O Homem Duplo

Philip K. Dick · Capítulo 16 de 18

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O Homem Duplo

Capítulo 15

15

 

Bruce perguntou:

— Posso trabalhar com anim ais?

— Não — disse Mike —, acho que vou te colocar em um a de nossas fazendas. Por enquanto, quero tentar te colocar com plantas, por alguns m eses. No espaço aberto, onde você possa tocar a terra. Com todas essas sondas espaciais e foguetes, tem se tentado m uito chegar ao céu. Quero que você tente chegar...

— Eu quero ficar com algum a coisa viva.

Mike explicou:

— A terra está viva. A Terra ainda está viva. Você pode conseguir m uita aj uda lá. Tem algum a experiência em agricultura? Sem ente, cultivo e colheita?

— Eu trabalhei em escritório.

— Vai ficar ao ar livre a partir de agora. Se sua m ente voltar, terá de voltar naturalm ente. Você não pode se obrigar a pensar novam ente. Só pode continuar trabalhando, com o na sem eadura de safras ou cultivando nossas plantações de vegetais, com o as cham am os, ou m atando insetos. Fazem os m uito disso, elim inar a existência de insetos com o tipo certo de spray. Tom am os m uito cuidado, porém , com os spray s. Eles podem fazer m ais m al do que bem . Podem envenenar não só as safras e o solo, m as a pessoa que os usa. Devoram a sua cabeça. — Ele acrescentou: — Com o a sua foi devorada.

— Tudo bem — disse Bruce.

Você foi borrifado, pensou Mike enquanto olhava o hom em , de m odo que agora você se tom ou um inseto. Borrife um inseto com um a toxina e ele m orre; borrife seu cérebro e ele se torna um inseto que estala e vibra quase que em um ciclo eterno. Um a m áquina de reflexos, com o um a form iga. Repetindo sua últim a instrução.

Nada de novo entrará em seu cérebro, pensou Mike, porque esse cérebro se acabou.

E, com ele, a pessoa que um dia foi atenta. Que eu não conheci.

Mas talvez, se ele for colocado no lugar certo, na posição certa, ainda possa olhar para baixo e ver a terra. E reorganizar o que há nela. E colocar algum a coisa que estej a viva, algo diferente de si m esm o, nela. Para crescer.

Porque isso é o que ele não pode m ais fazer: essa criatura a m eu lado m orreu e não pode crescer novam ente. Só pode decair aos poucos até que o que reste tam bém estej a m orto. E depois o rem ovem os.

Há pouco futuro, pensou Mike, para alguém que está m orto. Há, em geral, só o passado. E, para Arctor-Fred-Bruce, não há sequer passado, há som ente isso.

Ao lado dele, enquanto dirigia o carro da equipe, a figura curvada se sacudia. Anim ada pelo carro.

Será, pensou ele, que foi a New-Path que fez isso com ele? Mandou um a substância pegá-lo desse j eito, para torná-lo assim de modo que eles um dia o recebessem?

Para construir, pensou ele, a civilização deles dentro do caos. Se “civilização” fosse realm ente isso.

Ele não sabia. Não estava na New-Path havia m uito tem po; os obj etivos deles, inform ara o diretor executivo certa vez, seriam revelados som ente depois que ele fosse m em bro da equipe por m ais dois anos.

Esses obj etivos, dissera o diretor executivo, nada tinham a ver com a reabilitação de drogas.

Ninguém , a não ser Donald, o diretor executivo, sabia de onde se originava o financiam ento para a New-Path. O dinheiro sem pre estava ali. Bom , pensou Mike, há m uito dinheiro na fabricação da Substância D. Em várias fazendas da área rural, em loj inhas, em várias instalações rotuladas de “escolas”. Pelo m enos o bastante para m anter a New-Path solvente e em crescim ento. E m ais: suficiente para um a variedade de obj etivos definidos.

Dependendo do que a New-Path pretendesse fazer.

Ele sabia de um a coisa — a Repressão a Drogas dos EUA sabia de um a coisa — que a m aior parte do público, até a polícia, não sabia.

A Substância D, com o a heroína, era orgânica. Não era produto de laboratório.

Então ele indicou m uita coisa quando pensou, com o freqüentem ente fazia, que todos aqueles lucros podiam m uito bem m anter a New-Path solvente — e em crescim ento.

Os vivos, pensou ele, nunca devem ser usados para servir aos propósitos dos m ortos. Mas os m ortos — ele olhou para Bruce, a form a vazia ao lado dele — devem , se possível, servir aos propósitos dos vivos.

Essa, raciocinou ele, é a lei da vida.

E os m ortos, se pudessem sentir, podiam se sentir m elhor fazendo isso.

Os m ortos, pensou Mike, que ainda podem ver, m esm o que não possam entender: eles são a nossa câm era.