O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização
XVII — O Conceito Espírita de Propriedade Perante os Pais da Igreja e Einstein
Humberto Mariotti ◆ O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização ◆ PENSE - Pensamento Social Espírita
Capítulo XVII
O CONCEITO ESPÍRITA DE PROPRIEDADE PERANTE OS PAIS DA IGREJA
A única propriedade individual e privada, para a filosofia espírita, são os valores morais, intelectuais e espirituais do Ser. Esses valores são inseparáveis do espírito e aumentarão à medi-da que sua evolução atinja maior altura moral, convertendo-se em faculdades inalienáveis do Ser. Mas essa forma de proprie-dade será espiritual e nunca material; por isso, os Grandes Seres foram sempre impessoais e não tiveram esse egoísmo pernicioso que mantém viva na alma a ânsia de propriedade privada. Veja-mos como pensavam, a respeito, alguns dos Pais da Igreja.
“Em boa justiça — dizia São Clemente — tudo teria que pertencer a todos. Foi a iniquidade que produziu a proprieda-de privada.”
Santo Ambrósio acrescentava:
“Deus criou todas as coisas com o fim de serem desfruta-das por todos e para que a Terra fosse propriedade comum de todos. A natureza criou, pois, o direito de comunidade, e foi a usurpação que produziu o direito de propriedade.”
Por sua parte, São Gregório, o Grande, disse:
“A Terra é comum a todos os homens: é em vão, pois, que se julgam inocentes aqueles que se apropriam, para si sós, dos bens que Deus fez comuns, porque, ao não repartirem com os outros o que receberam, se fazem homicidas.”
São Jerônimo escreveu:
“Com razão é que o Evangelho chama os bens da Terra de “riquezas injustas”, pois que não têm outras fontes senão a injustiça dos homens, não podendo pertencer a uns, senão di-ante da ruína de outros. A opulência é sempre o produto do
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roubo; se não foi cometido pelo atual proprietário, o foi por seus antepassados.”
São Basílio diz taxativamente:
“O rico é um ladrão. Acaso não é ladrão aquele que usa
para si só o que recebeu para ser divulgado e distribuído? Se chamamos ladrão ao que rouba um vestido, devemos chamar de outro modo ao que, podendo, sem prejudicar-se, vestir um nu, entretanto o deixa nu?”
São João Crisóstomo declarou:
“O que podeis guardar para vós é simplesmente o neces-
sário. Tudo o mais pertence ao pobre, é sua propriedade e não vossa. O rico é um usurpador. É necessário que reine certa igualdade, dando-se uns aos outros o supérfluo. Seria preferí-
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vel que todos os bens estivessem em comum.
O próprio Leão XIII, em sua famosa encíclica De Rerum
Novarum, ao tratar das condições dos operários, dizia:
“Todos os bens da natureza, todos os tesouros da Gra-
ça, pertencem em comum e indistintamente a todo o gênero humano.”
A tudo isto devemos acrescentar o pensamento de Jesus,
quando disse:
“É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha
do que um rico entrar no Reino do Céu.
Esta sentença do Nazareno é a melhor condenação à pro-
priedade privada, do ponto de vista cristão e escatológico.
Efetivamente, se considerarmos o conceito palingenésico da
evolução sustentado pelo espiritismo, veremos que sua doutrina jamais justificará o sistema de propriedade privada. Para a moral
47 Revista Constância, n° 1015, ano 1906, Buenos Aires.
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espírita, todo objeto considerado de propriedade individual está indicando que não compreendemos ainda a natureza impessoal do objeto, e que a nossa vontade está sujeita às influências da ambi-ção. Por isso é que a doutrina da propriedade está em conformi-dade com os espíritos pouco evoluídos. Em compensação, ho-mens espiritualmente adiantados renunciam a qualquer posse pri-vada; são incapazes de se apoderarem de qualquer coisa material, cuja posse perturbe a harmonia da evolução coletiva.
