O Livro Negro do Empreendedor
Sétimo Assalto Exercício de Futurologia
Por que você brigará com seus sócios
Os motivos universais de ruptura Por que uma relação profissional que começou há apenas cinco anos com
uma esperança transbordante, com um companheirismo e uma
generosidade que beirava a pieguice e com um desinteresse digno de um
grupo de escoteiros termina tão mal?
O motivo é muito simples: as desavenças entre os sócios.
Essas poderiam ser catalogadas em vários tipos. A mais comum é a em
torno de quem contribui mais. Nos primeiros passos de uma caminhada profissional, ninguém observa se um contribui mais do que o outro. Que
horror! A quem poderia ocorrer uma coisa dessas? Ainda por cima se o
mais importante é dar a partida! E as vendas são celebradas como se
fossem independentes de seu precursor. Mas o tempo passa e a emoção
inicial se desfaz. Pouco a pouco, cada um começa a calcular
particularmente se está investindo mais dinheiro do que seus sócios. E,
inclusive, supondo-se que uma parte das receitas se destinará a quem conseguiu vender, quando se trata de sócios uma parte ficará para ser
repartida pela metade ou em partes proporcionais. Em síntese, será
compartilhado um dinheiro que uma pessoa (e não outra) gerou. Hoje
por você e amanhã por mim. Mas o que acontece quando é quase sempre
por outro? Isso começa a doer no bolso. E alguém começa a fazer as
contas do que ganharia se não tivesse que dividir suas realizações.
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E então o homem conta para a esposa o que está acontecendo... Grande
erro! A partir desse dia, a mulher se transformará em uma espécie de
advogado do diabo e começará a perguntar periodicamente: "Esta
semana você vendeu mais do que seu sócio?" A economia profissional se
confunde desta maneira com a doméstica e, sem mais nem menos, o
casal passa a fazer parte de um conselho de administração clandestino e
paralelo que só se reúne na cozinha da casa martelando na cabeça,
reafirmando cada vez mais a definitiva conclusão de que o melhor é
continuar sozinho.
A segunda fonte de conflitos tem a ver com a eficiência e a eficácia. A
tendência de pensar que o companheiro ou o sócio trabalha muito
lentamente, ou que é muito detalhista, ou que deveria dedicar menos
tempo àquele assunto ou àquele cliente que não vale a pena e está
pegando no seu pé sem que perceba apesar de eu não parar de avisá-lo
mas, enfim, o que vai se fazer...
É uma lei universal e imutável: ninguém trabalha melhor do que nós
mesmos. Quando sou rápido, é porque sou rápido; se sou lento, é
porque não tenho de repetir as coisas e meu sócio, que parece andar
mais depressa, acaba sendo mais ineficiente porque precisa fazer tudo
três vezes.
O terceiro motivo de desavenças tem a ver com algo tão simples, mas
muito conflituoso: o estilo. O estilo profissional. O modo de vestir, o
investimento ou não na decoração do consultório ou escritório, a
maneira de atender os clientes, a forma de tratá-los, gravata ou não,
jaleco ou não. Pode parecer uma bobagem, mas não é. Não gostamos de
adotar um estilo incoerente com aquilo que queremos transmitir como
profissionais.
O quarto motivo de desavenças são as desconfianças. Este é o pior de
todos. A dúvida mata tudo. "Será que meu sócio está desviando trabalho
[67] sem que eu saiba?" "O que ele faz quando não estou aqui?" "Por que não comentou nada sobre tal assunto?" "Por que não me avisou sobre aquela
transferência bancária?" Essas dúvidas são um veneno mortal para a
associação profissional, que deve estar ancorada em uma relação de
absoluta confiança.
Finalmente, o devir. É a lei da vida. Podemos estar de acordo em tudo
hoje, mas não dentro de cinco anos. Um quer trabalhar ao máximo,
crescer e ganhar muito dinheiro. O outro só quer trabalhar para ficar
bem, para desfrutar e ter um equilíbrio profissional e pessoal. Um
terceiro deseja se associar a pessoas que conheceu em um congresso não
se sabe onde. Mas seus sócios não querem saber de novas associações.
Os objetivos pessoais acabam sempre influindo nos objetivos do negócio.
E não é uma coisa de más intenções. Simplesmente é assim. Sete anos
antes, os sócios tinham a mesma ambição, mas agora não mais.
