O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização
XVIII — A Política e o Dinheiro
Humberto Mariotti ◆ O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização ◆ PENSE - Pensamento Social Espírita
Capítulo XVIII
A POLÍTICA E O DINHEIRO
Como sabemos, a lei palingenésica traz consigo uma nova
atitude espírita, em face do mundo e dos seus valores. A políti-ca e o dinheiro, dois instrumentos por meio dos quais o homem poderá realizar outras etapas da evolução, assumem, vistos espiritualmente, outras interpretações, que diferem completa-mente das do mundo antigo.
A política, como ciência e arte de governo, deixará de ser
uma palavra vazia, como ocorre ainda na cultura contemporâ-nea. Será, pelo contrário, não somente a ciência de governar, mas também se transformará numa ciência do Espírito encar-nado. Sua visão será dirigida para dois motivos fundamentais: o espírito e a pessoa moral. Portanto, se o espírita se movesse e atuasse de acordo com o pensamento clássico da sociedade, não contribuiria em nada para a renovação do mundo, e sua alma estaria vazia de riquezas espirituais. Ao contrário, se o espírita se relaciona com a sociedade, ao renovar seu mundo interior, forçosamente terá que modificar seu mundo exterior, isto é, a organização social onde desenvolve o seu Ser, dando lugar assim a uma verdadeira política do espírito encarnado.
Segundo a filosofia espírita, a política é um fenômeno so-
cial que tem sua origem na essência ética do indivíduo, razão pela qual o cidadão se manifesta não somente como um ser moral, mas também como um ser político. O homem adquire, por este ser político, o direito e a obrigação de participar do progresso social, mas com um conceito totalmente distinto do conceito da política clássica, que irremediavelmente conduzirá ao desmoronamento do Estado contemporâneo.
Se, como vemos, a natureza política do cidadão é inerente
à essência espiritual do Ser, isso determinará fenômenos de ação social e civil na vida material do Espírito. Inclina-lo-á,
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primeiramente para uma reflexão sobre o estado social da Terra e depois para a necessidade de interferir nas partes mais afeta-das dessa situação. Dessa maneira, a essência espiritual do ho-mem irá preparando um organismo social no qual possa renas-cer com um estado de consciência mais em harmonia com a lei de progresso.
Assim, as formas políticas alcançarão seus caminhos na-turais, visto que toda a legislação social será a manifestação do nível moral alcançado pelo cidadão, e não será devida aos in-trincados artigos de códigos que, em geral, sempre se inclinam em favor dos privilegiados. A visão do espiritismo não é a mesma das religiões eclesiásticas, que têm desfigurado os pro-cessos espirituais do homem e da sociedade. A filosofia espíri-ta, pelo contrário, permite ao indivíduo a conquista de superio-res estados de consciência, que ajudarão o cidadão a se colocar em seu verdadeiro meio social, para realizar sua evolução em contato com a moral e a ciência, enquanto as ideias dogmáticas desnaturam o ser político do homem, com vãs promessas ultra-terrenas.
Foi por isso que o homem misoneísta, de temperamento eclesiástico, mostrou-se sempre contrário à evolução do mun-do, negando-se a tomar a alavanca propulsora desse processo. Seu desejo era o de que as coisas continuassem com as mesmas estruturas de sempre. Isto nos explica porque a religião emana-da de certas igrejas tem tanto apego à tradição e às coisas supe-radas pelo progresso.
A essência íntima do espírito é evolutiva, porque vem projetando luz não somente ao seu redor, mas também sobre todos os aspectos da criação. Sendo, pois, de essência criadora, o espírito construirá um novo ser e um novo estar no mundo, e consequentemente, outro conceito político do homem.
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Vejamos agora em que se funda o amor ao dinheiro, e que
papel desempenharão os espíritas em face desse problema.
