O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização
XIII — Necessidade do Espiritismo Sociológico
Humberto Mariotti ◆ O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização ◆ PENSE - Pensamento Social Espírita
Capítulo XIII
NECESSIDADE DO
ESPIRITISMO SOCIOLÓGICO
Todos os males que afligem a humanidade têm suas raí-zes nos grandes problemas sociais. Importantes ideologias políticas estão empenhadas em solucioná-los; mas esses pro-blemas, em vez de se resolverem, tornam-se cada vez mais graves, com o perigo de se converterem em catástrofes coleti-vas. No entanto, o esforço dessas ideologias merece o mais franco reconhecimento, pois demonstram elas estar vivendo esses conflitos sociais, sem eludi-los nem fugir de suas gran-des realidades. O espiritismo militante, entretanto, que repre-senta toda uma ciência da alma, e dessa maneira uma perfeita sincronização entre o corpo e o espírito, ainda não demonstra um real interesse pelo estudo dos problemas sociais. Salvo alguns casos isolados, não existe na militância espírita uma continuidade ideológico-social, que nos permita assinalar um verdadeiro enfoque dos contraditórios fenômenos do presente processo histórico.
Acreditamos que a filosofia espírita deve penetrar nos fe-nômenos sociais com sua extraordinária sociologia, já que esta constitui uma verdadeira revolução, no que respeita ao conhe-cimento do espírito encarnado e de suas relações com as leis da sociedade.
Estas mesmas leis obrigam o espiritismo militante a en-frentar as contradições sociais e econômicas com sua visão espiritual do homem e da história, com o que demonstraria a maneira por que o espírito rege e determina os grandes fatos políticos e econômicos. Se o espiritismo permanecesse à mar-gem da questão social, adotaria um critério evasivo perante as grandes coletividades humanas que sofrem esperando sua defi-nitiva redenção.
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Por outro lado se desvalorizaria o pensamento sociológico
dos que encararam de forma decisiva os temas sociais à luz da filosofia espírita. Como sabemos, o espiritismo possui uma riquíssima teoria sociológica e chegou o tempo de sua aplica-ção à sociedade humana. Além disso, ignorar que o espiritismo tem um destino social seria desconhecer suas grandes linhas humanistas e a missão que lhe cabe em face à dor humana. Es-se destino do espiritismo é corroborado por seu caráter integral, pois um só fato social que ele não encarasse bastaria para fragmentar sua natureza de ciência universal, cuja missão é abranger todos os problemas da humanidade.
Os que têm a propensão de circunscrevê-lo às experiên-
cias de laboratório negam o seu caráter transcendente, limitam e retardam o seu apostolado espiritual e social. O espiritismo, segundo o critério kardecista, é um movimento fraternal que procura fundar no mundo uma associação de homens e espíri-tos, reciprocamente integrados nas grandes lutas pelo progresso e pela evolução. Sua militância social e fraterna dirige-se so-bretudo aos tristes e necessitados, que sofrem sob o contraditó-rio sistema econômico contemporâneo. Por isso, Kardec, refe-rindo-se aos trabalhos e funções sociais da doutrina espírita, declarou: “É aos deserdados, mais do que aos felizes do mun-do, que o espiritismo se dirige.”
As questões sociais, que agitam o mundo contemporâneo,
devem receber a contribuição da escola kardecista. Mas esta contribuição só poderá ser conhecida se a ação dos homens e mulheres espíritas incidir sobre os tremendos instantes por que passa o mundo. A sociologia contemporânea procura situar a luta de classes dentro do tomismo, do marxismo ou do comuni-tarismo, esta nova escola social surgida há pouco. Mas uma sociologia, seja qual for, que não resolvesse também as situa-ções éticas e psicológicas do indivíduo, jamais representaria uma solução para o drama geral que a humanidade vive.
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Léon Denis escreveu:
“Todas as doutrinas econômicas e sociais serão impo-tentes para reformar o mundo e minorar os males da humani-dade, porque sua Base é demasiado estreita e elas colocam apenas na vida presente a razão de ser, a finalidade, o objeti-vo desta vida e de todos os nossos esforços. Para extinguir o mal social é necessário elevar a alma humana à consciência de seu papel, fazê-la compreender que sua sorte depende dela própria, e que sua felicidade sempre será proporcional à ex-tensão dos seus triunfos sobre si mesma e à sua abnegação para com os demais.
A questão social será resolvida quando o altruísmo substi-tuir o personalismo exclusivista e estreito. Os homens se senti-rão irmãos e iguais perante a lei divina, que reparte a cada um os bens e os males necessários à sua evolução, os meios de ven-cer-se a si mesmo e acelerarem a sua ascenção. 42
Os fenômenos sociais são fatos que ferem a sensibilidade, o que significa que a evolução moral é de caráter espiritual. Fazer do espiritismo uma ideia contemplativa, que espreita as lutas soci-ais sem nelas intervir com sua doutrina, seria desnaturá-lo, colo-cando-o longe da ação criadora dos espíritos progressistas.
