O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização
VII — Rumo ao Estado Metapsíquico
Humberto Mariotti ◆ O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização ◆ PENSE - Pensamento Social Espírita
Capítulo VII
RUMO AO ESTADO METAPSÍQUICO
Se é possível que o espiritual exista na natureza humana, sua
descoberta só poderá obter-se mediante a exploração extrassenso-rial, segundo a prática da parapsicologia. O raciocínio metafísico e teológico já não convence o espírito crítico da idade atual. Daí que Leconte du Nouy expressava acertadamente: “Não podemos combater os tanques com a cavalaria, nem os aviões com arcos e flechas. Utilizou-se a ciência para solapar os fundamentos da
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religião. Devemos empregar a ciência para consolidá-la.”
A parapsicologia não é uma evasão da realidade material;
pelo contrário, é uma tomada de posse dessa realidade, para transformá-la em outra, mais lógica e firme, mediante o desco-brimento do númeno que a anima. É indubitável que esse espíri-to que rege a realidade visível será conquistado pela investiga-ção parapsicológica e mediúnica, desde que, por temor às con-clusões da verdade espiritual, não se detenha na periferia do Ser.
Apesar das reservas que se adotem, para que a parapsicologia
se abstenha de toda hipótese que transcenda o domínio estrita-mente cientifico,23abre-se ante ela uma zona extracientífica que tem relação com o que se pode chamar o ser transcendente do homem. De maneira que manter a parapsicologia nessa ordem psíquica que se assenta apenas em atividades e funções do psi-quismo humano, segundo deseja Robert Amadou, é não reconhe-cer a possível razão que assiste ao filósofo parapsicológico, em favor da imortalidade da alma, quando se defronta com essas tre-mendas realidades metapsíquicas que apresentam os fenômenos supranormais, como são as materializações de seres vivos, com-provadas e admitidas pelos maiores sábios da humanidade.
22 Leconte du Nouy, O Destino Humano. 23 Revue Metapsychique, R. P. Reginaldo Omez, 1950.
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O experimentalismo crítico e analítico das ciências para-psicológicas será o único fator positivo que deterá a ação demoli-dora do materialismo. Não nos esqueçamos de que o chamado realismo marxista é mais poderoso que os milagres e as apelações da teologia. Acreditamos que os únicos elementos espirituais, que poderão salvar o sentido religioso do homem são as realida-des do fenômeno espiritista, acompanhadas pelos esforços expe-rimentais da parapsicologia.24
Nos tempos novos, já não se trata de conformismo nem de crenças sem provas: esta atitude será agora a de uma parte mí-nima da humanidade, mas nunca a dessa maioria ateísta e anti-espiritualista que nega enfaticamente hoje o que aceitou até ontem de maneira cândida. Se é certo que existe uma necessi-dade de crer, o desenvolvimento mental do homem exige novo modo de aceitar as crenças: aspira a crer sobre as bases de um seguro realismo religioso, sem temor de enganar-se.
Contudo, os chefes das diversas igrejas existentes, em vez de acatarem como uma realidade escatológica o espiritismo, combatem-no em nome do Diabo, sem perceber que estão des-perdiçando uma das melhores oportunidades para refutar com ele as consequências do materialismo.
Se é certo que o período atual da parapsicologia é o que corresponde à era biológica, segundo o critério de Joseph B. Rhine, a partir de agora devíamos considerar a necessidade de inaugurar a era ontológica da parapsicologia. O problema do Ser, tão estudado no presente, através do que a filosofia deno-
24 O fato básico de deixar estabelecida a realidade de psi envolve um princípio de grande significação, aplicável a este problema da sobrevivên-cia espiritual. Pois se não houvesse nenhuma evidência de algo que transcenda as leis físicas, se não houvesse nada que desafiasse os limi-tes da interpretação mecanicista do homem e do mundo vivente, não vale-ria a pena pensar ainda no problema da sobrevivência. (Revista de Para-psicologia, n° 2 - ano 1955).
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mina Conhecimento do homem, exige do trabalho parapsicoló-gico a demonstração de novas noções ontológicas, que possam tapar a brecha, segundo Rhine, observada na natureza. Essa brecha é, indubitavelmente, o mistério do homem, isto é, a dramática questão apresentada pela filosofia existencial com respeito ao sentido do Ser, relegado apenas à náusea, à angús-tia, ao nada e à morte.
Que é o homem? Que somos? De onde viemos? E para
onde vamos?
Eis aqui as apaixonantes questões que merecem uma res-
posta categórica.
Francisco Romero, um dos maiores filósofos argentinos,
referindo-se ao tema do homem e à posição da filosofia em face desses problemas, escreveu o seguinte:
“O que a presente situação carece exigir da filosofia é
uma definição precisa e concreta do homem, uma especifica-ção nítida de sua posição no conjunto e do sentido de sua vida, de acordo com os mais firmes resultados do pensamento e da experiência psicológica e histórica: em suma, uma noção do homem, mais minuciosa, exaustiva e terminante do que as pro-
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porcionadas até agora.”
