O Livro Negro do Empreendedor
Terceiro Assalto Salvo-Conduto para Viajar Pela Businesslândia
RESUMO
Empreender não é uma ação pontual, não é um lance de jogo.
Empreender é uma forma de vida. O verdadeiro empreendedor quer e
abraça a incerteza. Se a incerteza o arrasa, você deve refletir sobre isso. O
autêntico empreendedor tem prazer empreendendo; o ato de
empreender é, ao mesmo tempo, um meio e um fim.
A pessoa com caráter empreendedor é aquela que ama a incerteza e o
próprio ato de empreender.
Segundo FCF: não ter caráter empreendedor.
T E R C E I R O A S S A L T O SALVO-CONDUTO PARA VIAJAR PELA BUSINESSLÂNDIA
A falta de caráter empreendedor, a condição que o nivela
Espírito de luta para as adversidades
Agora, gostaria de dar uma explicação diferente para o que foi expli-
citado no assalto anterior.
Eu posso não ter as aptidões para ser pintor, mas sim uma sensibilidade
artística que me permita fazer bons quadros. Eu posso não ter natureza de esportista, mas ainda assim ganhar a vida com isso. Se exigíssemos de
todo médico, esportista, engenheiro, advogado etc., que tivesse as
características fundamentais requeridas para sua profissão, sobraria a
[33] metade dos médicos, esportistas, engenheiros, advogados etc., que há no
mundo.
No caso do empreendedor, há um lado pessoal que permite a qualquer pessoa sem talento de empreendedor ser capaz de sobreviver e triunfar
em quase qualquer aventura empresarial. Trata-se da capacidade de
superar as dificuldades, de enfrentar os fracassos. Chame-se de
capacidade de sofrimento, espírito de luta, persistência...
Xavier Gabriel me explicou: "Quando fiz a série de televisão filmada no
Amazonas, demorei três anos para oferecê-la e vendê-la a diversas
emissoras em três continentes. Tudo é insistência, tenacidade e
perseverança para fazer um bom produto, para fazer algo que você seja
o primeiro a comprar sem hesitações."
Partamos da premissa de que raramente, para não dizer nunca, o que
conseguimos é o que havíamos planejado. Ouvi certa vez o renomado
economista e amigo Xavier Sala-i-Martín dizer que não há nada mais
inútil do que fazer planos. Voltarei a isso no quinto assalto, mas o que
quero ressaltar agora é que, tanto quando tudo sai melhor do que o
previsto quanto quando sai pior, os resultados de nossa ação
empreendedora nunca correspondem às nossas previsões, aos nossos
planos. E, em qualquer um dos casos, sempre haverá problemas.
Quando as coisas vão pior do que o previsto, está claro quais são os
problemas. Mas mesmo quando vão melhor, surgem novos problemas e
desafios que precisamos enfrentar e para os quais tampouco estamos
preparados. De repente falta dinheiro, investimento, recursos... É famosa
a frase "morrer por causa do sucesso".
Ou seja: tanto por excesso quanto por defeito, a realidade nunca é o que
esperávamos encontrar.
[34]
Mas, além da diferença entre realidade e expectativas, surgem muitos
outros imprevistos ao longo da aventura que é empreender.
Vou citar um exemplo. Quando abri minha empresa, dependíamos em
grande parte de um cliente em potencial que prometeu nos convidar
para participar de uma concorrência quando tivesse projetos a executar.
Construímos nosso plano de negócio com base nessa oportunidade.
Desse cliente dependiam 70% do faturamento previsto para o primeiro ano. Surgiu um projeto em Lisboa e fomos convocados. Para optar pela participação na concorrência, tivemos de investir uma quantia bastante
significativa de dinheiro, de fato mais de 50% do capital de que
dispúnhamos.
Apresentamo-nos e perdemos a concorrência.
Naquele momento, poderíamos ter fracassado. Nosso plano de negócio
se sustentava naquele cliente em potencial que ficou, em parte,
decepcionado com nossa proposta.
Isso é um imprevisto. Eu não me considero uma pessoa que tenha uma
atração excessiva pela incerteza e/ou um fascínio desmedido pelo
próprio ato de empreender. Mas acho que tenho liberdade de ação. Quer
dizer, tenho espírito de luta, não desisto facilmente. Isso se traduz na
capacidade de avaliar meus erros, aprender com o que faço errado (sem
me martirizar), corrigir-me e colocar diante de mim uma nova munição e
esperanças renovadas.
