O Livro Negro do Empreendedor

Fernando Trías de Bes · Capítulo 16 de 21

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O Livro Negro do Empreendedor

Décimo Segundo Assalto um Equilibrista Jamais Será um Empreendedor

 

 

A vida do empreendedor não é do tipo que permite equilibrar a

vida pessoal e a profissional

 

O motivo mais afastado da realidade

No primeiro assalto deste livro, falou-se dos diferentes motivos, e não

motivações, que induzem a empreender. São muitas as pessoas absolu-

tamente irritadas com a dinâmica profissional em que estão mergulha-

das, fartas por causa de um horário insuportável, infelizes com a

sensação de dependência que não lhes permite se sentir donas de sua

vida. É lógico. Há empresas onde a cultura corporativa é opressiva e

asfixiante. Empresas onde quem sai mais tarde parece um herói ou onde

é muito malvisto quem sai depois do chefe, que é um workaholic.

O ser humano tem uma tendência natural à liberdade, a querer se sentir

livre e não estar amarrado a um horário ou a uma agenda profissional.

Por isso não é de estranhar que um dos motivos lamentáveis para

empreender que ocorrem com mais frequência seja a procura de um

equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional. O escritor Javier Marias

diz que virou escritor, entre outras coisas, para poder acordar quando

quisesse e não ter chefe.

Empreendo para poder definir meu horário. Empreendo para folgar

durante a semana. Empreendo para ter controle sobre meu calendário

profissional. Empreendo para poder conciliar minha vida pessoal com a

profissional de uma maneira equilibrada. Equilíbrio.

[115]

Um equilibrista jamais será um empreendedor. Porque, pelo menos

durante os primeiros anos — e quase sempre durante a etapa em-

preendedora —, empreender pressupõe um desequilíbrio total entre a

vida pessoal e a profissional.

Um contrato de trabalho de 24 horas por dia durante 365

dias ao ano

Em uma das entrevistas me disseram: "Empreender é uma atividade full time,full mind e full soul 24 horas por dia, os 7 dias da semana, durante 52

semanas ao ano. O empreendedor precisará estar disposto a perder o

equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional pelo menos durante um

tempo."

Vamos ver. Não se trata de assustar ninguém. O resultado da tarefa

empreendedora é tão gratificante que o sacrifício de empreender vale

muito a pena. Mas essas compensações não são nunca as do equilíbrio

entre a vida pessoal e a profissional. É verdade que se tem certa sensação

de liberdade. O empreendedor "poderia" inventar dias de folga.

"Poderia" tirar dias de férias de vez em quando.

Mas nunca o faz. O fato de saber que "poderia" já significa certa sensação

de controle e domínio sobre a própria vida, mas na realidade o

verdadeiro empreendedor costuma chegar à conclusão de que faltam ao

dia horas para trabalhar.

 

[116]

Uma das maravilhas de empreender é que colocamos o destino e os

resultados de nosso trabalho em nossas próprias mãos. Tudo depende de nós. Não estamos numa multinacional onde a corporação mamãe e

papai vão nos proteger dos erros com seus músculos financeiros. Não há um chefe a quem perguntar quando surgem as dúvidas. Somos o último degrau na hierarquia de comando. Acima não há mais ninguém. E isso é

uma grande responsabilidade. Preciosa e estimulante, a qual é difícil se

habituar.

Desligar-se dos problemas do trabalho durante o fim de semana é uma

coisa de que desfrutam, especialmente, as pessoas que trabalham para os

outros. Sim, concordo, há pessoas responsáveis que, durante o fim de

semana, se recordam de vez em quando das decisões que têm de tomar e

dos problemas que têm de resolver. Mas o empreendedor leva tudo isso

para casa e o fato de que a repercussão de suas decisões afetará um

negócio que lhe pertence. E não há quem possa aliviá-lo desse peso. Empreender implicará ir aos churrascos de domingo na casa de uns

amigos e ter dificuldades para se concentrar na conversa sobre o último

gol de Ronaldinho. O empreendedor não apenas trabalha mais horas e

mais dias do que um assalariado, como também tem um tipo de

preocupação que é quase impossível esquecer quando está fora do

trabalho. O empreendedor não relaxa jamais. Jamais! É como um

contrato de trabalho draconiano de 24 horas ao dia durante 365 dias ao

ano.

Por isso é tão importante levar a pessoa jurídica à cama de casal, porque

as preocupações e as angústias do empreendedor (assim como suas

fantasias) vão ocupar uma parte tão importante de seus neurônios que

praticamente não terá assunto para conversar com seu cônjuge que não

se refira ao negócio. Sem se dar conta, se verá fazendo comentários sobre

uma ou outra ideia durante o jantar, sobre o último produto que poderá

[117] importar da China, sobre as dúvidas que tem acerca do tamanho daquele

pedido, sobre os problemas de tal pessoa contratada... Seu cônjuge vai

acabar mergulhado na empresa. Em algum momento chegará a lhe

sugerir que abandone tudo e volte a trabalhar para os outros porque

antes era mais feliz, vivia menos preocupado e sua vida era mais

equilibrada.

Sua família e, sobretudo, seu cônjuge também devem estar alinhados

nessa dimensão com o projeto, porque este vai requerer muito tempo e

esforço. É preciso ter uma sintonia perfeita.

À noite não contará carneirinhos para conciliar o sono. Nunca mais

precisará de pílulas para dormir. Preferirá manter o espírito desperto e

pensar em sua empresa e em todas as coisas que tem para resolver. E

dormirá cada noite com esses pensamentos. Dormirá profundamente,

exausto de pensar, pensar e pensar.

Empreender é como saltar de paraquedas. Você não percebe onde se

meteu até que a portinhola lateral seja aberta e o instrutor diga que

chegou o momento.

Então, saiba que entre as satisfações que a ação de empreender lhe dará

não há espaço para o equilíbrio entre sua vida pessoal e a profissional.

De fato, sua vida vai se desequilibrar enquanto estiver empreendendo.

Terá sensação de liberdade, mas menos tempo e dias livres do que

nunca. Por isso, se o que você está procurando é o equilíbrio, desista

agora porque está saindo de uma situação ruim para outra muito pior.

Pelo menos nessa dimensão.

Não empreenda para "arrumar" sua vida pessoal, mas sim pela

satisfação que lhe dará a aventura de empreender. Porque, de fato, não

há maior satisfação do que a do empreendedor que consegue fazer

funcionar com sucesso sua empresa, seja esta grande ou pequena.

[118]

RESUMO

 

Muitas pessoas empreendem para poder conciliar os lados pessoal e

profissional de sua vida, mas empreender é exatamente o contrário.

Implica invadir sua vida pessoal com os problemas da vida profissional.

Empreender proporciona muitas satisfações, mas entre elas não está a da

conquista de tempo para a vida pessoal.

Décimo segundo FCF: empreender sem assumir o impacto que isso terá

sobre nosso equilíbrio vital.

 

[119]