Contudo, existe ainda muita gente que se diz espírita ou espiritualista e aceita essa espécie de chaga moral, que é a pro-priedade privada. Alguns a repelem ligeiramente, mas a levam arraigada em suas convicções sociais, porque ainda participam do atual sistema de coisas. Além disso, porque sentem grande pra-zer com a posse dos bens materiais que, entretanto, os coloca na escala moral do tipo materialista.
Psicologicamente, podemos afirmar que a teoria da propri-edade individual se enquadra perfeitamente no conceito materia-lista da vida, especialmente se recordarmos que essa teoria tem sua origem no instinto de conservação. Esse instinto encontra-se muito desenvolvido nos indivíduos que se atemorizam com a ideia do nada definitivo do Ser; daí concluir-se que a proprieda-de é para eles uma tábua de salvação, diante do perigo de aniqui-lamento total do indivíduo. Em seu caráter intrínseco, a teoria da propriedade individual é a resultante de uma concepção materia-lista da vida, razão por que nunca poderá ter um sentido espiritu-alista e muito menos espiritista.
O advento do socialismo livrará o homem da moral mate-rialista e capitalista. Se é certo que, para o espiritismo, o socia-lismo é antes de tudo um fato de caráter ético, não obstante isso, seu advento através da ação política e social marcará uma etapa útil para o progresso do gênero humano, progresso que permitirá ao homem desfrutar de uma verdadeira libertação espiritual e econômica.
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As diversas etapas já percorridas pela democracia indicam-
nos que sua marcha culminará no socialismo, já que sem a sua implantação será impossível o advento de uma verdadeira era de-mocrática. É necessário relembrar que a democracia será a nova estrutura social dentro da qual se produzirão as futuras encarna-ções de espíritos. Esse novo estado social permitirá ao Ser conside-rar-se liberto de toda influência possessiva e conservadora, produ-zindo-se assim um tipo de evolução espiritual que terá consequên-cias revolucionárias, criando condições para reconhecer-se o espi-ritismo como a ciência da Verdade e da vida.
A realidade democrática nos mostrará que a revolução
social do socialismo correrá paralela com a revolução espiri-tual do espiritismo. Deste modo, a autêntica revolução será integral: serão modificadas as formas sociais, simultaneamen-te com as concepções espirituais. E assim se poderá afirmar que a sociedade e o Espírito se corresponderão reciprocamen-te, e que a evolução se produzirá tanto “na habitação como em seu habitantes”, segundo dizia Kardec.
Einstein e o Socialismo
É chegada a época das transformações gerais; nada do que
existe, tanto material como espiritual, permanecerá sem receber os impactos da evolução. A transformação que se vem operan-do na ordem humana leva o homem a novas estruturas sociais e às mudanças mentais que lhe permitirão desenvolver outras formas de consciência social e espiritual. A proclamação da Revolução Francesa, baseada nos princípios de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, será cumprida inexoravelmente, ainda que as forças contrárias ao progresso queiram opor-se ao seu avanço. É necessário reconhecer que a liberdade, a igual-dade e a fraternidade estão se desenvolvendo gradativamente em todos os povos da Terra, graças à ideia do socialismo.
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É evidente que tudo se socializa, porque tudo se aproxima entre si. Já não existe afastamento entre homens e povos; uma concentração recíproca unifica os espíritos, sendo esse o fator primordial que.afirmará, incoercivelmente, a ideia socialista e espírita nas consciências. O próprio cristianismo está coadju-vando o advento do socialismo mediante seus postulados de amor e fraternidade. As instituições conservadoras se desmoro-nam ante o avanço das novas ideias. O homem anseia por no-vos horizontes; quer viver usufruindo dos bens da natureza e por isso se rebela contra a desigualdade e contra aqueles que se apoderam impiedosamente da riqueza social. Dessa maneira, só permanecerão as ideias e as instituições progressistas: os rea-cionários e os misoneístas já terminaram sua missão. Agora, diz Kardec, vão agitar-se as entranhas da humanidade, e isso quer dizer que a evolução espiritual chegou a um nível tão im-portante, que o homem já não se conforma com as instituições conservadoras e as ideias do passado. O ideal espírita se mobi-liza sincronicamente com o ideal socialista; as forças do Espíri-to estão elaborando um novo sistema de vida social, que irá desembocar nas realidades fraternais do cristianismo.
