O Livro Negro do Empreendedor

Fernando Trías de Bes · Capítulo 3 de 21

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O Livro Negro do Empreendedor

Quem o Autor Pensa que É?

Já se sabe que excusatio non petita, accusatio manifestat (uma desculpa não

solicitada manifesta acusação). Não quero usar meus conhecimentos como justificativa para ter elaborado este breve ensaio. Se o escrevi é

porque me considero capacitado para isso. Mas acho que um

empreendedor que vai arriscar sua carreira, tempo e dinheiro para montar um negócio tem o direito de avaliar se esta fonte é sólida o

suficiente, se atende às suas necessidades.

Para escrever este livro, não precisei da minha licenciatura em ciências

empresariais, do meu MBA e, menos ainda, dos meus 14 anos como

professor da Esade (Escola Superior de Administração e Direção de Empresas). Não escrevo este livro como acadêmico, mas a partir da

minha alma de empreendedor.

Não sou nem fui um grande empresário, mas sim um empreendedor.

Quando minha empresa adquiriu certa dimensão, decidi parar de

trabalhar nela e colocá-la nas mãos de um diretor-geral independente.

Digamos que acho mais divertido criar do que gerir. Sou muito mais

empreendedor do que empresário.

Fundei minha empresa em 1996, aos 28 anos de idade. Estava

trabalhando há seis anos para os outros. Comecei com um sócio, um

capital de pesetas e muitas esperanças. Durante os primeiros seis anos, reinvesti tudo o que a empresa gerava. Era um tudo ou nada contínuo. E

deu certo. No entanto, era jovem, não tinha experiência como

empreendedor e cometi muitos erros. Mas pude — sempre com a ajuda

das pessoas com quem trabalhei — superar em uma medida maior ou

menor cada um deles.

[11]

Atualmente, a consultoria de pesquisa de mercado que fundei tem

escritórios em Barcelona e Madri, emprega quase cinquenta pessoas e já

trabalhou para mais de cem corporações em todos os lugares do mundo.

Portanto, minha experiência de empreendedor se concentra no setor de

serviços de uma empresa que passou de escritório profissional a

pequena empresa, de pequena empresa a média, e de média a grande

dentro do setor de serviços. Nunca teria escrito este texto sem ter

passado por esses dez anos de aventura empresarial.

Reafirmo que o parágrafo anterior tem um único propósito: o de dar

informações ao leitor que desconheça minha trajetória profissional no

mundo empresarial. Vangloriar-me disso por escrito seria um exercício

desnecessário de vaidade. Minhas conquistas profissionais parecerão

fantásticas para alguns e insignificantes para outros. Eu as exponho

apenas para trazer mais informação ao leitor na hora em que ele tiver de

avaliar o conteúdo das próximas linhas.

Minha alma de empreendedor não foi minha única fonte de inspiração.

Tive por base, também, as experiências de outros empreendedores que tive a oportunidade de conhecer: pessoas que fundaram negócios, com

quem compartilhei alegrias e tristezas e com quem pude avaliar

comparativamente critérios, decisões e dúvidas.

Foi-me útil, ainda, ver de perto muitos casos de pessoas que estavam

prestes a empreender um negócio. Nunca me dediquei a prestar

assessoria a empreendedores (nem me dedico a isso), mas, sobretudo

durante certa década, atendi a dezenas de conhecidos ou parentes que

me pediam conselhos antes de empreender seus negócios. Em alguns

casos, pude acompanhar sua evolução, o que me deu certa perspectiva

de seus acertos e erros.

Meu método de trabalho para escrever este livro foi o seguinte: primeiro,

reuni todas as informações sobre empreendimento; depois, em função

[12] da minha experiência e de tudo o que li, enumerei uma primeira relação

daquilo que considerei FCF.

Eu estava disposto a começar o livro com essa lista quando, de repente,

percebi as consequências de não ir um pouco mais além. Muitas pessoas

lerão este texto. Posso estar influindo em suas vidas e em suas decisões,

e essa é uma grande responsabilidade. Decidi que tinha a obrigação de

comparar minhas conclusões. Foi por isso que a Fundação Cultural

Banespyme do Banesto e eu organizamos entrevistas com todos os tipos

de empreendedores.

A ideia era que o programa "Empreendedores" da Escola Banespyme abordasse em sua quarta edição os fracassos empresariais para assim

ajudar outros empreendedores a identificar onde eles acontecem. Desse

modo, parte das entrevistas foi gravada e apresentada na televisão

durante o ano de 2007. Tanto essas entrevistas como as que realizei por

minha conta estão refletidas nas conclusões deste livro.

Selecionamos pessoas com características diferentes. Primeiro, elas

deveriam ter uma experiência mínima de 10 anos como empre-

endedoras. Depois, deveriam ter experimentado um fracasso (ou seja,

fechado uma empresa que haviam criado) ou ter passado por momentos

realmente críticos e que, portanto, pudessem explicar que erro as

colocara naquela situação, da qual finalmente conseguiram sair

enquanto outros não saem jamais. Em terceiro lugar, quisemos ter uma

mostra muito diversificada. Entre as pessoas entrevistadas, há desde um

dentista até o dono de uma indústria química, passando por

empreendedores que montaram empresas de serviços profissionais ou

redes de restaurantes.

O fato é que o livro não seria o que é sem essas contribuições. Esta

última fase do processo foi fundamental e teve um impacto significativo

[13]

no resultado final do livro. As entrevistas tiveram utilidade tripla.

Primeiro, a confirmação de minhas descobertas. Aquilo que considerei

como FCF foi, em sua maioria, confirmado por outros empreendedores.

Segundo, as nuanças. Na vida, as nuanças são fundamentais. Foram

também nesta pesquisa. Muitas de minhas conclusões ganharam valor

quando aprendi a perceber a sutileza delas de maneira adequada.

Terceiro, para identificar dois FCF que não identifiquei na primeira fase.

Resumindo, a confirmação de minhas hipóteses, a introdução de

nuanças e o aporte de novas ideias.

Queria agradecer especialmente às contribuições das entrevistas que me

foram concedidas por Juan José Nieto, Juan Mateo, Felip Artalejo, José

Aguirre, Armando Lerís, Victor Arrese, Josep Lluis Lloreda, Xavier

Gabriel, Juan Eusebio Pujol, Josep Lagares, Ferran Soriano, Jose Maria

Ruiz Millet, Emilio Mayo e Ramón Rocasalbas. Eles me dedicaram mais

tempo do que ninguém e é por isso que grande parte dos depoimentos

aqui incluídos é deles.

Reitero: este livro não seria o mesmo sem eles e, o mais importante,

provavelmente não me sentiria tão à vontade para influenciar uma

multidão de pessoas que vão empreender se não tivesse o respaldo das

opiniões destes empreendedores.

Também acredito que sou a pessoa adequada para escrever este livro

porque tenho a experiência e a ingenuidade exata.

Sabe-se que a ingenuidade diminui à medida que nos tornamos mais

velhos e a experiência, por sua vez, aumenta. Agora estou com 39 anos.

Comecei a trabalhar há quase 17 anos. Estou naquele ponto onde a curva

da ingenuidade (que decresce com o tempo) e a da experiência se

cruzam. Nesse ponto de interseção, tenho conhecimentos suficientes

para falar deste assunto e estou em um nível de ingenuidade que ainda

me induz a pensar que alguém levará em conta o que aqui se expõe.

[14]