A sofreguidão pelo dinheiro é causa de um instinto que
se perpetua na civilização cristã, em virtude dos bens indivi-duais, cuja origem tem suas raízes no que se denomina espíri-to possessivo. O homem desprovido de noção sobre a imorta-lidade espiritual — e falamos do homem histórico, que so-mente se ateve à realidade visível — inclinou-se para o valor das coisas materiais, delas fazendo-se escravo. A maior quan-tidade de riquezas acumuladas lhe proporcionou maior felici-dade e bem-estar; assim, guiado por este conceito, lançou-se à conquista de tudo quanto encontrava em seu caminho. Deste modo sobrevieram as guerras, organizaram-se diversos siste-mas sociais, e por fim estabeleceu-se a propriedade, no curso da história, como uma lei de economia política. As religiões declararam-na dogma de origem divina, e todo o desenvolvi-mento da humanidade realizou-se sob tão nefasto princípio. Sobre esta base, a moral tornou-se uma mentira, pois, onde quer que impere o sentido possessivo das coisas, existem o ódio, a calúnia e as guerras de conquista.
Tornaram-se mentira, também, a religião e a filosofia, se
levarmos em consideração que, no referido sistema social, estas forças espirituais servem somente para justificar as leis e processos que se empregam na defesa do conceito anticristão de propriedade. Nos novos tempos, somente o espiritualismo espírita poderá demonstrar a irrealidade da chamada proprie-dade individual. O espiritismo, ao desmaterializar os fenôme-nos materiais, anula a razão do espírito de posse sobre as coi-sas. A única propriedade de seu reconhecimento são os valo-res morais acumulados pelo homem em sua eterna ascenção, através de seus renascimentos. Além disso, afirma o ideal espírita que o sistema individualista das coisas não é mais do que o resultado de um temor do desconhecido, pois o indiví-
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duo, ao aferrar-se à matéria, acredita dessa forma poder pro-longar sua vida indefinidamente.52
De acordo com a Terceira Revelação, o Ser se encarna para desenvolver sua evolução espiritual; mas este ato o colo-ca no histórico, para que o governe mediante a sua essência imortal. O Ser, ao encarnar-se, não o faz com o fim de apode-rar-se das coisas visíveis, isto é, das riquezas temporais. O que o Ser encontra, ao chegar na Terra, lhe é dado em custó-dia, a qual, segundo a filosofia espírita, converte o homem em depositário e não em proprietário das coisas do mundo. Por-que o fato da encarnação não significa apropriação de rique-zas materiais, mas uma alienação de bens temporais, isto é, uma administração da economia terrestre, para o bem de todos e sem apropriação da mesma.
O homem que declara alguma coisa como de sua proprie-dade exclusiva é ainda demasiado pequeno, do ponto de vista espiritual. Sabemos que o particular nunca teve confirmação nas doutrinas de Jesus; e tanto o espiritismo, como o cristia-nismo, julgam as coisas da Terra como instrumentos coletivos da humanidade.
“A riqueza e o poder — dizia Allan Kardec — engen-dram todas as paixões que nos afastam da perfeição espiritual; por isso, Jesus afirmou: “Em verdade vos digo que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, que um
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rico entrar no reino de Deus.” Só recordando esta irrecorrí-vel advertência é que o homem se espiritualizará, moralizan-do-se nos atos que realize através da história: a riqueza e o poder a que se refere Allan Kardec não serão as principais
52 Basta lembrar os costumes antigos de enterrar os poderosos com sua esposa e seus escravos, jóias e utensílios e os costumes ainda vigentes, de deixar heranças a igrejas, com a condição de celebração de missa em favor do defunto, e assim por diante. (Nota de J.H. Pires). 53 O Livro dos Espíritos - Lei de Igualdade.
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aspirações do Ser, ao encontrar-se em sua condição de encar-nado. Para isso, deverá relacionar tudo com o cumprimento da lei de igualdade, compreendendo que todos os homens são iguais perante a lei natural e perante os desígnios divinos. A encarnação do Ser, depois de anulado o seu instinto de propri-edade, servirá ainda para a realização da verdadeira igualdade entre homens e povos, que conduzirá ao estabelecimento so-cial do cristianismo.
O humanismo espírita é o elemento indispensável para es-
tabelecer-se um tipo de sociedade que desemboque numa con-cepção cristã-socialista. Seus fundamentos vão mais longe que a visão marxista, já que a concepção espírita socializa o próprio homem, sobre as bases da unidade divina.