A economia está sendo encarada, cada vez mais, como um fator coletivo que deverá beneficiar a todos por igual. O espírito humano entra num período de civilização cultural que está transformando, radicalmente, tanto as formas sociais como as espirituais. O progresso invade uma nova região da socieda-de e da espiritualidade. As formas anacrônicas são abandona-das por formas novas que se ajustam ao grau de evolução al-cançado pelo homem.
O próprio Albert Einstein, que se afastava inteligentemen-te de todo extremismo estéril e infecundo, inclinou-se para o socialismo, como o fizeram os maiores espíritos que passaram
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pela humanidade. Vejamos o que escreveu, num artigo intitula-do Por que o socialismo? 48
“É desejável que um profano em matérias econômicas e
sociais expresse o seu ponto de vista a respeito do socialismo? Minha opinião é afirmativa, por um certo número de razões.
“Inúmeras vozes afirmaram, há algum tempo, que a socie-
dade humana atravessa uma crise e que sua estabilidade se en-contra gravemente afetada. Esta situação apresenta a seguinte característica: os indivíduos se sentem indiferentes e até mesmo hostis, com respeito ao grupo, grande ou pequeno, ao qual per-tencem. A fim de ilustrar minha opinião, permitam-me relatar uma experiência pessoal. Discutia eu recentemente sobre a ame-aça de uma nova guerra com um homem inteligente e de bons sentimentos, expressando-lhe meu temor de que um novo conflito pusesse seriamente em perigo a própria existência da humanida-de. Fiz-lhe notar que somente uma organização supranacional ofereceria no caso uma proteção suficiente. Em resposta, o visi-tante me disse, com toda a calma: “É o senhor tão profundamen-te contrário ao desaparecimento da raça humana?”
“Estou certo de que há cem anos ninguém emitiu, com
tanta tranquilidade, uma expressão dessa natureza. Ela reflete a posição de um homem de qualidade que se tem esforçado em vão para conseguir um equilíbrio interior e que perdeu mais ou menos a esperança de consegui-lo. É a expressão da soli-dão, do isolamento que tantos dos nossos contemporâneos so-frem. Qual a causa disto? Como sair disso?
“Se é fácil fazer estas perguntas, difícil é respondê-las com
alguma certeza. Devo, entretanto, tratar de fazê-lo, do melhor modo possível, embora tendo consciência de que nossos senti-mentos e nossos esforços sejam frequentemente contraditórios, obscuros e dificilmente traduzíveis em fórmulas simples. Todos os
48 Da revista Gauche Européenne, Paris, janeiro de 1957.
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seres humanos, seja qual for sua posição na sociedade, sofrem atualmente deste processo de deteriorização. Prisioneiros, sem que o saibam, do seu próprio egoísmo, sentem-se inquietos, soli-tários e desprovidos do puro e simples prazer de viver. O homem não pode encontrar sentido para a sua vida, por breve e perigosa que seja, a não ser consagrando-se à sociedade.
“A anarquia econômica da sociedade capitalista, tal como existe hoje, constitui, a meu ver, a fonte real de todo o mal. Ve-mos diante de nós uma comunidade de produtores cujos compo-nentes se digladiam, continuamente, para despojar-se uns aos outros dos frutos do trabalho de todos. E isto, não com o em-prego da violência, mas geralmente com a observância leal de regras legalmente estabelecidas. A este respeito, é importante não perder de vista que os meios de produção, isto é, a inteira capacidade produtiva necessária para a produção dos bens de consumo e dos bens suplementares de equipamento, podem ser, e de fato o são, legalmente submetidos à aprovação privada.
