O Homem Duplo

Philip K. Dick · Capítulo 12 de 18

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O Homem Duplo

Capítulo 11

11

 

Na m anhã seguinte, de táxi, j á que agora não era só o cefscópio que precisava de conserto, m as tam bém o carro, ele apareceu à porta do chaveiro Englesohn com 40 pratas em dinheiro e m uita preocupação em seu íntim o.

A loj a tinha um quê de m adeira antiga, com um a placa m ais m oderna, m as m uitos trecos de latão nas vitrines trancadas: caixas de correio ornam entadas, m açanetas feitas de form a a parecer cabeças hum anas, grandes chaves de ferro falso e preto. Ele entrou na sem i-escuridão. Com o a casa de um drogado, pensou ele, apreciando a ironia.

Num balcão onde assom avam duas enorm es copiadoras de chaves, além de centenas de m oldes de chaves penduradas em ganchos, um a idosa gorducha o recebeu.

— Sim , senhor? Bom -dia.

Arctor disse:

— Estou aqui...

Ihr Instrumente freilich spottet mein,

Mit Rad und Kämmen, Walz’ und Bügel:

Ich stand am Tor, ihr solltet Schlüssel sein;

Zwar euer Bart ist kraus, doch hebt ihr nicht die Riegel.

— ... para pagar por um cheque m eu que voltou do banco. De vinte dólares, acho.

— Ah! — A senhora ergueu afavelm ente um arquivo de m etal, procurou pela chave para abri-lo, depois descobriu que o arquivo não estava trancado. Ela o abriu e encontrou o cheque im ediatam ente, com um bilhete. — Sr. Arctor?

— Sim — disse ele, j á com o dinheiro na m ão.

— Sim , vinte dólares. — Soltando o bilhete do cheque, ela com eçou laboriosam ente a escrever no papel, indicando que ele tinha aparecido e pago pelo cheque.

— Desculpe por isso — disse ele a ela —, m as preenchi um cheque por engano, de um a conta encerrada, em vez de m inha conta ativa.

— Sei... — disse a m ulher, sorrindo enquanto escrevia.

— Além disso — disse ele —, eu agradeceria se a senhora dissesse a seu m arido, que m e ligou outro dia...

— Meu irm ão, Carl — disse a m ulher —, na verdade. — Ela olhou sobre o om bro. — Se Carl disse ao senhor... — Ela gesticulou, sorrindo. — Às vezes ele fica m uito nervoso com os cheques... Me desculpe se ele falou... o senhor sabe.

— Diga a ele — disse Arctor, o discurso m em orizado — que quando telefonou eu estava perturbado e peço desculpas por isso tam bém .

— Acho que ele disse algum a coisa sobre isso sim . — Ela estendeu o cheque, ele lhe deu os vinte dólares.

— Algum a taxa? — disse Arctor.

— Não, nenhum a.

— Eu estava perturbado — disse ele, olhando brevem ente para o cheque e depois colocando-o no bolso — porque um am igo m eu tinha acabado de m orrer, de repente.

— Ah, lam ento — disse a m ulher.

Arctor, dem orando-se ali, disse:

— Ele m orreu sufocado, sozinho, no quarto dele, com um pedaço de carne. Ninguém o ouviu.

— O senhor sabia, sr. Arctor, que acontecem m ais m ortes do que as pessoas percebem ? Eu li que, quando o senhor estiver j antando com um am igo e ele não falar por um tem po e só ficar sentado ali, o senhor deve se aproxim ar dele e perguntar se ele consegue falar. Porque ele pode não conseguir, ele pode estar entalado, sem conseguir dizer ao senhor.

— Sim — disse Arctor. — Obrigado. É verdade. E obrigado pelo cheque.

— Mais um a vez, lam ento pelo seu am igo — disse a senhora.

— Sim — disse ele. — Ele era o m elhor am igo que eu tinha.

— Isso é terrível! — disse a m ulher. — Quantos anos ele tinha, sr. Arctor?

— Trinta e poucos — disse Arctor, o que era verdade: Luckm an tinha 32.

— Ah, que coisa horrível! Vou contar a Cari. E obrigada por ter o trabalho de vir até aqui.

