O Livro Negro do Empreendedor
Quem o Autor Pensa que É?
Já se sabe que excusatio non petita, accusatio manifestat (uma desculpa não
solicitada manifesta acusação). Não quero usar meus conhecimentos como justificativa para ter elaborado este breve ensaio. Se o escrevi é
porque me considero capacitado para isso. Mas acho que um
empreendedor que vai arriscar sua carreira, tempo e dinheiro para montar um negócio tem o direito de avaliar se esta fonte é sólida o
suficiente, se atende às suas necessidades.
Para escrever este livro, não precisei da minha licenciatura em ciências
empresariais, do meu MBA e, menos ainda, dos meus 14 anos como
professor da Esade (Escola Superior de Administração e Direção de Empresas). Não escrevo este livro como acadêmico, mas a partir da
minha alma de empreendedor.
Não sou nem fui um grande empresário, mas sim um empreendedor.
Quando minha empresa adquiriu certa dimensão, decidi parar de
trabalhar nela e colocá-la nas mãos de um diretor-geral independente.
Digamos que acho mais divertido criar do que gerir. Sou muito mais
empreendedor do que empresário.
Fundei minha empresa em 1996, aos 28 anos de idade. Estava
trabalhando há seis anos para os outros. Comecei com um sócio, um
capital de pesetas e muitas esperanças. Durante os primeiros seis anos, reinvesti tudo o que a empresa gerava. Era um tudo ou nada contínuo. E
deu certo. No entanto, era jovem, não tinha experiência como
empreendedor e cometi muitos erros. Mas pude — sempre com a ajuda
das pessoas com quem trabalhei — superar em uma medida maior ou
menor cada um deles.
[11]
Atualmente, a consultoria de pesquisa de mercado que fundei tem
escritórios em Barcelona e Madri, emprega quase cinquenta pessoas e já
trabalhou para mais de cem corporações em todos os lugares do mundo.
Portanto, minha experiência de empreendedor se concentra no setor de
serviços de uma empresa que passou de escritório profissional a
pequena empresa, de pequena empresa a média, e de média a grande
dentro do setor de serviços. Nunca teria escrito este texto sem ter
passado por esses dez anos de aventura empresarial.
Reafirmo que o parágrafo anterior tem um único propósito: o de dar
informações ao leitor que desconheça minha trajetória profissional no
mundo empresarial. Vangloriar-me disso por escrito seria um exercício
desnecessário de vaidade. Minhas conquistas profissionais parecerão
fantásticas para alguns e insignificantes para outros. Eu as exponho
apenas para trazer mais informação ao leitor na hora em que ele tiver de
avaliar o conteúdo das próximas linhas.
Minha alma de empreendedor não foi minha única fonte de inspiração.
Tive por base, também, as experiências de outros empreendedores que tive a oportunidade de conhecer: pessoas que fundaram negócios, com
quem compartilhei alegrias e tristezas e com quem pude avaliar
comparativamente critérios, decisões e dúvidas.
Foi-me útil, ainda, ver de perto muitos casos de pessoas que estavam
prestes a empreender um negócio. Nunca me dediquei a prestar
assessoria a empreendedores (nem me dedico a isso), mas, sobretudo
durante certa década, atendi a dezenas de conhecidos ou parentes que
me pediam conselhos antes de empreender seus negócios. Em alguns
casos, pude acompanhar sua evolução, o que me deu certa perspectiva
de seus acertos e erros.
Meu método de trabalho para escrever este livro foi o seguinte: primeiro,
reuni todas as informações sobre empreendimento; depois, em função
[12] da minha experiência e de tudo o que li, enumerei uma primeira relação
daquilo que considerei FCF.
Eu estava disposto a começar o livro com essa lista quando, de repente,
percebi as consequências de não ir um pouco mais além. Muitas pessoas
lerão este texto. Posso estar influindo em suas vidas e em suas decisões,
e essa é uma grande responsabilidade. Decidi que tinha a obrigação de
comparar minhas conclusões. Foi por isso que a Fundação Cultural
Banespyme do Banesto e eu organizamos entrevistas com todos os tipos
de empreendedores.
A ideia era que o programa "Empreendedores" da Escola Banespyme abordasse em sua quarta edição os fracassos empresariais para assim
ajudar outros empreendedores a identificar onde eles acontecem. Desse
modo, parte das entrevistas foi gravada e apresentada na televisão
durante o ano de 2007. Tanto essas entrevistas como as que realizei por
minha conta estão refletidas nas conclusões deste livro.
Selecionamos pessoas com características diferentes. Primeiro, elas
deveriam ter uma experiência mínima de 10 anos como empre-
endedoras. Depois, deveriam ter experimentado um fracasso (ou seja,
fechado uma empresa que haviam criado) ou ter passado por momentos
realmente críticos e que, portanto, pudessem explicar que erro as
colocara naquela situação, da qual finalmente conseguiram sair
enquanto outros não saem jamais. Em terceiro lugar, quisemos ter uma
mostra muito diversificada. Entre as pessoas entrevistadas, há desde um
dentista até o dono de uma indústria química, passando por
empreendedores que montaram empresas de serviços profissionais ou
redes de restaurantes.
O fato é que o livro não seria o que é sem essas contribuições. Esta
última fase do processo foi fundamental e teve um impacto significativo
[13]
no resultado final do livro. As entrevistas tiveram utilidade tripla.
Primeiro, a confirmação de minhas descobertas. Aquilo que considerei
como FCF foi, em sua maioria, confirmado por outros empreendedores.
Segundo, as nuanças. Na vida, as nuanças são fundamentais. Foram
também nesta pesquisa. Muitas de minhas conclusões ganharam valor
quando aprendi a perceber a sutileza delas de maneira adequada.
Terceiro, para identificar dois FCF que não identifiquei na primeira fase.
Resumindo, a confirmação de minhas hipóteses, a introdução de
nuanças e o aporte de novas ideias.
Queria agradecer especialmente às contribuições das entrevistas que me
foram concedidas por Juan José Nieto, Juan Mateo, Felip Artalejo, José
Aguirre, Armando Lerís, Victor Arrese, Josep Lluis Lloreda, Xavier
Gabriel, Juan Eusebio Pujol, Josep Lagares, Ferran Soriano, Jose Maria
Ruiz Millet, Emilio Mayo e Ramón Rocasalbas. Eles me dedicaram mais
tempo do que ninguém e é por isso que grande parte dos depoimentos
aqui incluídos é deles.
Reitero: este livro não seria o mesmo sem eles e, o mais importante,
provavelmente não me sentiria tão à vontade para influenciar uma
multidão de pessoas que vão empreender se não tivesse o respaldo das
opiniões destes empreendedores.
Também acredito que sou a pessoa adequada para escrever este livro
porque tenho a experiência e a ingenuidade exata.
Sabe-se que a ingenuidade diminui à medida que nos tornamos mais
velhos e a experiência, por sua vez, aumenta. Agora estou com 39 anos.
Comecei a trabalhar há quase 17 anos. Estou naquele ponto onde a curva
da ingenuidade (que decresce com o tempo) e a da experiência se
cruzam. Nesse ponto de interseção, tenho conhecimentos suficientes
para falar deste assunto e estou em um nível de ingenuidade que ainda
me induz a pensar que alguém levará em conta o que aqui se expõe.
[14]