“Por uma questão de clareza, chamarei doravante por tra-balhadores a todos aqueles que não compartilhem da propriedade dos meios de produção, ainda que isto não corresponda ao uso normal do termo. O proprietário dos meios de produção está em posição que lhe permite comprar o poder de trabalho do operá-rio. Utilizando os meios de produção, o trabalhador produz bens novos, que se tornam propriedade do capitalista. O ponto essen-cial deste processo é a relação entre o que o trabalhador produz e a remuneração que percebe, fazendo-se as duas estimativas em termos de valor real. O contrato de trabalho é feito na base do que o trabalhador produz e não está determinado pelo valor real dos bens que ele produz, mas por suas necessidades mínimas e pelas necessidades dos capitalistas em força de trabalho, segundo o número de trabalhadores que procuram emprego. É importante compreender que, até em teoria, a remuneração do trabalhador não está determinada pelo valor de sua produção.
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“O capital privado tende a concentrar-se em algumas mãos,
em parte por causa da competição entre os capitalistas, e em parte porque o progresso tecnológico, mais a divisão de trabalho, estimulam a formação de grandes unidades de produção, em pre-juízo das menores. O resultado deste processo é o aparecimento de uma oligarquia do capital privado, cuja enorme potência não pode ser eficazmente posta em xeque, nem sequer por uma socie-dade política democraticamente organizada. A verdade disto a-parece na escolha de membros para as assembleias legislativas, por partidos políticos que são abertamente financiados, ou influ-enciados de qualquer outra maneira, pelos capitalistas privados. Estes últimos, tendo em vista os seus objetivos práticos, afastam o operariado do legislativo. Disto resulta que os representantes do povo não protegem suficientemente os interesses dos setores me-nos favorecidos da população. Além disso, nas contradições exis-tentes, os capitalistas privados controlam irremediavelmente, de maneira direta ou indireta, as principais fontes de informação: a imprensa, o rádio, a educação em geral. É, pois, extremamente difícil, e quase sempre completamente impossível, que o cidadão individual chegue a conclusões objetivas e possa fazer uso inteli-gente de seus direitos políticos.
A situação que prevalece numa economia baseada na
propriedade privada do capital, por conseguinte, caracteriza-se por dois princípios essenciais: primeiramente, os meios de produção estão submetidos à propriedade privada e os propri-etários dispõem deles como quiserem; logo, o contrato de tra-balho é livre. Seguramente, não existe sociedade capitalista pura, na qual a aplicação desses princípios seja integral. Em particular, devemos salientar que os trabalhadores, através de longas e amargas lutas políticas, conseguiram obter uma for-ma melhorada do contrato de trabalho livre, ao menos para certas categorias. Mas, considerada em geral, a economia de nossos dias não difere essencialmente do capitalismo puro.
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“A finalidade da produção é o lucro e não a utilização dos bens. Prevê-se apenas que todos os homens capazes e desejosos de trabalhar deverão ter possibilidades permanentes de encon-trar emprego. O trabalhador vive, assim, no temor permanente de ser despedido. Quando os trabalhadores ficam sem trabalho ou são mal remunerados, não provendo a um mercado rendoso, a produção de bens de consumo diminui e provoca grandes mi-sérias. O progresso tecnológico acarreta, frequentemente, uma exacerbação da falta de trabalho em vez de aliviar o peso indi-vidual do trabalho coletivo. A persecução de vantagens, somada à competição entre capitalistas, provoca a instabilidade no a-cúmulo e utilização do capital, que por sua vez conduz a graves depressões. A competição ilimitada acarreta ainda um grande desperdício de trabalho, além desses males já mencionados, que afetam os indivíduos em sua consciência social.
“O capitalismo estropia os homens. Nisto se enraíza, em minha opinião, o maior dos males que ele comporta. Todo o nosso sistema educativo sofre com isso. Inculca-se no estudan-te uma atitude exageradamente competitiva, levando-o ao culto de êxitos adquiridos, com vistas à sua futura carreira.
“Estou convencido de que não existe mais do que um meio de eliminar estes aflitivos males; é o estabelecimento de uma eco-nomia socialista, acompanhada de um sistema educativo orienta-do para fins sociais. Numa tal economia, os meios de produção pertenceriam à própria sociedade e seriam utilizados de um mo-do planificado. Uma economia planificada, ajustando a produção e as necessidades da comunidade, distribuiria o trabalho entre todos os indivíduos aptos e garantiria os meios de uma existência decente a cada homem, a cada mulher, a cada criança. A edu-cação, além da sua função de promover as capacidades indivi-duais inatas, procuraria desenvolver o sentimento das respon-sabilidades, com respeito ao próximo, em lugar de glorificar, como o faz atualmente, o poder e o êxito.
