O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização

Humberto Mariotti · Capítulo 4 de 23

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O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização

1ª Parte - o Númeno Espiritual nos Fenômenos Sociais

Humberto Mariotti ◆ O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização ◆ PENSE - Pensamento Social Espírita

 

1ª PARTE

 

O NÚMENO ESPIRITUAL

NOS FENÔMENOS SOCIAIS

 

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Capítulo I

A INVESTIGAÇÃO ONTOLÓGICA NA PARAPSICOLOGIA

1) É Acessível o Ontológico ao Parapsicológico?

Se a parapsicologia se nos apresenta como uma nova pro-blemática do Ser, não há dúvida de que sua missão científica, se assim podemos dizer, se defrontará com zonas do conhecimento que se acham em plena crise. A atualidade, propícia à investiga-ção ontológica, oferece à parapsicologia excelente ocasião para assinalar as formas reais do conhecer, muitas das quais ainda não são percebidas pela sensibilidade normal do indivíduo. A simples possibilidade de um acesso ontológico à parapsicologia implica a urgência de um quefazer filosófico apoiado numa sen-sibilidade incomum. Se é possível um conhecer extrassensorial, mesmo no seu aspecto mais limitado, o ontológico poderá ser alcançado (e essa é a nova esperança) por vias de fato que elimi-nem todo obstáculo ao psicológico inabitual.

A relação entre objeto e sujeito, parapsicologicamente con-siderada, implica a possibilidade de uma criptestesia, que permitirá a captação de valores gnosiológicos provenientes de zonas profun-das do homem e do Universo. Se pudéssemos penetrar ontologi-camente as camadas do parapsicológico, o ser humano, com pleno direito, poderia aspirar a um futuro que signifique o de uma verdadeira realidade metafísica.

Os atos psíquicos e os momentos extrassensoriais da pa-rapsicologia são, por si mesmos, valores espirituais, nos quais se oculta a face de um poderoso númeno, capaz de vencer a relatividade do mundo circundante, através de um novo Eu do indivíduo. Como de outras vezes, o campo do saber está sendo

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solicitado a ampliar-se, mas, desta vez, apoiado no númeno

1 Númeno é a essência do fenômeno, a coisa-em-si, enquanto o fenômeno é a manifestação do númeno. (Nota de J.H. Pires).

 

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parapsicológico. É evidente que a busca metapsíquica se apro-xima, podemos dizer, de um verdadeiro desejo de encontrar para o indivíduo uma significação espiritual transcendente.

Desta vez, se o fator ontológico for secundado pelo fator

parapsicológico, o conhecimento estaria ante a possibilidade de beneficiar-se grandemente. Seria deplorável se a parapsicologia se desviasse de seu campo extrassensorial, por falta de inquie-tude filosófica; mas a filosofia deverá amparar a parapsicologia, para que seu real objetivo não se converta num intranscendente parapsicologismo.

2) O Espiritual Como Objeto da Parapsicologia

O parapsicológico experimental já percorreu uma trajetória

suficiente para advertir, à crítica filosófica, que o extrassensorial não é somente de origem natural e fisiológica, ou ainda biológica, mas que nele se apresenta, superando o fenômeno, um novo ser espiritual, a indicar-nos que o espírito, no imanente como no transcendente, é o objeto obrigatório da parapsicologia. Se um exagerado naturalismo absorvesse a sua essência psíquica, o nú-meno parapsicológico ficaria postergado por muito tempo.

A excessiva naturalidade, que se pretende ver nos fatos

psíquicos, faz o filósofo vacilar em decidir-se a interpretá-los. Por isso já se disse, e com razão, que a demasiada naturalidade de um ramo da ciência diminui suas perspectivas metafísicas. Um naturalismo superlativo poderia desvirtuar essa intenciona-lidade tão promissora, que se revela na parapsicologia. Se a técnica metapsíquica mecanizar-se demasiado, teremos apenas uma máquina fenomênica. Entretanto, o que agora se denomi-na crise do homem exige penetração da investigação ontológi-ca nas camadas inabituais da parapsicologia. A interpretação espiritual dos seus fenômenos poderia significar uma nova colocação do sentido metafísico do Ser, e ao mesmo tempo a

 

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fundamentação de um esquema religioso digno do grau evolu-tivo atingido pela cultura dos tempos atuais.2

Se é certo que a parapsicologia não poderá deter-se numa dada interpretação do homem e da existência, isso não impede que a investigação ontológica, baseada no realismo extrassen-sorial, a que Eugênio Osty chamou de conhecimento supra-normal, busque um tipo espiritual do Ser, baseando-se no nú-meno parapsicológico.

