O Homem Duplo

Philip K. Dick · Capítulo 15 de 18

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O Homem Duplo

Capítulo 14

14

 

Recorte de revista preso com tachas na parede da sala de estar na Sam arkand House, o prédio residencial da New-Path em Santa Ana, Califórnia:

“Quando o paciente senil acordar pela m anhã e perguntar pela m ãe, lem bre a ele que

ela m orreu há m uito tem po, que ele tem m ais de oitenta anos, m ora em um asilo e que estam os em 1992, e não em 1913, e que ele deve enfrentar a realidade e o fato de que...”

Um interno tinha rasgado o resto do recorte; term inava ali. Evidentem ente tinha sido retirado de um a revista para profissionais de enferm agem ; era um papel acetinado.

— A prim eira coisa que você vai fazer aqui — disse-lhe George, o m em bro da equipe, levando-o pelo corredor — são os banheiros. O piso, a pia, especialm ente a privada. São três banheiros nesta estrutura, um em cada andar.

— Tudo bem — disse ele.

— Aqui está um esfregão. E um balde. Acha que sabe com o fazer isso? Lim par um banheiro? Com ece e vam os observar você e lhe dar as dicas.

Ele levou o balde para a banheira ao fundo, colocou sabão nele e depois abriu a água quente. Só o que ele podia ver era a espum a da água diretam ente diante de si, a espum a e o rugido.

Mas ele podia ouvir a voz de George, fora de vista.

— Não encha dem ais, porque não vai conseguir levantar o balde.

— Tudo bem .

— Você tem um problem inha para saber onde está — disse George depois de um tem po.

— Estou na New-Path. — Ele baixou o balde no chão e o balde salpicou água; ele ficou parado, olhando para baixo.

— New-Path onde?

— Em Santa Ana.

George ergueu o balde para ele, m ostrando-lhe com o pegar a alça de aram e e balançando-o enquanto ele andava.

— Mais tarde acho que vam os transferir você para a ilha ou para um a das fazendas. Prim eiro, você tem de passar pela lavagem da louça.

— Posso fazer isso — disse ele. — Lavar a louça.

— Você gosta de anim ais?

— Claro.

— Ou de agricultura?

— Anim ais.

— Verem os. Vam os esperar até te conhecer m elhor. De qualquer m odo, levará algum tem po; todo m undo fica lavando a louça por um m ês. Todo m undo que entra pela porta.

— Eu m eio que gostaria de m orar no cam po — disse ele.

— Mantem os vários tipos de instalações. Vam os decidir o que é m ais adequado. Sabe de um a coisa, você pode fum ar aqui, m as não estim ulam os isso. Aqui não é a Sy nanon; lá eles não te deixam fum ar.

Ele disse:

— Eu não tenho m ais cigarro.

— Dam os a cada interno um m aço por dia.

— Dinheiro? — Ele não tinha.

— Sem custos. Nunca tem custo. Você paga por seu custo. — George pegou o esfregão, enfiou-o no balde, m ostrou a ele com o esfregar.

— Com o é que não tenho dinheiro algum ?

— Pelo m esm o m otivo que não tem carteira nem sobrenom e. Será devolvido a você, tudo será devolvido. É o que todos querem os fazer: te devolver o que foi tirado de você.

Ele disse:

— Esses sapatos não cabem em m im .

— Dependem os de doações, m as só novas, de loj as. Mais tarde talvez a gente possa tirar suas m edidas. Experim entou todos os sapatos da caixa de papelão?

— Sim — disse ele.

— Tudo bem , este é o banheiro daqui do porão, faça este prim eiro. Depois, quando tiver acabado e realm ente bem -feito, realm ente perfeito, suba... leve o esfregão e o balde... e vou te m ostrar o banheiro lá de cim a e, depois disso, o banheiro do terceiro andar. Mas você tem de pedir perm issão para subir daqui para o terceiro andar, porque é lá que m oram as m ulheres, então prim eiro peça a alguém da equipe, nunca suba lá sem perm issão. — Ele lhe deu um tapinha nas costas. — Tudo bem , Bruce? Entendeu?

— Tudo bem — disse Bruce, esfregando.

George disse:

— Vai fazer esse tipo de trabalho, lim par estes banheiros, até que possa fazer um bom trabalho. Não im porta o que um a pessoa faz, é o que ela consegue, para que possa fazer direito e se orgulhar disso.

— Vou voltar a ser com o eu era antes? — perguntou Bruce.

— Foi o que você era que te trouxe aqui. Se você se tornar o que era novam ente, m ais cedo ou m ais tarde vai vir para cá de novo. E possível que da próxim a vez nem consiga vir para cá. Não é assim ? Você tem sorte por estar aqui, quase não conseguiu vir.

— Um a pessoa m e trouxe para cá.

— Você tem sorte. Da próxim a vez, podem não trazer. Podem te largar no acostam ento da via expressa em algum lugar e m andar tudo para o inferno.

Ele continuou esfregando.

— A m elhor m aneira é fazer prim eiro as pias, depois a banheira, depois as privadas e, por últim o, o chão.

— Tudo bem — disse ele e guardou o esfregão.

—Tem um j eitinho de fazer isso. Você vai acabar sabendo.

Concentrando-se, ele viu diante de si rachaduras no esm alte da pia; passou desinfetante nas rachaduras e abriu a água quente. O vapor subiu e ele ficou parado nele, im óvel, enquanto o vapor aum entava. Ele gostou do cheiro.

 

Depois do alm oço, ele se sentou na sala, tom ando café. Ninguém falou com ele, porque entendiam que estava passando pela crise de abstinência. Sentado, bebendo de sua caneca, ele podia ouvir a conversa dos outros. Todos se conheciam .

— Se você pudesse ver de dentro de um m orto que ainda pudesse ver, m as não pudesse controlar os m úsculos dos olhos, então você não ia poder focalizar. Não ia poder virar a cabeça nem os globos oculares. Só o que podia fazer era esperar até que um obj eto passasse por você. Você ficaria congelado. Só esperando. Seria um a cena terrível.

