O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização

Humberto Mariotti · Capítulo 3 de 23

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O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização

Prefácio - Uma Filosofia da Ação - J. Herculano Pires

Humberto Mariotti ◆ O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização ◆ PENSE - Pensamento Social Espírita

 

Prefácio

UMA FILOSOFIA DA AÇÃO

A práxis marxista encontra neste livro uma crítica serena. E

porque é serena, simpática. Humberto Mariotti não se inscreve na fileira dos críticos gratuitos ou políticos do marxismo. Sua inten-ção é descobrir a verdade social, como foi a intenção de Marx. Por isso mesmo, a critica a Marx e sua doutrina não é o objeto deste livro, mas apenas o acessório. Aparece circunstancialmente, nos momentos, em que a visão da problemática social, submetida ao critério avaliativo da dialética espírita, ressalta ao mesmo tem-po os acertos e os desacertos da sistemática materialista.

Se Marx acreditou que a dialética de Hegel estava de pon-

ta-cabeça, Mariotti não pensou isso da práxis marxista, mas procurou socorrê-la nas suas deficiências. Seu capítulo sobre Marx e Kardec, antecedido de um sobre marxismo e Espírito, deixa isso bem claro. Longe do sectarismo e, portanto, da pai-xão, fugindo aos simples jogos de palavras, enfrentando as pro-posições revolucionárias com lucidez filosófica, Mariotti é a antítese dos críticos interesseiros. Sua crítica se define no cam-po do paralelismo, na busca de elementos esclarecedores, no confronto positivo, como se vê nesta corajosa afirmação: “Karl Marx e Allan Kardec encarnam nos novos tempos as duas grandes inquietudes do pensamento contemporâneo: o fenôme-no social e o fenômeno espiritual”.

Para Mariotti, a concepção marxista do homem se ressente

do aspecto fundamental, que é o espiritual. A concepção kardeci-ana supre essa falha, não mais em termos abstratos, como no ve-lho idealismo, mas em termos concretos e, portanto, existenciais. É o homem-espírito de Kardec que dá sentido histórico e moral ao homem-econômico de Marx. E temos assim um novo homem, constituindo-se em pessoa humana, cuja responsabilidade não se

 

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restringe a uma classe, a uma determinada categoria social, mas se abre na perspectiva de um humanismo universal e ativo.

Ao encarar essa nova dimensão do homem, ao superar com essa síntese os conflitos do passado e do presente, Mariotti en-frenta o último aliado do marxismo, que é o existencialismo de Sartre. Reconhece a validade do método existencial de aborda-gem da problemática do Ser, mas demonstra que o Ser não pode estar compreendido nos limites efêmeros da existência. O ho-mem do mundo não é para ele o alfa e o ômega da reflexão sobre o Ser, mas apenas a porta de entrada para a solução do grande problema. À maneira de Heidegger, é por essa porta que ele en-tra, certo de que a problemática humana, em seu aspecto imedia-tista, não nos oferece a existência em si, mas tão somente uma forma de existência. O existir, na verdade, é uma função do Ser, nele implicada e jamais a implicá-lo. Ser e existir se mostram na sua realidade concreta, não apenas verbal, mas como entes que se fixam no fluir da duração, recortando-se no tempo.

De ambos resulta, na dialética espírita de Mariotti, o ente social, que na forma da rés ou coisa do fato social de Durkheim, constitui a sociedade. Na perspectiva existencial em que nos encontramos é mais fácil a redução (evidentemen-te fenomenológica) do Ser ao ente, para depois, através do ente, remontarmos ao Ser. A lei dialética da negação da negação deve ser aplicada em sua plenitude, completando-se na reversão final, que Sartre não quis fazer, para que a problemática do Ser se escla-reça. Da mesma maneira, o problema social, que se entranha na-quela problemática, só encontra solução no momento em que o revertemos do social ao moral, através do ontológico.