— Eu é que agradeço — disse Arctor. — E agradeça ao sr. Englesohn tam bém por m im . Muito obrigado aos dois. — Ele partiu, vendo-se de volta à calçada no calor da m anhã, pestanej ando com a luz forte e o ar poluído.

Ele pediu um táxi por telefone e, na viagem de volta a casa, certificou-se de com o tinha se saído bem da arm adilha de Barris sem fazer nenhum a cena. Podia ter sido m uito pior, assinalou ele a si m esm o. O cheque ainda estava lá. E eu não tive de enfrentar o cara.

Ele pegou o cheque para ver o quanto Barris fora capaz de se aproxim ar de sua letra. Sim , era um a conta encerrada, ele reconheceu a cor do cheque de im ediato, um a conta inteiram ente encerrada, e o banco tinha carim bado CONTA ENCERRADA. Não surpreende que o chaveiro tenha ficado louco da vida. E depois, analisando o cheque enquanto prosseguia no táxi, Arctor viu que a letra era dele.

Não era nada parecida com a de Barris. Um a fraude perfeita. Ele nunca saberia que não era dele, só que, pelo que se lem brava, ele não o havia preenchido.

Meu Deus, pensou ele, quantos destes Barris fez a esta altura? Talvez ele tenha m e desfalcado de m etade do que eu tenho.

Barris, pensou ele, é um gênio. Por outro lado, provavelm ente é um a reprodução por decalque ou algo feito m ecanicam ente. Mas eu nunca fiz um cheque para o chaveiro Englesohn; então, com o a fraude pôde ser decalcada?

Este cheque é único. Vou levar ao departam ento de grafologia, decidiu ele, e deixar que eles deduzam com o foi feito. Talvez só com prática, m uita prática.

Com o no papo furado do cogum elo, ele pensou, vou procurá-lo e dizer que as pessoas m e contaram que ele andou tentando vender doses de cogum elo para elas. E encerrar o assunto. Eu tive inform ações de alguém preocupado, com o deve estar m esm o.

Mas, pensou ele, estes itens são só indicações aleatórias do que ele está aprontando, descobertos na prim eira reprise. Eles só representam am ostras do que vou ter de com bater. Só Deus sabe o que m ais ele fez; ele teve todo o tem po do m undo para andar por aí, ler livros de referência e im aginar tram óias, intrigas, conspirações e assim por diante... Talvez, pensou ele abruptam ente, sej a m elhor eu dar um a olhada no m eu telefone agora m esm o, para ver se está gram peado. Barris tem um a caixa de equipam entos eletrônicos, e até a Sony, por exem plo, fabrica e vende um a bobina de indução que pode ser usada com o dispositivo para gram po telefônico. O telefone deve estar gram peado. Provavelm ente j á há algum tem po.

Quer dizer, pensou ele, além de m eu próprio gram po recente — e necessário.

Novam ente ele analisou o cheque enquanto o táxi se sacudia e, de repente, pensou: “E se eu fiz isso com igo m esm o? E se Arctor escreveu isso? Acho que eu fiz”, pensou ele, “acho que o próprio filho-da-puta lascado do Arctor preencheu este cheque, m uito rápido — as letras estavam inclinadas —, porque, por algum m otivo, ele estava com pressa; ele preencheu às pressas, pegou o talão errado e depois se esqueceu totalm ente disso, esqueceu-se de todo o incidente.”

Esqueceu-se, pensou ele, da vez em que Arctor...

Was grinsest du mir, hohler Schädel, her?

Als dass dein Hirn, wie meines, einst verwirret

Den leichten Tag gesucht und in der Dämmrung schwer,

Mit Lust nach Wahrheit, jämmerlich geirret.

... saiu daquela enorm e festa de doidão em Santa Ana, onde ele conhecera aquela lourinha de dentes tortos, cabelo louro com prido e um a bunda grande, m as tão cheia de energia e tão sim pática... Ele não conseguiu dar a partida no carro; Arctor estava totalm ente chapado. Ele continuou tendo problem as — tinha tom ado m uita droga e pico naquela noite, quase até o am anhecer. E tam bém m uita Substância D e de prim eira. De prim eiríssim a. Material dele.