"É muito difícil manter intactos, com a passagem do tempo e suas
circunstâncias, os aspectos que unem os sócios: a esperança, a ambição, a
ideia de negócio e os objetivos emocionais e econômicos. ∗
Um dos problemas mais comuns é que, quando um sócio começa a
querer fazer algo diferente, tende a ocultá-lo. Não é por querer enganar,
mas sim por temer decepcionar seus sócios. E este é um problema,
porque então está enganando a si mesmo. Desenvolve um jogo
psicológico com seus sócios. Aparentemente, todos estão indo juntos
para o norte, mas, na realidade, um se desviou e agora está indo para o
sul. De repente, o primeiro se vira e vê que o segundo não está mais lá,
não o acompanha. Costuma acontecer um momento de imobilidade,
∗
Entrevista de José Maria Ruiz Millet.
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seguido de uma situação incômoda e de uma sensação de logro. "Por
que você não me disse que queria abandonar o negócio? Se eu tivesse
sabido antes, teria tomado outras decisões."
Uma das maravilhas de ser empreendedor é a liberdade que se tem para
dedicar sua vida àquilo que o satisfaz, e, sobretudo, a de poder fazer modificações com a passagem do tempo. As prioridades na vida vão
mudando com a idade. E já que a pessoa se tornou independente, é uma
pena que, devido a uma associação, não possa dirigir sua vida pessoal
ou profissional aos caminhos que ambiciona. É preciso dar liberdade aos
sócios para modificar suas vidas; por isso é tão importante acertar as
condições de separação dos sócios; ver se é possível que continuem
vinculados à propriedade, mas não ao trabalho.
Definitivamente, a lista de motivos de desavenças é interminável e poderia ocupar todas as páginas deste livro. Por isso, é preciso que sejamos muito claros ao formular um acordo sobre uma associação
profissional, aspecto que abordei no assalto anterior.
Além dos pactos
De qualquer maneira, é impossível entrar em acordo com tudo. É reco-
mendável definir o principal e, se possível, por escrito. Sabe-se que "o
que é escrito permanece e as palavras o vento leva". Mas, tampouco, tem
sentido redigir um documento da extensão e complexidade do Estatuto de Autonomia da Catalunha. Não vamos redigir agora uma Bíblia para
apresentar soluções a tudo o que possa acontecer no futuro.
Falemos, pois, dos pilares de qualquer associação. Além de todos os
acordos que recomendei nas linhas anteriores, os pilares de uma
sociedade são muito parecidos aos que sustentam uma relação conjugal
ou de amizade: comunicação, compreensão, paciência, confiança,
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fidelidade e flexibilidade. Daí que tantos empreendedores tenham
afirmado que os "valores alinhados" são o fator mais importante quando
se trata de escolher um sócio. E também o mais excludente. É que esses
valores condicionam a solidez ou a fragilidade dos pilares que
sustentam o negócio.
É fundamental saber que ninguém nunca faz as coisas como nós
faríamos. É como a questão de delegar. Há pessoas que não sabem de-legar porque não suportam que as coisas não sejam feitas como elas as
fariam. E esse é um lastro organizativo e profissional para toda empresa
ou negócio. Com o sócio é a mesma coisa. Cada um tem seu estilo e é
necessário respeitá-lo, gostemos ou não. Por outro lado, é preciso saber
escutar. A comunicação é o eixo de qualquer associação.
Sem comunicação diária e sincera, não há associação que dure mais de
cinco anos.
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RESUMO
As desavenças entre sócios sempre aparecerão. Costumam ter relação
com (a percepção de) quantos negócios, clientes ou esforço um investe
em relação ao outro. A pior fonte de desavenças são as desconfianças
quanto à fidelidade. Outras causas menos danosas (mas que acabam
sendo importantes) têm a ver com o estilo e a aparência que se quer dar
ao negócio.
Finalmente, a desavença mais comum é a natural mudança de objetivos
e desejos vitais que se produzem em uma pessoa à medida que os anos
passam e que, obrigatoriamente, se transferem ao negócio.
Acertar tudo é necessário, mas, ainda mais importante, é ter confiança e liberdade para apresentar qualquer, repito e sublinho, qualquer assunto
a seus sócios.
Sétimo FCF: falta de confiança e comunicação com os sócios.
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