Ele olhou para o vapor do café, só isso. O vapor subia, ele gostava do cheiro.

— Oi!

Certa m ão o tocou. De um a m ulher.

— Oi!

Ele olhou um pouco de lado.

— Com o está?

— Tudo bem — disse ele.

— Sente-se m elhor?

— Eu estou bem — disse ele.

Ele via seu café e o vapor e não olhou para ela, nem para nenhum deles; ele olhava para baixo, sem parar, para o café. Ele gostava do calor e do cheiro.

— Você ia poder ver alguém quando passasse bem na sua frente e só nessa hora. Ou para o lado para que você estivesse olhando e não para outro. Se um a folha ou coisa assim flutuasse em cim a de seu olho, seria só isso, para sem pre. Só um a folha. Mais nada, você não ia poder se virar.

— Tudo bem — disse ele, segurando o café, a caneca nas duas m ãos.

— Im agine perceber as coisas, m as não estar vivo. Ver e até saber, m as não estar vivo. Só olhar. Reconhecer, m as não estar vivo. Um a pessoa pode m orrer e ainda continuar. As vezes, o que olha para você, dos olhos de um a pessoa, talvez tenha m orrido na infância. O que está m orto ali ainda olha. Não é só o corpo olhando para você sem nada dentro dele; ainda existe algum a coisa ali, m as m orreu e só fica olhando e olhando, não pode parar de olhar.

Outra pessoa disse:

— E isso que significa m orrer, não ser capaz de parar de olhar para o que está na sua frente. Um a m aldita coisa colocada bem ali e você não pode fazer nada, com o escolher ou m udar algum a coisa. Você só pode aceitar o que puseram ali do j eito com o é.

— Você gostaria de olhar um a lata de cervej a por toda a eternidade? Podia não ser assim tão ruim . Não haveria nada a tem er.

 

Antes do j antar, que era servido na sala de j antar, eles tiveram a hora do Conceito. Vários Conceitos eram colocados no quadro-negro por diferentes funcionários e discutidos.

Ele se sentou com as m ãos cruzadas no colo, vendo o chão e ouvindo a grande cafeteira se aquecer; fazia wup- wup e o som o assustava.

— Viver e não viver as coisas são propriedades intercambiantes.

Sentados aqui e ali em cadeiras dobráveis, todos discutiram isso. Eles pareciam fam iliarizados com o Conceito. Evidentem ente havia partes do m odo de pensar da New- Path, talvez até m em orizada e depois repensada insistentem ente. Wup-wup.

— O impulso para não viver as coisas é mais forte do que o de viver as coisas.

Eles discutiram sobre isso. Wup-wup. O barulho da cafeteira ficou cada vez m ais alto e o assustou m ais; ele, porém , não se m exeu nem olhou, ficou sentado onde estava, ouvindo. Era difícil ouvir o que estavam dizendo, por causa da cafeteira.

— Estam os incorporando dem ais um im pulso para não viver dentro de nós. E o intercâm bio... Alguém pode dar um a olhada na m aldita cafeteira para ver por que está fazendo isso?

Houve um a interrupção enquanto alguém exam inava a cafeteira. Ele ficou sentado olhando para baixo, esperando.

— Vou escrever isto novam ente. Estamos trocando uma vida passiva demais pela realidade que está fora de nós.

— Não quer um café? — Um a voz atrás dele e alguém o tocou. — Ned? Bruce? Qual é o seu nom e m esm o? Bruce?

— Tudo bem . — Ele se levantou e os seguiu até a cafeteira. Ele esperou pela vez. Eles observaram enquanto ele colocava crem e e açúcar na caneca. Eles o observaram voltar à sua cadeira, a m esm a cadeira; ele se certificou de encontrá-la, para se sentar novam ente e continuar ouvindo. O café quente, seu vapor, fez com que ele se sentisse bem .

— Atividade não significa necessariamente vida. Os quasares são ativos. E um monge meditando não é inanimado.

Ele ficou sentado olhando a caneca vazia; era um a caneca de porcelana. Virando-a, ele descobriu um im presso no fundo e o esm alte rachado. A caneca parecia velha, m as tinha sido feita em Detroit.

— O movimento circular é a forma preferida do universo.

Outra voz disse:

— Tem po.

Ele sabia a resposta para isso. O tem po é redondo.

— Sim , vam os fazer um a pausa agora, m as alguém tem um últim o com entário a fazer?

— Bom , seguir a linha de m enor resistência, essa é a regra da sobrevivência. Seguir e não liderar.

Outra voz, m ais velha, disse:

— Sim , os seguidores sobrevivem ao líder. Com o aconteceu com Cristo. E não o contrário.

— É m elhor com erm os, porque Rick pára de servir exatam ente às cinco e cinqüenta.

— Vam os falar disso no Jogo, não agora.

Cadeiras rangeram , estalaram . Ele se levantou tam bém , levando a caneca velha para a bandej a das outras, e se j untou aos dem ais na fila. Ele podia sentir o cheiro de roupas velhas à sua volta, um cheiro bom , m as frio.

Parecia que estavam dizendo que a vida passiva era boa, pensou ele. Mas não havia essa história de vida passiva. É um a contradição.

Ele se perguntou o que era a vida, o que ela significava, talvez ele não entendesse.

 

Tinha chegado um m onte enorm e de ostentosas roupas doadas. Várias pessoas ficaram com braçadas e algum as tinham vestido cam isas, experim entando-as e obtendo aprovação.

— Ei, Mike. Você é um cara esperto.

No m eio da sala de estar, havia um hom em baixo e atarracado, de cabelo crespo e cara de pug; ele m exeu no cinto, carrancudo.

— Com o se lida com isto aqui? Não entendo com o se faz para usar. Por que não fica m ais frouxo? — Ele tinha um cinto de sete centím etros, sem fivela, com aros de m etal, e não sabia com o apertar os aros. Olhando em volta, com os olhos piscando, ele disse: — Acho que m e deram um que ninguém pode usar.

Bruce apareceu atrás dele, estendeu a m ão e fechou o cinto, passando-o pelos aros.

