cozinha sem infringir a lei. Isso não infringe a lei, entende? A benzocaína é legalizada. Telefonei para um a farm ácia e perguntei. Está em um m onte de coisas.
— Poxa! — disse Charles Freck, im pressionado. Ele olhou o relógio de pulso para ver quanto tem po tinham de esperar.
Bob Arctor fora avisado por Flank, que era o sr. F., para verificar os centros de internação da New-Path da cidade, a fim de localizar um traficante im portante que ele estivera vigiando, m as que de repente tinha sum ido de vista.
De vez em quando, um traficante, percebendo que estava prestes a ser flagrado, refugiava-se em um dos centros de reabilitação de drogas, com o a Sy nanon, o Center Point, a X-Kalay e a New-Path, bancando um viciado à procura de aj uda. Depois que entra, ele é despoj ado de tudo o que o identifica, sua carteira, até o nom e, com o preparação para form ar um a nova personalidade que não é orientada para as drogas. Neste processo de despoj am ento, desaparece grande parte do que os policiais precisam para localizar o suspeito. Mais tarde, quando a pressão é aliviada, o traficante sai e reassum e sua atividade externa de sem pre.
Ninguém sabia com que freqüência isso acontecia. As unidades de reabilitação de drogas tentavam discernir quando estavam sendo usadas, m as nem sem pre tinham sucesso. Um traficante com m edo de pegar quarenta anos de prisão tinha m otivação para contar um a boa história para a equipe de reabilitação, que tinha o poder de adm iti-lo ou rej eitá-lo. Sua agonia a essa altura era essencialm ente verdadeira.
Dirigindo devagar pelo Katella Boulevard, Bob Arctor procurava pela placa da New-Path e o prédio de m adeira, antigam ente um a residência particular, operada nessa área pelo pessoal ativo da reabilitação. Ele não gostava de enganar um centro de reabilitação dessa m aneira, fingindo ser um possível interno que precisava de aj uda, m as essa era a única form a de conseguir. Se ele se identificasse com o agente da narcóticos à procura de alguém , o pessoal da reabilitação — a m aioria deles, de qualquer form a — naturalm ente com eçaria um a ação evasiva. Eles não queriam sua fam ília abordada pelos Hom ens e ele tinha de entrar de cabeça ali para entender a validade disso. Aqueles ex-viciados deviam estar seguros lá; na verdade, a equipe da reabilitação costum ava garantir oficialm ente sua segurança quando eles entravam . Por outro lado, o traficante que ele procurava era um a fonte de prim eira e usar centros de reabilitação dessa m aneira contrariava o interesse de todos. Ele não viu alternativa para si m esm o ou para o sr. E, que originalm ente o colocara na cola de Spade Weeks. Weeks foi o principal tem a de Arctor por um tem po interm inável, sem resultado nenhum . E agora, por dez dias inteiros, fora im possível localizá-lo.
Ele viu a placa nítida, parou no pequeno estacionam ento, que essa filial da New-Path dividia com um a padaria, e andou de m aneira irregular pelo passadiço até a porta da frente, as m ãos nos bolsos, fazendo seu núm ero de oprim ido-e-infeliz.
Pelo m enos o departam ento não se colocou contra ele por ter perdido Spade Weeks de vista. Em sua estim ativa, oficialm ente, só provou com o Weeks era esperto. Tecnicam ente, Weeks era um contrabandista e não traficante; ele enviava drogas pesadas do México a intervalos regulares para algum lugar perto de Los Angeles, onde os com pradores se reuniam e dividiam a carga. O m étodo que Weeks usava para contrabandear a carga pela fronteira era eficaz: ele a colava em baixo do carro de algum careta que atravessava a fronteira na frente dele, depois pegava o cara no lado am ericano e o m atava na prim eira oportunidade conveniente. Se a patrulha da fronteira dos EUA descobrisse a droga colada em baixo do carro do careta, o careta seria pego, e não Weeks. A posse era prim a facie na Califórnia. Péssim o para o careta, a esposa e os filhos dele.
Mais do que qualquer outro no trabalho sob disfarce do Condado de Orange, ele reconhecia Weeks de vista: um negro gordo, em seus trinta anos, com um padrão de fala singular, lento e elegante, com o se o tivesse m em orizado em um a falsa escola inglesa. Na verdade, Weeks vinha das favelas de Los Angeles. Era m ais provável que ele tenha aprendido essa dicção em fitas educativas que pegou em algum a biblioteca universitária.
