O Livro Negro do Empreendedor

Fernando Trías de Bes · Capítulo 7 de 21

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O Livro Negro do Empreendedor

Terceiro Assalto Salvo-Conduto para Viajar Pela Businesslândia

RESUMO

 

Empreender não é uma ação pontual, não é um lance de jogo.

Empreender é uma forma de vida. O verdadeiro empreendedor quer e

abraça a incerteza. Se a incerteza o arrasa, você deve refletir sobre isso. O

autêntico empreendedor tem prazer empreendendo; o ato de

empreender é, ao mesmo tempo, um meio e um fim.

A pessoa com caráter empreendedor é aquela que ama a incerteza e o

próprio ato de empreender.

Segundo FCF: não ter caráter empreendedor.

 

T E R C E I R O A S S A L T O SALVO-CONDUTO PARA VIAJAR PELA BUSINESSLÂNDIA

 

A falta de caráter empreendedor, a condição que o nivela

Espírito de luta para as adversidades

Agora, gostaria de dar uma explicação diferente para o que foi expli-

citado no assalto anterior.

Eu posso não ter as aptidões para ser pintor, mas sim uma sensibilidade

artística que me permita fazer bons quadros. Eu posso não ter natureza de esportista, mas ainda assim ganhar a vida com isso. Se exigíssemos de

todo médico, esportista, engenheiro, advogado etc., que tivesse as

características fundamentais requeridas para sua profissão, sobraria a

[33] metade dos médicos, esportistas, engenheiros, advogados etc., que há no

mundo.

No caso do empreendedor, há um lado pessoal que permite a qualquer pessoa sem talento de empreendedor ser capaz de sobreviver e triunfar

em quase qualquer aventura empresarial. Trata-se da capacidade de

superar as dificuldades, de enfrentar os fracassos. Chame-se de

capacidade de sofrimento, espírito de luta, persistência...

Xavier Gabriel me explicou: "Quando fiz a série de televisão filmada no

Amazonas, demorei três anos para oferecê-la e vendê-la a diversas

emissoras em três continentes. Tudo é insistência, tenacidade e

perseverança para fazer um bom produto, para fazer algo que você seja

o primeiro a comprar sem hesitações."

Partamos da premissa de que raramente, para não dizer nunca, o que

conseguimos é o que havíamos planejado. Ouvi certa vez o renomado

economista e amigo Xavier Sala-i-Martín dizer que não há nada mais

inútil do que fazer planos. Voltarei a isso no quinto assalto, mas o que

quero ressaltar agora é que, tanto quando tudo sai melhor do que o

previsto quanto quando sai pior, os resultados de nossa ação

empreendedora nunca correspondem às nossas previsões, aos nossos

planos. E, em qualquer um dos casos, sempre haverá problemas.

Quando as coisas vão pior do que o previsto, está claro quais são os

problemas. Mas mesmo quando vão melhor, surgem novos problemas e

desafios que precisamos enfrentar e para os quais tampouco estamos

preparados. De repente falta dinheiro, investimento, recursos... É famosa

a frase "morrer por causa do sucesso".

Ou seja: tanto por excesso quanto por defeito, a realidade nunca é o que

esperávamos encontrar.

[34]

Mas, além da diferença entre realidade e expectativas, surgem muitos

outros imprevistos ao longo da aventura que é empreender.

Vou citar um exemplo. Quando abri minha empresa, dependíamos em

grande parte de um cliente em potencial que prometeu nos convidar

para participar de uma concorrência quando tivesse projetos a executar.

Construímos nosso plano de negócio com base nessa oportunidade.

Desse cliente dependiam 70% do faturamento previsto para o primeiro ano. Surgiu um projeto em Lisboa e fomos convocados. Para optar pela participação na concorrência, tivemos de investir uma quantia bastante

significativa de dinheiro, de fato mais de 50% do capital de que

dispúnhamos.

Apresentamo-nos e perdemos a concorrência.

Naquele momento, poderíamos ter fracassado. Nosso plano de negócio

se sustentava naquele cliente em potencial que ficou, em parte,

decepcionado com nossa proposta.

Isso é um imprevisto. Eu não me considero uma pessoa que tenha uma

atração excessiva pela incerteza e/ou um fascínio desmedido pelo

próprio ato de empreender. Mas acho que tenho liberdade de ação. Quer

dizer, tenho espírito de luta, não desisto facilmente. Isso se traduz na

capacidade de avaliar meus erros, aprender com o que faço errado (sem

me martirizar), corrigir-me e colocar diante de mim uma nova munição e

esperanças renovadas.

