O Livro Negro do Empreendedor

Fernando Trías de Bes · Capítulo 11 de 21

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O Livro Negro do Empreendedor

Sétimo Assalto Exercício de Futurologia

 

 

Por que você brigará com seus sócios

Os motivos universais de ruptura Por que uma relação profissional que começou há apenas cinco anos com

uma esperança transbordante, com um companheirismo e uma

generosidade que beirava a pieguice e com um desinteresse digno de um

grupo de escoteiros termina tão mal?

O motivo é muito simples: as desavenças entre os sócios.

Essas poderiam ser catalogadas em vários tipos. A mais comum é a em

torno de quem contribui mais. Nos primeiros passos de uma caminhada profissional, ninguém observa se um contribui mais do que o outro. Que

horror! A quem poderia ocorrer uma coisa dessas? Ainda por cima se o

mais importante é dar a partida! E as vendas são celebradas como se

fossem independentes de seu precursor. Mas o tempo passa e a emoção

inicial se desfaz. Pouco a pouco, cada um começa a calcular

particularmente se está investindo mais dinheiro do que seus sócios. E,

inclusive, supondo-se que uma parte das receitas se destinará a quem conseguiu vender, quando se trata de sócios uma parte ficará para ser

repartida pela metade ou em partes proporcionais. Em síntese, será

compartilhado um dinheiro que uma pessoa (e não outra) gerou. Hoje

por você e amanhã por mim. Mas o que acontece quando é quase sempre

por outro? Isso começa a doer no bolso. E alguém começa a fazer as

contas do que ganharia se não tivesse que dividir suas realizações.

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E então o homem conta para a esposa o que está acontecendo... Grande

erro! A partir desse dia, a mulher se transformará em uma espécie de

advogado do diabo e começará a perguntar periodicamente: "Esta

semana você vendeu mais do que seu sócio?" A economia profissional se

confunde desta maneira com a doméstica e, sem mais nem menos, o

casal passa a fazer parte de um conselho de administração clandestino e

paralelo que só se reúne na cozinha da casa martelando na cabeça,

reafirmando cada vez mais a definitiva conclusão de que o melhor é

continuar sozinho.

A segunda fonte de conflitos tem a ver com a eficiência e a eficácia. A

tendência de pensar que o companheiro ou o sócio trabalha muito

lentamente, ou que é muito detalhista, ou que deveria dedicar menos

tempo àquele assunto ou àquele cliente que não vale a pena e está

pegando no seu pé sem que perceba apesar de eu não parar de avisá-lo

mas, enfim, o que vai se fazer...

É uma lei universal e imutável: ninguém trabalha melhor do que nós

mesmos. Quando sou rápido, é porque sou rápido; se sou lento, é

porque não tenho de repetir as coisas e meu sócio, que parece andar

mais depressa, acaba sendo mais ineficiente porque precisa fazer tudo

três vezes.

O terceiro motivo de desavenças tem a ver com algo tão simples, mas

muito conflituoso: o estilo. O estilo profissional. O modo de vestir, o

investimento ou não na decoração do consultório ou escritório, a

maneira de atender os clientes, a forma de tratá-los, gravata ou não,

jaleco ou não. Pode parecer uma bobagem, mas não é. Não gostamos de

adotar um estilo incoerente com aquilo que queremos transmitir como

profissionais.

O quarto motivo de desavenças são as desconfianças. Este é o pior de

todos. A dúvida mata tudo. "Será que meu sócio está desviando trabalho

[67] sem que eu saiba?" "O que ele faz quando não estou aqui?" "Por que não comentou nada sobre tal assunto?" "Por que não me avisou sobre aquela

transferência bancária?" Essas dúvidas são um veneno mortal para a

associação profissional, que deve estar ancorada em uma relação de

absoluta confiança.

Finalmente, o devir. É a lei da vida. Podemos estar de acordo em tudo

hoje, mas não dentro de cinco anos. Um quer trabalhar ao máximo,

crescer e ganhar muito dinheiro. O outro só quer trabalhar para ficar

bem, para desfrutar e ter um equilíbrio profissional e pessoal. Um

terceiro deseja se associar a pessoas que conheceu em um congresso não

se sabe onde. Mas seus sócios não querem saber de novas associações.

Os objetivos pessoais acabam sempre influindo nos objetivos do negócio.