Weeks gostava de se vestir de form a discreta, m as classuda, com o se fosse m édico ou advogado. Em geral, portava um a pasta executiva cara, de crocodilo, e usava óculos de aro de chifre. Além disso, costum ava andar arm ado, com um a pistola que encom endara, com um cabo feito sob m edida na Itália, m uito elegante e cheia de estilo. Mas na New-Path ele seria despido de seus variados param entos, eles o vestiriam com o qualquer outro, com roupas aleatórias de doações, e trancariam sua pasta no arm ário.
Abrindo a sólida porta de m adeira, Arctor entrou.
Um saguão escuro, um a sala de estar à esquerda, com hom ens lendo. Um a m esa de pingue-pongue no outro extrem o, depois um a cozinha. Uns lem as nas paredes, alguns feitos à m ão e alguns im pressos: O ÚNICO FRACASSO VERDADEIRO É FALHAR COM OS OUTROS e assim por diante. Pouco barulho, pouca atividade. A New-Path m antinha variados negócios de varej o; provavelm ente a m aioria de seus internos, hom ens e m ulheres tam bém , estava trabalhando em seus salões de beleza, postos de gasolina e em pregos burocráticos. Ele ficou parado ali, esperando, parecendo abatido.
— Pois não? — Apareceu um a m ulher, bonita, usando um a saia de algodão azul extrem am ente curta e um a cam iseta com NEW-PATH pintado de um m am ilo a outro.
Ele disse, num a voz em bargada, lam entativa e hum ilhada:
— Eu estou... num a pior. Não consigo agüentar m ais. Posso m e sentar?
— Claro. — A m ulher acenou e surgiram dois hom ens de aparência m edíocre, olhando im passíveis. — Levem ele para onde possa se sentar e dêem um café.
Arrastando-se, Arctor pensou enquanto deixava que os dois hom ens o levassem a um sofá estofado de aparência puída. Paredes lúgubres, ele percebeu. Tinta lúgubre de baixa qualidade que fora doada. Mas eles sobreviviam de contribuições, era difícil conseguir financiam ento.
— Obrigado — chiou ele, trêm ulo, com o se fosse um alívio esm agador estar ali e se sentar. — Uau — disse ele, tentando alisar o cabelo; fez com que parecesse que não conseguia e desistiu.
A m ulher, bem na frente dele, disse com firm eza:
— Parece péssim o, senhor.
— É — concordaram os dois hom ens, num tom surpreendentem ente anim ado. — Um a bosta de verdade. O que andou fazendo, deitou na própria m erda?
Arctor pestanej ou.
— Quem é você? — quis saber um dos hom ens.
— Dá para ver o que ele é — disse o outro. — Um rebotalho da porra da lata de lixo. Olha. — Ele apontou para o cabelo de Arctor. — Piolhos. É por isso que você coça, cara.
A m ulher, calm a e sobranceira, m as de m aneira nenhum a am istosa, disse:
— Por que veio aqui, senhor?
Para si m esm o, Arctor pensou, porque você tem um contrabandista dos grandes em algum lugar por aqui. E eu sou um dos Hom ens. E vocês são uns idiotas, todos vocês. Mas, em vez disso, ele m urm urou de m odo servil, o que evidentem ente era o que esperavam :
— Você disse...
— Sim , senhor, pode tom ar um café. — A m ulher inclinou a cabeça e um dos hom ens foi obedientem ente para a cozinha.
Um a pausa. Depois a m ulher se curvou e tocou o j oelho dele.
— Sente-se m uito m al, não é? — disse ela delicadam ente.
Ele só pôde assentir.
— Sente vergonha e repulsa pelo que você é — disse ela.
— É — concordou ele.
— Pelo lixo que você fez de si m esm o. Um esgoto. Enfiando aquela agulha no traseiro dia após dia, inj etando no seu corpo...
— Eu não posso m ais continuar — disse Arctor. — Este lugar é a única esperança que m e ocorre. Um am igo m eu vem para cá, eu acho, ele disse que vinha. Um cara negro, uns trinta anos, instruído, m uito educado e...