— Obrigado — disse Mike. Ele vasculhou várias cam isas sociais, os lábios franzidos. — Quando eu conseguir m e casar, vou usar um a dessas.

— Legal — disse ele.

Mike andou até duas m ulheres na outra ponta da sala; elas sorriram . Segurando um a cam isa florida vinho contra o peito, Mike disse:

— Vou à cidade.

— Tudo bem , vá e trate de j antar! — gritou o diretor da casa anim adam ente com sua voz poderosa. Ele piscou para Bruce. — Com o está se saindo, colega?

— Bem — disse Bruce.

— Parece que você pegou um a gripe.

— É — concordou ele —, foi de sair. Posso tom ar um Dristan ou...

— Nada de substâncias quím icas — disse o diretor da casa. — Nada. Trate de entrar e com er. Com o está seu apetite?

— Melhor — disse ele, seguindo. Eles sorriram para ele, das m esas.

 

Depois do j antar, ele se sentou no m eio da escada para o segundo andar. Ninguém falou com ele, estava acontecendo um a reunião. Ele ficou sentado ali até que tivesse term inado. Todos surgiram , enchendo o corredor.

Ele sentiu que o viam e talvez alguns tenham falado com ele. Ele ficou sentado na escada, curvado, os braços em volta do corpo, vendo e vendo. O carpete escuro diante de seus olhos.

Logo não havia m ais vozes.

— Bruce?

Ele não se m exeu.

— Bruce? — Certa m ão o tocou.

Ele não disse nada.

— Bruce, venha para a sala. Você devia estar em sua cam a, m as olha só, querem os conversar com você. — Mike o levou, acenando para que ele o seguisse. Ele acom panhou Mike pela escada e entrou na sala, que estava vazia. Quando estavam na sala, Mike fechou a porta.

Sentando-se em um a poltrona funda, Mike indicou-lhe para se sentar de frente para ele. Mike parecia cansado, seus olhos pequenos estavam anelados e ele esfregou a testa.

— Estou acordado desde as cinco e m eia da m anhã — disse Mike.

Um a batida; a porta com eçou a se abrir.

Muito alto, Mike gritou:

— Não quero que ninguém entre aqui, estam os conversando. Entendeu?

Murm úrios. A porta se fechou.

— Sabe de um a coisa, é m elhor você trocar de cam isa algum as vezes por dia — disse Mike. — Você está suando de form a m eio assustadora.

Ele assentiu.

— De que parte do estado você é?

Ele nada disse.

— Você vai m e procurar a partir de agora quando estiver se sentindo m al desse j eito. Eu passei pela m esm a coisa, há um ano e m eio. Eles costum avam m e levar nos carros deles. Mem bros da equipe. Você conheceu Eddie? O cara alto e m agro que hum ilha todo m undo? Ele m e levou por oito dias, andando por aí de carro. Nunca m e deixou sozinho. — Mike gritou de repente: — Quer sair daqui? Estam os conversando. Vá ver TV. — Sua voz dim inuiu e ele olhou para Bruce. — Às vezes, você tem de fazer isso. Nunca deixar alguém sozinho.

— Entendi — disse Bruce.

— Bruce, cuidado para não tirar a própria vida.

— Sim , senhor — disse Bruce, agora olhando-o.

— Não m e cham e de senhor!

Ele assentiu.

— Você estava na prisão, Bruce? Era isso? Você entrou nessas coisas na prisão?

— Não.

— Você se aplicava ou tom ava?

Ele não fez qualquer som .

— “Senhor” — disse Mike. — Eu cum pri, eu m esm o, dez anos na prisão. Um a vez vi oito caras em nossa fila de celas cortarem a garganta em um dia. A gente dorm ia com os pés na privada, nossas celas eram m uito pequenas. Isso é que é um a prisão, você dorm e com os pés na privada. Nunca esteve num a prisão, não é?

— Não — disse ele.

— Mas, por outro lado, vi prisioneiros de oitenta anos ainda felizes por estarem vivos e esperando continuar vivos. Eu m e lem bro de quando eu era drogado e tom ava pico; com ecei a m e aplicar quando era adolescente. Não fazia m ais nada. Eu m e aplicava e depois continuei por dez anos. Tom ei tanto pico... heroína e M j untas... que nunca fazia m ais nada, nunca via m ais nada. Agora estou fora dessa, saí da prisão e estou aqui. Sabe o que eu m ais percebi? Sabe qual é a grande diferença que eu percebi? Agora posso andar pela rua lá fora e ver algum a coisa. Posso ouvir a água quando vam os à floresta... Você vai ver nossas outras instalações m ais tarde, fazendas e assim por diante. Posso andar pela rua, a rua com um , e ver os cachorrinhos e os gatos. Eu nunca havia visto. Só o que eu via era a droga. — Ele olhou o relógio de pulso. — Então — acrescentou ele — entendo com o você se sente.

— É difícil — disse Bruce — largar.

— Todo m undo aqui largou. É claro que alguns voltam . Se você sair daqui, vai voltar. Você sabe disso.

Ele assentiu.

— Ninguém aqui teve um a vida fácil. Não estou dizendo que a sua vida tem sido fácil. Eddie diria isso. Ele ia te dizer que seus problem as são fichinha. Os problem as de ninguém são fichinha. Sei com o você se sente m al, m as eu j á m e senti assim . Agora m e sinto m uito m elhor. Quem é seu colega de quarto?

— John.

— Ah, sim . John. Então você deve dorm ir no porão.

— Eu gosto de lá — disse ele.

— É, lá é quentinho. Você deve sentir m uito frio. Mais do que nós, e eu lem bro que sentia; eu trem ia o tem po todo e borrava m inhas calças. Bom , vou te contar, você não vai ter de passar por isso de novo, se ficar aqui na New-Path.

— Quanto tem po? — disse ele.

— Pelo resto da vida.

Bruce ergueu a cabeça.