A antiga psicologia baseava-se num trabalho estéril, acaban-

do por se perder num campo de imaterialidade psicofísica irreal. Para o psicólogo comum, toda a extrassensorialidade humana é uma ilusão. Continuando apoiado nos obsoletos sistemas psicofi-siológicos, apavora-se com a possibilidade de um indivíduo me-tapsíquico. Daí o acesso do espiritual ao parapsicológico não só representar um triunfo da nova psicologia, mas também um novo sentido para o Ser, na futura investigação ontológica.

3) O Existencialismo Perante a Parapsicologia

O existencialismo, ou filosofia da existência, encarna, neste

período da evolução, o estado espiritual cm que vive o homem, frente ao seu próprio ser e existir. Para o existencialismo, o indi-víduo existente só representa um momento do Ser, cuja meta

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final é a morte e o nada eternos. Este estado de consciência, com efeito, não poderá ser refutado pelos antigos processos teológicos e metafísicos. Somente uma nova realidade espiritual do Ser,

 

2 “A religião — diz o professor J.B. Rhine — é, sem dúvida, a área de interes-se mais imediato para a parapsicologia. Definida como a investigação das funções não-físicas da natureza e dos princípios que a governam, a parapsi-cologia teria que reivindicar muitos dos problemas fundamentais da religião, assim como a patologia está necessariamente interessada nos problemas da medicina.” (Revista de Parapsicologia, n° 2 - Buenos Aires, 19,55). 3 O autor se refere, como adiante se verá, ao existencialismo sartreano, dominante na atualidade. (Nota de J.H. Pires).

 

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originada de uma autêntica experiência parapsicológica, poderá introduzir na filosofia existencial a ideia do Espírito. Não deve-mos esquecer o que H. H. Price escreveu: “Devemos ter a cora-gem de estabelecer novamente a questão da estrutura da perso-nalidade humana e das suas relações com o Universo, criando um novo quadro conceitual, que possa ajustar-se aos fatos no-vos. Na minha opinião, compete aos filósofos esta tarefa.” 4

Não nos esqueçamos de que o Espírito é ainda uma irrealida-

de para as correntes mais avançadas do pensamento. Entre elas, como sabemos, encontra-se o materialismo histórico e dialético, base ideológica da concepção marxista da sociedade. Lembremo-nos de que o Espírito foi fator de superstições e de promessas de além-túmulo, com as quais se justificaram cruéis injustiças sociais. Além disso, sua concepção jamais correspondeu, na formulação teológica, de forma satisfatória, à desnorteante angústia do ho-mem. Por sua vez, a filosofia referiu-se sempre ao Espírito, mas sem dar provas de sua realidade objetiva. Obrigou-se a aceitá-lo dogmaticamente, por imposição de mentores religiosos, que nunca levaram em conta o sentir coletivo do mundo, base fun-damental da civilização e de todo o progresso social.

Esta concepção do Espírito foi a razão ideológica do e-

xistencialismo, cuja pujança filosófica nenhuma filosofia e nenhuma teologia conseguirão deter, enquanto não se demons-trar a existência real do Ser espiritual. Acreditamos que o exis-tencialismo só deixará sua posição niilista quando se provar que a mente sobrepuja as circunvoluções cerebrais, e quando essa mente se mostrar como uma consequência da real exis-tência do Espírito, cuja objetivação só poderá obter-se pela investigação fenomênica da parapsicologia.

O laboratório parapsicológico deverá representar, portanto,

uma forma de concretização científica da filosofia espírita. Se é

 

4 Revista de Parapsicologia, n° 1 – Buenos Aires, 1955.

 

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certo que dele não poderá sair uma definição dogmática sobre a realidade espiritual do homem, isso não impede que a escola espí-rita vá confirmando sua ideologia doutrinária, por meio da parapsi-cologia. Seria faltar à verdade deixarmos de reconhecer que deve-mos o advento da investigação psíquica, da metapsíquica e da pa-rapsicologia ao resultado dos esforços realizados pela escola espíri-ta no campo experimental, quando ela, sozinha, enfrentava as in-sustentáveis hipóteses sobre demônios, larvas, cascões astrais e fraudes. Daí apresentar-se a filosofia espírita, com sobejas razões, perante a exaurida humanidade, como campeã da vida e do Espíri-to. Ela fará o homem sentir a realidade do seu Ser espiritual, por meio da ciência e da religião. Ela descerrará os véus do além e iluminará com seus fachos a marcha solene da história.