Como vemos, a necessidade espiritual de um conhecimen-
to definitivo do homem está no íntimo de todos. A filosofia, mais do que em nenhuma outra época, aspira a solucionar o problema do homem. O Ser continua sendo um problema meta-físico e religioso, apesar de tudo o que foi dito até agora. A situação dramática em que se acha a filosofia torna-se mais desesperadora à medida que as teorias, hipóteses e petições de princípio se vão acumulando. Não esqueçamos que são nume-
25 Miradas Sobre el Hombre, La Nación - Buenos Aires, 1950. (Edição de 21 de março).
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rosos os sistemas e as ideologias filosóficas e religiosas que pretendem interpretar o homem. Não obstante, nenhuma dessas formulações se mostrou capaz de derrotar esta sinistra concep-ção materialista do mundo: a filosofia do nada. Em outras pa-lavras, o fúnebre sentido desta definição do existencialismo niilista: o homem, é um ser para a morte eterna.
O filósofo alemão Fritz J. Von Rintelen, num belo traba-lho, exprimiu-se assim: “Nenhum sentimento já evoca a Deus, mas tão-somente ao Nada.” 26
Esta conclusiva afirmação reflete o verdadeiro sentir dos tempos novos. Já não se trata de afirmar a realidade espiritual do homem e da existência, mas procura-se matar o homem, levá-lo ao suicídio, através de um existir fundado no nada. A impressão que se poderia ter é a de que um demônio negador se alojara na mente humana, procurando apenas destruir o Ser espiritual que a anima.
De acordo com o setor materialista da humanidade é mais racional, e até mais científico, dizer que o homem morre para sempre, do que supor que viverá eternamente, na vida do espí-rito. Parece que, para o homem moderno, seria preferível ser pó ou nada a ser espírito imortal. E, segundo outros argumentos, é mais moral e até mais natural morrer para sempre do que viver eternamente.
A disputa suscitada pelo existencialismo, entre essência e existência, seria facilmente resolvida se a filosofia e a reli-gião levassem em conta as manifestações espirituais dos fe-nômenos metapsíquicos e parapsicológícos.
Jean-Paul Sartre, em O Ser e o Nada, esforça-se por fazer prevalecer o Nada sobre o Ser ou a essência espiritual do homem.
26 Lá Mística de Ia Muerte y Ia Filosofia Contemporanea, Critério, Bue-nos Aires, n.° 1.117.
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Vemos em suas páginas que o nada foi convertido em valor filo-sófico, para sustentar a morte eterna e definitiva do indivíduo. Mas não devemos espantar-nos com essa valorização do nada, já que, segundo a bíblia, Deus fez o homem do nada. Consequente-mente, esse instinto do nada existencial ressurge com o existencia-lismo ateu, em forma catastrófica, do inconsciente da espécie, levando de roldão o ético e toda a finalidade transcendente do homem e do Universo.
O Nada, para Deus, era um valor criador; por isso, diz a bí-
blia que o Criador fez o mundo surgir do nada. Daí se conclui que o Ser e o mundo, como afirma o existencialismo niilista, estão condenados ao nada, o que vale dizer que esse existencialismo, não obstante seu rigoroso ateísmo, é uma filosofia vinculada a Deus e à bíblia.
A metapsíquica e a parapsicologia descobriram, entretanto,
que o nada não é real; comprovaram que na vida social existe o que Richet chamou de inabitual, e que os fenômenos transcenden-tais desse campo revelam uma teleologia, tanto para o Ser como para a civilização. A metapsíquica prova que o mundo objetivo pode descentralizar-se, para que a essência psíquica se manifeste na vida espiritual da humanidade. Além disso, estabeleceu que a existência não é atributo exclusivo do homem e do seu mundo, mas que o existir é próprio de outros seres e entidades inteligen-tes, situados no mundo invisível que nos circunda.
A decadência espiritual do homem e da cultura contempo-
rânea reclama a colocação de problemas metafísicos e sociais, com o objetivo de alcançar novas interpretações da existência mais edificantes para o destino do espírito encarnado. Chegou a hora de uma metapsíquica existencial; resistir a isso é deter a marcha das verdades espirituais. Charles Richet, provando este fato sin-gular e dramático da evolução, declarou: “Amanhã, talvez a
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metapsíquica terá o direito de elevar-se mais alto, nos rumos de uma moral, uma sociologia e uma teodiceia novas.” 27
Com efeito, a lei dos três estados, de Augusto Comte: o teo-lógico, o metafísico e o positivo, permite-nos acrescentar agora um quarto estado: o metapsíquico. Desta maneira poderíamos inau-gurar uma nova forma de conhecer as três grandes manifestações da história: a sociedade, o Espírito e a divindade. Acreditamos que o melhor campo de investigação metafísica é o próprio ho-mem, porque nele está presente esse quarto estado, que Comte não chegou a conhecer: o estado metapsíquico. Mas esse campo, para ser efetivo, deverá entrosar-se com a interpretação espírita do homem e da vida, já que nesta se acha o fundamento filosófico, teosófico e religioso da continuidade do Ser. 28
27 Tratado de Metapsíquica, Charles Richet, pág. 37, edição espanhola, 1925. 28 Na Revista Espírita, de abril de 1858, Kardec aceitou a sugestão de um correspondente de acrescer à lei dos três estados, de Comte, o estado psi-cológico da evolução humana, iniciado com o espiritismo. O autor renova essa proposição, como vemos, com outra denominação. Essa coincidência e o desenvolvimento atual das pesquisas psíquicas, mostram que Kardec e o correspondente da “Revista” estavam certos. O leitor pode verificar o fato no volume I da coleção da “Revista”, lançada pela Edicel. É o editorial do número de abril, intitulado: “Período Psicológico”. (Nota de J.H. Pires).
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