— Eu não posso ir em bora — disse Mike. — Eu voltaria para a droga se saísse daqui. Tenho m uitos am igos lá fora. Eu voltaria para a esquina de novo, traficando e m e aplicando, e depois ia voltar para a prisão por 20 anos. Sabe de um a coisa... olha... eu tenho 35 anos e vou m e casar pela prim eira vez. Já conheceu a Laura? A m inha noiva?

Ele não teve certeza.

— Um a m ulher bonita, rechonchuda. Atraente.

Ele assentiu.

— Ela tem m edo de sair. Alguém tem de ir com ela. Nós vam os ao zoológico... Vam os levar o filhinho do diretor executivo ao zoológico de San Diego na sem ana que vem e Laura está apavorada. Mais assustada do que eu.

Silêncio.

— Ouviu o que eu disse? — disse Mike. — Que estou com m edo de ir ao zoológico?

— Sim .

— Eu nunca fui ao zoológico, pelo que m e lem bro — disse Mike. — O que a gente faz num zoológico? Talvez você saiba.

— Olha j aulas e áreas cercadas.

— Que tipo de anim ais eles têm por lá?

— De todo tipo.

— Os selvagens, eu acho. Norm alm ente os selvagens. E os exóticos.

— No zoológico de San Diego eles têm quase todos os anim ais selvagens — disse Bruce.

— Eles têm um daqueles... com o é m esm o? Coalas.

— Têm .

— Eu vi num com ercial da TV — disse Mike. — Um urso coala. Eles pulam . Parecem de pelúcia.

Bruce disse:

— O velho ursinho de pelúcia, que as crianças têm , que foi criado com base no coala, na década de 20.

— É isso m esm o. Acho que você deve ir à Austrália para ver um coala. Ou agora eles estão extintos?

— Tem m uitos na Austrália — disse Bruce —, m as a exportação é proibida. Vivos ou a pele. Eles quase foram extintos.

— Eu nunca fui a lugar algum — disse Mike —, a não ser quando levei uns trecos do México para Vancouver, na Colúm bia Britânica. Eu sem pre pegava a m esm a rota, então nunca via nada. Eu só dirigia m uito rápido para term inar com aquilo. Eu dirigia um dos carros da fundação. Se você se sentir assim , se você se sentir m uito m al, eu passeio de carro com você. Eu te levo e a gente pode conversar. Eu não m e im porto. Eddie e uns outros que não estão aqui agora fizeram isso com igo. Eu não m e im porto.

— Obrigado.

— Agora nós dois tem os de ir dorm ir. Eles o fizeram arrum ar as coisas na cozinha para de m anhã? Colocar as m esas e servir?

— Não.

— Então você tem de dorm ir no m esm o horário em que eu. Te vej o no café-da-m anhã. Você fica na m inha m esa e eu te apresento a Laura.

— Quando vocês vão se casar?

— Daqui a um m ês e m eio. Será um prazer para a gente se você for. E claro que vai ser aqui no prédio, então todos vão com parecer.

— Obrigado — disse ele.

 

Ele ficou sentado no Jogo e eles gritavam com ele. Rostos, todos eles, gritando; ele olhou para baixo.

— Sabe o que ele é? Um puxa-saco! — Um a voz estridente fez com que ele olhasse. Entre as pavorosas distorções dos gritos, havia um a garota chinesa berrando.

— Você é um puxa-saco, é isso que você é!

— Dá pra se foder? Dá pra você se foder? — entoaram os outros para ele, enroscados em um a roda no chão.

O diretor executivo, de cam isa verm elha e calça rosa, sorriu. Olhos com o pequenas fendas brilhantes, feito os de um espectro. Balançando-se, as pernas com pridas por baixo do corpo, sem um a alm ofada.

— Vam os ver você se foder!

O diretor executivo parecia estar gostando quando seus olhos viram um a coisa irrom per; seus olhos cintilaram e se encheram de alegria. Com o um louco dram ático, de um a corte antiga, cheio de habilidade, colorido, ele olhou em volta e gostou. E depois, de vez em quando, a voz dele trinava, irritante e m onótona, com o um ruído m etálico. Um a dobradiça m ecânica raspando.

— O puxa-saco! — berrou a chinesa para ele; ao lado dela, outra garota batia os braços e inchava as bochechas, plop-plop. — Aqui! — berrou a chinesa, girando para proj etar o traseiro para ele, apontando-o e berrando para ele: — Beij a isto aqui, então, puxa-saco! Ele quer beij ar as pessoas, beij a isto, puxa-saco!

— Vam os ver você se foder! — entoou a fam ília. — Bate um a punheta, puxa-saco!

Ele fechou os olhos, m as os ouvidos ainda escutavam .

— Seu cafetão — disse o diretor executivo lentam ente para ele, m onotonam ente. — Seu fodido. Seu caralho. Seu m erda. Monte de bosta. Seu... — e assim por diante.

Os ouvidos dele ainda captavam sons, m as eles se m isturavam . Ele olhou para cim a m ais um a vez quando percebeu a voz de Mike, audível durante um a calm aria. Mike estava sentado, olhando im passivelm ente para ele, um pouco ruborizado, o pescoço duro no colarinho apertado dem ais da cam isa social.

— Bruce — disse Mike —, qual é o problem a? O que te trouxe aqui? O que você quer nos dizer? Pode nos contar algum a coisa sobre você?

— Cafetão! — gritou George, quicando com o um a bola de borracha. — O que você era, cafetão?

A chinesa deu um pulo, guinchando:

— Conta aí, seu cafetão de puta de boquete, seu beij a- cu, seu fodido!

Ele disse:

— Eu sou detetive.

— Seu m onte de bosta — disse o diretor executivo. — Seu covarde. Seu vôm ito. Seu babaca. Seu buceta.

Ele agora não ouvia nada. E se esqueceu do significado das palavras e, por fim , das próprias palavras.

Só que ele sentiu Mike observando-o, observando e ouvindo, sem escutar nada; ele não sabia, ele não se lem brava, ele pouco sentia, ele se sentia m al, ele queria ir em bora.

O Vácuo nele crescia. E, na realidade, ele estava um pouco feliz.