Daí o interesse de Mariotti pela parapsicologia, que é o instrumento adequado, no campo das ciências positivas, para arrancar o mundo contemporâneo do organocentrismo em que se fechou. As pesquisas parapsicológicas quebram a casca dessa

 

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concepção materialista que reduz o homem ao seu organismo, permitindo ao investigador tocar com o dedo a anima, essa ideia platônica que se projeta na existência como para-si, não para frus-trar-se na morte, como quer Sartre, mas para nela completar-se, como percebeu Heidegger. O destino do homem não é a frustra-ção da morte, mas a vitória da vida, conquistada na existência. Por isso, a existência não é uma inconsequência, mas uma responsabi-lidade que só se pode medir em função do Infinito.

Do Ser concreto que anima o homem, que lhe dá o mo-

vimento e a consciência entre as coisas, e que por isso mes-mo o destaca das coisas, Mariotti parte para o universo mo-ral, que é uma consequência natural, e portanto lógica e ne-cessária, do processo de projeção do Ser na existência. Exis-tir é realmente transcender, como ensina Karl Jaspers, e a transcendência se faz em dois sentidos: o horizontal, que é o fenômeno social, e o vertical, que é o fenômeno espiritual. No primeiro, temos a sociedade e todas as suas implicações; no segundo, a moralidade e sua atualização palingenésica. O social se resolve em moral quando a existência não se fecha no círculo vicioso dos valores materiais. Porque a finalidade mesma da existência é promover “a desmaterialização dos valores econômicos e materiais”. Mas isto só é possível atra-vés da moralização crescente do homem, que se verifica, como podemos ver na história, em razão inversa da acumu-lação egoísta dos valores materiais.

Assim, a história se reverte em palingenesia, essa antiga e

nova forma do futuro, era que o passado e o presente se fundem numa supra-realidade, precisamente aquela em que surge a possi-bilidade da síntese em-si-para-si, que Sartre nega. Mas o em-si-para-si não é apenas aspiração, não é um sonho ou um possível arquétipo, e sim uma realidade crescente, que se atualiza em nós mesmos à proporção em que o captamos em nossa percepção consciente da vida. Os exemplos históricos nos mostram essa

 

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realidade inegável, mas até agora obscurecida pelo dogmatismo fideísta das religiões e pelo dogmatismo cético das ciências.

Curioso notar como a dialética de Mariotti segue a linha hegeliana e ao mesmo tempo se confirma na tese marxista. O que mostra que Marx, em vez de pôr a dialética de Hegel em pé, apenas acolheu-se à sua sombra. Porque a sombra da dialé-tica espiritual de Hegel é a realidade histórica em que ela se projeta. Mariotti se recusa a contemplar as sombras da caverna de Platão, preferindo romper os grilhões do materialismo histó-rico para ver as coisas reais do mundo à plena luz do sol. É as-sim que ele nos oferece a dialética do Espírito, em que o movi-mento da vida não se reduz à agitação inconsequente do sensí-vel, mas se expande na serenidade responsável do inteligível.

Nessa nova dialética, que é a síntese das anteriores, que faz do movimento o meio de transição e o ponto de encontro do espí-rito e da matéria, as divergências ideológicas do mundo contem-porâneo, — simples equívocos do pensamento, em seu processo dialético de atualização, — são absorvidas numa nova forma con-ceptual. A tônica dessa nova concepção é a realidade espiritual do povo, é o povo tomado como a comunhão de consciências de que nos fala René Hubert, o povo construindo a República dos Espíritos (a que alude o mesmo Hubert), o povo na sua plenitude democrática determinada pela igualdade espiritual do Ser, que anima todos os entes e em consequência o ente social. Partindo, assim, do Ser, essa abstração verbal, essa figura gramatical do espiritualismo alienado ao dogmatismo fideísta, Mariotti atinge a realidade concreta do Ser no individual e no social.

