O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização

Humberto Mariotti · Capítulo 18 de 23

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O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização

XV — Socialismo e Espiritismo

Humberto Mariotti ◆ O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização ◆ PENSE - Pensamento Social Espírita

 

Capítulo XV

SOCIALISMO E ESPIRITISMO

Eis aqui duas palavras que à primeira vista se contradi-

zem, ou que aparentemente não têm entre si nenhuma relação. Entretanto, se penetrarmos na essência de cada uma delas, compreenderemos que um mesmo valor subjetivo e espiritual as une e identifica; descobriremos que o socialismo é uma con-sequência do espiritismo, visto que o social é sempre uma con-sequência do espiritual. “O socialismo — disse Cosme Mariño

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— é um capítulo do espiritismo.”

Os fenômenos sociais têm sua ciência interpretativa no

socialismo, como os fenômenos espirituais têm sua ciência demonstrativa e filosófica no espiritismo. Deste modo, verifi-camos que o social e a sociedade estão regidos pelo Espírito, e que ambos os fatores, o social e o espiritual, se interpenetram e necessitam reciprocamente um do outro.

A sociedade é o ponto de reunião dos espíritos, o lugar

onde se opera a encarnação ou o fenômeno palingenésico e também o cenário sobre o qual o Espírito, individual e coleti-vamente considerado, desenvolve sua evolução e se defronta com muitas situações ligadas ao seu passado espiritual. De modo que a sociedade é o âmbito no qual o espírito encarnado cumpre a sua missão humana e onde acelera ou detém o seu progresso individual.

Se a sociedade é imperfeita e deficiente, do ponto de vista

de sua organização, será inadequada para oferecer ambiente de justiça e de beleza, cujas influências são benéficas para a evo-lução espiritual. Porque, se a estrutura social estivesse baseada na injustiça e na desordem, a sociedade cumpriria um papel

 

45 El Concepto Espiritista del Socialismo, Editorial Victor Hugo (Buenos Aires, 1960). Essa obra será lançada em português, pela Edicel.

 

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improdutivo, e além disso não estaria em relação com as aspi-rações dos grandes espíritos que tanto têm trabalhado pelo bem-estar individual e coletivo dos homens.

A sociedade é o âmbito imprescindível em que há de a-poiar-se o desenvolvimento moral dos espíritos encarnados; porém, se ela, repetimos, estiver organizada sobre leis injustas e inumanas, a evolução se ressentirá e a harmonia entre os homens jamais se estabelecerá. Não nos esqueçamos de que cada sociedade contém a seiva nutritiva que há de alimentar as veias da alma. Se essa seiva chegasse a faltar, como já a-conteceu e como está ocorrendo ainda, o espírito poderia ce-gar-se por meio do ódio, reconhecendo que a única realidade a reger o mundo é a luta de classes, ou seja, a que sustenta a estrutura de ricos e pobres.

O socialismo, que é a ciência dos fenômenos sociais, chegou a esta conclusão: o ressentimento das classes desaparecerá com a eliminação das mesmas, estabelecendo-se para isso um sistema social e econômico em que tudo pertença à sociedade, isto é, ao patrimônio comum e onde não existam proprietários, como no sistema ainda imperante, onde são eles os únicos donos da rique-za produzida pela massa assalariada.

O próprio cristianismo, em seus primeiros séculos, comba-teu os poderosos e aboliu em todo o sentido a propriedade priva-da. A aspiração cristã de um mundo baseado na igualdade e na fraternidade respondia a um imperativo do coração e dos sentimen-tos, já que Jesus não trouxe à Terra nada mais do que esse ideal de justiça, baseado na lei do amor. Foi o Nazareno, repetimos, quem disse: “Mais fácil é passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que um rico entrar no Reino do Céu.”

Se fizéssemos um estudo psicológico, do ponto de vista cristão, a respeito do mal, descobriríamos que suas raízes se encontram, em grande parte, — sobretudo o mal psicológico,

 

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feito de egoísmo e de inveja, — na desigualdade de bens que, como sabemos, dá origem à desigualdade de posições sociais e engendra, além de tudo, a desigualdade de afetos e sentimentos.

Sabe-se que a igualdade de afetos e sentimentos nasce da

igualdade de situação econômica e de uma mesma forma de acomodação social. Mas, se os homens são diferentes entre si, por motivos sociais e econômicos, nunca poderão harmonizar suas mentes com as leis divinas. Esta situação fará que um homem se sinta profundamente separado de seu semelhante, que pode entregar-se ao gozo de todos os prazeres pela rique-za abundante de que dispõe. O espírito, frente a esta desigual-dade econômica e social, arma-se para lutar contra seu próxi-mo, a fim de tomar para si o que lhe falta. Esta luta, conse-quência da desigualdade de classes, afastará o homem de todo pensamento fraternal e religioso. E, como sempre tem aconte-cido, verá nas ideias espirituais os principais motivos da desi-gualdade econômica dos povos.

O espiritismo veio revelar ao socialismo o verdadeiro

sentido da imortalidade da alma; com isso, o socialismo dei-xará de repelir o espírito como fator anti-revolucionário. Pos-suindo um novo idealismo espiritual, as massas terão diante de si um horizonte renovado e mais amplo, para chegarem à meta de suas reivindicações sociais. Entretanto, o que urge fazer, é declarar em toda parte que o espiritismo não é um produto da sociedade materialista e burguesa, com a finalida-de de adormecer a consciência progressista dos povos. O que agora se faz necessário é anunciar a nova consciência social e espiritual, que virá ao mundo por meio da filosofia espírita. É preciso esclarecer que o espiritismo é a continuidade histórica do cristianismo e que a sua aspiração é realizar no presente o que fizeram os primeiros cristãos na luta contra o ódio, contra o mal e contra a injustiça.

 

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É de esperar que com o espiritismo não se repita o que a-conteceu com o ideal cristão, ao converter-se em religião do Esta-do. Se a doutrina espírita se transformasse numa aliada do poder temporal, poderíamos dizer que estávamos diante de um novo fracasso do cristianismo. Entretanto, é de supor que essa mesma experiência histórica sirva para impedir um novo fracasso espi-ritual do homem. Desta vez, o novo espírito do cristianismo, con-substanciado no espiritismo, permanecerá fiel ao seu destino su-perior. A obra de redenção humana será cumprida, não obstante a orientação conservadora que ainda prevalece num setor do pen-

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samento humano.

 

46 A respeito do assunto deste último período, ver a obra de J. Herculano Pires, O Reino, lançada pela Edicel em sua Estante de Bolso. (Nota da editora).

 

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