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“Não obstante, é necessário recordar que uma economia
planificada não é ainda o socialismo. Uma economia planifi-cada pode muito bem ir acompanhada do avassalamento com-pleto do indivíduo. É aí que a realização do socialismo recla-ma a solução de certos problemas sociopolíticos extremamente difíceis. Como lutar contra a excessiva concentração da potên-cia política econômica e impedir que a burocracia adquira um poder exagerado? Como assegurar a proteção dos direitos do indivíduo e oferecer com isso um contrapeso democrático à onipotência da burocracia?
“O esclarecimento das finalidades e dos problemas do
socialismo apresentam-se como de máxima importância no período de transição que vivemos”.
Como se vê, Albert Einstein colocou, nesse trabalho, a
necessidade de instituição do socialismo como uma solução para os grandes males econômicos e morais que afligem os povos. Convém advertir que se um sábio como ele, ao preferir o tipo de sociedade socialista, não o fez, seguramente, por am-bições políticas, mas porque viu no socialismo a única maneira racional de se dar ao homem um destino superior.
Posição dos Intelectuais Espíritas
Muitos são os escritores espíritas que esboçaram uma
sociologia espírita e socialista. Entre eles, podemos citar, na América do Sul, a Manuel Navarro Murillo, Krainfort de Ní-nive, Mariano Ruth Sinué, Colombo, Félix Navarro, Victor Ozcáriz y Lasaga, Cosme Mariño, Felipe Senillosa, Manuel Fraseara, Manuel B. Aguilera, Bernabé Morera, Armando Vosci, Felícísimo López, Francisco Urgel, Refúgio L. Gonza-lez, J. Herculano Pires, Deolindo Amorim, S. Paz Basulfo, Manuel S. Porteiro, Santiago A. Bossero, Hugo R. Nale, Adán Isola, e no Velho Mundo a Remo Fedi, Gabriel Gobron, Luis Fourcade, Giovanni Hoffman, M. Godil, Paul Bodier, e outras
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eminentes figuras que algum dia serão dadas a conhecer como forjadores do socialismo espírita.
No movimento teosófico, Helena P. Blavatsky já falava, em sua época, do que ela chamava socialismo de amor, com o qual quis significar que o homem espiritual não pode ser outra coisa senão coletivista, se na realidade quiser fundar “um nú-cleo da Fraternidade Universal da humanidade, sem distinção de raça, de credo, de sexo, de casta ou de cor”.
Annie Besant, que foi presidente da sociedade Teosófica Mundial, no seu livro A Nova civilização, ao referir-se às “questões econômicas”, entre outras acertadas opiniões, desta-cou o seguinte:
“Se o socialismo se estabelecesse aqui; se a terra inglesa pertencesse ao povo inglês; se todas as coisas de primeira ne-cessidade importadas pela Nação pertencessem a ela; se todas as grandes empresas fossem nacionalizadas, de modo que nin-guém nascesse na Inglaterra sem se beneficiar desta terra chamada terra natal, poderíamos prever um tempo em que as nações veriam que sua felicidade reside na paz, no trabalho e na abolição das barreiras separatistas, para que as fronteiras já não tenham necessidade de ser vigiadas.”
Tudo isto nos indica que, no novo espiritualismo que se de-duz da filosofia espírita e das demais correntes espirituais, como a teosofia, a antroposofia, a rosacruz e o ocultismo em geral, deve-ria ser posta de manifesto a essência socialista de seus ideais, pois que, do contrário, estarão secundando, como já o fizeram noutras oportunidades, a reação conservadora e materialista.