E não é uma coisa de más intenções. Simplesmente é assim. Sete anos

antes, os sócios tinham a mesma ambição, mas agora não mais.

"É muito difícil manter intactos, com a passagem do tempo e suas

circunstâncias, os aspectos que unem os sócios: a esperança, a ambição, a

ideia de negócio e os objetivos emocionais e econômicos. ∗

Um dos problemas mais comuns é que, quando um sócio começa a

querer fazer algo diferente, tende a ocultá-lo. Não é por querer enganar,

mas sim por temer decepcionar seus sócios. E este é um problema,

porque então está enganando a si mesmo. Desenvolve um jogo

psicológico com seus sócios. Aparentemente, todos estão indo juntos

para o norte, mas, na realidade, um se desviou e agora está indo para o

sul. De repente, o primeiro se vira e vê que o segundo não está mais lá,

não o acompanha. Costuma acontecer um momento de imobilidade,

 

∗

Entrevista de José Maria Ruiz Millet.

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seguido de uma situação incômoda e de uma sensação de logro. "Por

que você não me disse que queria abandonar o negócio? Se eu tivesse

sabido antes, teria tomado outras decisões."

Uma das maravilhas de ser empreendedor é a liberdade que se tem para

dedicar sua vida àquilo que o satisfaz, e, sobretudo, a de poder fazer modificações com a passagem do tempo. As prioridades na vida vão

mudando com a idade. E já que a pessoa se tornou independente, é uma

pena que, devido a uma associação, não possa dirigir sua vida pessoal

ou profissional aos caminhos que ambiciona. É preciso dar liberdade aos

sócios para modificar suas vidas; por isso é tão importante acertar as

condições de separação dos sócios; ver se é possível que continuem

vinculados à propriedade, mas não ao trabalho.

Definitivamente, a lista de motivos de desavenças é interminável e poderia ocupar todas as páginas deste livro. Por isso, é preciso que sejamos muito claros ao formular um acordo sobre uma associação

profissional, aspecto que abordei no assalto anterior.

Além dos pactos

De qualquer maneira, é impossível entrar em acordo com tudo. É reco-

mendável definir o principal e, se possível, por escrito. Sabe-se que "o

que é escrito permanece e as palavras o vento leva". Mas, tampouco, tem

sentido redigir um documento da extensão e complexidade do Estatuto de Autonomia da Catalunha. Não vamos redigir agora uma Bíblia para

apresentar soluções a tudo o que possa acontecer no futuro.

Falemos, pois, dos pilares de qualquer associação. Além de todos os

acordos que recomendei nas linhas anteriores, os pilares de uma

sociedade são muito parecidos aos que sustentam uma relação conjugal

ou de amizade: comunicação, compreensão, paciência, confiança,

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fidelidade e flexibilidade. Daí que tantos empreendedores tenham

afirmado que os "valores alinhados" são o fator mais importante quando

se trata de escolher um sócio. E também o mais excludente. É que esses

valores condicionam a solidez ou a fragilidade dos pilares que

sustentam o negócio.

É fundamental saber que ninguém nunca faz as coisas como nós

faríamos. É como a questão de delegar. Há pessoas que não sabem de-legar porque não suportam que as coisas não sejam feitas como elas as

fariam. E esse é um lastro organizativo e profissional para toda empresa

ou negócio. Com o sócio é a mesma coisa. Cada um tem seu estilo e é

necessário respeitá-lo, gostemos ou não. Por outro lado, é preciso saber

escutar. A comunicação é o eixo de qualquer associação.

Sem comunicação diária e sincera, não há associação que dure mais de

cinco anos.

 

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RESUMO

 

As desavenças entre sócios sempre aparecerão. Costumam ter relação

com (a percepção de) quantos negócios, clientes ou esforço um investe

em relação ao outro. A pior fonte de desavenças são as desconfianças

quanto à fidelidade. Outras causas menos danosas (mas que acabam

sendo importantes) têm a ver com o estilo e a aparência que se quer dar

ao negócio.

Finalmente, a desavença mais comum é a natural mudança de objetivos

e desejos vitais que se produzem em uma pessoa à medida que os anos

passam e que, obrigatoriamente, se transferem ao negócio.

Acertar tudo é necessário, mas, ainda mais importante, é ter confiança e liberdade para apresentar qualquer, repito e sublinho, qualquer assunto

a seus sócios.

Sétimo FCF: falta de confiança e comunicação com os sócios.

 

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