O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização

Humberto Mariotti · Capítulo 15 de 23

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O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização

XII — A Filosofia Espírita e o Pensamento Atual

Humberto Mariotti ◆ O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização ◆ PENSE - Pensamento Social Espírita

 

Capítulo XII

A FILOSOFIA ESPÍRITA E

O PENSAMENTO ATUAL

A filosofia espírita só estará definitivamente arraigada no mundo no dia em que se dedicar à consideração filosófica, social e religiosa da chamada luta de classes. O problema des-ta luta absorve quase toda a atenção do homem contemporâ-neo. Seria um erro não reconhecer que todo pensamento espi-ritualista dos novos tempos só avançará se souber enfrentar esse tremendo conflito, que se desenvolve entre as classes sociais. Não olvidemos que todo progresso da cultura só é possível no plano da consideração histórico-social. A filosofia espírita, se não tomar uma orientação desse caráter, realmente definida, tal como se deduz do kardecismo, ver-se-á diminuí-da e reduzida em sua ação, frente ao problema transcendental das questões sociais.

A consciência do histórico-social deverá ser permanente nos espíritas, para que compreendam o papel que cabe ao es-piritismo na evolução da humanidade. Essa consciência tem suas raízes tanto em seu próprio caráter coletivo, como no movimento de massas que o espiritismo desenvolve. Se a filo-sofia espírita representa essencialmente o desenvolvimento individual dos espíritos é, além disso, um movimento civil que, depois da redenção espiritual, oferece também uma re-denção social.

O destino da ideologia espírita no histórico-social é seme-lhante ao do cristianismo, que possui um caráter privado, concer-nente ao íntimo do indivíduo e um aspecto coletivo, conectado com os problemas sociais. O coletivo é um fator espiritual impor-tante para conseguir-se a incorporação do pensamento espírita à intelectualidade contemporânea. Se os valores espíritas permane-cerem à margem do social, isso retardará muito a conquista do

 

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mundo material pelo espiritismo, pois a penetração de sua ideolo-gia espiritual no histórico-social colocaria de forma definitiva a ciência espírita na tábua dos valores filosóficos e religiosos. Des-sa maneira, o pensamento contemporâneo reconhecerá a filosofia espírita como o resultado de um novo estado de consciência, em desenvolvimento na Terra.

O mundo é um cenário que pertencerá aos espíritas atra-

vés da ação coletiva que desenvolvem. Sem o mundo e a soci-edade, o espiritismo será apenas um fato individual; sua ideo-logia, porém, deverá transfigurar não somente a alma do indi-víduo, mas também a alma coletiva do mundo. Daí se conclui que a luta de classes é um tema eminentemente espírita, já que sua raiz fundamental está ligada ao desenvolvimento de cada espírito. Esta causa, entretanto, não deve impedir que se con-siderem os efeitos individuais e coletivos produzidos por esse desenvolvimento, aduzindo razões palingenésicas. A razão de um melhor conhecimento espiritual da luta de classes permiti-rá aos espíritas considerá-la com maior penetração filosófica, sobrepondo-se assim ao critério do sociólogo materialista.

Em consequência, toda ação espírita, para ser real e efeti-

va, deverá seguir os passos de Jesus. Não nas esqueçamos de que o Nazareno, para pregar sua doutrina, não se valeu unica-mente de pequenos núcleos ou de algumas associações de seu tempo. Jesus deu a conhecer suas divinas verdades pondo-se em contacto com a realidade social da época, ou seja, com as massas desorientadas de então, famintas e humilhadas pelo poder estatal dos poderosos. A filosofia espírita, que é, em essência, a mesma pregada pelo Nazareno, deverá dirigir seus esforços para o histó-rico-social, procurando interpretar a luta de classes através dos princípios criadores da Terceira Revelação.

Poderiam dizer-nos que isto seria imiscuir-nos em assun-

tos sociais e políticos, mas ai do movimento espiritista se não se decidir a ensaiar uma sociologia espírita, acerca dos diversos

 

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fenômenos da coletividade! Por isso, sua interpretação da luta de classes será eminentemente dinâmica, ultrapassando todo critério estático que justifique as difíceis situações sociais do cidadão. O espiritismo determina um novo destino para o Ser encarnado, não obstante a gravitação moral que a lei de causa-lidade exerça sobre o indivíduo. Por ser o cristianismo nova-mente revelado, lutará constantemente contra um mundo im-perfeito e a rigidez mecânica da lei de causas e efeitos. além disso, ao despertar no homem uma nova consciência sobre o bem e o mal, dará ao espírito um novo direito: o de libertar-se desses carmas cegos e inconscientes, pois todo destino inferior poderá ser modificado, quando o Ser reconheça sua natureza palingenésica.

