O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização
VIII — Perspectivas de um Homem Infinito
Humberto Mariotti ◆ O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização ◆ PENSE - Pensamento Social Espírita
Capítulo VIII
PERSPECTIVAS DE UM
HOMEM INFINITO
O tema referente a um homem infinito é o mais
apropriado para dar-nos a certeza de que a humanidade, a história e o Planeta possuem em si mesmos uma finalidade que ultrapassa as aparências do existir quotidiano. Porque existir como um homem medíocre seria insuportável, do ponto de vista moral; viver como um homem impotente seria desesperador; e vegetar como um homem estúpido estaria em desacordo com a superioridade de quem conseguiu a desintegração atômica. Mas, em compensação, existir e ser um homem desconhecido já é algo e nos dá o direito espiritual e humano de ser alguma coisa, frente ao singular mistério do mundo. Antes que medíocre, impotente e estúpido, é preferível para a inteligência humana ser um homem desconhecido, 29já que dentro dessa condição há sempre a possibilidade de uma sorte ou uma descoberta nova, que faça do homem uma entidade superior, com vistas a um destino especial.
A existência do ser humano vale muito pouco, se a ra-
zão do seu existir está unicamente em sua efêmera vida físi-ca e no ato mecânico de vestir-se todos os dias. Se o homem é apenas um Ser que come e faz negócios, então não haverá palavras para condenar sua insípida natureza e sua frágil existência.
Mas é que existir, ser homem, ou melhor, ser humano, é
pertencer a um mundo superior, onde não existam as contradi-ções terrenas. O homem, de acordo com a realidade espírita, leva em si mesmo o poder de transformar-se em algo mais que
29 Títulos dos seguintes livros: O Homem Medíocre, José Ingenieros; O Homem Impotente e O Homem Estúpido, Charles Richet; O Homem, Esse Desconhecido, Alexis Carrel.
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uma pessoa de bons costumes. Seu instinto está divinizado pelo fogo criador das mais belas aspirações cósmicas, e sua mente pode intuir, ao calor de seu próprio ser espiritual, o imenso destino que se oculta no fundo desse homem desconhecido, isto é, em sua natureza supranormal, ainda não explorada pela an-tropologia Filosófica.30
Existir como ser humano, e no humano, é possuir um alto sentido teleológico, que sem dúvida alguma dará fim ao homem medíocre. Não esqueçamos que a vida possui particularidades que revelam a grandeza criadora do homem, mesmo que a cul-tura, confundida por enganosas aparências, queira ainda igno-rá-lo. E é por esse engano que triunfa o inócuo saber das coisas fugazes, intranscendentes e mortais.
A força existencial do homem radica na sua própria infi-nitude, pois nela se encontra a raiz de toda a sua virilidade social e espiritual, já que ser, — existir no eterno e para o eterno, — é a única maneira de existir para elaborar a mais poderosa ética criadora.
Na ideia da sua própria finitude radica todo o pessimismo, pois ela engendra no homem uma tristeza impossível de eludir, e é com ela que se afirma o conceito materialista da vida. O triunfo do mundo material sobre o espiritual tem como causa a noção imanente da existência, a qual, por um reflexismo ideo-lógico, absorve todo o ser vivo do indivíduo.
A finitude da pessoa humana foi o que determinou a morte dos valores espirituais: e se coube realmente à alma humana, como quer o existencialismo, uma sorte cega, não pode haver existência infinita, eternidade, nem mundo dos espíritos. Com tal critério, Deus não seria mais que uma en-
30 O conceito de existir, nas filosofias da existência, corresponde a um viver consciente, ativo e criador. Os animais vivem, apenas, mas o homem existe. É também esse o conceito existencial na filosofia espírita. (Nota de J.H. Pires).
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tidade para gerar a morte e determinar a de todo ser existen-te, e não um Ser para criar a vida eterna da alma e com ela a divina verdade.
Se o homem levasse consigo a morte como uma
enfermidade, isso se deveria à inexistência de Deus e de qualquer outro poder supratemporal, que pudesse preservá-lo de tão aterrador destino, como o do nada. Daí que, se no homem desconhecido se conseguisse descobrir apenas um sinal de sua própria infinitude, o mundo adquiriria imediatamente um sentido espiritual e a existência de Deus se tornaria de fácil demonstração. Se o homem é e existe dentro do Infinito, o Criador também existirá em sua própria infinitude e, como é lógico, com maior profundidade espiritual que o ser humano.
Desta maneira, a imagem divina que se oculta no ho-
mem desconhecido seria o fator especial que daria infinitude à pessoa humana e a força necessária para vencer os obstácu-los antidivinos do mundo. O homem infinito aparece assim como um desdobramento do poder criador que emana de Deus; essa força possui em si mesma a substância do eterno; daí que poderá perdurar infinitamente, apesar de todas as catástrofes espirituais e geológicas que se sucedam na Terra. Assim, a morte se transforma num fato relativo, circunscrito ao material, e seu aspecto negativo, tão temido em todas as idades da humanidade, se esfuma, e sua sombria face se re-nova, transfigurando-se.
A existência real de um homem infinito é a única possibi-
lidade de um mundo do Espírito e dos valores morais, pois es-pírito e valor, sem a existência infinita do Ser, seriam duas ir-realidades: significariam morrer ou estar morrendo a todo ins-tante, mesmo quando se estivesse em plena euforia da vida.