É preciso considerar, sempre que se fala de socialismo nos meios espíritas e espiritualistas, que não se trata de fazer política, nem de levar o espiritismo ao campo político. Pensar assim é desconhecer o socialismo como uma filosofia da socie-dade, que tem a missão de encarar os fenômenos sociais e con-siderá-los nas suas grandes contradições, como os fatores cau-sadores daquilo que se denomina luta de classes.
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O socialismo, como filosofia da sociedade, analisa o fun-
damento das desigualdades sociais e revela-nos que a sua ori-gem está na má distribuição da riqueza econômica, fato este que determina as enormes complicações sociais e os inevitáveis choques entre ricos e pobres.
Este fenômeno social não possui somente um aspecto po-
lítico, mas relaciona-se com o sentido de justiça, logicamente inerente a todos os espíritos altamente evoluídos. Toda injusti-ça social choca-se, pois, com a sensibilidade moral dos homens mental e espiritualmente evoluídos, e essa posição é que nos obriga a encarar as contradições do sistema capitalista e mate-rialista sobre o qual se funda a sociedade, para tratar de refor-mar esse sistema, que em nada facilita a evolução espiritual, e para evitar dores e penúrias, que bem pouco beneficiam o de-senvolvimento interno dos espíritos.
O socialismo, com efeito, é o resultado do sentido de jus-
tiça desenvolvido no homem moderno, em virtude da sua evo-lução espiritual, mas encontra-se amparado no critério científi-co das doutrinas sociais e econômicas. O espiritismo, que é a vanguarda ideológica do espiritualismo dinâmico e moderno, por essa mesma razão não pode deixar de mostrar sua essência de justiça social, baseada na igualdade das classes sociais. Não foi sem razão que Allan Kardec escreveu:
“O simples fato da possibilidade de comunicar-nos com
os seres do mundo espiritual tem consequências incalculáveis, da mais alta gravidade. É todo um mundo que se nos revela, e que tem tanto maior importância quando atinge a todos os homens, sem exceção. Generalizando-se o seu conhecimento, não pode deixar de ocasionar uma profunda modificação nos costumes, no caráter, nos hábitos e nas crenças, que tão gran-de influência exercem nas relações sociais. É toda uma revolu-ção que se opera nas ideias; revolução tanto maior, tanto mais poderosa quanto não está circunscrita a um povo ou a uma
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casta, mas simultaneamente se estende ao coração de todas as classes, de todas as nacionalidades e de todos os cultos.”
A filosofia espírita do homem e da história representa a força mais considerável para suprimir os princípios do materia-lismo e estruturar, como já o está fazendo, um ideal socialista baseado na realidade positiva do Espírito imortal.
A política, da maneira como atualmente se faz, é somente um meio para atingir o poder e dispor dos bens econômicos em favor de um agrupamento ou de uma classe social. Ao contrá-rio, o socialismo, idealista e revolucionário, não encara a reali-dade social desse modo, nem entra nas lutas sociais com finali-dades tão baixas. O ideal socialista é uma aspiração superior, que desemboca num sistema de vida capaz de fazer a felicidade de todos os homens. Mas não se detém nisso: avança para o futuro, penetra no espírito do indivíduo e mergulha nas leis da natureza, para descobrir o sentido da realidade histórica e soci-al. Em sua ultérrima finalidade, desembocará numa nova reli-gião do homem, fazendo ver à humanidade sua natureza espiri-tual e seu vínculo com a vida cósmica e universal.
Esta visão do socialismo será confirmada, quando ele te-nha superado sua etapa materialista, ao aceitar os postulados científicos, filosóficos e religiosos do espiritismo que, como revelação positiva do mundo espiritual, é uma verdadeira revo-lução perante as imperfeições do mundo material. Por isso José Mazzini pensava o seguinte da ideia espírita:
“O espiritismo científico, isto é, a alma humana analisa-da experimentalmente em suas propriedades e manifestações, produzirá, com os seus estudos, tão inesperados conhecimen-tos que, perante eles, ficarão atônitos, obscurecidos e ruirão todos os humanos edifícios políticos e morais que até o presen-te vêm dominando.