Com seu gênio mediúnico, a filosofia espírita fez realidade e presença no que todas as religiões têm intuído subjetivamente: a alma imortal. Conseguiu estabelecer um dramático diálogo entre o mundo visível e o invisível, que os teólogos consideram sempre como irrealizável. O método científico, aplicado à pes-quisa espiritual, vai dando à filosofia espírita a razão que lhe pertence. Daí que a parapsicologia, ao demonstrar a realidade psíquica do homem, não poderá desfazer a concepção espírita do Ser, se é que realmente quer refrear o existencialismo ateu e o conceito materialista da vida.

O existencialismo não poderá ser ultrapassado só por meio

de fatos, mas também mediante sólidas reflexões ontológicas acerca do homem. Não nos esqueçamos de que Jean-Paul Sartre disse: “As situações históricas variam: o homem pode nascer escravo numa sociedade vaga, ou senhor feudal, ou proletário. O que não varia é a necessidade, para ele, de estar ali, no meio dos outros, e de ali, como eles, ser mortal.” Cabe à parapsico-logia ensaiar, mediante seu rico fenomenismo extrassensorial, um Humanismo do Espírito, com o fim de indicar ao Ser de on-de provém, o que faz no mundo e para onde se dirige.

 

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Segundo a filosofia existencialista, a razão metafísica não é

suficiente para negar o sentido niilista do homem e do mundo. O ser humano, não obstante a exigência teológica, destina-se à morte eterna. Demonstrar o contrário seria negar a primazia que o existencialismo confere à existência sobre a essência. Como, porém, poderia realizar-se isto? Só mediante uma materialização da essência, que se poderá obter pela objetivação do Ser espiritu-al do indivíduo. E esta materialização da essência é tarefa da pa-rapsicologia, que, uma vez cumprida, demonstrará cabalmente que o Espírito é uma realidade e pode objetivar-se.

Será realmente assombroso constatar os efeitos espiritu-

ais que a parapsicologia produzirá no existencialismo. A e-xistência material será superada pela espiritualidade da es-sência; ela transformará sua imagem finita, para mostrar-se resultante do Ser infinito. Porque, como o reconhecerá a filo-sofia do futuro, só o método parapsicológico poderá conce-der à metafísica os reais elementos com que construir uma verdadeira teoria do homem.

Estas reflexões nos levam a pensar que devemos juntar à

Fenomenologia de Husserl uma “segunda fenomenologia”, já que ela abrange somente uma face do ser fenomenológico, o qual necessita de transcender para um existir extratemporal. Ao contrário, uma fenomenologia parapsicológica do Ser não se limita às estruturas físicas, mas as supera, por meio de um ser intencional. A fenomenologia existencial detém-se na parte morta do Ser. Não obstante a intuição essencial que experi-menta, não consegue perceber a realidade do fenômeno, para dele se libertar. Daí se conclui que a parapsicologia, à luz da filosofia espírita, é uma espécie de maiêutica socrática, que dá origem a uma nova realidade psicológica.

A objetividade de um verdadeiro fato parapsicológico terá

a propriedade de convencer a matemáticos, cientistas, artistas, filósofos e religiosos. Consequentemente a parapsicologia será

 

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a objetivação daquilo que se julgava morto para sempre: o ide-al e o espírito, os quais ressurgem graças à influência que os fenômenos psíquicos e metapsíquicos exercem sobre o pensa-mento humano e a marcha do conhecimento. Ela é capaz de produzir fatos que podem interessar a toda a humanidade, já que esses fatos representam uma superação geral do conheci-mento e do habitual. Além disso, ela está organizando métodos novos, para a investigação daquilo que sempre foi considerado como não experimental: a busca do Espírito.

