O Livro Negro do Empreendedor

Fernando Trías de Bes · Capítulo 15 de 21

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O Livro Negro do Empreendedor

QUARTA PARTE – Não leve o CNPJ para a cama

 

DÉCIMO PRIMEIRO ASSALTO NUNCA PONHA OS OVOS EM UMA ÚNICA CESTA

 

A importância de diversificar ao máximo as receitas familiares

durante os primeiros anos

Diversificação de receitas

Qualquer empresa pode precisar de certo tempo antes de produzir

lucros. Vamos falar disso na última parte, mas é importante abordar um

aspecto que é levado em conta pelas escolas de administração. Trata-se

da conexão existente entre as necessidades materiais do empreendedor e

a capacidade que seu negócio tem de satisfazê-las.

No caso extremo, o do empreendedor que está começando, a situação

pode ser muito mais exasperante, pois ele precisa de uma determinada

quantia de dinheiro a cada mês, não apenas para satisfazer suas

aspirações, mas para subsistir, para viver: a hipoteca, os gastos correntes,

os colégios, os seguros etc.

Há casos onde um negócio fracassou pelas necessidades prementes da

pessoa que o conduzia. Casos em que, com um pouco mais de tempo, a

empresa ou o negócio talvez tivesse se consolidado.

 

Mas, como o empreendedor esgotou suas economias e precisa continuar

vivendo, se vê obrigado a trabalhar para os outros e a abandonar antes

 

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do tempo um projeto que, com uns meses a mais, teria chegado a um

bom porto.

Por isso é fundamental, antes de empreender, pôr os ovos em mais de

uma cesta, como diz o ditado.

Há duas maneiras de diversificar as receitas: uma, através da poupança

própria, e a segunda, mediante o salário do cônjuge.

A que me refiro quando falo em poupança própria? Quero dizer que é

preferível não empreender antes de contar com um "colchão" que

permita cobrir nossas necessidades pessoais enquanto o negócio não

deslancha. E, para isso, é preciso economizar durante o tempo que for

necessário antes de iniciar a aventura.

Recordo, por exemplo, que esperei vários anos para começar meu

negócio. Fiz os seguintes cálculos: eu, naquele momento (ano de 1996 e

sem filhos), podia viver com 600 euros por mês. Era bem apertado, mas

vivia. O que fiz foi colocar de lado pouco a pouco uma quantia que me

permitisse viver das minhas economias durante dois anos, inclusive

supondo que a nova empresa não faturasse nada. Vendi, sem lucros, um

apartamentinho que havia comprado, pois não queria ter uma hipoteca

enquanto empreendesse. Não queria amarras que me forçassem a

desistir antes do tempo.

Isso foi uma tranquilidade, pois me deu autonomia total na hora de

tomar decisões. Estas não foram condicionadas por minhas próprias

necessidades, e sim pelas da empresa.

José Maria Ruiz Millet me disse: "Em meu setor, a medicina, aconselho

sempre a contar com um colchão básico de dois anos. E levar mais cinco

anos com muita paciência."

Mas esse pode não ser o caso de muitas pessoas que, bem ou mal, estão

paradas, ou só podem economizar a duras penas e, mesmo assim,

querem empreender.

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Nesse caso, a segunda opção é se apoiar na família. Normalmente, no

cônjuge. É muito arriscado empreender sem economias ou quando o

casal não trabalha ou não tem um emprego medianamente estável.

Logicamente, como veremos ao final deste assalto, isso é um sacrifício para ambos. Durante um tempo indefinido, tenderão a viver só com o

salário do casal. Menos caprichos, menos roupa, menos "muitas coisas".

Mas, pelo menos, damos autonomia ao negócio, desvinculando-o das

necessidades pessoais mínimas.

A última possibilidade, quando não se está neste contexto, é recorrer a

um crédito. Nesse caso, calcule muito bem, porque se a empresa não se

solidificar e for necessário fechá-la, você se verá sem trabalho e com uma

dívida para pagar. Se for uma pessoa que, por sua experiência e idade, sabe que não terá dificuldade de encontrar trabalho e que poderá depois,

com parte de seu salário, pagar as dívidas, então pode admitir esta

opção. De qualquer maneira, é melhor jogar com trunfos na mão. Se tive

capacidade de economizar depois, é porque também a tem agora.

Poupar primeiro e empreender depois é sempre melhor do que

empreender sem economias e ter que, de repente, ir trabalhar para os

outros, pois assim poderá devolver o dinheiro perdido.

Bem, essas opções, para garantir a sobrevivência durante a fase inicial de

um negócio que expus aqui estão à margem da empresa. Existe uma

terceira maneira que de fato deveria ser a mais apropriada, para que as

necessidades pessoais sejam cobertas, e que é...

 

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Incorporar as receitas pessoais ao seu plano de negócio

Vou explicar. Se você precisa de 100 unidades monetárias para viver, in-

clua-as no orçamento de sua empresa. Se isso implica ter de contar com

sócios capitalistas, então ofereça a outras pessoas a possibilidade de

participar com seu próprio dinheiro. Não se trata de dar-lhes alguma

coisa de presente. Trata-se, simplesmente, do seguinte: um plano de

negócio que não incorpora seu salário não é um plano realista. E se um

plano de negócio realista pressupõe mais capital, é melhor saber de

antemão.

Tanto nesse caso como nos anteriores, é necessário elaborar o orçamento

sob o cenário mais pessimista. Imagine a pior situação possível e depois

subtraia 30%. A maioria das pessoas tende a fazer o contrário, a fazer

cálculos otimistas, e depois descobre que onde achavam que precisariam

de 100 na realidade precisavam de 200. Por isso eu lhe recomendo que

pense em 300.