“Pela aplicação prática dos resultados do estudo do espi-ritismo, uma nova Ética, pura, regeneradora, poderosa, res-surgirá da natureza. Será o potentíssimo credo que fará mor-
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rer as mais enraizadas instituições político-religiosas domi-nantes na Terra.
“Por uma apreciação mais ampla e mais bem disciplina-
da das leis que regem o Universo, mudará completamente a orientação da ciência, e a inevitável consequência que isto terá de produzir afetará a todas as manifestações da vida, que en-tão se explicarão pela razão do maior, do mais santo dos con-ceitos: o dever.
“Como Deus é uno, como a positiva substância da qual
provêm todas as formas é também una, assim deverá ser, assim será a religião ou ciência da Alma, que reunirá sob o seu es-tandarte todas as escolas, todos os povos.
“Isto é o que sustenta o espiritismo. A luta será áspera, fati-
gante, mas sua consequência é inevitável. De nada valerá que se aliem contra ele todos os animais daninhos da Terra: o forte, o indomável Veltro49 avança a grandes passos, saturando o mundo com a sabedoria e com a fé dos sábios e dos heróis de todos as épocas. E com os fulgores da ciência positiva caçará as feras, até mesmo nos tenebrosos recessos de seu mundo inferior.
“Então, soprarão sobre a Terra auras de paz e de gozo; do
peito dos homens subirá espontaneamente o hino de louvor e de amor a Deus; e a humanidade, perdendo o último vestígio animal que lhe resta, voará qual nascente mariposa, bela e pura, à con-quista das mais excelsas regiões, das mais puras esferas.” 50
E assim, tal como a anunciara Mazzini, o grande republi-
cano italiano, os homens só reconhecerão a essência do espiri-
49 Veltro ou Lebréu é um cão usado na caça de lebres, um lebreiro. Citado pelo poeta Virgílio na Divina Comédia, de Dante Alighieri, simboliza uma espécie de arauto da transformação, um tipo de redentor ou salvador, o construtor milenarista do reino de Deus aqui na Terra. (Nota do Pense). 50 Revista Lumem, Tarrasa, Espanha, coleção de 1905. — Em Tarrasa, Miguel Vives escreveu um dos mais belos manuais de conduta espírita, com que a Edicel iniciará a sua Coleção de Bolso: O Tesouro dos Espíritas. (Nota de J.H. Pires).
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tismo quando tenham esgotado a ânfora da dor, para levantar os olhos à luz. Porque há uma imensa dor espiritual entre os ho-mens, por causa dos males gerados pela injusta organização so-cial, baseada numa imperfeita distribuição dos bens econômicos.
A igualdade social será a consequência do reconhecimento da igualdade espiritual. Os espíritos são iguais perante Deus. Con-sequentemente, os bens da Terra, acumulados egoisticamente, não podem estabelecer diferenças humanas nas organizações sociais. O caso dos homens que se acreditam superiores aos seus seme-lhantes, só porque possuem maiores bens econômicos, explica-se pela ignorância das profundas leis da igualdade espiritual, deter-minadas pela reencarnação ou lei palingenésica.
A este respeito, dizia Kardec:
“Com a reencarnação, destróem-se os preconceitos de raças e de castas, desde que o mesmo Espírito pode renascer rico ou pobre, grão senhor ou proletário, amo ou servo, livre ou escravo, homem ou mulher. De todos os argumentos que se têm invocado contra a injustiça da escravidão e contra a sujei-ção da mulher à lei do mais forte, não há nenhum tão lógico como o fato material da reencarnação. Se, pois, a reencarna-ção funda sobre uma lei natural o princípio da fraternidade universal, funda também na mesma lei o da igualdade de direi-tos sociais e, por conseguinte, o de liberdade.” 51
O socialismo, espiritualizado pelo espiritismo, será a gran-de força histórica e social que nos poderá aproximar dos postu-lados fraternais do cristianismo. A igualdade e a liberdade serão confirmadas pela visão espiritista da vida, sendo a lei de palin-genesia a que estabelecerá o socialismo dos espíritos e, portanto, a igualdade espiritual, jurídica e econômica, entre os homens.
51 Allan Kardec, A Gênese.
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