Curvando-se para a frente, ele disse:

— Pare no posto Shell. Vou ficar ali.

Ele saiu, pagou ao taxista, depois entrou na cabine telefônica, procurou pelo núm ero do chaveiro e ligou para ele.

A senhora atendeu.

— Chaveiro Englesohn, bom ...

— É o sr. Arctor novam ente. Desculpe-m e por incom odá-la. Qual foi o endereço da cham ada, para o serviço feito em troca do m eu cheque?

— Bem , vam os ver. Um m inutinho, sr. Arctor. — Um a pancada no telefone enquanto ela o baixava.

Um a voz de hom em , distante e abafada: — Quem é? Aquele tal de Arctor?

— Sim , Carl, m as não diga nada, por favor. Ele acabou de vir aqui...

— Me deixa falar com ele.

Pausa. Depois a velha novam ente.

— Bem , eu tenho este endereço, sr. Arctor. — Ela leu o endereço da casa dele.

— Foi para lá que cham aram o seu irm ão? Para fazer um a chave?

— Espere um m inuto. Cari? Você se lem bra aonde foi na picape para fazer a chave do sr. Arctor?

Um m urm úrio distante de hom em : “Em Katella.”

“Não foi à casa dele?”

“Em Katella!”

— Em algum lugar em Katella, sr. Arctor. Em Anaheim . Não, espere... Carl disse que foi em Santa Ana, em Main. Que...

— Obrigado — disse ele e desligou. Santa Ana. Main. Foi onde aconteceu a porra da festa de drogas e eu devo ter inform ado uns trinta nom es e placas de carros naquela noite; aquela não foi um a festa com um . Um grande carregam ento tinha chegado do México, os com pradores estavam fazendo a partilha e, com o sem pre acontece com os com pradores, provavam o que dividiam . Metade deles agora deve ter sido presa por agentes de com pra m andados... Caram ba, pensou ele, eu ainda m e lem bro — ou nunca vou m e lem brar corretam ente — daquela noite.

Mas isso ainda não era desculpa para Barris fingir ser Arctor m aldosam ente naquele telefonem a. A não ser que, pelos indícios, Barris tenha inventado tudo certinho — im provisado. Que m erda, talvez Barris estivesse chapado na outra noite e fez o que faz um m onte de gente quando está chapada: divertindo-se com o que está acontecendo. Arctor preencheu o cheque, sem dúvida nenhum a; Barris, por acaso, só pegou o telefone. Mas, em sua cabeça ferrada, foi só um a brincadeira. Estava apenas sendo irresponsável, m ais nada.

E, refletiu ele enquanto cham ava novam ente o táxi, Arctor não tinha sido m uito responsável ao pagar este cheque depois de um longo período. De quem era a culpa? Pegando-o m ais um a vez, ele exam inou a data do cheque. Um m ês e m eio. Meu Deus... e vem falar de irresponsabilidade! Arctor podia se anim ar por causa disso; graças a Deus o biruta do Carl não foi ao escritório do prom otor. Provavelm ente a doce irm ã o im pediu.

Arctor, concluiu ele, é m elhor com eçar a agir; ele m esm o fez um as coisas estranhas que só foi saber agora. Barris não é o único ou talvez nem sej a o prim eiro. Um a coisa é certa: ainda é preciso explicar a causa da m aldade intensa e concentrada de Barris com relação a Arctor; um hom em não perde tanto tem po para ferrar outro sem m otivo nenhum . E Barris não está tentando ferrar m ais ninguém , não, digam os, Luckm an ou Charles Freck, ou Donna Hawthorne; ele aj udou a colocar Jerry Fabin na clínica federal m ais do que qualquer outra pessoa e ele gosta de todos os anim ais da casa.

Um a vez, Arctor ia m andar um a cadela — qual era m esm o o nom e da pretinha, Popo ou coisa assim ? — para o abrigo, a fim de ser sacrificada, ela não podia ser adestrada, e Barris passou horas, na verdade dias, com Popo, treinando-a delicadam ente e falando com ela até que ela se acalm ou, pôde ser adestrada e assim não teve de ser m orta. Se Barris tinha m aldade generalizada com relação a tudo, ele não daria exem plos, bons exem plos com o esse.

