O Livro Negro do Empreendedor
Quinto Assalto com Quem Você Entraria em um Submarino para Dar a Volta ao Mundo?
RESUMO
Na maioria das vezes nos associamos por medo; outras vezes, como
meio de conseguir recursos que, em curto prazo, saem de graça, mas em
longo prazo são os mais caros de todos. Empreender implica certa
solidão, mas esta solidão lhe dará velocidade e liberdade para impor
suas decisões e sua intuição. Só se associe quando precisar de algo que
não possa conseguir de outra maneira. E, de preferência, conte apenas
com sócios capitalistas; não se associe para compartilhar trabalho.
Quarto FCF: ter sócios quando, na realidade, não necessita deles.
QUINTO ASSALTO COM QUEM VOCÊ ENTRARIA EM UM SUBMARINO PARA DAR A VOLTA AO MUNDO?
Como escolher e formular acordos com os sócios
Os valores acima de tudo
Apesar da recomendação do assalto anterior, sei que a imensa maioria a ignorará e se associará a alguém. Não tem importância, eu também o fiz
e a verdade é que deu muito certo. Mas reconheço que tive muita sorte
porque, como no casamento, você não sabe na verdade com quem se
casou até que passe algum tempo.
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Por isso dedico esse assalto a como escolher a pessoa com a qual se
associar, a explicar os critérios fundamentais para que sua sociedade seja
um fator que some e não que subtraia.
Escolher sócios é muito parecido com selecionar as pessoas com quem
dar a volta ao mundo em um submarino. Num submarino o espaço é
pequeno e você acaba conhecendo a intimidade dos companheiros,
inclusive as mais escatológicas, vive muitos momentos de agonia,
situações nas quais parece que não há nenhuma saída, situações críticas
nas quais é preciso tomar decisões desagradáveis...
Empreender é muito parecido.∗Você vai conhecer todas as desgraças de
seus sócios, e por isso eles devem ser pessoas que compartilhem uma
coisa fundamental: sua mesma escala de valores.
É muito melhor ter um sócio medíocre cujos princípios estejam
alinhados aos seus do que um sujeito brilhante inescrupuloso. Procure
pessoas que tenham princípios morais e éticos semelhantes aos seus,
pessoas com a mesma escala de valores. No entanto, como sabemos
disso? Não é falando de negócios! Pergunte o que ele espera da vida,
com que frequência vê os filhos, quais são as suas preocupações em
relação ao mundo, o que acha das pessoas do sexo oposto, quais são seus
sonhos, o que odeia... Saiba, enfim, como é a pessoa.
Não se associe a alguém que não conheça bem. Esta primeira condição é a única excludente entre as que vou expor. Ignore qualquer contribuição
que uma pessoa possa dar se achar que ela não compartilha ou não
aprecia seus valores. Uma relação estável com sócios requer
∗
Inclusive no que se refere ao escatológico.
[52] responsabilidade, generosidade e confiança. Cerque- se de pessoas "sãs"
e honestas, que compartilhem seus mesmos valores diante da vida.
Em meu trabalho de campo tive uma surpresa. Um pedido que formulei
a todos os empreendedores foi o de que elaborassem um ranking dos
critérios, ordenados de maior a menor importância, que usariam para
determinar a quem se associariam e a quem não. Reconheço que me
surpreendi: a honestidade apareceu quase em todos os casos como o
primeiro critério. Eu achava que só eu dava tanta importância a ela. Mas
não. De novo, consenso. Honestidade acima de capacidades técnicas ou
intelectuais. Acima de qualquer outra consideração.
Segundo, complementaridade
Uma vez confirmados os valores, é fundamental que seu futuro sócio
não seja uma pessoa muito parecida com você em outra dimensão: a do
caráter. Coloque duas pessoas com mentalidade de líder em uma
espaçonave que está indo à Lua e verá o que acontece. Foi comprovado
que as empresas de dois sócios que prosperaram eram formadas por
pessoas de caráter diferentes, mas complementares. Por exemplo: um
analítico, racional, tranquilo e metódico; e o outro visceral, audaz,
agitado e criativo.
A Nasa, quando forma uma equipe de astronautas para uma de-
terminada missão, analisa a estrutura das personalidades dos sujeitos que vai colocar naquele "submarino" voador chamado espaçonave. A
agência espacial norte-americana sabe que o sucesso da missão depende menos dos conhecimentos técnicos de seus membros que da afinidade e
complementaridade das estruturas das personalidades que coloca em
órbita.