Se a realidade espiritual clássica se mostra impotente para

se opor à negação de Deus e do Espírito, existe uma teologia experimental, da qual falou o grande biólogo espanhol Jaime Ferrán, no seu prólogo ao Tratado de Metapsíquica, de Char-les Richet, verdadeiro libelo contra o existencialismo ateu. Tra-ta-se nada menos do que da metapsíquica objetiva, cujos fe-nômenos de materialização estão revolucionando o pensamento filosófico. Ela será de grande proveito para a existência hu-mana e animal, agora que o existencialismo indica ao homem, como seu único futuro, a morte e o nada. Embora seja certo que várias escolas espiritualistas se levantaram contra o exis-tencialismo, e com elas — que paradoxo — a própria doutrina marxista, não obstante sua concepção materialista, a verdade é que o niilismo espiritual se difunde de maneira alarmante, ao lado da filosofia do existencialismo.

Miguel de Unamuno não via, no fenômeno metapsíquico,

nenhuma prova a favor da imortalidade. Não obstante, ao refe-rir-se à realidade da vida de além-túmulo, chegou a escrever: “E a esta mesma necessidade, verdadeira necessidade de for-marmos uma ideia concreta do que pode ser essa outra vida, responde em grande parte a indestrutível vitalidade de doutri-nas como as do espiritismo, da metempsicose, da transmigra-ção das almas através dos astros, e outras análogas, doutrinas que, quantas vezes declaradas vencidas e mortas, renascem em

 

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outras formas mais ou menos novas. É grande loucura querer eliminá-las, em vez de buscar-lhes a substância permanente.” 5

Se a ciência psicológica está se beneficiando com as

contribuições da investigação psíquica, da metapsíquica e da parapsicologia, isto se deve ao persistente trabalho do espiri-tismo científico, que, desde os seus primórdios, conseguiu atrair a atenção dos homens de ciência, interessando por sua vez a filosofia e a religião.

O conhecimento psicológico do homem encontra-se numa

fase a que poderíamos chamar de revolucionária. As teorias do paralelismo psicofisiológico vão sendo abandonadas, ao consi-derar-se o Ser como um Eu ou uma Mente, conceito este nega-do pelo materialismo e pelo existencialismo ateu.

A escola espírita, no campo do conhecimento, está prepa-

rando um novo sentido espiritual, mas agora apoiado num neor-realismo decorrente da demonstração positiva da existência da alma. Assim, o próprio cristianismo, menosprezado pelos niilis-tas e por certos espiritualistas orientais, se reafirmará sobre ba-ses verdadeiramente espirituais. A filosofia espírita promoveu uma nova interpretação da antropologia, que permitirá à própria teosofia apresentar-se ante o espírito dos tempos atuais com suas grandes intuições místicas e cósmicas.

O caráter positivo da ciência mediúnica e metapsíquica

confirmará finalmente as hipóteses de muitas correntes idealis-tas. A intuição palingenésica da teosofia, por exemplo, encon-trará no realismo do fenômeno parapsicológico e metapsíquico a mais completa confirmação, ao lado de muitas teorias da me-tafísica oriental e ocidental.

Unamuno considerava as manifestações místicas e viven-

ciais da agonia terrena, antes de mais nada, como uma conse-

 

5 Unamuno, Do Sentimento Trágico da Vida.

 

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quência da angústia religiosa. Era ele um tipo de existencialis-ta cristão, semelhante a Sören Kierkegaard. Este achava que toda a sabedoria espiritual provinha da própria angústia do Ser. Não obstante, a metapsíquica objetiva é a única força positiva que poderá contraditar e paralisar os planos filosóficos do exis-tencialismo. Estejamos certos de que só um fenômeno objetivo, como o ectoplásmico, se fosse tomado na devida conta, poderia mudar a mentalidade dos tempos modernos e de todas as épocas. Porque, se a objetividade do fato metafísico chegasse a comover a inteligência contemporânea, o existencialismo perderia todo o seu valor, do ponto de vista lógico e filosófico.

Para o pensamento materialista, a filosofia idealista nada re-presenta no mundo do conhecimento. Ela está incluída entre os sistemas que serviram de base aos dogmas, mediante os quais foi possível submeter os povos econômica e socialmente. Entre-tanto, para a filosofia espírita, o idealismo é uma realidade inegá-vel, dependente do mundo espiritual. Pelo processo chamado ESP, isto é, pela percepção extrassensorial, poderíamos captar essa realidade, através do inconsciente. Esse processo chamado ESP 6 nos permitiria apreender outro plano do Espírito, ainda distante, no qual o homem não penetrou, mas que ele pressente, parapsicologicamente, como uma realidade.

 

6 ESP - termo empregado na parapsicologia no sentido de percepção extras-sensorial. A sigla corresponde à expressão inglesa extra sensory perception.

 

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