— Táxi — disse ao telefone.

Ele deu o endereço do posto da Shell.

E se Carl, o chaveiro, reconheceu Arctor com o um usuário pesado de drogas, ponderou ele enquanto esperava m alhum orado pelo táxi, não foi culpa de Barris; quando Carl chegou de picape às cinco da m anhã para fazer um a chave para o Olds de Arctor, Arctor provavelm ente estava andando torto, subindo pelas paredes e piscando os olhos de peixe e todas as outras coisas de um a bela trip de drogas. Carl tirou as conclusões dele aí. Enquanto Carl fazia a chave nova, Arctor deve ter ficado plantando bananeira ou batendo a cabeça, dizendo coisas sem sentido. Não surpreende que Carl não tenha achado graça.

Na verdade, especulou ele, talvez Barris estivesse tentando dar cobertura para as m erdas cada vez m aiores de Arctor. Arctor não m antinha m ais seu carro em condições seguras, com o fazia antigam ente; estava indolente, não de propósito, m as porque a porcaria do cérebro dele está podre pelas drogas. Mas, se é assim , então é pior ainda. Barris está fazendo o que pode, essa é um a possibilidade. Só que o cérebro dele tam bém está podre. O cérebro de todos eles está...

Dem Wurm e gleich’ ich, der den Staub durchwühlt,

Den, wie er sich im Staube nährend lebt,

Des Wandrers Tritt vernichtet and begräbt.

... podre e eles interagiam de form a podre. É podre levando a podre. E direto para a perdição.

Talvez, conj ecturou ele, Arctor tenha cortado e dobrado os fios e provocado todos os curtos no cefscópio. No m eio da noite. Mas por que m otivo?

Esta era difícil: por quê? Mas com cérebros podres, tudo era possível, qualquer variedade de m otivos distorcidos — com o os próprios fios. Ele tinha visto isso, durante seu trabalho com o policial disfarçado, m uitas, m uitas vezes. Essa tragédia não era nova para ele; seria, em seus arquivos de com putador, só m ais um caso. Essa era um a fase anterior à viagem para um a clínica federal, com o aconteceu com Jerry Fabin.

Todos aqueles caras andavam em um tabuleiro de j ogo, parados agora em diferentes quadrados a distâncias variadas da m eta e a atingiriam em diferentes tem pos. Mas um dia todos chegariam lá, às clínicas federais.

Estava inscrito em seu tecido nervoso. Ou no que restava dele. Nada podia deter ou reverter isso agora.

E, ele com eçou a acreditar, principalm ente para Bob Arctor. Era intuição dele, só um com eço, sem depender de nada do que Barris fizesse. Um insight novo e profissional.

E, além disso, seus superiores no Departam ento de Polícia do Condado de Orange tinham decidido se concentrar em Bob Arctor; eles sem dúvida tinham m otivos que ele desconhecia. Talvez esses fatos confirm assem outro: o crescente interesse deles em Arctor — afinal, custou um a grana preta ao departam ento instalar os holo-scanners na casa de Arctor e pagar a ele para analisar os im pressos, bem com o a outros acim a dele para avaliar o que ele fornecia periodicam ente —, isso com binava com a atenção incom um de Barris com relação a Arctor, am bos escolherem Arctor com o principal alvo. Mas o que ele tinha visto na conduta de Arctor que parecesse incom um ? Em prim eira m ão, sem depender daquelas duas partes interessadas?

Enquanto o táxi prosseguia, ele refletiu que teria de observar por algum tem po para entender algum a coisa, m ais provavelm ente; ele grudaria nos m onitores um dia inteiro. Ele precisaria ser paciente, precisaria se resignar a um a análise longa e a se colocar em um espaço onde estivesse disposto a esperar.

Mas depois de que visse algo nos holo-scanners, um com portam ento enigm ático ou suspeito por parte de Arctor, passaria a existir um dilem a triplo para ele, um a terceira verificação dos interesses dos outros. Certam ente seria um a confirm ação. Justificaria as despesas e o tem po de todos.