 

Era o fim do m esm o dia.

— Olha aqui — disse um a m ulher. — E aqui que guardam os os caras.

Ele ficou com m edo enquanto ela abria a porta. A porta caiu de lado e o barulho escapou do quarto; o volum e o surpreendeu, m as ele viu m uitas criancinhas brincando.

Nessa tarde, ele viu dois velhos sendo alim entados com leite e com ida para crianças, sentados em um pequeno nicho separado perto da cozinha. Rick, o cozinheiro, dava o alim ento infantil aos dois velhos prim eiro, enquanto todos esperavam na sala de j antar.

Sorrindo para ele, um a chinesa, levando pratos para a sala de j antar, disse:

— Gosta de crianças?

— Gosto — disse ele.

— Pode ficar sentado com as crianças e com er com elas.

— Ah — disse ele.

— Vai poder alim entá-las elas m ais tarde, tipo daqui a um ou dois m eses. — Ela hesitou. — Quando tiverm os certeza de que você não vai bater nelas. Tem os um a regra: as crianças não apanham por nada do que fizerem .

— Tudo bem — disse ele. Ele sentiu vontade de viver, olhando as crianças com erem ; ele se sentou e um dos m enores engatinhou para o colo dele. Ele com eçou a dar colheradas de com ida à criança. Ele e a criança sentiam , pensou ele, o m esm o calor. A chinesa sorriu para ele e depois passou com os pratos para a sala de j antar.

Por um bom tem po ele ficou sentado entre as crianças, segurando prim eiro um a e depois outra. Os dois velhos brigaram com as crianças e criticaram o m odo com o o outro se alim entava. Pedaços e nacos e m anchas de com ida cobriam a m esa e o chão; sobressaltado, ele percebeu que as crianças tinham sido alim entadas e estavam indo para o grande quarto de brincar, para ver desenhos anim ados na TV. Desaj eitado, ele se curvou para lim par a com ida cuspida.

— Não, esse trabalho não é seu! — disse um dos idosos agudam ente. — Eu é que tenho de fazer isso.

— Tudo bem — concordou ele, levantando-se, batendo a cabeça na beira da m esa. Ele segurou com ida cuspida na m ão e olhou para ela, surpreso.

— Vá aj udar a lim par a sala de j antar! — disse o outro velho a ele. Ele tinha um leve problem a de fala.

Um dos aj udantes de cozinha, alguém que lavava a louça, disse a ele de passagem :

— Você precisa de perm issão para se sentar com as crianças.

Ele assentiu, parado ali, confuso.

— Isso é para os caras velhos — disse o lavador de pratos. — Bancar a babá. — Ele riu. — Eles não conseguem fazer m ais nada. — Ele continuou andando.

Restava um a criança. Ela o analisou, os olhos grandes, e perguntou a ele:

— Qual é o seu nom e?

Ele nada respondeu.

— Eu perguntei o seu nom e.

Estendendo a m ão cautelosam ente, ele tocou um pedaço de carne na m esa. Agora estava frio. Mas, ciente da criança ao lado dele, ele ainda se sentia quente; ele a tocou na cabeça, brevem ente.

— Meu nom e é Thelm a — disse a criança. — Você esqueceu seu nom e? — Ela deu um tapinha nele. — Se você esqueceu seu nom e, pode escrever na sua m ão. Quer que eu te m ostre? — Ela deu um tapinha nele de novo.

— Não vai sair? — ele perguntou a ela. — Se você escrever na sua m ão, na prim eira vez em que fizer algum a coisa ou tom ar um banho vai sair.

— Ah, entendi. — Ela assentiu. — Bom , você pode escrever na parede, em cim a da sua cabeça. No seu quarto, onde você dorm e. No alto, onde não vai poder ser lavado. E depois, quando você quiser saber seu nom e...

— Thelm a — m urm urou ele.

— Não, esse é o m eu nom e. Você tem um nom e diferente. E esse é um nom e de m enina.

— Vam os ver — disse ele, m editando.

— Se eu te encontrar de novo, vou te dar um nom e — disse Thelm a. — Vou arranj ar um nom e pra você. Tá?

— Você não m ora aqui? — disse ele.

— Moro, m as m inha m ãe pode sair. Ela está pensando em levar a gente, eu e m eu irm ão, e ir em bora.

Ele assentiu. Parte do calor o deixou.

De repente, por nenhum m otivo que ele pudesse ver, a criança se afastou correndo.

Eu devia saber o m eu nom e, pensou ele, é m inha responsabilidade. Ele exam inou a m ão e se perguntou por que estava fazendo isso; não havia nada para ver. Bruce, pensou ele. E esse o m eu nom e. Mas deve haver nom es m elhores do que esse, pensou ele. O calor que restava aos poucos desapareceu, com o a criança.

Ele se sentiu sozinho, estranho e perdido de novo. E não m uito feliz.

* * *

Um dia Mike Westaway conseguiu ser enviado para buscar um a carga de produtos sem i-estragados, doados por um superm ercado da cidade à New-Path. Porém , depois de se certificar de que nenhum m em bro da equipe o tivesse seguido, ele deu um telefonem a e encontrou-se com Donna Hawthorne em um a lanchonete do McDonalds.

Eles se sentaram j untos na calçada, com Coca-Colas e ham búrgueres entre eles na m esa de m adeira.

— Já conseguim os dom ar o cara? — perguntou Donna.

— Sim — disse Westaway. Mas ele pensou: O cara está tão ferrado. Será que isso im porta? Eu m e pergunto se conseguim os algum a coisa. E, no entanto, tem de ser assim .

— Não estão paranóicos com ele.

— Não — disse Mike Westaway .

Donna disse:

— Está pessoalm ente convencido de que eles estão desenvolvendo o troço?

— Eu não. Não é no que eu acredito. Eles sim . — Aqueles que nos pagam , pensou ele.

— O que significa o nom e?

— Mors ontologica. Morte do espírito. A identidade. A natureza essencial.

— Ele será capaz de agir?