— Vai encontrar a fam ília m ais tarde — disse a m ulher. — Se estiver qualificado. Precisa passar por nossas exigências, entendeu? E a prim eira delas é um a necessidade sincera.
— Eu tenho — disse Arctor. — Um a necessidade sincera.
— Deve estar m uito m al para vir parar aqui.
— E estou m esm o — disse ele.
— O quanto você é chapado? Qual é o seu hábito?
— Trinta gram as por dia — disse Arctor.
— Pura?
— É. — Ele assentiu. — Eu guardo num açucareiro na m esa.
— Vai ser dureza. Você vai roer seu travesseiro até as penas a noite toda; só vai haver penas em toda parte quando você acordar. E você terá espum a presa na boca. E vai se suj ar com o os anim ais doentes. Está pronto para isso? Entenda que não vam os dar nada a você aqui.
— Tudo bem — disse ele. Isso era um estorvo e ele se sentia inquieto e irritadiço. — Meu am igo — disse ele —, o negro. Ele conseguiu vir para cá? Espero que os canalhas não o tenham pegado no cam inho... Ele estava tão acabado, cara, que m al podia se orientar. Ele pensou...
— Não existem relacionam entos pessoais na New-Path — disse a m ulher. — Você vai aprender isso.
— É, m as ele conseguiu vir para cá? — disse Arctor. Ele podia ver que estava perdendo tem po. Meu Deus, pensou, isto é pior do que o que fazem os no centro da cidade, essa abordagem . E ela não vai m e contar m erda nenhum a. E política do lugar, percebeu ele. Com o um m uro de ferro. Depois que você entra num desses locais, está m orto para o m undo. Spade Weeks podia estar sentado depois da divisória, ouvindo e dando gargalhadas, ou não estar aqui ou qualquer coisa entre essas duas. Mesm o com um m andado — que nunca funcionava. As unidades de reabilitação sabiam enrolar, protelando até que um interno procurado pela polícia tenha escapulido por um a porta lateral ou se atirado na fornalha. E nenhum órgão da lei gostava da idéia de revirar um centro de reabilitação: os gritos do público não acabariam nunca.
Hora de desistir de Spade Weeks, decidiu ele, e m e livrar dessa. Não surpreende que eles nunca tenham m e m andado aqui antes; esses caras não são legais. E depois ele pensou: “Então, no que m e diz respeito, eu definitivam ente perdi m inha principal designação; Spade Weeks não existe m ais.”
Vou inform ar ao sr. E, disse ele a si m esm o, e esperar por outra tarefa. Para o inferno com isso! Ele se levantou rigidam ente e disse:
— Vou dar o fora. — Os dois hom ens tinham voltado, um deles com um a caneca de café, o outro com literatura, aparentem ente do tipo instrutiva.
— Está com m edo? — disse a m ulher, arrogante, com desdém . — Não tem coragem de se prender a um a decisão? De deixar a im oralidade? Vai rastej ar para fora daqui de barriga? — Os três olharam para ele com raiva.
— Depois — disse Arctor e andou até a porta para ir em bora.
— Porra de drogado — disse a m ulher atrás dele. — Não tem coragem , torrou o cérebro, não tem nada. Fuj a, pode fugir, a decisão é sua.
— Eu vou voltar — disse Arctor, exasperado. O am biente daqui o oprim ia e, agora que ele estava partindo, tinha se intensificado.
— É possível que a gente não queira você de volta, covarde — disse um dos hom ens.
— Vai ter de im plorar — disse o outro. — Pode ter de im plorar m uito. E m esm o aí é possível que a gente não queira você.
— Na verdade, não querem os você agora — disse a m ulher.
A porta, Arctor parou e se virou para encarar seus acusadores. Ele queria dizer algum a coisa, m as não conseguiu pensar em nada. Eles haviam esvaziado sua m ente.
Seu cérebro não funcionou. Nenhum pensam ento, nem reações, nenhum a resposta a eles, nem um a fraquinha ocorreu a Arctor.
Estranho, pensou ele, e ficou perplexo.
E saiu do prédio, indo em direção ao carro estacionado.
No que diz respeito a m im , pensou ele, Spade Weeks desapareceu para sem pre. Não vou voltar para um lugar desses.
Hora, decidiu ele nauseado, de pedir outra tarefa. De caçar outra pessoa.
Eles são m ais durões do que nós.