Eu m e pergunto o que Barris sabe que nós não sabem os, pensou ele. Talvez devêssem os detê-lo e perguntar. Mas — é m elhor obter m aterial desenvolvido de form a independente de Barris, caso contrário seria um a reprodução do que tinha Barris, quem quer que ele fosse ou representasse.

E depois ele pensou: “De que diabos eu estou falando? Eu devo estar m aluco. Eu conheço Bob Arctor, ele é um a boa pessoa. Ele não está aprontando nada. Pelo m enos nada de ofensivo. Na realidade, pensou ele, ele trabalha para o Departam ento de Polícia do Condado de Orange, sob disfarce. E deve ser por isso...”

Zwei Seelen wohnen, ach! in meiner Brust,

Die eine will sich von der andem trennen:

Die eine hält, in derber Liebeslust,

Sich an die Welt mit klammernden Organen;

Die andre hebt gewaltsan sich vom Dust

Zu den Gefilden hoher Ahnen.

“... que Barris o está perseguindo.”

Mas, pensou ele, isso não explicaria por que o Departam ento de Polícia do Condado de Orange o estava perseguindo — em especial a ponto de instalar todos aqueles holos e designar um agente em tem po integral para vigiar e fornecer relatórios sobre ele. Isso não é explicação.

Não faz sentido, pensou ele. Mais, m uito m ais deve estar rolando naquela casa, aquela casa em ruínas cheia de entulho, com o quintal cheio de m ato, a caixa de areia do gato que nunca é lim pa e anim ais andando pela m esa da cozinha e lixo cuspindo pela lata que ninguém recolhe.

Que desperdício, pensou ele, de um a casa realm ente boa. Tanta coisa podia ser feita com ela. Um a fam ília, filhos e um a m ulher podiam m orar ali. Foi proj etada para isso: três quartos. Que desperdício, que porra de desperdício! Deviam tom á-la dele, pensou Arctor, entrar na situação e im pedir. Talvez eles façam isso. E dêem m elhor uso a ela, aquela casa anseia por isso. Aquela casa viu dias m uito m elhores há m uito tem po. Esses dias podem voltar. Se outro tipo de pessoa a tiver e a conservar.

Especialm ente o quintal, pensou ele, enquanto o táxi encostava na entrada cheia de j ornais espalhados.

Ele pagou ao m otorista, pegou a chave da porta e entrou na casa.

Im ediatam ente sentiu algo o observando; os holo-scanners nele. Assim que passou pela soleira da porta. Sozinho — não havia ninguém na casa a não ser ele. Mentira! Ele e os scanners, insidiosos e invisíveis, que o observavam e registravam . Tudo o que ele fazia. Tudo o que ele exprim ia.

Com o os garranchos na parede quando você urinava em um m ictório público, pensou ele. SORRIA! VOCÊ

ESTÁ SENDO FILMADO! Eu estou, pensou ele, assim que entro nesta casa. E sinistro. Ele não gostava disso. Sentia- se constrangido, a sensação vinha aum entando desde o prim eiro dia, quando eles chegaram em casa — o “dia da m erda de cachorro”, com o ele o considerava, não conseguia deixar de pensar nele. A cada dia a experiência dos scanners aum entava.

— Parece que não tem ninguém em casa — declarou ele em voz alta, com o sem pre, e estava ciente de que os scanners tinham pegado isso. Mas ele tinha de ter cuidado o tem po todo, não devia saber que eles estavam ali. Com o um ator diante de um a câm era de cinem a, concluiu ele, você age com o se a câm era não existisse ou acaba ferrando tudo. Tudo se acaba.

E para essa m erda não vai haver m ais de um a tom ada.

O que você consegue, em vez disso, é apagar, quer dizer, o que eu consigo. Não as pessoas por trás dos scanners, m as eu.

O que eu devia fazer, pensou ele, para sair dessa, é vender a casa, é acabar com tudo. Mas... eu adoro esta casa. De j eito nenhum !

É a m inha casa.

Ninguém pode m e expulsar daqui.