A filosofia espírita, por seu profundo sentido cristão, combaterá toda espécie de dores e injustiças, tratando de transformar o mundo para fazê-lo menos imperfeito e menos trágico. Mas essa visão cristã nos mostrará também que o homem deverá nascer de novo, se desejar entrar no Reino dos Céus; anulará assim a luta de classes, pelo reconheci-mento fraternal dos espíritos. Pois, quando cada espírito en-carnado reconhecer os demais como companheiros de outras épocas históricas e de outras existências, então os ódios e rancores produzidos pela desigualdade econômica desapare-cerão e serão esquecidos.

A ideia da pluralidade das existências está-se propagan-do cultural e popularmente, mas sem um verdadeiro conteúdo histórico-social. O conceito estático que ainda predomina na condução do movimento espírita é o que o impede de alcançar uma filosofia do destino individual que sintonize com a dinâ-mica criadora do ideal palingenésico. Olvida-se ainda que o espiritismo é uma revolução espiritual, que avança com o progresso dos espíritos encarnados e desencarnados, razão por que é o único pensamento filosófico capaz de penetrar nos

 

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abismos do destino, para transfigurá-lo por meio das forças divinas do amor cristão.

A evolução social, ao avançar paralelamente com o es-

piritual, redundará na harmonia e na fraternidade. E assim que se produzirá o que qualificamos como reconhecimento dos espíritos encarnados entre si e uma transfiguração espiri-tual da luta de classes. Mas isto só se alcançará se os espíri-tas se entregarem ao estudo das questões sociais, abando-nando o conceito conservador que ainda sustentam em suas considerações sociológicas, em contradição com as conside-rações de Kardec, que afirmou:

“Uma nova ordem de coisas tende a estabelecer-se e os

mesmos que a isso se opõem com mais empenho são os que mais o ajudam, sem sabê-lo; a geração futura, desembaraçada das escórias do velho mundo e formada com elementos mais depurados, estará animada de ideias e sentimentos muito dife-rentes dos da geração passada, que desaparece a passos de gigante. O velho mundo terá morrido e só viverá na história, como morreram os tempos da Idade Média, com seus costumes bárbaros e suas crenças supersticiosas.

A geração que desaparece levará consigo suas preocupa-

ções e seus erros; a geração que surge, alimentada em fontes mais puras, imbuída de ideias mais sadias, imprimirá ao mun-do um movimento ascensional no sentido do progresso moral que deve marcar a nova face da humanidade.”

Como vemos, Kardec era um progressista e um sociólogo,

com vistas ao futuro da sociedade humana; por isso via na filoso-fia espírita um dos melhores instrumentos para dar impulso à marcha da evolução individual e coletiva. A esse respeito, escre-veu: O espiritismo tem que desempenhar um grande papel neste movimento regenerador; não o espiritismo inventado por uma crítica maligna e cética, mas o espiritismo filosófico. (A Gênese).

 

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Onde Kardec mostra a verdadeira posição do espiritis-mo, frente ao pensamento moderno, é quando escreve: “A nova geração marchará, pois, para a realização de todas as ideias humanitárias compatíveis com o grau de adiantamen-to a que tenha chegado. O espiritismo, que aspira ao mesmo fim e realiza as suas metas, encontrar-se-á com ela no mes-mo campo.”

A respeito dos homens refratários ao progresso, Kardec opinou do seguinte modo:

“Aqueles cujos interesses materiais estão ligados ao presente estado de coisas e que não se acham bastante adiantados para deles se desprenderem com abnegação e a quem o bem geral importa menos que o pessoal, não podem ver sem receio nenhum movimento reformista. A verdade é para eles uma questão secundária ou, melhor dizendo, a verdade para certas pessoas está toda naquilo que não lhes causa extorsão alguma; todas as ideias progressistas são para elas subversivas, e por isso lhes votam um ódio implacável e lhes fazem encarniçada guerra.”

Como vemos, Kardec não estava de acordo com os tími-dos nem tampouco com os espíritas misoneístas. Para ele, a condição de espírita militante significava um estado mental que superara as antigas formas do pensamento, sendo essa a razão de haver escrito: “O espiritismo, marchando com o progresso, nunca sê verá derrotado nem superado, porque, se novos des-cobrimentos lhe provarem que está em erro num determinado ponto, ele se modificará nesse ponto, e se uma verdade nova se revelasse, ele a aceitaria”. (A Gênese).

O pensamento adiantado e dinâmico de Kardec mostra-nos que os seus discípulos deveriam ser lídimos representan-tes da evolução humana. Lembremo-nos de que o idealismo espírita é uma força criadora, que incide sobre o caráter, fa-

 

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zendo surgir o homem dinâmico ante as contradições da e-xistência. Seu ideal é como um sonho ligado diretamente com o futuro; é a poderosa antena que permite às almas dia-logar com o invisível; saber quais os dramas e as grandezas que nos reserva o mundo desconhecido de amanhã. Sua vi-são renova a mente, ilumina o horizonte filosófico do ho-mem e revela um novo Deus no grande Plano do Universo. Por ele ouvimos as harmonias cósmicas como longínquas e desconhecidas músicas, revelando que tudo se enlaça na na-tureza e na história e que tanto reis, príncipes e camponeses, como ricos e proletários, todos são atores de uma grande epopéia espiritual, que tem como magnífico cenário os mun-dos e os sóis.

