O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização
XIX — A Mediunidade Social e o Advento da Espiritocracia
Humberto Mariotti ◆ O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização ◆ PENSE - Pensamento Social Espírita
Capítulo XIX
A MEDIUNIDADE SOCIAL E O ADVENTO DA ESPIRITOCRACIA
O ideal espírita, no sentido humanista, transforma-se nu-ma militância espiritual entroncada diretamente com o social. Neste particular, é preciso levar em conta que toda atividade do espírito, para ser efetivamente prática, deverá relacionar-se com o social e o popular. Jesus, o visionário mais nobre e puro que apareceu na Terra, não se isolou nem formou grupos de pessoas escolhidas; pelo contrário, pôs a Revelação do amor divino em contacto com o povo, porque sabia que a sorte das grandes ideias é encarnar nas massas para iluminá-las e por meio delas traçar rumos superiores ao destino humano.
O novo espiritualismo, se deseja desempenhar seu verda-deiro papel no mundo, deverá penetrar na alma popular e reali-zar, na vida íntima e externa do homem, o que não puderam fazer os ideais materialistas nem os sistemas religiosos. Infe-lizmente, as escolas espiritualistas mais conhecidas estiveram, na grande luta pelo progresso, ao lado dos poderosos, ou não se mostraram imparciais frente às injustiças humanas, argumen-tando que a missão de cada uma era apolítica e antissocial.
Em muitas oportunidades históricas, essas escolas servi-ram mais aos regimes da exploração humana do que aos justos anseios de reivindicações populares, como soube fazer o cristi-anismo nos primeiros séculos. Dizer, por exemplo, que o espi-ritualismo não tem uma missão social nem política torna-se inadmissível nos tempos atuais. Essa argumentação só poderia ser aceita nos tipos de espiritualismos misoneístas, como foi o caso do ocultismo alemão, ao pôr-se ao lado do nazismo. Mas, no que respeita ao espiritualismo espírita, a situação muda completamente, pois sua disposição ideológica se baseia num evolucionismo dinâmico e revolucionário.
154
Humberto Mariotti ◆ O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização ◆ PENSE - Pensamento Social Espírita
Já está demonstrado que é o espiritualismo espírita que fa-
rá enraizar-se a ideia do espírito e da sua palingenesia nas dou-trinas sociais, apoiando-se, como sabemos, em seu realismo mediúnico. Com ele, o idealismo se afirmará novamente, de olhos postos no porvir das almas e dos povos. O homem voltará a sonhar, de novo se acenderão as tochas do ideal romântico e a sociedade avançará para planos cada vez mais espiritualizados, firmando-se sobre a concepção palingenésica do Espírito.
Não nos esqueçamos de que as ideias emanadas do materi-
alismo se tornam infecundas para levantar a alma das nações até à redenção e à heroicidade. A voz sonora dos povos levantar-se-á harmoniosa e profética, por meio do espiritualismo espírita. As tribunas se converterão em cátedras do Espírito e se manifestará uma nova faculdade mediúnica: a mediunidade social, por meio da qual os fenômenos sociais, políticos e econômicos serão elu-cidados pelos Grandes Seres, que se comunicarão com a alma do povo para expressar ao homem e ao cidadão o verdadeiro signi-ficado da existência e das questões sociais.
Assim nascerá, no seio da civilização, uma nova demo-
cracia: a Espiritocracia, fundada na realidade espiritual do po-vo. Ela não se parecerá com aquela proclamada pelos ideólogos do capitalismo materialista, dentro da qual se movem como-damente três formas da antidemocracia: a Aristocracia, a Pluto-cracia e a Teocracia.