Lembremo-nos de que a filosofia espírita ultrapassa a vi-são social das demais doutrinas, porque, além de apresentar uma sociologia deste mundo, mostra ao homem uma sociologia palingenésica do espírito, vinculada com os mundos invisíveis: liga as vidas sucessivas do Ser, fazendo-as dependentes umas das outras. A ideologia espírita não procede como os demais sistemas que se circunscrevem a um único centro: o da Terra, esquecendo-se da vida espiritual. A sociologia espírita reco-nhece um constante enlace entre o visível e o invisível, inter-pretando o processo social como um fato histórico sujeito a
42 Léon Denis, O Problema do Ser, do Destino e da Dor.
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influências metapsíquicas que se desenvolve na interação dos espíritos encarnados e desencarnados.
Vejamos qual era o parecer de Allan Kardec a respeito:
Quem tenha meditado sobre o espiritismo e suas conse-
quências e que o reduza à produção de alguns fenômenos, compreende que ele abre à humanidade um novo roteiro, mos-trando-lhe, de passagem, os horizontes do Infinito. Ao iniciá-la nos mistérios do mundo invisível revela-lhe o seu verdadeiro papel na criação. Desempenhando um papel perpetuamente ativo, tanto em estado corporal como espiritual, o Ser humano já não marcha às cegas; sabe de onde vem, para onde vai e porque existe.
O futuro se lhe apresenta, na realidade, isento dos pre-
conceitos da ignorância e da superstição; já não é vaga espe-rança, senão uma verdade palpável, tão positiva para ele como a sucessão do dia e da noite. Sabe que seu Ser não está limita-do a alguns instantes de uma existência efêmera, que a vida espiritual não é interrompida pela morte; que já viveu, que tornará a viver, e que tudo quanto avançar, na ciência e na moralidade, pelo trabalho, lhe servirá para o futuro.
Em suas existências anteriores encontra a razão do que
é hoje e do que hoje conseguir ser poderá deduzir o que será amanhã.
Que importa ao homem o progresso da humanidade, se
acreditar que a atividade e a cooperação do indivíduo na obra geral da civilização ficam limitadas à vida presente, que nada foi e que ao nada terá de voltar?
Que lhe importa que no futuro os povos tenham que ser
mais bem governados, mais felizes, mais ilustrados e melhores uns para com os outros?
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Visto que o indivíduo não terá nenhum proveito com tais progressos, não são perdidos e inúteis para ele? De que serve trabalhar para os que virão depois, se não irá conhecê-los, se serão seres novos que, pouco depois, terão também de voltar para o nada?
Sob o influxo da negação do porvir individual, tudo se reduz, fatalmente, às mesquinhas proporções do momento e da personalidade.
Pelo contrário, que amplitude dá ao pensamento do ho-mem a certeza da perpetuidade de seu Ser espiritual! Que coisa mais racional, mais grandiosa, mais digna do Criador se pode conceber, que essa lei em virtude da qual a vida espi-ritual e a vida corporal são dois modos de existência alterna-dos, que têm por objetivo a realização do progresso? Que pode haver de mais justo e consolador que a ideia dos mes-mos seres progredindo sem cessar, primeiro através das gera-ções e logo de mundo em mundo, até à perfeição, sem solução de continuidade?
Todas as ações têm seu objetivo, porque, trabalhando pa-ra todos, trabalha-se para si mesmo e assim reciprocamente; de modo que nem os progressos individuais, nem os da totali-dade, em nenhum caso são estéreis. Aproveitam às gerações e aos indivíduos que hão de vir e que não são outros senão as gerações e os indivíduos que já foram, e agora chegados a um grau mais elevado de desenvolvimento.
Como vemos, o homem não é o resultado do acaso material, nem desaparece espiritualmente com a sua extinção corporal, segundo a concepção materialista da existência. A visão espíri-ta nos mostra que cada ato e cada ação do ser humano tem sua repercussão sobre os fatos sociais e particulares: sua moral se une assim com o futuro; daí se conclui que o espiritismo reconhece um verdadeiro encadeamento entre o particular e o coletivo, o
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oculto e o visível, isto é, que tanto o passado como o presente se unem entre si, graças à lei palingenésica, já que o homem de ontem é o de hoje e o de hoje será o de amanhã.
Em consequência, se o homem espírita não iniciar a sua a-
ção sociológica, ocultará com esse proceder as grandes concep-ções sociais do espiritismo. A Terra tem necessidade de uma so-ciologia espiritual; a doutrina espírita deverá penetrar nas contra-dições humanas, já que ela nos trouxe o exato conhecimento das leis sociais. Só assim a humanidade se acostumará a considerar a possibilidade de uma concepção espiritista da sociedade, sem
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nenhuma classe de dúvidas nem de vacilações.
43 O problema da Sociologia Espírita foi amplamente estudado num curso de Introdução à Filosofia Espírita, dado em 1964, no Clube dos Jornalistas Espíritas de São Paulo. A Edicel publicará esse curso, num volume próximo da sua Coleção Filosófica, a que pertence este livro. E publicará posterior-mente o livro Sociologia Espírita, do grande pensador argentino, Manuel S. Porteiro, atualmente em fase de tradução. (Nota de J.H. Pires). O livro Sociologia Espírita foi lançado em edição digital pelo Pense, com o título Conceito Espírita de Sociologia, traduzido por José Rodrigues. O curso Introdução à Filosofia Espírita, ministrado por José Herculano Pires, saiu em edição póstuma pela editora Paidéia, em 1983. (Nota do Pense).
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