É a este Ser, que no ente do homem representa o próprio homem, que compete agir para libertar-se do egocentrismo escra-vizador, para superar o egoísmo que o coisifica entre as coisas do mundo. A história, como suceder temporal das coisas (os fatos sociais tomados também como coisas) transforma-se na metamor-

 

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fose espiritual do homem e da sociedade. Ao materialismo histó-rico, que coloca a sua ênfase nos valores econômicos, sucede a dialética do Espírito, que desmaterializa os valores contingentes para transformá-los em valores eternos do espírito. A atualização que Marx pretendeu realizar na transformação material do mundo, evitando a fuga espiritual das religiões, Mariotti realiza na transformação espiritual do homem. Porque o homem é o mundo, e uma filosofia da ação, que transforma a potência em ato, não pode contar apenas com a vontade de potência, mas também e sobretudo com a consciência moral.

Mariotti anuncia, assim, o homem e a sociedade numa

nova civilização, que não surgirá por acaso, mas através da vontade consciente do homem atual, que é o único possível construtor do futuro. Os valores existenciais projetam-se além da existência, porque esta é apenas um ente, um fenômeno, um momento na duração, que pode converter-se no instante kier-kegaardiano, ligando o finito ao infinito. As injustiças sociais, geradas pela brutalidade egocêntrica, não podem ser sanadas por uma brutalidade sociocêntrica. Só um homem-humano po-derá construir uma sociedade humana. A filosofia da ação que o espiritismo nos oferece é o caminho dessa realização, mas esse caminho só pode ser seguido pelos espíritas conscientes da responsabilidade doutrinária.

É por esse motivo que Mariotti insiste na distinção entre o

espiritualismo misoneísta que, como o ocultismo alemão, serviu ao nazismo, e o espiritualismo participante que penetra a alma do povo e a ela se liga, resultando no fenômeno da mediunidade so-cial, condutora dos povos. Os espíritas que temem os problemas sociais e políticos pertencem ao primeiro tipo, são misoneístas extraviados no seio de um movimento espiritual renovador do mundo. Mas a participação espírita não é partidária, nem é políti-ca no sentido comum do termo. A revolução espírita não é um ato de violência, nem pode aceitar a violência, que é a negação do

 

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princípio de fraternidade, um crime contra o amor. Só a consciên-cia da responsabilidade doutrinária, que resulta do conhecimento e da vivência da doutrina espírita, arma o homem para enfrentar a nova perspectiva política e revolucionária do espiritismo.

Mariotti acentua que a revolução espírita supera todas as anteriores, que transformaram sucessivamente o mundo. “Com o espiritismo, — adverte, — haverá um encadeamento dialético do Céu com a Terra. Os homens e as almas se unirão e as por-tas do Infinito se abrirão aos heróis e aos lutadores, como um novo cenário para a divina palingenesia de todos os seres. A humanidade, individual e coletivamente, recuperará a memória do Eterno, tornando-se consciente do seu papel no grande pla-no da evolução universal”.

As formas de ação do espiritismo não se conformam com as do homem-mortal. São as formas de ação do homem-imortal que levam em consideração não apenas o imediato, mas tam-bém o futuro. A filosofia da ação que este livro nos apresenta é de natureza cósmica, mas, como dizia Léon Denis, consideran-do um Cosmos em que a matéria se conjuga com o espírito e o tempo com a eternidade.

A participação do espírita não quer dizer engajamento po-lítico ou ideológico, mas compreensão e vivência dos princípios de fraternidade, em favor ao mesmo tempo de vítimas e algo-zes, pois tanto é escravo da miséria o pobre explorado quanto o rico explorador. Esta nova mensagem, — que é tão velha quan-to o mundo, mas só agora começa a tornar-se acessível à com-preensão humana, — precisa ser meditada pelos espíritas cons-cientes de sua responsabilidade doutrinária. E ninguém melhor do que Mariotti para ajudá-los nessa meditação.

J. Herculano Pires

 

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