Westaway viu os carros e as pessoas passando; ele ficou olhando, m al-hum orado, enquanto rem exia na com ida.

— Na verdade, você não sabe.

— Nunca podem os saber, até que acontece. Um a lem brança. Algum as células cerebrais queim adas que palpitam . Com o um reflexo. Reage, não age. Só podem os esperar. Lem brando o que disse Paulo na Bíblia: fé, esperança e abrir m ão de seu dinheiro. — Ele olhou com atenção a j ovem bonita, de cabelos pretos, na frente dele e pôde perceber, no rosto inteligente de Donna, por que Bob Arctor — não, pensou ele, eu sem pre tenho de pensar nele com o Bruce. Caso contrário, vou deixar escapar que sei dem ais: coisas que eu não devo, que não posso saber. Por que Bruce pensava tanto nela. Pensava quando era capaz de pensar.

— Ele foi m uito bem treinado — disse Donna, no que pareceu a ele um a voz de desam paro extraordinário. E ao m esm o tem po um a expressão de tristeza cruzou o rosto dela, lhe tensionando e arqueando as linhas da face. — Com o um custo a ser pago — disse ela então, m eio para si m esm a, e bebeu a Coca-Cola.

Ele pensou: “Mas não tem outro j eito.” Para entrar lá. Eu não posso entrar. Isso agora está estabelecido; pense em quanto tem po eu andei tentando. Eles só deixam entrar um a casca ferrada com o o Bruce. Inofensivo. Ele teria de ser... com o ele é. Ou eles não assum iriam o risco. E a política deles.

— O governo cobra um quinhão apavorante — disse Donna.

— A vida cobra um quinhão apavorante.

Erguendo os olhos, ela o confrontou, num a irritação som bria.

— Nesse caso, o governo federal. Especificam ente. De você, de m im . De... — Ela se interrom peu. — Do que era o m eu am igo.

— Ele ainda é seu am igo.

Furiosa, Donna disse:

— O que resta dele.

O que resta dele, pensou Mike Westaway, ainda está procurando por você. De certo m odo. Ele tam bém estava triste. Mas o dia estava lindo, as pessoas e os carros o anim avam , o ar tinha um cheiro bom . E havia a perspectiva de sucesso; isso o anim ava acim a de tudo. Eles tinham chegado a esse ponto. Podiam percorrer o resto do cam inho.

Donna disse:

— Acho m esm o que não há nada m ais terrível do que sacrificar alguém ou algum a coisa, um ser vivo, sem que ele sequer tom e conhecim ento. Se ele soubesse. Se entendesse e se dispusesse a fazer. Mas... — Ela gesticulou. — Ele não sabe, ele nunca soube. Ele não foi voluntário...

— Claro que foi. Era o trabalho dele.

— Ele não tinha idéia disso e não tem a m enor idéia agora, porque agora não tem idéia algum a. Você sabe disso tão bem quanto eu. E nunca m ais na vida, enquanto viver, ele vai ter idéias. Só reflexos. E isso não acontece por acaso, era para ser assim . Então tem os esse... carm a ruim . Eu o sinto nas m inhas costas. Feito um cadáver. Estou carregando um cadáver... o cadáver de Bob Arctor. Mesm o que ele tecnicam ente estej a vivo. — A voz dela se elevou; Mike Westaway gesticulou e, com um esforço visível, ela se acalm ou. As pessoas das outras m esas, desfrutando de seus ham búrgueres e m ilk-shakes, olharam de um j eito inquisitivo.

Depois de um a pausa, Westaway disse:

— Bom , vej a desta form a: eles não podem interrogar um a coisa, alguém , que não tem m ente.

— Tenho de voltar para o trabalho — disse Donna. Ela olhou o relógio de pulso. — Vou dizer a eles que está tudo bem , de acordo com o que você m e contou. Em sua opinião.

— Espere pelo inverno — disse Westaway .

— Pelo inverno?

— Vou conseguir até lá. Não im porta por quê, m as com o é; vai funcionar no inverno ou não vai funcionar de j eito algum . Ou vam os conseguir nessa época ou nunca. — Bem no solstício, pensou ele.

— Um período adequado. Quando tudo está m orto e debaixo de neve.

Ele riu.

— Na Califórnia?

— O inverno do espírito. Mors ontologica. Quando o espírito está m orto.

— Só dorm indo — disse Westaway. Ele se levantou. — Preciso ir tam bém , tenho de pegar um a carga de vegetais.

Donna olhou para ele com desânim o, triste, m udo e aflito.

— Para a cozinha — disse Westaway delicadam ente. — Cenouras e alface. Desse tipo. Doados pelo Mercado McCoy para os pobres da New-Path. Lam ento ter dito isso. Não era para ser um a piada. Não era para significar nada. — Ele deu um tapinha no om bro do casaco de couro de Donna. E, ao fazer isso, ocorreu-lhe que provavelm ente Bob Arctor, em dias m elhores e m ais felizes, tinha dado esse casaco de presente a ela.

— Estam os trabalhando nisso j untos há um bom tem po — disse Donna num a voz m oderada e estável. — Não quero ficar nessa por m uito tem po. Quero que term ine. Às vezes, à noite, quando não consigo dorm ir, eu penso: Que m erda!, som os m ais insensíveis do que eles. Que o adversário.

— Não vej o um a pessoa insensível quando olho para você — disse Westaway. — Em bora eu ache que não conheço você m uito bem . O que eu vej o, e vej o claram ente, é um a das pessoas m ais calorosas que j á conheci.

— Sou calorosa por fora, o que as pessoas vêem . Olhos calorosos, rosto caloroso, um a porra de sorriso falso caloroso, m as por dentro sou fria o tem po todo e cheia de m entiras. Não sou o que pareço ser, sou horrível. — A voz da garota continuava estável e, enquanto falava, ela sorriu. Suas pupilas estavam grandes, calm as e sem m alícia. — Mas então, não tem outro j eito. Tem ? Im agino que há m uito tem po talvez eu m esm a fosse assim . E todo m undo é assim , de certa form a. O que eu sou que é realm ente tão ruim ... eu sou um a m entira. Eu m enti para o m eu am igo. Eu m enti para Bob Arctor o tem po todo. Eu cheguei a dizer a ele um a vez para não acreditar em nada do que eu dissesse, e é claro que ele achou que eu estava brincando; ele não ouviu. Mas se eu contasse a ele, seria responsabilidade dele não ouvir, não acreditar m ais em m im , depois do que eu dissesse. Eu o alertei. Mas ele esqueceu assim que eu disse e continuou em frente. Sem pre em frente.

