O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização
II — O Marxismo e o Espírito
Humberto Mariotti ◆ O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização ◆ PENSE - Pensamento Social Espírita
Capítulo II
O MARXISMO E O ESPÍRITO
O marxismo, como gerador de um sentir materialista do
homem e da vida, vem sendo combatido por teóricos religiosos pertencentes a várias confissões eclesiásticas, que procuram mostrar os seus erros a respeito da realidade humana e espiritu-al. Todo esse trabalho poderá ser louvável para os que necessi-tam de um conceito espiritual com que enfrentar as contingên-cias sociais; mas, quando analisado com certa atenção, perce-be-se que sua finalidade é apenas uma defesa sectária.
Dizem-nos que no marxismo se elabora um partidarismo
da filosofia, e que o filósofo deve amoldar sua mentalidade aos interesses do partido. Mas, se bem considerarmos, vemos que ocorre o mesmo, quase com as mesmas características, no campo religioso: forja-se um partidarismo eclesiástico, condi-cionado aos interesses espirituais do partido religioso, pondo-se de lado o sentido real da busca da verdade.
Neste sentido, trava-se a luta entre duas concepções,
ambas com o mesmo direito à análise e à discussão. O grau democrático, alcançado pelo desenvolvimento das ideias, permite-nos hoje cotejar o valor das doutrinas e até mesmo dos dogmas religiosos. Consequentemente, já não se trata de atacar partidariamente o marxismo nem o materialismo dia-lético; o que agora interessa é saber positivamente onde se encontra a realidade do Espírito; se é que de fato se deseja superar o perigo representado pelo niilismo filosófico.
Atualmente não se trata de atacar sistemas, mas de saber
se eles são realmente falsos, e se as ideias que lhes contrapo-mos são reais e demonstráveis. Neste campo, a luta se trava entre o Espírito e a Matéria. Para o espiritualismo religioso, é
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na existência do Espírito que se radica a legitimidade do cristi-anismo e das verdades escatológicas. Pois se a existência do Espírito fosse uma irrealidade, todo esse sistema religioso seria derrubado, colocando-se em primeiro plano o materialismo e o marxismo. A ideologia marxista afirma que sua doutrina está fundada nas ciências, e que unicamente uma contraprova cien-tífica poderia obrigá-la a mudar de orientação. O espiritualismo religioso apresenta seus dogmas, fazendo uso da fé, numa po-sição de absoluta insuficiência para contradizer as posições do critério científico.
Como se sabe, o marxismo se funda na ciência expe-
rimental. Sobre essa base estabeleceu suas conclusões ma-terialistas, referentes à origem da vida, opondo-se assim tanto ao idealismo como à religião. Mas o que não devemos esquecer é que esta concepção marxista se baseia também na falta de provas positivas acerca do mundo sobrenatural, sobre o qual repousam a ideia de Deus e do Espírito.
Se o marxismo repele a espiritualidade do homem e da
história, não o faz por ódio a essa ideia, já que o pensador marxista possui, sem nenhuma dúvida, uma faculdade intelec-tual tão esclarecida e elevada como a do idealista e religioso. Consideramos que a repulsa do marxismo às ideias religiosas decorre da falta de provas que pudessem apresentar, tanto o idealismo como a Igreja. Por isso, a escola espírita admite que a cessação da contenda entre o espiritualismo e o materialismo se dará com o reconhecimento e a admissão do fenômeno me-tapsíquico e mediúnico, único fundamento real que obrigará as correntes materialistas a reconhecerem como verdadeira a exis-tência imortal do Espírito.
Mas a Igreja, e com ela o sistema idealista clássico,
repelem o conceito espírita da realidade; a primeira, por considerar o espiritismo como uma causa do demônio, e o
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derar o espiritismo como uma causa do demônio, e o segundo, por sustentar um critério nebuloso e ambíguo a respeito da espiritualidade do homem. Não obstante, o curso que vão se-guindo as questões morais obriga cada vez mais o pensamento filosófico a recorrer à realidade espiritual, apresentada pelo espiritismo, como o último recurso contra o avanço triunfal do conceito materialista da vida.