Por quaisquer m otivos que tenham para fazer isso.

Pressupondo-se que “eles” realm ente existam .

O que pode ser só m inha im aginação, o “eles” m e observando. Paranóia. Ou m elhor, a “coisa”. A coisa despersonalizada.

O que quer que o estivesse observando, não era hum ano.

Não por m eus padrões, de qualquer form a. Nada que eu reconheça.

Em bora isso sej a um a tolice, pensou ele, é assustador. Algo está sendo feito com igo e por um a sim ples coisa, aqui, na m inha própria casa. Diante de m eus olhos.

Nos olhos de alguma coisa; na visão de um a coisa. O que, ao contrário dos olhinhos escuros de Donna, nem m esm o pisca. O que um scanner vê?, perguntou-se ele. Quer dizer, ele realm ente vê? Na cabeça? No coração? Será que um scanner de infraverm elho passivo, com o costum avam usar, ou um holo-scanner do tipo cubo, com o os que usam hoj e em dia, o m ais recente, m e vê — vê a nós — com clareza ou obscuram ente? Eu espero que ele vej a com clareza, pensou ele, porque ultim am ente não consigo m ais ver a m im m esm o. Só vej o m inhas trevas. Trevas por fora, trevas por dentro. Espero, para o bem de todos, que os scanners façam m elhor do que isso. Porque, pensou ele, se o scanner só vê obscuram ente, com o eu m e vej o, então estam os am aldiçoados, am aldiçoados de novo, com o tem os sido continuam ente, e vam os m orrer desse j eito, sabendo m uito pouco e entendendo tam bém esse pedacinho da form a errada.

Da estante da sala de estar, ele tirou um volum e ao acaso; acabou sendo, com o descobriu, O livro ilustrado do amor sexual. Abrindo ao acaso, ele viu um a página — que m ostrava um hom em m ordiscando satisfeito o peito direito de um a m ulher, e a m ulher suspirava — e disse em voz alta, com o se lesse para si m esm o do livro, com o se citasse um filósofo fam oso de antigam ente, o que ele não era:

— Qualquer hom em só vê um a parte m ínim a da verdade total e, com m uita freqüência, na realidade quase...

Weh! steck’ ich dem Kerker noch?

Verfluchtes dumpfes Mauerloch,

Wo selbst das liebe Himmelslicht

Trüb durch gemalte Scheiben bricht!

Beschränkt mit diesem Bücherhauf,

Den Würme nagen, Staub bedeckt,

Den bis ans hohe.

— ... eternam ente, ele deliberadam ente se ilude tam bém com este pequeno fragm ento precioso. Um a parte dele se volta contra ele e age com o outra pessoa, derrotando-o a partir de dentro. Um hom em dentro de um hom em . O que não é hom em nenhum .

Assentindo, com o se m ovido pela sabedoria das inexistentes palavras escritas nessa página, ele fechou o livro grande de capa verm elha e estam pa em ouro, O livro ilustrado do amor sexual, e o recolocou na prateleira. Espero que os scanners tenham dado um zoom na capa desse livro, pensou ele, e tenham estragado m eu disfarce.

 

Charles Freck, cada vez m ais deprim ido com o que estava acontecendo com todo m undo que ele conhecia, decidiu finalm ente dar um fim à própria vida. Não havia problem a, nos círculos que ele freqüentava, em se m atar, você só com prava um a grande quantidade de verm elhas e as tom ava com um vinho barato, de m adrugada, com o telefone fora do gancho para ninguém interrom pê-lo.

A parte do planej am ento tinha de ser feita com os artefatos que você quisesse que os arqueólogos encontrassem com você m ais tarde. Assim eles iam saber de que estrato você veio. E tam bém podiam reconstituir sua cabeça com o tinha sido na época em que você viveu.

Ele passou vários dias decidindo sobre os artefatos. Muito m ais tem po do que tinha gasto decidindo se m atar e aproxim adam ente o m esm o tem po necessário para conseguir tantas verm elhas de secobarbital. Ele seria encontrado deitado de costas, em sua cam a, com um exem plar de A nascente, de Ay n Rand (o que provaria que ele fora um super-hom em incom preendido, rej eitado pelas m assas, e assim , de certa form a, fora assassinado pelo desprezo delas), e um a carta inacabada para a Exxon, protestando contra o cancelam ento de seu cartão de crédito de com bustível. Assim , ele culparia o sistem a e conseguiria algum a coisa com sua m orte, além do que a própria m orte conseguia.