— Você fez o que devia fazer. Fez m ais do que tinha de fazer.

A garota com eçou a se afastar da m esa.

— Tá legal, então realm ente não há nada para eu relatar, até agora. A não ser sua confiança. Só que ele está controlado e eles o aceitaram . Eles não arrancaram nada dele naqueles... — Ela estrem eceu. — Naqueles j ogos estúpidos.

-É.

— Te vej o depois. — Ela fez um a pausa. — Os federais não vão querer esperar até o inverno.

— Mas o inverno é isso — disse Westaway . — O solstício de inverno.

— O quê?

— Só espere — disse ele. — E reze.

— Isso é besteira — disse Donna. — Rezar, quer dizer. Eu rezava há m uito tem po, rezava m uito, m as não rezo m ais. Não precisaríam os fazer isso, o que fazem os, se rezar desse certo. E outro engodo.

— A m aioria das coisas é assim . — Ele seguiu a garota por alguns passos enquanto ela ia em bora, atraído por ela, gostando dela. — Não acho que você tenha destruído seu am igo. Me parece que você é que foi destruída, você foi a vítim a. Só que em você isso não aparece. De qualquer m odo, não havia alternativa.

— Eu vou para o inferno — disse Donna. Ela sorriu de repente, um sorriso largo e m oleque. — Minha criação católica.

— No inferno eles te vendem sacos de m oedas e quando você chega em casa vê que são M-Ms.

— Os M-Ms são feitos de titica de peru — disse Donna, e depois, de repente, ela havia partido. Desaparecera no ir e vir das pessoas; ele pestanej ou. Era assim que se sentia Bob Arctor?, perguntou-se ele. Deve ser. Lá estava ela, estável e com o sem pre; depois... nada. Desaparece com o fogo ou ar, um elem ento da terra voltando para a terra. Para se m isturar com todas as outras pessoas que nunca deixaram de ser. Despej ada entre elas. Que vêm e vão de acordo com a vontade dela. E ninguém , nada, pode prendê-la.

Estou tentando pegar o vento num a rede. E Bob Arctor tam bém . Inútil, pensou ele, tentar colocar as m ãos firm em ente em um dos agentes federais do abuso de drogas. Eles são furtivos. Som bras que desaparecem quando seu trabalho determ ina. Com o se nunca tivessem estado lá. Arctor, pensou ele, estava apaixonado por um fantasm a de autoridade, um a espécie de hologram a através do qual um hom em norm al podia andar e sair do outro lado, sozinho. Sem sequer ter conseguido um a boa com preensão disso — da própria garota.

Deus é o m om ento, refletiu ele, é para transm utar o m al no bem . Se Ele está ativo aqui, Ele está fazendo isso agora, em bora nossos olhos não possam perceber; o processo está oculto abaixo da superfície da realidade e só aparece depois. Para, talvez, nossos herdeiros que aguardam . Um a gente insignificante que não conhecerá a guerra m edonha que estávam os travando e as perdas que suportam os, a não ser em um a nota de rodapé de um livro de história m enor que tenha captado a concepção. Um a breve m enção. Sem um a lista das baixas.

Devia haver um m onum ento em algum lugar, pensou ele, listando aqueles que m orreram nisso. E, pior ainda, aqueles que não m orreram . Que têm de viver, de passar pela m orte. Com o Bob Arctor. O m ais triste de todos.

Acho que Donna é um a m ercenária, pensou ele. Não é assalariada. E eles são os m ais fantasm agóricos. Desaparecem para sem pre. Nom es novos, localizações novas. Você se pergunta: Onde ela está agora? E a resposta é...

Em lugar nenhum . Porque ela não estava aqui, para com eço de conversa.

Sentando-se novam ente à m esa de m adeira, Mike Westaway term inou de com er o sanduíche e beber a Coca.

Isso era m elhor do que o que eles serviam na New-Path. Mesm o que o ham búrguer fosse feito de ânus de boi m oído.

Ligar para Donna de novo, tentar encontrá-la ou pos- suí-la... Eu procuro o que Bob Arctor procurava, então talvez sej a m elhor que ele agora estej a m elhor desse j eito. A tragédia da vida dele j á existiu. Am ar um espírito atm osférico. Esse era o verdadeiro desgosto. A própria desesperança. Em lugar nenhum nas páginas im pressas, em nenhum lugar nos anais hum anos o nom e dela apareceria; nenhum dom icílio, nenhum nom e. Há garotas assim , pensou ele, e aqueles que você m ais am a, aqueles onde não há esperança porque a esperança escapou de você no m om ento em que você fechou as m ãos em volta dela.

Então talvez nós o tenham os salvado de coisa pior, concluiu Westaway. E, enquanto fazem os isso, colocam os o que restava dele em uso. Em uso bom e valioso.

Se por acaso tiverm os sorte.

— Você conhece algum a história? — perguntou Thelm a um dia.

— Conheço a história de um lobo — disse Bruce.

— O lobo m au e a vovozinha?

— Não — disse ele. — O lobo preto-e-branco. Ele ficava no alto de um a árvore e caía sem parar em cim a dos anim ais da fazenda. Finalm ente, um dia, o fazendeiro pegou todos os filhos e todos os am igos dos filhos e eles ficaram parados, esperando que o lobo preto-e-branco descesse da árvore. Por fim , o lobo caiu em um anim al m arrom que parecia sarnento e ali, com seu casaco preto-e-branco, ele foi m orto a tiro por eles.

— Que pena! — disse Thelm a. — Isso é m uito ruim .

