O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização
IX — A Imagem do Homem no Fenômeno Metapsíquico
Humberto Mariotti ◆ O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização ◆ PENSE - Pensamento Social Espírita
Capítulo IX
A IMAGEM DO HOMEM NO
FENÔMENO METAPSÍQUICO
Na ocorrência metapsíquica chamada materialização existe
algo mais do que um fenômeno: temos a imagem do homem e a face espiritual de sua individualidade. Não olvidemos que se esse fenômeno não tivesse uma raiz que mergulha no eterno, não revelaria, como sempre o faz, uma imagem e uma face espiritu-al. Seria constituído apenas de representações amorfas ou for-mações de figuras caprichosas, alheias à representação humana. Entretanto, no fenômeno metapsíquico, sempre se manifesta a imagem do homem, tão real e viva, que fala, sente e ama.
Que demiurgo caprichoso se compraz em manifestar-se
nesse fenômeno, não através de loucas fantasmagorias, mas revelando-nos um homem vivo, com a sua própria imagem e natureza? A esta pergunta podemos responder que: se na mate-rialização metapsíquica se apresenta a imagem humana, isso nos fornece a razão para repelirmos as doutrinas do materia-lismo e estabelecermos os lineamentos de uma biologia da al-ma, de uma nova concepção filosófica sobre o destino do Ser e da existência.
O fenômeno de materialização metapsíquica representa
um chamado ao sentido metafísico dos novos tempos. Omitir essa manifestação seria retardar o progresso da antropologia, de maneira que os interesses de sistemas ou de seitas não deve-riam prevalecer frente a um fenômeno que tão fielmente nos revela a imagem do homem e de seu espírito. Entretanto, essa espécie de traição ao homem espiritual foi consumada pelos próprios “estudiosos” da metapsíquica, temerosos de serem considerados espíritas.
Não obstante, a fenomenologia metapsíquica exige do fi-
lósofo uma nova definição do homem, pois a sua inegável rea-
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lidade nos permite afirmar que o ser humano é algo mais que um fato fisiológico. Para a filosofia espírita e o realismo me-tapsíquico, o homem é um dinamopsiquismo que ultrapassa a representação física do organismo, ainda que a idiossincrasia universitária, de caráter acomodatício, prefira uma metapsíqui-ca fisiológica, como a de René Sudre. 32
Mas não é para isso que o fenômeno metapsíquico nos mostra o seu mundo de aparições e desaparições, esse conjunto de fatos que estão revelando, com toda clareza, que o Espírito ultrapassa os centros nervosos e que possui um mundo espiri-tual independente das circunvoluções cerebrais.
Onde a metapsíquica se mostra grandiosa e co-movedora é precisamente quando nos revela a imagem do homem, viva e materializada, como se regressasse de um longínquo país. É en-tão que se evidencia, num fato supranormal que revoluciona todo o mundo conhecido da natureza, que a sua origem não é natural, como à força o querem biólogos, filósofos materialistas, e até certas correntes espiritualistas. Olvida-se que a metapsíqui-ca nos oferece uma visão nova do homem e do Universo, apresentando-nos ainda outras conclusões metafísicas e religiosas.
Com esta visão, o homem se nos apresenta como um po-der psíquico que incide sobre a sua própria morte, para superá-la, como um ser dotado da natureza imortal. Esta superação espiritual da morte, pelo homem, é a razão fundamental do fenômeno metapsíquico; por isso, a imagem do homem está presente em sua manifestação. Não esqueçamos que a fisiono-mia humana não se manifesta em nenhum outro fato da nature-za. Assim, se a metapsíquica no-la revela, é porque persegue
32 A posição metapsíquica de Sudre, vigorosamente refutada por Ernesto Bozzano, renova-se atualmente na parapsicologia, Os próprios trabalhos de Sudre estão sendo reeditados, no interesse de refutar as conclusões extra-físicas de Rhine. (Nota de J.H. Pires).
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algum propósito extraordinário, através do númeno que a con-duz e a determina.
William Crookes viu um espírito em carne e osso; viu um
Ser quase ressuscitado, que falava com os vivos e dava o nome de Katie King. O sábio inglês tocou sua carne e sentiu que era viva, real e quente, o que levou o grande fisiólogo espanhol Jaime Ferrán a dizer, referindo-se às materializações: “Temos de confessar que estas materializações constituem o grande enigma da metapsíquica. O fato de aparecerem formas de con-tornos vagos, dotadas de uma luminosidade especial, que aca-bam por adquirir o aspecto de órgãos, membros e até de figuras humanas completas, que falam, movimentam-se e respiram, exalando ácido carbônico; que têm pulsações arteriais, um co-ração que bate e a temperatura normal; que se desvanecem na presença dos espectadores e que, ainda quando seguradas fir-memente, se esvaem sem deixar o menor vestígio; ninguém poderá negar que realmente constitui um grande mistério.”33
Crookes comprovou também que essa materialização me-
tapsíquica tinha sangue de imortalidade,34 e que a imagem hu-mana de Katie King era tão positiva e real como se não proce-desse do outro mundo.
Mas por que a teologia, a teosofia hindu e os sistemas es-
piritualistas negaram a espiritualidade e a realidade desse as-sombroso fenômeno? Por que negaram a prova da existência imortal do Espírito, quando a tiveram diante dos olhos?