As necessidades financeiras são o primeiro grande inimigo do

empreendedor. Antes de morrer tentando, é recomendável procurar um

sócio, ajuda financeira bancária, business angels etc. Há muitas

alternativas.

Não viver como um empresário rico na primeira

oportunidade

Nas escolas de negócios, a empresa é considerada e analisada como um

ente à margem das ambições materiais de seus proprietários. E isso nem

sempre é assim. Uma infinidade de empreendedores faz seus planos de

negócio ou estabelece o nível de suas aspirações em função de suas

ambições materiais.

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Outra fonte de problemas que, quando não é corrigida, também acaba

levando ao fracasso é a rapidez com que alguns empreendedores os-

tentam seus primeiros êxitos. É claro que uma pessoa jurídica costuma movimentar mais dinheiro do que uma pessoa física. A primeira surpre-

sa de um empreendedor é como as importâncias aumentam quando ele

deixa de se vender por horas para passar a vender "mercadorias".

Há muitas pessoas que são extremamente precoces na partilha dos

lucros ou que colocam, em nome da empresa, automóveis ou outros ar-

tigos destinados, na verdade, ao desfrute pessoal. É necessário ser extre-

mamente cauteloso e ter muito respeito pela liquidez da empresa, pelas

suas possíveis necessidades, pelas eventualidades que possam surgir e

para as quais uma liquidez extraordinária pode ser fundamental.

Se, no âmbito pessoal, é importante ter um "colchão", no da empresa é

mais ainda. Os verdadeiros empreendedores recomendam, inclusive, que se leve uma vida austera, pelo menos durante certo tempo. Se for

necessário, adie a compra da casa e more de aluguel, venda o carro,

reduza suas necessidades. Os primeiros anos são duros e é fundamental

maximizar o tempo de autonomia econômica familiar.

 

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Apoio familiar absoluto e incondicional

Para terminar esse assalto, gostaria de falar de um fator absolutamente importante. Trata-se do apoio familiar. Quero começar com um depoi-

mento verdadeiramente emocionante: "Eu vivi situações aterrorizantes.

Mais do que isso: situações de verdadeiro pânico. Há algo fundamental,

que é o apoio familiar. Não seria quem sou, não teria obtido os resulta-

dos que obtive, se não tivesse tido apoio familiar. É preciso ter uma

sintonia imensa com seu cônjuge. Em um dado momento, recordo que

não tinha mais dinheiro, liguei para minha esposa e, literalmente,

comecei a chorar. 'Não temos mais dinheiro', lhe disse, 'não há mais um

centavo na conta'. Ela me respondeu sem titubear: 'Isso não é verdade,

temos a casa. Se for necessário, podemos morar de aluguel. Pode deixar

que eu aguento'. Não foi necessário, segui adiante. Mas sem o apoio da

minha esposa eu teria desistido naquele momento."

Hoje este senhor goza de uma saúde financeira invejável. Mas ele

mesmo reconhece que naquele dia resolvera desistir. Não se via em

condições de arriscar por mais tempo a segurança da família. Mas sua

família lhe deu apoio.

Da mesma maneira que há uma conexão entre as necessidades pessoais e

o que a empresa pode dar ao empreendedor, há, também, uma estreita

relação entre a família e o projeto. A família deve estar absolutamente afinada com o empreendedor. Deve estar disposta a fazer renúncias, a

entender que um membro da família está empreendendo para o bem de

todos e que, durante algum tempo — e às vezes no futuro se as coisas

não andarem bem — estará envolvida nessa aventura.

Além do mais, esse apoio não é apenas objetivo, no sentido de ser

solidário nas carências, mas também psicológico. Todo empreendedor

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precisa de uma ajuda para se manter quando as coisas cambaleiam ou

quando, por mais que tenha talento, é tomado pela vertigem.

 

O bom empreendedor tem esperanças e inseguranças ao mesmo tempo.

Não se trata apenas do cônjuge; esse apoio deve vir de qualquer membro

da família. "Quando eu me lancei, dei um grande desgosto a minha mãe

(ela, como a maioria das mães, gostaria que eu tivesse sido funcionário público ou da Caixa). Meu pai me apoiou muito, ele me conhecia e sabia

que, com uma boa ideia, eu teria muitas chances. Ainda me recordo de

suas palavras. “Agora é o momento; você não tem mulher nem filhos,

fez direito tudo o que se propôs até agora. Saiba que aqui em casa

sempre haverá um prato de comida na mesa para você e uma cama onde dormir.” Um grande sujeito, meu pai. Nesses momentos de insegurança,

ter uma pessoa que o compreenda e o apoie é muito importante."

Sem este apoio, o empreendedor pode se sentir muito só, e, além disso,

ter mais uma fonte de pressão, pois sabe que as necessidades de sua

família dependem da empresa.

Não comece a empreender antes de ter este apoio em casa. Um FCF de

muitos negócios é a falta de apoio dos membros da família da pessoa

que empreende.

 

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RESUMO

 

As necessidades pessoais do empreendedor podem arruinar um

negócio. Diversifique suas receitas para aguentar o máximo de tempo

possível sem depender de seu negócio.

Se for necessário, more em uma casa alugada, e, se for o caso, poupe

quanto puder antes de abandonar o trabalho atual.

Incorpore seu salário ao plano de negócios e o elabore imaginando a pior

das hipóteses possíveis. Conte com investidores se, ao incluir seu salário

no plano de negócios, perceber que precisa de mais capital.

Não viva como um rico logo que a empresa der lucro. Dê uma margem

de manobra.

Não empreenda sem o apoio incondicional de seus familiares, que

devem estar conscientes das possíveis necessidades que também terão

de enfrentar se as coisas demorarem a deslanchar.

Décimo primeiro FCF: fazer o negócio depender das necessidades

familiares e das suas ambições materiais.

 

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