— Mas eles salvaram a pele — continuou ele. — Eles despelaram o grande lobo preto-e-branco que descia da árvore e preservaram sua linda pele, de m odo que os que vieram depois, os que nasceram depois, puderam ver com o ele era e com o era m aravilhoso, com sua força e seu tam a- nho. E as gerações futuras falaram dele e contaram m uitas histórias de sua coragem e sua m aj estade, e choraram sua m orte.

— Por que atiraram nele?

— Tinham de atirar — disse ele. — Você deve fazer isso com lobos assim .

— Você sabe outras histórias? Melhores do que essa?

— Não — disse ele —, essa é a única história que eu sei. — Ele ficou sentado, lem brando-se de com o o lobo gostava de sua grande habilidade de saltar, o lobo pulando repetidam ente em seu corpo elegante, m as agora esse corpo se fora, m orto a tiros. E por anim ais m agros, para ser chacinado e devorado. Anim ais sem força que nunca saltam , que não têm orgulho de seus corpos. Mas, de qualquer m odo, no aspecto bom , esses anim ais continuavam em frente. E o lobo preto-e-branco não reclam ou, nada disse quando atiraram nele. Suas garras ainda estavam fundas na presa. Para nada. Só que era o j eito dele e ele gostava de fazer isso. Esse era o único cam inho dele. O único estilo pelo qual viver. Tudo o que ele sabia. E eles o pegaram .

— Lá vai o lobo! — exclam ou Thelm a, pulando m eio desaj eitada. — Vub, vub! — Ela pegava as coisas e largava, e ele viu com desânim o que havia algo de errado com ela. Ele viu pela prim eira vez, angustiado e se perguntando com o isso podia acontecer, que ela era deficiente.

Ele disse:

— Você não é o lobo.

Mas m esm o assim , enquanto ela tateava e m ancava, ela tropeçava; m esm o assim , percebeu ele, a deficiência continuava. Ele se perguntou com o podia ser...

Ich unglückseTget Atlas! Eine Welt,

Die ganze Welt der Schmerzen muss ich tragen,

Ich trage Unerträgliches, und brechen Will mir das Herz im Leibe.

... que um a tristeza dessas existisse. Ele se afastou.

Atrás dele, ela ainda brincava. Ela tropeçava e caía. Com o pode ser assim ?, perguntou-se ele.

 

Ele andou pelo corredor, procurando pelo aspirador de pó. Disseram -lhe que devia aspirar cuidadosam ente o quarto grande de brincar, onde as crianças passavam a m aior parte do dia.

— No final do corredor, à direita — apontou um a pessoa. Earl.

— Obrigado, Earl — disse ele.

Quando chegou à porta fechada, ele com eçou a bater e depois a abriu.

Dentro da sala, um a velha estava parada segurando três bolas de borracha, com que fazia m alabarism o. Ela se virou para ele, o cabelo grisalho pegaj oso caindo nos om bros, sorrindo para ele, quase sem dentes. Ela usava m eias brancas e tênis. Olhos fundos, viu ele; olhos fundos, boca sorridente e vazia.

— Consegue fazer isto? — disse a velha ofegando e atirou as três bolas no ar. Elas caíram , atingiram -na, quicando para o chão. Ela se abaixou, cuspindo e rindo.

— Não consigo fazer isso — disse ele, parado ali, desanim ado.

— Eu consigo. — A criatura velha e m agra, os braços estalando enquanto se m ovia, ergueu as bolas, sem icerrou os olhos, tentou fazer direito.

Outra pessoa apareceu na porta atrás de Bruce e ficou parada com ele, tam bém assistindo.

— Há quanto tem po ela está praticando? — perguntou Bruce.

— Há m uito tem po. — A pessoa gritou: — Tente de novo. Está quase lá!

A velha cacarej ou enquanto se curvava para pegar as bolas m ais um a vez, desaj eitada.

— Tem um a lá — disse a pessoa ao lado de Bruce. — Debaixo de sua m esa-de-cabeceira.

— Oohhh! — ofegou a velha.

Eles viram a velha tentar novam ente, sem parar, deixando as bolas caírem , pegando-as, m irando com cuidado, balançando-se, atirando-as para o ar e depois curvando-se enquanto elas choviam sobre ela, às vezes batendo em sua cabeça.

A pessoa ao lado de Bruce fungou e disse:

— Donna, é m elhor você se lim par. Você não está lim pa.

Bruce, chocado, disse:

— Essa não é a Donna. E a Donna? — Ele levantou a cabeça para espiar a velha e sentiu um grande pavor; um as lágrim as estavam paradas nos olhos da velha enquanto ela olhava para ele, m as a m ulher estava rindo, rindo enquanto atirava as três bolas para ele, esperando atingi-lo. Ele se abaixou.

— Não, Donna, não faça isso — disse a ela a pessoa ao lado de Bruce. — Não m achuque as pessoas. Só continue tentando fazer o que você viu na TV, sabe com o é, pegar as bolas e atirá-las direto de novo. Mas agora vá se lim par, você está fedendo.

— Tudo bem — concordou a velha e correu, curvada e pequena. Ela deixou as três bolas ainda rolando no chão.

A pessoa ao lado de Bruce fechou a porta e eles andaram pelo corredor.

— Há quanto tem po Donna está aqui? — disse Bruce.

— Há m uito tem po. Desde que eu cheguei, e j á faz seis m eses. Ela com eçou a tentar fazer m alabarism o há m ais ou m enos um a sem ana.

— Então não é a Donna — disse ele. — Se está aqui há tanto tem po. Porque eu cheguei só há um a sem ana. — E, pensou ele, Donna m e trouxe aqui no MG dela. Eu m e lem bro disso, porque tivem os de parar por um tem po enquanto ela enchia o radiador. E ela parecia bem . Olhos tristes, escuros, silenciosos e calm os em seu casaquinho de couro, suas botas, com a bolsa que tinha um pé de coelho pendurado. Com o sem pre.

Ele continuou então, procurando pelo aspirador de pó. Ele se sentiu m uito m elhor. Mas não entendeu por quê.