O Livro Negro do Empreendedor

Fernando Trías de Bes · Capítulo 9 de 21

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O Livro Negro do Empreendedor

Quinto Assalto com Quem Você Entraria em um Submarino para Dar a Volta ao Mundo?

RESUMO

 

Na maioria das vezes nos associamos por medo; outras vezes, como

meio de conseguir recursos que, em curto prazo, saem de graça, mas em

longo prazo são os mais caros de todos. Empreender implica certa

solidão, mas esta solidão lhe dará velocidade e liberdade para impor

suas decisões e sua intuição. Só se associe quando precisar de algo que

não possa conseguir de outra maneira. E, de preferência, conte apenas

com sócios capitalistas; não se associe para compartilhar trabalho.

Quarto FCF: ter sócios quando, na realidade, não necessita deles.

 

QUINTO ASSALTO COM QUEM VOCÊ ENTRARIA EM UM SUBMARINO PARA DAR A VOLTA AO MUNDO?

 

Como escolher e formular acordos com os sócios

Os valores acima de tudo

Apesar da recomendação do assalto anterior, sei que a imensa maioria a ignorará e se associará a alguém. Não tem importância, eu também o fiz

e a verdade é que deu muito certo. Mas reconheço que tive muita sorte

porque, como no casamento, você não sabe na verdade com quem se

casou até que passe algum tempo.

 

[51]

Por isso dedico esse assalto a como escolher a pessoa com a qual se

associar, a explicar os critérios fundamentais para que sua sociedade seja

um fator que some e não que subtraia.

Escolher sócios é muito parecido com selecionar as pessoas com quem

dar a volta ao mundo em um submarino. Num submarino o espaço é

pequeno e você acaba conhecendo a intimidade dos companheiros,

inclusive as mais escatológicas, vive muitos momentos de agonia,

situações nas quais parece que não há nenhuma saída, situações críticas

nas quais é preciso tomar decisões desagradáveis...

Empreender é muito parecido.∗Você vai conhecer todas as desgraças de

seus sócios, e por isso eles devem ser pessoas que compartilhem uma

coisa fundamental: sua mesma escala de valores.

É muito melhor ter um sócio medíocre cujos princípios estejam

alinhados aos seus do que um sujeito brilhante inescrupuloso. Procure

pessoas que tenham princípios morais e éticos semelhantes aos seus,

pessoas com a mesma escala de valores. No entanto, como sabemos

disso? Não é falando de negócios! Pergunte o que ele espera da vida,

com que frequência vê os filhos, quais são as suas preocupações em

relação ao mundo, o que acha das pessoas do sexo oposto, quais são seus

sonhos, o que odeia... Saiba, enfim, como é a pessoa.

Não se associe a alguém que não conheça bem. Esta primeira condição é a única excludente entre as que vou expor. Ignore qualquer contribuição

que uma pessoa possa dar se achar que ela não compartilha ou não

aprecia seus valores. Uma relação estável com sócios requer

 

∗

Inclusive no que se refere ao escatológico.

[52] responsabilidade, generosidade e confiança. Cerque- se de pessoas "sãs"

e honestas, que compartilhem seus mesmos valores diante da vida.

Em meu trabalho de campo tive uma surpresa. Um pedido que formulei

a todos os empreendedores foi o de que elaborassem um ranking dos

critérios, ordenados de maior a menor importância, que usariam para

determinar a quem se associariam e a quem não. Reconheço que me

surpreendi: a honestidade apareceu quase em todos os casos como o

primeiro critério. Eu achava que só eu dava tanta importância a ela. Mas

não. De novo, consenso. Honestidade acima de capacidades técnicas ou

intelectuais. Acima de qualquer outra consideração.

Segundo, complementaridade

Uma vez confirmados os valores, é fundamental que seu futuro sócio

não seja uma pessoa muito parecida com você em outra dimensão: a do

caráter. Coloque duas pessoas com mentalidade de líder em uma

espaçonave que está indo à Lua e verá o que acontece. Foi comprovado

que as empresas de dois sócios que prosperaram eram formadas por

pessoas de caráter diferentes, mas complementares. Por exemplo: um

analítico, racional, tranquilo e metódico; e o outro visceral, audaz,

agitado e criativo.

A Nasa, quando forma uma equipe de astronautas para uma de-

terminada missão, analisa a estrutura das personalidades dos sujeitos que vai colocar naquele "submarino" voador chamado espaçonave. A

agência espacial norte-americana sabe que o sucesso da missão depende menos dos conhecimentos técnicos de seus membros que da afinidade e

complementaridade das estruturas das personalidades que coloca em

órbita.