Como dizíamos, o marxismo repele toda ideologia espiri-
tualista por considerar que ela submete o homem econômica e socialmente, afundando-o na ignorância e na superstição. Por isso, sustenta que o espiritualismo, além de ser uma irrealidade, tem servido para apoiar os regimes reacionários e conservadores, e, nunca a liberdade e o direito das classes sem recursos.
Se o realismo marxista não for superado por um realis-
mo espiritual que ultrapasse os seus limites, a consciência ma-terialista continuará a impor-se e serão vãos os protestos dos idealistas e religiosos. As realidades espirituais, se de fato e-xistem, deverão ser expostas ao homem moderno com a mesma objetividade que caracteriza os fenômenos físicos e sociais. Defender ideologias abstratas é unicamente falar ou escrever em favor do partido político ou religioso a que se pertence. Se os espiritualistas querem demonstrar a existência de Deus e da imortalidade da alma, deverão abandonar o mé-todo dogmático. Agora, são os fatos que devem falar em favor da vida espiritual do homem. Entretanto, prefere-se defender o dogma e o partido, esquecendo-se de que o homem está a-cima dos interesses de seitas e de grupos.
Chegamos, porém, a uma situação em que o ser humano
tem grande necessidade de conhecer a verdade acerca da sua natureza teológica. Aspira, mais do que nunca, apegar-se a ela, para sobreviver ao desolador desastre espiritual da espé-
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cie. As doutrinas idealistas e religiosas deverão responder-lhe com verdades, e não com dogmas, já que o homem vale mais do que o partido e a igreja. Por isso, a verdade espiritual, as-sentada sobre os fatos, é a única que poderá defendê-lo do pe-
rigo social que o rodeia.
É necessário considerar que o homem não deve morrer
sem que lhe sejam ensinadas as autênticas verdades espirituais; não deverá ausentar-se deste mundo aceitando verdades que, depois da morte, lhe aparecerão como erros, conservados ape-
nas para a defesa de sistemas religiosos e sociais dominantes.
Não obstante, enquanto as instituições civis e religiosas
permanecem quietas, o progresso e a evolução fazem girar a roda do mundo, para comovê-lo desde os fundamentos. En-quanto as organizações religiosas aparentam estabilidade e segurança, a revolução espiritual está se operando no âmago das almas. E esta revolução subjetiva é a que promoverá a derrocada dessas organizações, que zelam somente pelos seus privilégios e seus interesses materiais. Acreditamos que o gri-to angustioso da alma humana, nos tempos atuais, merece o mais fraternal dos auxílios. Consideramos que o homem me-rece agora o nosso respeito, mais do que em nenhum outro
período da história.
Aqueles que dividiram o mundo em classes, setores e
partidos, deveriam abandonar sua atitude dogmática e recor-dar que a humanidade está no direito de conhecer a verdade espiritual, ainda que essa verdade possa afetar as instituições religiosas, já incapazes de oferecer provas sobre o destino es-catológico do homem.
O marxismo é uma rebelião contra os erros de toda or-
dem; não é somente uma força de caráter político: ele se diri-ge a todo o sistema espiritual existente, cansado de admitir
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suas erradas doutrinas, cujo único fim é manter nas trevas o pensamento humano. Assim, se a Igreja, e com ela o antigo espiritualismo, desejam opor-se ao marxismo, deverão fazê-lo por meio dos fatos, demonstrando que o metafísico e o sobre-natural existem, que são realidade. Mas, infelizmente, essas instituições carecem do aparelhamento necessário, com o qual deveriam sobrepor-se ao conceito materialista do marxismo. Continuam opondo-se ao espiritismo, o que prova que não buscam a salvação espiritual do homem, mas unicamente so-breviver, empregando para isso a força que lhe concedem os Estados materialistas.
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