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Um exemplo: a equipe de roteiristas e produtores do programa de
televisão e reality show Big Brother (vaidade exagerada intelectual e
voyeurismo de tela) sabe que a quantidade de brigas, sangue e gritos na
casa (leia-se, audiência) é diretamente proporcional à semelhança das
estruturas das personalidades das pessoas trancafiadas na casa. Se, além
do mais, beirarem o patológico, é ainda melhor. Não há nada mais
provocador do que juntar um bando de narcisos.
Para que uma sociedade funcione, deve haver diversidade de talentos.
Você não deve se associar a amigos só porque isso aumenta suas
esperanças. Quando não há diversidade de talentos, não só não se soma
como se subtrai, e as relações pessoais acabam se deteriorando.
Não é nenhuma bobagem. Uma vez vieram me visitar três amigos que
iam montar uma tipografia, e os três, até aquele momento, só haviam
trabalhado em departamentos comerciais. Ninguém sabia nada da parte
técnica nem da parte logística. Sim, eu sei que disse antes que isso pode
ser feito por empregados, e é isso o que iam fazer. Mas minha sugestão
foi que, já que eram três sócios não capitalistas (a impressora ia ser
adquirida através de um leasing), era melhor que um fosse especialista
em comprar, outro em imprimir e o terceiro em vender.
Foi o que eu disse naquela reunião. Foi desagradável, reconheço. Os três
se olharam nos olhos e se sentiram mal. Sabiam que estavam juntos
porque haviam decidido, mas, na verdade, nenhum era para os outros o
sócio de que precisavam.
Finalmente, a questão do aporte real de valor
Uma vez encontrado o sujeito com quem coincide na escala de valores e
é complementar ao seu caráter, só resta garantir que não seja um
"molengão". Não ria. Há pessoas inúteis com uma capacidade espantosa
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de dissimular e futuros empreendedores, necessitados de sócios, com
uma capacidade assombrosa de não querer perceber.
É preciso escolher alguém que nos adicione valor, porque valor implica
mais conhecimentos, mais trabalho e ideias melhores. A pessoa com a
qual se associar deve ser alguém cuja opinião mereça respeito. Que seja
uma autoridade para você, que tenha um peso específico.
Um dos entrevistados me disse: "O sócio não deve ser nunca inferior,
pois nesse caso só servirá para incrementar sua autoconfiança."
Não deixa de ser paradoxal que, se todo mundo aplicasse este critério,
ninguém se associaria; se, por definição, as pessoas estão em níveis
diferentes e as duas sabem que só convém se associar com alguém mais
preparado, uma das duas, a que sabe que é superior a outra, procurará
uma pessoa que saiba mais... mas quando a encontrar será rejeitada, pois
então será ela quem estará em um nível inferior. Enfim, jamais revele este critério antes de percorrerem juntos alguns anos de caminhada...
Em geral, uma mesma ambição
De qualquer maneira, uma vez atendidos os três critérios expostos
acima, essenciais para a escolha de um sócio, é preciso alinhar muito
claramente qual é a ambição, o objetivo que se pretende atingir.
Quanto querem faturar? Quanto querem chegar a ganhar? Quantos
empregados querem chegar a ter? Trata-se de empreender para depois
vender o negócio? Até que ponto querem chegar?
"Se o que os sócios procuram é diferente (do que você procura) é muito
provável que diante de qualquer dilema ou dificuldade que se apresente
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surjam visões muito distintas sobre como enfrentá-los e, com isso,
fricções ou rupturas." ∗
Se na hora de empreender é fundamental pensar naquilo que se quer, no
caso de empreender com sócios isso é ainda muito mais importante. É preciso definir o que se quer. É preciso ter segurança de que os nossos
objetivos também são os de nossos companheiros de viagem.
RESUMO
Os critérios mais importantes para a escolha de sócios são, pela ordem:
honestidade e valores alinhados com os seus (esta primeira condição é
excludente), e, em segundo lugar, complementaridade com seu caráter e
suas competências; que sejam pessoas que somem valor. É fundamental
falar e explicar qual é a ambição que o projeto persegue e que esta
ambição esteja perfeitamente compartilhada sem nenhum tipo de
dúvida.
Quinto FCF: escolher sócios sem definir critérios de escolha relevantes.
∗ Entrevista de Emilio Mayo.
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