 

[53]

Um exemplo: a equipe de roteiristas e produtores do programa de

televisão e reality show Big Brother (vaidade exagerada intelectual e

voyeurismo de tela) sabe que a quantidade de brigas, sangue e gritos na

casa (leia-se, audiência) é diretamente proporcional à semelhança das

estruturas das personalidades das pessoas trancafiadas na casa. Se, além

do mais, beirarem o patológico, é ainda melhor. Não há nada mais

provocador do que juntar um bando de narcisos.

Para que uma sociedade funcione, deve haver diversidade de talentos.

Você não deve se associar a amigos só porque isso aumenta suas

esperanças. Quando não há diversidade de talentos, não só não se soma

como se subtrai, e as relações pessoais acabam se deteriorando.

Não é nenhuma bobagem. Uma vez vieram me visitar três amigos que

iam montar uma tipografia, e os três, até aquele momento, só haviam

trabalhado em departamentos comerciais. Ninguém sabia nada da parte

técnica nem da parte logística. Sim, eu sei que disse antes que isso pode

ser feito por empregados, e é isso o que iam fazer. Mas minha sugestão

foi que, já que eram três sócios não capitalistas (a impressora ia ser

adquirida através de um leasing), era melhor que um fosse especialista

em comprar, outro em imprimir e o terceiro em vender.

Foi o que eu disse naquela reunião. Foi desagradável, reconheço. Os três

se olharam nos olhos e se sentiram mal. Sabiam que estavam juntos

porque haviam decidido, mas, na verdade, nenhum era para os outros o

sócio de que precisavam.

Finalmente, a questão do aporte real de valor

Uma vez encontrado o sujeito com quem coincide na escala de valores e

é complementar ao seu caráter, só resta garantir que não seja um

"molengão". Não ria. Há pessoas inúteis com uma capacidade espantosa

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de dissimular e futuros empreendedores, necessitados de sócios, com

uma capacidade assombrosa de não querer perceber.

É preciso escolher alguém que nos adicione valor, porque valor implica

mais conhecimentos, mais trabalho e ideias melhores. A pessoa com a

qual se associar deve ser alguém cuja opinião mereça respeito. Que seja

uma autoridade para você, que tenha um peso específico.

Um dos entrevistados me disse: "O sócio não deve ser nunca inferior,

pois nesse caso só servirá para incrementar sua autoconfiança."

Não deixa de ser paradoxal que, se todo mundo aplicasse este critério,

ninguém se associaria; se, por definição, as pessoas estão em níveis

diferentes e as duas sabem que só convém se associar com alguém mais

preparado, uma das duas, a que sabe que é superior a outra, procurará

uma pessoa que saiba mais... mas quando a encontrar será rejeitada, pois

então será ela quem estará em um nível inferior. Enfim, jamais revele este critério antes de percorrerem juntos alguns anos de caminhada...

 

Em geral, uma mesma ambição

De qualquer maneira, uma vez atendidos os três critérios expostos

acima, essenciais para a escolha de um sócio, é preciso alinhar muito

claramente qual é a ambição, o objetivo que se pretende atingir.

Quanto querem faturar? Quanto querem chegar a ganhar? Quantos

empregados querem chegar a ter? Trata-se de empreender para depois

vender o negócio? Até que ponto querem chegar?

"Se o que os sócios procuram é diferente (do que você procura) é muito

provável que diante de qualquer dilema ou dificuldade que se apresente

 

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surjam visões muito distintas sobre como enfrentá-los e, com isso,

fricções ou rupturas." ∗

Se na hora de empreender é fundamental pensar naquilo que se quer, no

caso de empreender com sócios isso é ainda muito mais importante. É preciso definir o que se quer. É preciso ter segurança de que os nossos

objetivos também são os de nossos companheiros de viagem.

 

RESUMO

Os critérios mais importantes para a escolha de sócios são, pela ordem:

honestidade e valores alinhados com os seus (esta primeira condição é

excludente), e, em segundo lugar, complementaridade com seu caráter e

suas competências; que sejam pessoas que somem valor. É fundamental

falar e explicar qual é a ambição que o projeto persegue e que esta

ambição esteja perfeitamente compartilhada sem nenhum tipo de

dúvida.

Quinto FCF: escolher sócios sem definir critérios de escolha relevantes.

 

∗ Entrevista de Emilio Mayo.

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