O homem comum acostumou-se, por meio de culturas
niilistas, a considerar a vida como coisa limitada pela sua
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própria impotência e, assim, a única ética que impulsionou a natureza humana foi sempre a ideia de uma finitude fatal e aniquiladora. Este conceito do Ser alcançou grande divulga-ção; mas os seus corifeus se esqueceram de que ele leva den-tro de si mesmo o homem desconhecido, cujo poder supra-normal pode vencer, em circunstâncias especiais, as leis co-nhecidas da natureza. Contudo, esse homem desconhecido, em vez de ser buscado pelo moderno quefazer filosófico, foi posto à margem, para, ao revés, aprofundar-se o estudo do homem medíocre, estúpido e impotente, que já não está em concordância com as novas dimensões de um Universo cheio de espírito imortal.
A cultura filosófica e a civilização preferiram um ho-mem impotente; e por isso não descobriram em sua alma as origens pré-universais e preexistenciais, que se escondem em seu profundo mistério pessoal. Acreditou-se num tipo de indivíduo de criação espontânea, em um ser originado nos abismos do nada; e assim ignorou-se que o homem, esse des-conhecido, vem de alguma parte e se encarna na realidade material, para transfigurar-se a si mesmo e avançar continu-amente para o futuro.
São chegados os tempos de reconhecer que o homem possui um secreto recurso, com o qual pode abrir as portas da história. Mas não para ver o seu cadáver e os de seus antepas-sados, nessa fúnebre sucessão que sugere, como único fim da pessoa humana, — a morte. Não; a história, ao abrir seus mis-teriosos portais, mostrará ao Ser as múltiplas imagens que lhe pertenceram, ora fúlgidas, ora cambiantes, todas elas sinteti-zadas em seu rosto presente, divina figura de sua própria infi-nitude. É de supor-se, então, que o homem regresse de um remoto existir, com um espírito vigoroso e profundo, para vencer o homem-que-morre.
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Vemos, assim, que o homem se valoriza, quando se rebe-
la contra a sua própria finitude. Nietzsche teve grandes vis-lumbres do homem infinito, mas aniquilou-se a si mesmo, quando pretendeu desafiar a divindade espiritual do Nazareno. Ao contrário, para o saber espírita, o homem criador e infinito se engrandece como Jesus, em sua natureza finita, para dar vida e eternidade a quem está morto de tanto pensar na sua própria finitude.
Um conhecimento exclusivamente natural é um saber
que redundará, iniludivelmente, na impotência e na finitude. Por meio de um saber terrestre, o homem só cultiva e reafir-ma o seu angustiado conceito niilista, isto é, alimenta a sua mente inferior com o nada, para logo aniquilar-se com ela. Mas o infinito criador que se aloja no mais profundo do ho-mem desconhecido, se resiste a esse conhecimento natural, em seu anseio de viver no eterno, nutre-se daquilo que não vem da impotência e da morte, mas da substância divina, para ser e existir dependendo de Deus.
Se o homem continuasse pensando em sua própria fini-
tude, não há dúvida de que a civilização terminaria na mais terrível das catástrofes espirituais. Porque, se o homem-que-morre é quem deve reger o desenvolvimento humano, tudo será relativo e tenderá a malograr com a ideia do nada. Não haverá nenhum valor espiritual que se salve da morte defini-tiva. O homem finito, com seus afetos e aspirações, resultará em tragédia e fatalidade.
Se o destino do homem fosse viver somente para o Na-
da, isso indicaria, não a perpetuidade do homem medíocre ou impotente, mas o existir do homem estúpido, que se alucina a si mesmo por meio de algumas ilusórias comodidades mate-riais. Este modo social do existir representaria uma morte antecipada, ainda que o Ser não conseguisse ter consciência do fato.
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De todos os heroísmos espirituais, o mais belo é o que se opõe ao nadificar do homem. O nada é uma enfermidade contraída pela espécie e que ainda se mantém como incurável, mas já se aproxima o tempo de sua cura total: a medicação necessária já está ao alcance do Ser. Contudo, essa massa formada de medíocres, impotentes e estúpidos opõe-se à cura de tão perigoso mal: prefere ser um tipo de homem atacado de finitude e voltado para o Nada.
Esta repulsa do eterno, tal como a apresenta a filosofia espírita, poderia explicar-se pôr um temor ao futuro. É por isso que o homem comum nos dá a impressão de carecer de forças morais para enfrentar o futuro. Vencido pela impotência psí-quica, só procura aniquilar-se, mas vivendo com a maior frui-ção possível o seu instante presente, única vida, segundo ele crê, do seu mortal existir. 31
31 Quando Mariotti cita o exemplo de Jesus, que, sendo “criador e infinito, se engrandece em sua natureza finita”, dá ao leitor um caso concreto, que mostra a dupla natureza humana: a infinitude do espírito na finitude da en-carnação. Esses dois termos, infinitude e finitude, são de uso filosófico, mas bem compreensíveis. — O emprego que Mariotti faz do termo existir, refe-rindo-se ao homem inferior, parece contrariar o conceito existencial desse termo, mas espiriticamente é admissível, pois o homem, na conceituação espírita, é sempre um existente, não podendo renunciar a essa condição humana. — A referência ao “temor do futuro”, no caso da “repulsa ao eter-no”, lembra uma recente teoria do prof. Rémy Chauvin, da Escola de Altos Estudos de Paris, sobre a existência de uma lei de “alergia ao futuro”, no campo científico, responsável pela repulsa às novas descobertas. Veja-se o volume de L'Encyclopédie Planète intitulado Nos pouvoirs inconnus. — A palavra existente é da terminologia existencialista para designar o homem como um ser que tem consciência de existir. (Nota de J.H. Pires).
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