O espiritismo, a despeito do marxismo, liberta o homem e
o cidadão do temor da morte, mostrando-lhe que esta é apenas uma transformação necessária para a evolução do Ser. O mar-xismo, entretanto, desaparece com a morte do indivíduo, pois sua concepção mostra-se impotente para triunfar da morte, a-través de seus princípios. O espiritismo é a verdadeira revolu-ção humanista que transfigura a morte e a matéria e coloca a-cima delas o espírito imortal, para que tudo governe, tanto no plano humano como no plano histórico.
Sobre estas novas bases se levantará um novo Ser da hu-
manidade. Assim, a entrada do espiritismo na história constitui um fato transcendental, que operará importantes transforma-ções na vida das Nações. A manifestação dos espíritos, quando for avaliada em todo o seu alcance, será algo mais do que a Reforma, o Renascimento, a Revolução Francesa e mais singu-lar do que a Revolução Russa.
Com o espiritismo se produzirá um encadeamento dialéti-
co entre o Céu e a Terra. Os homens e as almas se juntarão e as rotas do Infinito se abrirão aos heróis e aos lutadores, como um
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novo cenário para a palingenesia divina de todos os seres. A humanidade, em forma individual e coletiva, recuperará a me-mória do eterno, fazendo-se consciente de seu papel no Grande Plano da Evolução Universal.
Nenhuma ideia ou filosofia política se acomoda ao Estado quando revela princípios radicais de reforma. Para um Estado, cuja base seja o antigo sistema social, somente serão úteis a-quelas ideias que afastem o cidadão do espírito de justiça. Au-gusto Comte, por exemplo, deu forma à sua concepção positi-vista, levando em conta as tendências do homem conservador e misoneísta. Por isso, socialmente considerada, a sociologia comtiana é de valor relativo; ela não fez mais do que apresentar um tipo social que se amolda aos velhos costumes, sem desper-tar no cidadão anseios revolucionários.
Por ser o sistema de propriedade privada e o dinheiro dois instrumentos, até o presente, necessários para a evolução do ho-mem, convém analisar, do ponto de vista espírita, como o sistema de propriedade individual dá equivalência ao dinheiro, na forma usurária a que está acostumado o espírito humano. Os espíritas devem refazer o seu conceito do dinheiro, isto é, usar dele sem o desejo de acúmulo, pois o espiritismo postula um valor que não reside nas coisas, mas no espírito do homem, único soberano so-bre a matéria. As coisas, como sabemos, adquirem valor quando são positivas e universais, e quando, pelos resultados, assumem caracteres próprios através das leis. O dinheiro, ao contrário, é um símbolo (morto) que terá valor enquanto existir a coisa que a justi-fique. Mas a coisa existirá mesmo sem o dinheiro, o que quer dizer que ele é um elemento fictício, ao qual se faz representar, convencionalmente, o valor natural de um objeto.
Não obstante, costuma-se atribuir ao dinheiro um poder mágico, como se ele pudesse produzir algo que não existe. Daí a razão de o perseguirem desesperadamente, procurando acumulá-lo enormemente e empregando os piores meios para
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consegui-lo. Não duvidemos de que todos os cataclismos sociais são sempre produzidos pelo dinheiro, este símbolo que, por si só, não passa de um objeto morto e inoperante. É claro que, no sistema de sociedade capitalista, o dinheiro re-presenta o poder e a força, mas porque assim o permite a es-trutura política e econômica. Em compensação, numa socie-dade fundada sobre uma política do espírito encarnado, não haverá jamais qualquer possibilidade de criar-se um valor como o que tem atualmente o dinheiro, já que o homem estará em relação com a essência moral da própria coisa e não so-mente com o seu valor representativo.
A acumulação material é contrária ao desenvolvimento
espiritual. A moral baseada nos interesses privados e anticole-tivos não é a de Jesus, nem a dos Grandes Espíritos. Por isso, é acertado afirmar que o espiritismo é como uma desmaterializa-ção dos valores econômicos e materiais em geral. Porque, na interpretação espírita da vida, não se considera apenas a sobre-vivência dos espíritos, mas que nela existe uma sobrevivência dos valores, únicos a beneficiarem o Ser divino do homem e da humanidade.
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