A mediunidade social se fará presente através dos autênti-
cos tribunos e oradores do espiritismo. Por meio dela, homens e espíritos se reunirão para impulsionar o progresso social e a ação dos reformadores. Sua irradiação será tão profunda que os espíritos antiprogressistas evoluirão sob a sua influência, pela simples ação das verdades proclamadas. Com a mediunidade social terá início uma nova modalidade de reivindicação hu-mana: a ideia de justiça se apresentará como consequência da inspiração dos espíritos. Não haverá, pois, necessidade de se
155
Humberto Mariotti ◆ O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização ◆ PENSE - Pensamento Social Espírita
continuar admitindo as formas de governo que obriguem o ci-dadão a respeitar o justo e o superior. A Justiça será uma inspi-ração dos sentidos da alma; desse modo, a Liberdade, a Igual-dade e a Fraternidade, reconhecidas por Allan Kardec como “o programa de toda uma ordem social” 54 se enlaçarão entre si, espiritualmente, para realizar as três soberanias de Geley: a Soberana Consciência, a Soberana Justiça e o Soberano Bem.
Por conseguinte, aquilo que denominamos mediunidade social será apenas um vínculo a unir o sentido de justiça da Terra com o sentido de justiça do além. Lembremo-nos de que a história foi sempre movida pela mediunidade social. As grandes forças coletivas são as que transformam a fisionomia das culturas e das civilizações; por isso, a mediunidade social não será somente de efeitos individuais; mais do que nunca será o resultado de efeitos coletivos e comunitários, porque sua ação estará dirigida aos grandes processos históricos para que as provas avancem, modifiquem-se e melhorem as suas estrutu-ras sociais e religiosas.
A mediunidade social abrangerá tanto a tribuna e o ora-dor, como as massas. Em certos momentos, os povos desenvol-vem um tipo de mediunidade coletiva, por meio da qual se pro-duzem as revoluções históricas, como a francesa e a russa. Sem elas, essas revoluções não teriam conseguido firmar-se, ante o conjunto de interesses que se lhes opunham. Porque, como vi-mos dizendo, o que é velho e conservador sempre se oporá ao que é novo e progressista.
As revoluções históricas têm um caráter de mediunidade social, que as torna invencíveis. O cristianismo esteve sob a influência da mediunidade social, e por isso pôde triunfar, em face ao poderio dos Césares, para chegar a ser o ideal moral e religioso da humanidade. O coletivo possui sempre uma dose
54 Obras Póstumas, Allan Kardec.
156
Humberto Mariotti ◆ O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização ◆ PENSE - Pensamento Social Espírita
de mediunidade; por isso é que o povo, no mais íntimo de seu espírito, é mediúnico, recebe as direções precisas, quando seu destino há de encaminhar-se para novos estágios de aperfeiço-
55
amento espiritual e social.
Como se verá, o espiritualismo espírita é o único que pos-
sui caracteres mediúnicos; por conseguinte, é ele que deverá dirigir-se aos povos, para que desenvolvam suas qualidades psí-quicas e metapsíquicas. Isto nos indica que povo e espiritualismo serão mediúnicos; assim poderão abrir-se no histórico, para su-bir, conduzidos pelo Espírito de Verdade, até um plano social onde o cristianismo possa tornar-se uma realidade vivente.
55 Os casos históricos de mediunidade social são numerosos, podendo ilustrar largamente esta bela tese de Mariotti. Todos os grandes livros religi-osos e os poemas clássicos da antiguidade são repositórios de exemplos nesse sentido. Veja-se o intercâmbio mediúnico na Ilíada e na Odisséia, de Homero; o povo hebreu conduzido na história, segundo a bíblia, pela medi-unidade-social de Abrão, Moisés e os Profetas; e, nos tempos modernos, o episódio de Joana D'Arc na França, estudado por Léon Denis em Joana D'Arc Médium, e assim por diante. O próprio Augusto Comte intuiu essa realidade histórica e a exprimiu muito bem, embora a interpretasse errone-amente, quando afirmou que os vivos são sempre e cada vez mais domina-dos pelos mortos. (Nota de J.H. Pires).
157