As pessoas lutadoras também são reconhecidas por serem altamente

competitivas. Não gostam de perder nos esportes ou em qualquer tipo

de competição. Mais: não gostam de perder nem naqueles jogos infantis de tabuleiro em que o resultado da partida depende fundamentalmente

dos dados.

[35]

Na mesma tarde em que nos comunicaram que havíamos perdido o

projeto, propus ao meu sócio que trabalhássemos durante duas semanas

para elaborar propostas vencedoras, diferenciadas do resto. Nosso erro

foi confiar excessivamente em nossas possibilidades. Éramos novos no

setor e ninguém nos contrataria se não demonstrássemos que sabíamos

fazer as coisas melhor do que nossos concorrentes, inclusive na maneira

de elaborar um orçamento e definir uma proposta de parceria.

Adicionalmente, decidimos não participar de nenhuma concorrência

promovida por clientes muito importantes antes de ter vencido outras

menores, de clientes com menor importância.

Assim fizemos. E deu certo. Dois anos depois, ganhamos a primeira

concorrência daquele cliente que antes nos rejeitara. Passaram- se dez

anos e minha empresa ainda trabalha para ele.

Este é apenas um exemplo. Mas os empreendedores experientes sabem

que, como este imprevisto, há milhares, e muito piores: perda do

principal fornecedor, do cliente principal, de uma importação exclusiva,

falência do setor e uma longa lista.

Todo empreendedor já cometeu um grande erro

Entre todos estes problemas, está o do grande erro. Não podemos nos

esquecer disso. Não há empreendedor ou profissional que não tenha cometido um grande erro em sua vida. Outra coisa é reconhecê-lo ou

explicá-lo em público.

Em uma mesa-redonda organizada pela Asociación para el Progreso de

la Dirección (APD) que tinha o título de "Innovation by example", David

Costa, então sócio-diretor do escritório de Barcelona, explicou como a

Everis (anteriormente DMR Consulting) fracassou no projeto mais

importante que conquistara em sua fase de crescimento. Era um projeto

[36]

para o Deutsche Bank que representava um honorário de 900 milhões das antigas pesetas. Naquele momento, a DMR faturava 1,2 bilhão de

pesetas. Pode-se imaginar o significado daquele contrato. A empresa não

esteve à altura das expectativas de seu cliente. Sabem qual foi a decisão

da DMR depois de vários anos de trabalho? Devolver o dinheiro a seu

cliente e reconhecer seu erro. Repito: ela devolveu 900 milhões das

antigas pesetas.

Bem, é muito fácil dizer isso, mas naquele momento o gesto poderia ter

significado o fechamento de uma empresa com várias centenas de

trabalhadores, de uma empresa com um futuro promissor. Mas o final desta história é feliz. A DMR, hoje Everis, sobreviveu àquele erro, seus

diretores aprenderam que não deviam assumir compromissos para os

quais ainda não estavam preparados e seguiram em frente.

Contudo, tiveram de sofrer. E como!

Só se pode confiar em pessoas, instituições ou empresas capazes de

assumir a responsabilidade por seus erros. Algo que parece tão fácil, mas

é mais raro do que um eclipse total do sol. É fato que viver com um erro

nas costas ou ser flagrado cometendo um é difícil. Mas um

empreendedor que tenha liberdade de ação sabe assumir e aprende com

as adversidades. Em vez de se deprimir e mandar tudo para o inferno,

pensa, corrige e age.

Quando é necessário redefinir

De todas as fontes de imprevistos, talvez esta seja a fundamental.

Quando alguém pensa em um novo negócio, acaba vendo que sua ideia

terá de ser ajustada, adaptada, parcialmente modificada, ou, inclusive,

como no caso anterior, redefinida. Surge então uma sensação: eu não queria fazer isso! A liberdade de ação exige se submeter àquilo que o

[37] negócio deve ser ou é mais conveniente que seja, embora não seja aquele

do qual gostamos.

O empreendedor encontrará problemas, mas eles jamais poderão lhe tirar a vontade de seguir em frente. A liberdade de ação que, quando

não se é um empreendedor absoluto, habilita para empreender porque

produz resultados semelhantes, consiste em não desistir, não se render, e

mudar o que deve ser mudado quando as coisas não são como

prevíamos que iriam ser.

Se, além disso, levarmos em conta que jamais (jamais!) as coisas são

como prevemos, isso significa que a capacidade de enfrentar situações

desconhecidas, imprevistas ou indesejadas condiciona absolutamente a

sobrevivência.

Lembre-se de que as ideias não fracassam; as pessoas fracassam.