As pessoas lutadoras também são reconhecidas por serem altamente
competitivas. Não gostam de perder nos esportes ou em qualquer tipo
de competição. Mais: não gostam de perder nem naqueles jogos infantis de tabuleiro em que o resultado da partida depende fundamentalmente
dos dados.
[35]
Na mesma tarde em que nos comunicaram que havíamos perdido o
projeto, propus ao meu sócio que trabalhássemos durante duas semanas
para elaborar propostas vencedoras, diferenciadas do resto. Nosso erro
foi confiar excessivamente em nossas possibilidades. Éramos novos no
setor e ninguém nos contrataria se não demonstrássemos que sabíamos
fazer as coisas melhor do que nossos concorrentes, inclusive na maneira
de elaborar um orçamento e definir uma proposta de parceria.
Adicionalmente, decidimos não participar de nenhuma concorrência
promovida por clientes muito importantes antes de ter vencido outras
menores, de clientes com menor importância.
Assim fizemos. E deu certo. Dois anos depois, ganhamos a primeira
concorrência daquele cliente que antes nos rejeitara. Passaram- se dez
anos e minha empresa ainda trabalha para ele.
Este é apenas um exemplo. Mas os empreendedores experientes sabem
que, como este imprevisto, há milhares, e muito piores: perda do
principal fornecedor, do cliente principal, de uma importação exclusiva,
falência do setor e uma longa lista.
Todo empreendedor já cometeu um grande erro
Entre todos estes problemas, está o do grande erro. Não podemos nos
esquecer disso. Não há empreendedor ou profissional que não tenha cometido um grande erro em sua vida. Outra coisa é reconhecê-lo ou
explicá-lo em público.
Em uma mesa-redonda organizada pela Asociación para el Progreso de
la Dirección (APD) que tinha o título de "Innovation by example", David
Costa, então sócio-diretor do escritório de Barcelona, explicou como a
Everis (anteriormente DMR Consulting) fracassou no projeto mais
importante que conquistara em sua fase de crescimento. Era um projeto
[36]
para o Deutsche Bank que representava um honorário de 900 milhões das antigas pesetas. Naquele momento, a DMR faturava 1,2 bilhão de
pesetas. Pode-se imaginar o significado daquele contrato. A empresa não
esteve à altura das expectativas de seu cliente. Sabem qual foi a decisão
da DMR depois de vários anos de trabalho? Devolver o dinheiro a seu
cliente e reconhecer seu erro. Repito: ela devolveu 900 milhões das
antigas pesetas.
Bem, é muito fácil dizer isso, mas naquele momento o gesto poderia ter
significado o fechamento de uma empresa com várias centenas de
trabalhadores, de uma empresa com um futuro promissor. Mas o final desta história é feliz. A DMR, hoje Everis, sobreviveu àquele erro, seus
diretores aprenderam que não deviam assumir compromissos para os
quais ainda não estavam preparados e seguiram em frente.
Contudo, tiveram de sofrer. E como!
Só se pode confiar em pessoas, instituições ou empresas capazes de
assumir a responsabilidade por seus erros. Algo que parece tão fácil, mas
é mais raro do que um eclipse total do sol. É fato que viver com um erro
nas costas ou ser flagrado cometendo um é difícil. Mas um
empreendedor que tenha liberdade de ação sabe assumir e aprende com
as adversidades. Em vez de se deprimir e mandar tudo para o inferno,
pensa, corrige e age.
Quando é necessário redefinir
De todas as fontes de imprevistos, talvez esta seja a fundamental.
Quando alguém pensa em um novo negócio, acaba vendo que sua ideia
terá de ser ajustada, adaptada, parcialmente modificada, ou, inclusive,
como no caso anterior, redefinida. Surge então uma sensação: eu não queria fazer isso! A liberdade de ação exige se submeter àquilo que o
[37] negócio deve ser ou é mais conveniente que seja, embora não seja aquele
do qual gostamos.
O empreendedor encontrará problemas, mas eles jamais poderão lhe tirar a vontade de seguir em frente. A liberdade de ação que, quando
não se é um empreendedor absoluto, habilita para empreender porque
produz resultados semelhantes, consiste em não desistir, não se render, e
mudar o que deve ser mudado quando as coisas não são como
prevíamos que iriam ser.
Se, além disso, levarmos em conta que jamais (jamais!) as coisas são
como prevemos, isso significa que a capacidade de enfrentar situações
desconhecidas, imprevistas ou indesejadas condiciona absolutamente a
sobrevivência.
Lembre-se de que as ideias não fracassam; as pessoas fracassam.
Lembre-se de que os negócios não fracassam, as esperanças é que são
derrotadas pela falta de disciplina, imaginação e flexibilidade para
enfrentar os imprevistos.