O ideal espírita é inspiração para os visionários, canto de

esperança para os poetas e força criadora para os reformadores. Incita o que ama a penetrar no mistério das almas e a descobrir a profunda história dos mundos e dos destinos individuais e coletivos. Ilumina de amor os olhares, acende a fé nos corações e dá asas aos espíritos. Kardec e Denis sonharam com valentes discípulos deste tipo ideológico, isto é, com atletas da verdade, com mártires das revoluções e com homens-colunas para a luz do pensamento divino.40

É indubitável que todo espiritualista espírita deveria pos-

suir uma mentalidade socialista ao considerar os graves pro-blemas econômicos e sociais que afligem o mundo contempo-

 

40 Léon Denis deixou escrito, mas não publicado em volume, o seu último livro intitulado Socialismo e Espiritismo. Os capítulos foram publicados na Revista Espírita e devem ser reunidos para uma edição atual. Veja-se o relato desse episódio nos livros Vida e Obra de Léon Denis, de Gaston Luce, e Vida Intima de León Denis, de Claire Baumard. Ambos serão lança-dos na “Coleção Vidas Missionárias”, da Edicel. (Nota de J.H. Pires). Vida e Obra de Léon Denis foi lançada pela Edicel em 1968. Léon Denis na Intimidade e Socialismo e Espiritismo, pela editora O Clarim, em 1982. (Nota do Pense).

 

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râneo. O espiritualismo espírita é a mais segura concepção ide-ológica com a qual se pode desenvolver uma exata interpreta-ção idealista do homem e da história. Pois tudo quanto se afir-me, para idealizar o processo econômico da história, será insu-ficiente, se essa idealização não estiver apoiada por fatos espirituais evidentes.

Propiciar, como se pretende, uma revolução romântica, no tocante às estruturas sociais, sem bases firmes e profun-das, é perder tempo, em meio a uma voragem materialista que tudo envolve e atropela. Não nos esqueçamos de que o idealismo revolucionário somente poderá arraigar-se nos espíritos quando o espiritualismo espírita for capaz de orga-nizar uma grande força social, sobre as bases de uma autên-tica realidade espiritual.

As forças revolucionárias não são privativas das ideologi-as materialistas, se se considerar que, do ponto de vista filosó-fico, essas ideologias são incapazes de resistir à destruidora influência das concepções niilistas. A teoria espírita, ao contrá-rio, pode infundir fortaleza moral no campo da ação, porque somente uma verdadeira ideologia espiritual será capaz de promover uma verdadeira revolução que substitua o sistema materialista sobre o qual se desenvolvem o homem e a socie-dade atuais.

Dissemos que o espiritualista espírita deveria possuir uma mentalidade socialista, por não conceber-se outro tipo conserva-dor ou aferrado às velhas concepções ideológicas. Acreditamos que a espiritualização do socialismo, cuja essência verdadeira acha-se na ideia cristã, será obra do novo espiritualismo que se desprende do kardecismo, como a socialização do espiritualismo se produzirá pelas necessidades espirituais da sociedade socialis-ta. Em consequência, o lugar dos espíritas será a sociedade, sem por isso descuidar das grandes leis psíquicas e espirituais, que enlaçam entre si os três reinos da natureza.

 

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Dissemos isto porque é chegado o tempo de falar também

de um socialismo dos animais, isto é, de nossos irmãos meno-res, completamente esquecidos pelos grandes doutrinadores do pensamento socialista marxista. Entretanto, a filosofia espírita lançará as bases de um socialismo que considere o processo evolutivo dos animais, já que a futura sociedade tem de organi-zar-se sobre os fundamentos da evolução universal, que abran-ge minerais, vegetais, animais e homens. Desse modo, o socia-lismo fundará a sociedade dos espíritos, visíveis e invisíveis, vinculados entre si pela unidade substancial da vida. Surgirá em consequência o socialismo do Espírito, através do qual se avançará para a fraternidade mundial e cósmica. É assim que se dará o advento do verdadeiro socialismo, é assim que a socie-dade materialista, fundamentada no capitalismo privado, será substituída por uma grande associação das almas, cuja raiz se acha no ideal de Jesus. 41

 

41 René Hubert, filósofo e educador francês, considera, em seu Tratado de Pedagogia Geral, que a educação tem por finalidade a preparação da Socie-dade de Consciências ou República dos Espíritos, onde os valores predomi-nantes não serão os materiais, mas os morais e espirituais. Em Esboço de uma Doutrina da Moralidade, contestando a natureza metafísica desse ideal, enunciado por Kant, afirma Hubert: “É na existência fenomênica, na realidade em que vivemos, que a sociedade dos espíritos é chamada a realizar-se, se a razão posta a seu serviço revelar-se suficientemente enérgica”. Como se vê, as considerações de Mariotti concordam com as de Hubert, cujos livros serão lançados em português pela Edicel. (Nota de J.H. Pires).

 

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