Lembre-se de que os negócios não fracassam, as esperanças é que são

derrotadas pela falta de disciplina, imaginação e flexibilidade para

enfrentar os imprevistos.

Lembro-me de que, aos 28 anos, alguns meses antes de empreender

minha empresa, iniciei uma conversa com um passageiro que se sentou

ao meu lado, em um voo. Era um empreendedor com muitos anos de experiência. Expliquei-lhe que ia começar um negócio em breve, mas

que às vezes duvidava de minha adequação para empreender. Ouviu-

me em silêncio, olhou pela janela do avião e depois desferiu uma única

frase que, de vez em quando, meu sócio repete: "Para ser empreendedor,

é necessário, antes de tudo, ser um grande boxeador."

 

[38]

De que depende ter ou não liberdade de ação?

Neste ponto, o leitor pode se perguntar o que faz uma pessoa ser tão

tenaz e lutadora e, no entanto, outra não o ser. Não há documentos que o

comprove, mas depende, sobretudo, do ambiente em que a pessoa

nasceu e cresceu, onde foi educada.

"A inquietação, a vontade de aprender e o desejo de superação criam um

caráter curtido e forjado." ∗

É verdade que há empreendedores que o são geneticamente. É uma coisa

inexplicável, são pessoas com um entusiasmo empreendedor que reside

em sua própria natureza. Mas isto não é comum. O empreendedor

comum é produto do ambiente pessoal ou profissional em que se

desenvolveu como pessoa. Normalmente são pessoas cujas circunstân-

cias ou educação foram muito difíceis, tanto por terem tido uma relação

ruim com seus pais, amigos e professores, como por terem crescido em

um ambiente de necessidades ou de dificuldades econômicas e, por

exemplo, ter tido de pagar os estudos trabalhando. As pessoas lutadoras

são aquelas que estão acostumadas à adversidade e à frustração e, por

isso, desenvolveram uma capacidade brutal de resistência; foram

treinadas para resistir infinitamente. São pessoas otimistas, que não de-

sanimam facilmente diante dos obstáculos.

 

∗

Entrevista de Xavier Gabriel.

[39]

Ferram Soriano me disse: "O empreendedor nasce e se faz. Em todo caso,

a educação familiar é muito importante. Uma pessoa cujos parentes são

pequenos empresários ou comerciantes terá mais propensão a ser

empreendedora do que o filho do presidente de uma multinacional, pois

deve ter sido educada na filosofia de que para ganhar a vida deverá

depender de si própria, de seu trabalho, sabendo que não há nada

garantido."

Mas o que acontece se este não é o nosso caso, se não nos desenvolvemos

num ambiente desses?

Então, é preciso fomentar a paciência e o espírito de sacrifício. Não é

preciso fazê-lo no âmbito empresarial. Podemos nos propor um objetivo intelectual, como aprender um idioma, dominar determinada disciplina,

nos destacar em um esporte, praticar algum tipo de exercício físico.

Propor-nos a realizar um projeto e, mediante a disciplina e o esforço,

atingir alguns objetivos. Assim se testa a capacidade de sofrimento e, o

mais importante, se experimenta a infinita satisfação de procurar

alcançar os resultados que se deseja atingir.

Analise se você é uma pessoa com capacidade de sofrimento. Caso

contrário, se cerque de pessoas que possuam essa capacidade, porque

talvez isso seja mais importante do que ter talento de empreendedor.

Um FCF é não dispor dessa qualidade. Uma qualidade que em alguns é

natural, mas que também pode ser desenvolvida. E que é necessária. É

algo que não está quantificado, mas creio que não estou muito longe da

verdade quando afirmo que o fracasso de 50% de empreendedores se

deve à falta de espírito de luta.

Há gente que se cansa de viver; a pessoa com liberdade de ação, não.

 

[40]

RESUMO

 

Os resultados obtidos nunca coincidem, para o bem ou para o mal, com

as expectativas. Isso sempre gera problemas. O caminho do

empreendedor está repleto de imprevistos e erros. Isto pode obrigá-lo, às vezes, a redefinir radicalmente seu negócio, com tudo o que isso implica.

Ser uma pessoa que não desiste permite superar tudo isso e muito mais. Ser um lutador é uma vantagem para as pessoas que não têm talento de

empreendedor. Pode ser que você não tenha caráter de empreendedor,

mas poderá compensar esta carência com espírito de sacrifício.

O espírito de lutador costuma ser consequência de algumas

circunstâncias e de um tipo de educação. Mas é possível desenvolvê-lo

se não tivermos. Enfrentar desafios intelectuais ou físicos é um bom

treino para aumentar a capacidade de sofrimento.

Terceiro FCF: não ser um lutador.

 

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