O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização

Humberto Mariotti · Capítulo 14 de 23

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O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização

2ª Parte - para uma Doutrina Social da Filosofia Espírita

Humberto Mariotti ◆ O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização ◆ PENSE - Pensamento Social Espírita

 

2ª PARTE

 

PARA UMA DOUTRINA SOCIAL

DA FILOSOFIA ESPÍRITA

 

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Capítulo XI

A FILOSOFIA ESPÍRITA EM

MEADOS DO SÉCULO 20

Com a evolução do pensamento humano a filosofia espíri-

ta vem adquirindo por gravitação de seus próprios valores espi-rituais, um posto cada vez mais concorde com sua finalidade: espiritualizar a consciência humana por meio da ciência, da filosofia e da religião. Isto é, por meio das suas três grandes estâncias que orientam o homem de acordo com as ressonân-cias psicológicas de cada temperamento.

Deste modo, a filosofia espírita é, como já se afirmou, um

fator importante para o porvir da cultura, já que nos meados do século 20 chegou-se à conclusão de que o temperamento humano se desenvolverá graças a essas três estâncias que são a ciência, a filosofia e a religião. Ao contrário, as culturas anteriores separam entre si esses três ramos do conhecimento e foi assim que se tra-varam ásperas lutas ideológicas entre os partidários de cada uma dessas disciplinas, pois o que afirmava o saber científico de um lado era negado pelo outro, o saber religioso. Dividiu-se assim o pensamento ideológico da humanidade em dois setores: os que se apoiavam na ciência e os que acreditavam na religião. Este fenô-meno criou um tipo de humanismo antropocêntrico, o que quer dizer: absolutamente divorciado da ideia de Deus e do Espírito.

A Revolução Francesa muito contribuiu para o advento des-

te estado de coisas, com o reconhecimento exclusivo da Deusa Razão. Se é certo que foi ela quem proclamou os direitos do ho-mem e do cidadão, juntamente com a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade, não obstante isso, provocou o espírito de separativi-dade entre a ciência e a religião. Isto nos mostra que o progresso apresenta alguns fatos obscuros que somente o tempo conseguirá esclarecer, de maneira que os fenômenos históricos, contraditórios ao se produzirem, resultem, mais tarde, claros e lógicos.

 

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O positivismo de Augusto Comte e o materialismo mo-derno negaram toda classe de relação entre o método científi-co e o religioso. Este fato teve como consequência conformar uma filosofia niilista, negando o sentido transcendente do homem e a finalidade inteligente do Universo. O materialismo dialético precisou melhor a distância entre a ciência e a religi-ão; entretanto, esta separação não podia durar muito, dada a sua falta de fundamento.

O espiritismo iniciou, com sua magnífica fenomenologia metapsíquica, a reconciliação entre a ciência e a religião e, por conseguinte, entre o materialismo e o espiritualismo. Allan Kardec foi quem completou a obra, estabelecendo a aliança da ciência com a religião, ao compreender que a mesma realidade essencial existe nessas duas formas de conhecimento.

Quanto à perdurabilidade e vigor da ideologia espírita, podemos dizer que está segura de não ser ultrapassada por ne-nhuma outra concepção doutrinária. Ainda que os contratem-pos sejam numerosos, não poderão paralisar jamais o desen-volvimento dos seus princípios. De maneira que o seu futuro está assegurado e acreditamos que a veremos sempre dinâmica e revolucionária para secundar o adiantamento tanto dos espíri-tos como da civilização e da cultura. Kardec não declarou sem motivo que o seu destino é marchar de acordo com o progresso e com as novas ideias.

Com efeito, os fundamentos do espiritismo, em vez de se desfazerem, são confirmados pela modificação que se opera nos princípios da própria biologia. Para muitos homens de ci-ência, entre eles o biólogo francês Pierre Leconte de Nouy, a evolução já não corresponde apenas às combinações fisioquí-micas; agora observamos nela a manifestação de uma ideia impulsionada, ao que parece, por uma Vontade Soberana.

 

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Outro famoso biólogo, Gustave Mercier, escreveu uma

obra intitulada O dinamismo ascensional, em que desenvolve uma concepção da vida como fenômeno de caráter universal, que a evolução faz avançar a partir dos estratos inconscientes regidos pelo determinismo, até as elevadas esferas da liberda-de. Vejamos qual é o seu pensamento filosófico.

“A criação — escreve — está sempre em curso, quantita-

tivamente. O Universo tem-se desenvolvido sobre si mesmo por seu próprio desenvolver, reunindo o trabalho e os esforços de todas as partes individualizadas.