Lembro-me de que, aos 28 anos, alguns meses antes de empreender
minha empresa, iniciei uma conversa com um passageiro que se sentou
ao meu lado, em um voo. Era um empreendedor com muitos anos de experiência. Expliquei-lhe que ia começar um negócio em breve, mas
que às vezes duvidava de minha adequação para empreender. Ouviu-
me em silêncio, olhou pela janela do avião e depois desferiu uma única
frase que, de vez em quando, meu sócio repete: "Para ser empreendedor,
é necessário, antes de tudo, ser um grande boxeador."
[38]
De que depende ter ou não liberdade de ação?
Neste ponto, o leitor pode se perguntar o que faz uma pessoa ser tão
tenaz e lutadora e, no entanto, outra não o ser. Não há documentos que o
comprove, mas depende, sobretudo, do ambiente em que a pessoa
nasceu e cresceu, onde foi educada.
"A inquietação, a vontade de aprender e o desejo de superação criam um
caráter curtido e forjado." ∗
É verdade que há empreendedores que o são geneticamente. É uma coisa
inexplicável, são pessoas com um entusiasmo empreendedor que reside
em sua própria natureza. Mas isto não é comum. O empreendedor
comum é produto do ambiente pessoal ou profissional em que se
desenvolveu como pessoa. Normalmente são pessoas cujas circunstân-
cias ou educação foram muito difíceis, tanto por terem tido uma relação
ruim com seus pais, amigos e professores, como por terem crescido em
um ambiente de necessidades ou de dificuldades econômicas e, por
exemplo, ter tido de pagar os estudos trabalhando. As pessoas lutadoras
são aquelas que estão acostumadas à adversidade e à frustração e, por
isso, desenvolveram uma capacidade brutal de resistência; foram
treinadas para resistir infinitamente. São pessoas otimistas, que não de-
sanimam facilmente diante dos obstáculos.
∗
Entrevista de Xavier Gabriel.
[39]
Ferram Soriano me disse: "O empreendedor nasce e se faz. Em todo caso,
a educação familiar é muito importante. Uma pessoa cujos parentes são
pequenos empresários ou comerciantes terá mais propensão a ser
empreendedora do que o filho do presidente de uma multinacional, pois
deve ter sido educada na filosofia de que para ganhar a vida deverá
depender de si própria, de seu trabalho, sabendo que não há nada
garantido."
Mas o que acontece se este não é o nosso caso, se não nos desenvolvemos
num ambiente desses?
Então, é preciso fomentar a paciência e o espírito de sacrifício. Não é
preciso fazê-lo no âmbito empresarial. Podemos nos propor um objetivo intelectual, como aprender um idioma, dominar determinada disciplina,
nos destacar em um esporte, praticar algum tipo de exercício físico.
Propor-nos a realizar um projeto e, mediante a disciplina e o esforço,
atingir alguns objetivos. Assim se testa a capacidade de sofrimento e, o
mais importante, se experimenta a infinita satisfação de procurar
alcançar os resultados que se deseja atingir.
Analise se você é uma pessoa com capacidade de sofrimento. Caso
contrário, se cerque de pessoas que possuam essa capacidade, porque
talvez isso seja mais importante do que ter talento de empreendedor.
Um FCF é não dispor dessa qualidade. Uma qualidade que em alguns é
natural, mas que também pode ser desenvolvida. E que é necessária. É
algo que não está quantificado, mas creio que não estou muito longe da
verdade quando afirmo que o fracasso de 50% de empreendedores se
deve à falta de espírito de luta.
Há gente que se cansa de viver; a pessoa com liberdade de ação, não.
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RESUMO
Os resultados obtidos nunca coincidem, para o bem ou para o mal, com
as expectativas. Isso sempre gera problemas. O caminho do
empreendedor está repleto de imprevistos e erros. Isto pode obrigá-lo, às vezes, a redefinir radicalmente seu negócio, com tudo o que isso implica.
Ser uma pessoa que não desiste permite superar tudo isso e muito mais. Ser um lutador é uma vantagem para as pessoas que não têm talento de
empreendedor. Pode ser que você não tenha caráter de empreendedor,
mas poderá compensar esta carência com espírito de sacrifício.
O espírito de lutador costuma ser consequência de algumas
circunstâncias e de um tipo de educação. Mas é possível desenvolvê-lo
se não tivermos. Enfrentar desafios intelectuais ou físicos é um bom
treino para aumentar a capacidade de sofrimento.
Terceiro FCF: não ser um lutador.
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