Acreditamos que a negaram porque se haviam esquecido
das próprias aparições de Cristo depois da morte, essas divinas manifestações do Espírito de Jesus, que inauguraram para sem-
33 Do prólogo ao Tratado de Metapsíquica, de Charles Richet, edição espanhola.
34 “Sangue de imortalidade”, expressão vigorosa com que o autor se refere à natureza humana do fenômeno. (Nota de J.H. Pires).
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pre, diante da humanidade e da história, a relação permanente entre os vivos e os mortos, como um prenúncio do que seria a ciência espírita do futuro. Assim, as ciências espirituais que não aprovam as manifestações de entidades invisíveis tornam-se superficiais e falíveis, divorciam-se das antigas modalidades do cristianismo.
A investigação metapsíquica racionalizou a busca da i-mortalidade da alma. Aplicando-lhe o método científico, trans-formou em matéria experimental o que antes se considerava exclusivamente como sobrenatural ou pertencente à especula-ção teológica. Deste modo, o que se acreditava ser do domínio religioso passou para o domínio científico; consequentemente, a razão pode agora buscar uma nova fé, através dessa “teologia experimental” a que se referiu Jaime Ferrán, ao tratar da obra metapsíquica do professor Charles Richet.
O organismo humano, segundo a metapsíquica, possui um dinamopsiquismo que não depende dos centros nervosos. É por isso que a velha teoria do paralelismo psicofisiológico se des-morona ante a terrível metapsíquica, pois esta revela fenôme-nos decisivos a respeito, que constituem verdadeira contribui-ção de um grande númeno espiritual, encarregado de espirituali-zar o conhecimento humano. Segundo as provas metapsíquicas, o Ser é uma força divina que dirige e condiciona o seu próprio desenvolvimento orgânico e espiritual, submetendo-se para isso à maravilhosa lei dos renascimentos.
As teorias puramente naturalistas passam assim a ocupar um lugar secundário, já que o conhecimento metapsíquico dota o homem de um novo sentido filosófico e religioso. A ideia está recobrando sua primazia na ordem do conhecimento, mas com acento revolucionário, pois o idealismo da metapsíquica não se parece em nada com o velho idealismo escolástico. A filosofia idealista que emerge dos fatos sobrenaturais vem con-firmar o caráter dinâmico e revolucionário do espiritismo. Em
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consequência, o homem metapsíquico é totalmente diferente do homem materialista, tendo possibilidades de ampliar os senti-dos humanos e até mesmo de dotar a espécie de órgãos psíqui-cos que modificarão as atuais noções de tempo e espaço. Os cinco sentidos do homem comum poderão ser ampliados por um sexto sentido, nexo psíquico que conectará a espécie com as realidades do mundo espiritual.
De acordo com a filosofia espírita, a imagem do homem
mudará, porque tudo está destinado a renovar-se. Deus não deu à criatura humana uma imagem definitiva, mas uma face espiri-tual que se irá transformando com a evolução. Porque o Ser é uma entidade que avança para a imagem de Deus, através do grande processo palingenésico a que está sujeito, adentrando-se cada vez mais no Divino Plano do Universo.
À luz da filosofia espírita podemos dizer que a metapsí-
quica é a ciência dos fenômenos espirituais. Por esta ciência da Alma, como a chamaram Ernesto Bozzano e Charles Richet, a humanidade conhecerá a verdadeira senda espiritual que deve percorrer. Mas isto só acontecerá quando cessarem as rivalida-des religiosas e ideológicas. Então se reconhecerá, para o bem da espécie, que no fenômeno metapsíquico está presente a ima-gem do homem desencarnado e que o espiritismo será o traço de união entre o materialismo e o espiritualismo clássicos.
O espiritualismo kardecista guarda esse elo perdido, o ne-
xo que reconciliará o pensamento materialista com o espiritua-lista. A tese de Gustave Geley, que sustenta não haver matéria sem espírito, nem espírito sem matéria, mostra-nos o enlace do elemento material com o elemento espiritual. Reconhecido o fenômeno metapsíquico como uma manifestação da substância ectoplásmica, será fácil compreender que matéria e espírito “são duas realidades que se conjugam, já que o desenvolvimen-to espiritual e físico resulta da união entre o corpo e a ideia. Assim se reconhecerá que não existe materialismo nem espiri-
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tualismo puros. Ambos os sistemas participarão reciprocamen-te dos seus respectivos elementos e o que antes os separava, agora os aproximará, demonstrando que o materialismo possui valores para o espiritualismo e o espiritualismo valores para o materialismo. 35
A metapsíquica contribuirá enormemente para esta inter-relação de ambos os sistemas, devido à realidade biológica e espiritual revelada pelos seus fenômenos de materialização, que vieram confirmar a tese de que uma essência una anima e movimenta a vida de todo o Universo. 36
35 Kardec afirmou que o espiritismo e as ciências devem avançar juntos, porque tratam respectivamente dos dois aspectos fundamentais do Univer-so: o espírito e a matéria. (Ver a introdução de O Livro dos Espíritos e A Gênese) Léon Denis, em O Gênio Celta e o Mundo Invisível, declara que o espiritismo avança para a realização da síntese do conhecimento, reunindo o saber espiritual e o material. Mariotti reafirma essa tese epistemológica da filosofia espírita. (Nota de J.H. Pires).
36 A metapsíquica é considerada pelo autor como uma espécie de campo científico do espiritismo, uma zona intermediária em que o biológico e o anímico se encontram, dando lugar às manifestações ectoplásmicas que sintetizam espírito e matéria. (Nota de J.H. Pires).
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