O que chamamos vida deriva da organização total, que

não tem limite inferior. O átomo, sendo organizado, é vivente. Nenhum elemento separa o mundo mineral do chamado orgâ-nico. A consciência marca o acesso a um estado superior, o da espiritualidade, que biologicamente se define como uma con-quista do tempo e do espaço, como uma posse de si mesmo, conduzindo à posse de uma porção crescente do Universo e à liberação progressiva das leis materiais.

Existe uma identidade de natureza entre a energia e a es-

piritualidade humana, permitindo a esta última a conquista progressiva e a posse, pela consciência, dos planos sobre os quais se edifica o Universo.

O Universo leva em si mesmo a sua razão suficiente e a

sua justificação. Da mesma maneira, é o homem quem consti-tui, a seguir, a sua peça essencial e que, pelo desenvolvimento de sua espiritualidade, deve elevar-se até a Fonte Suprema que enriquece com o seu esforço.”

Outro sábio, Alberto Vandel, professor de zoologia da Fa-

culdade de Ciências de Toulouse, em seu livro O Homem e a Evolução, declara:

 

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“Se a evolução é antes de tudo o desenvolvimento do es-pírito, emergência da consciência fora do material e do orgâ-nico; se o pensamento representa o modo superior do Ser, co-mo a energia é a forma nobre da matéria, o sentido da voca-ção humana não pode ser posto em dúvida. O homem deve esforçar-se por subtrair-se ao domínio das influências materi-ais, hereditárias, familiais e raciais, que procedem de suas origens orgânicas, a fim de integrar-se a fundo na imensa a-ventura espiritual em que se joga o destino do mundo.

Na escala humana — continua — todo progresso real só se pode inscrever sobre o plano do espírito. Será por um cons-tante esforço de profundidade e de ampliação interiores que o homem cumprirá seu próprio destino, ao mesmo tempo que participará da obra universal.

A moral da necessidade e do interesse pessoal, que se a-limenta nas mesmas fontes da atividade animal, é incapaz de satisfazer àquele que penetra o sentido e o valor da tarefa hu-mana. O homem deve trabalhar na obra coletiva que, por sua vez, o faz progredir e o integra no desenvolvimento universal; e será num total dar-se a si mesmo e num comprometer-se sem reservas, que extrairá força, confiança e alegria.”

Lincoln Barnett, autor de um livro intitulado Einstein e o Universo, pode-se dizer que corrobora esta nova cosmovisão, que está sendo elaborada no terreno científico, abrangendo o homem e o seu destino:

“Na evolução do pensamento científico — escreve Barnett — um fato aparece infinitamente claro: não há mistério do mundo físico que não conduza a um mistério que ultrapassa a nós mesmos. Todas as grandes rotas da inteligência, todas as sínteses de teorias e conjecturas, conduzem finalmente a um abismo que a natureza humana não pode transpor. Quanto mais se amplia o seu horizonte, tanto mais se vê obrigado a reconhe-

 

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cer, como o disse o físico Niels Bohr, que “somos ao mesmo tempo espectadores e atores, no grande drama da existência.”

O próprio Albert Einstein, que revolucionou os caminhos

da ciência moderna, sentiu essa grandeza e profundidade do Universo, de cuja contemplação concebeu o que chamou a re-ligião cósmica, em contraposição à religião-terror, como ele dizia, referindo-se às religiões terrestres, baseadas nas mesqui-nhezas humanas. O espiritismo forja a sua filosofia no Infinito, e sua grandiosa concepção palingenésica do homem e da natu-reza revela essa mesma visão espiritual do Cosmos.

“A mais bela e profunda emoção — declarou Einstein —

que possamos experimentar, é a sensação mística. Ela é a se-mente de toda ciência verdadeira. Aquele a quem esta emoção é estranha, que já não tem a possibilidade de assombrar-se e ser tocado por esse impacto, é como se estivesse morto. Saber que o que nos é impenetrável realmente existe e se manifesta através da mais elevada sabedoria, da mais resplandecente beleza, —- sabedoria e beleza que nossas débeis faculdades só podem alcançar em sua forma primitiva — este conhecimento, este sentimento, está no centro da verdadeira religião.”

O pensamento científico, como se pode ver, aproxima-se

do sentimento religioso, que engendra na alma a nova aprecia-ção filosófica do Universo. O espiritismo proclamou a existên-

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cia da lei de adoração porque o espírito humano, sendo de natureza divina e imortal, cada vez mais se aproximaria do pro-fundo mistério da criação, para amá-lo e reverenciá-lo. Essa mesma lei de adoração nos mostra que o melhor templo do homem é o Cosmos, no qual se unirá diretamente à vida divina, pela prática e reconhecimento dessa religião cósmica, procla-mada muito acertadamente pelo próprio Albert Einstein.

 

39 Allan Kardec - O Livro dos Espíritos - As Leis Morais.

 

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