Na verdade, ele não tinha tanta certeza de que a m orte conseguiria o que seria conseguido pelos dois artefatos, m as de qualquer m odo tudo se encaixava e ele com eçou a se preparar, com o um anim al sentindo que sua hora chegara, agindo de acordo com a program ação de seu instinto, derrubado pela natureza, quando seu fim inevitável estava próxim o.

 

No últim o m inuto (o prazo se encerrava) ele m udou de idéia sobre um a questão categórica e decidiu tom ar as verm elhas com um vinho sofisticado, em vez de Ripple ou Thunderbird; assim , foi com o carro pela últim a vez até o Trader Joe’s, que era especializado em vinhos finos, e com prou um a garrafa de Mondavi Cabernet Sauvignon 1971, que lhe custou quase trinta dólares — tudo o que ele tinha.

Em casa de novo, ele abriu o vinho, deixou que ele respirasse, tom ou algum as taças, passou alguns m inutos contem plando a página preferida de O livro ilustrado do amor sexual, que m ostrava a garota por cim a, depois colocou o saco plástico com as verm elhas ao lado da cam a, deitou-se com o livro de Ay n Rand e a carta de protesto inacabada para a Exxon, tentou pensar em um a coisa significativa, m as não conseguiu, em bora continuasse se lem brando da garota por cim a, e depois, com um a taça do Cabernet Sauvignon, engoliu todas as verm elhas de um a vez. Depois disso, feita a proeza, ele se deitou de costas, o livro de Ay n Rand e a carta em seu peito, e esperou.

Mas ele acabou se ferrando. As cápsulas não eram de barbitúricos, com o deviam . Eram um tipo de psicodélico vagabundo, de um a espécie que ele nunca tinha tom ado na vida, provavelm ente um a m istura e nova no m ercado. Em vez de sufocar tranqüilam ente, Charles Freck com eçou a ter alucinações. Bem , pensou ele filosoficam ente, essa é a história de m inha vida. Sem pre sendo roubado.

Ele teve de encarar o fato — considerando-se quantas cápsulas tinha tom ado — de que estava entrando num a viagem .

A próxim a coisa que ele percebeu foi um a criatura interdim ensional parada ao lado de sua cam a, olhando para ele de cim a, com desaprovação.

A criatura tinha m uitos olhos, em todo o corpo, roupas ultram odernas que pareciam caras e m ais de dois m etros e m eio de altura. Além disso, portava um rolo enorm e de pergam inho.

— Você vai ler m eus pecados para m im — disse Charles Freck.

A criatura assentiu e abriu o rolo.

Freck disse, deitado im potente na cam a:

— E vai levar um as 100 m il horas.

Fixando seus m uitos olhos com postos nele, a criatura interdim ensional disse:

— Não estam os m ais no universo m undano. Categorias do plano inferior de existência m aterial, com o “espaço” e “tem po”, não são m ais válidas para você. Você se elevou ao reino do transcendente. Seus pecados serão lidos para você incessantem ente, em turnos, por toda a eternidade. A lista nunca term inará.

Conheça seu traficante, pensou Charles Freck, e ele quis poder voltar para a últim a m eia hora de sua vida.

Mil anos depois, ele ainda estava deitado na cam a com o livro de Ay n Rand e a carta para a Exxon no peito, ouvindo-os lerem seus pecados para ele. Tinham chegado à prim eira série, quando ele tinha seis anos de idade.

Dez m il anos depois, eles chegaram à sexta série.

No ano em que ele descobriu a m asturbação.

Ele fechou os olhos, m as ainda podia ver o ser de m últiplos olhos e dois m etros e m eio de altura com o rolo interm inável, lendo sem parar.

— E a seguir... — estava dizendo a criatura.

Charles Freck pensou: “Pelo m enos tom ei um bom vinho.”