O Livro Negro do Empreendedor

Fernando Trías de Bes · Capítulo 8 de 21

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O Livro Negro do Empreendedor

SEGUNDA PARTE - Sócios créditos em longo prazo e a 22%

SEGUNDA PARTE - Sócios créditos em longo

prazo e a 22%

 

QUARTO ASSALTOANTES SÓ DO QUE BEM ACOMPANHADO

 

Quando de fato os sócios fazem falta

Sócios: o mais caro dos recursos

Vamos abordar um dos assuntos mais polêmicos deste livro: os sócios. Atenção! Não me refiro aos sócios capitalistas que possuem ações, que

compartilham a propriedade de uma empresa, mas não trabalham nela.

Estou me referindo aos sócios que vão compartilhar capital e trabalho. Estamos falando de empreendedores, não de investidores. Ou seja, de

pessoas que vão colocar dinheiro para empreender junto, ao mesmo

tempo em que vão dedicar todo ou parte de seu tempo da jornada de trabalho no projeto. O conteúdo desse assalto se refere a sócios vistos

como pessoas com as quais não apenas investiremos, mas também

trabalharemos.

Examinemos esta questão. Os empreendedores novatos tendem a iniciar

seu negócio com outro sócio em um percentual muito mais elevado do

que quando se trata de uma segunda ou terceira iniciativa empresarial.

 

Por que será que isso acontece?

"Costuma-se empreender na juventude, e os jovens cometem muitos erros. O erro é inerente ao ser humano, mas se a pessoa é jovem, erra

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ainda mais. A juventude também dá certa insegurança e, por isso, a

pessoa tem a inclinação de se associar a outras pessoas, pois os sócios

têm o dom de aumentar o seu nível de segurança." ∗

Ah, o maravilhoso mundo dos sócios!

Antes de se associar a alguém, responda à seguinte pergunta: "Por que

está se associando?" Sei que, neste ponto, se você já convidou várias

pessoas para o acompanharem, vai se sentir incomodado com essa parte e, como foi estudado pela psicologia, vai negar tudo o que vem a seguir.

Bem, não negará. Fará algo mais sutil. Dirá a si mesmo: "Sim, mas este

não é o meu caso. Eu preciso dos meus sócios."

Vou pôr o dedo na ferida. O motivo principal que leva o empreendedor

novato a se associar é o seguinte: o medo.

Medo de empreender, de que as coisas andem mal, de não ter em quem

se apoiar, de não ser capaz de cuidar de tudo, de cometer erros, e,

principalmente, de estar só.

Os empreendedores inexperientes procuram companheiros de viagem

mais pelo medo, a aversão ao risco e o desejo de se sentir acompanhados

do que por uma necessidade real.

Armando Lerís, outro entrevistado, também vê as coisas assim: "Se você

é capaz de suportar pressões, é melhor empreender sozinho. Como digo,

meu lema é: “Antes só do que bem acompanhado.” As vantagens de

estar sozinho são a de ter velocidade e de não ter de suportar sócios que não agreguem valor. O que acontece é que há poucos empresários natos

e andar acompanhado minimiza o medo causado pela necessidade de

decidir. Há pessoas que preferem chorar juntas a rir separadas."

 

∗

Entrevista de Felipe Artalejo.

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Existe algo promíscuo nessa atitude de convidar sócios e enfiar-se com

eles na cama. É preciso se perguntar se os sócios que estão sendo

admitidos são de fato necessários ou se são, simplesmente, aquele amigo

do amigo que sempre estava presente quando se falava do projeto, até

deu algumas sugestões, e por isso, é claro, não pode ser deixado de lado!

Há pessoas que pelo mero fato de compartilhar uma ideia e de ouvir

alguns palpites interessantes já se sentem na obrigação de convidar mais

um para a festa.

Deixe de história, abandone os sentimentos de culpa. Não convide por simples capricho pessoas que não merecem nem estão interessadas em sua vida empreendedora, pessoas que, na realidade, estão procurando

ver se podem ganhar mais dinheiro do que ganham, gente cujo interesse

na ideia que, em dado momento, você lhes expôs parte, na realidade, de

algum daqueles que no primeiro assalto chamei de motivos lamentáveis do

empreendedor.

Mas, claro, no primeiro momento, quando só há uma ideia sobre a mesa,

há a sensação de que qualquer recurso acrescentado, qualquer sugestão,

qualquer contribuição, qualquer cabeça pensante que — além do mais!

— veja um potencial em nossa ideia não pode ser excluída do processo.

Ou, pelo menos, deve ser levada em conta.

Nada disso!

Vamos falar de recursos. Sinto muito, mas vou ser bastante direto: um sócio é um recurso a mais. E o empreendedor deve considerá-lo como

tal. Esse recurso tem duas restrições: em primeiro lugar, é o mais caro de

todos os recursos (é remunerado com ações!). E, em segundo, é um

recurso que pode vir a ter a capacidade de travar nossa atividade. É um

crédito a muito longo prazo e a 22%, com um tipo de juro tão abusivo

como descomunal.

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Falemos, então, de recursos:

Se estiver pensando em ter sócios porque precisa de dinheiro, procure

um banco.

Se estiver pensando em ter sócios porque não é capaz de fazer tudo, empregue um profissional.

Se estiver pensando em ter sócios porque há uma área que não domina, terceirize este serviço.

Se estiver pensando em ter sócios porque precisa de conselhos, contrate um consultor.

Se estiver pensando em ter sócios porque tem medo, pratique esportes. ∗

Um sócio é um assunto muito, muito sério. Há uma grande confusão por parte do empreendedor novato na hora de considerar os recursos de que

dispõe. Para que os recursos saiam barato, costuma- se convidar sócios.

Pedir crédito envolve juros. O trabalhador exige um salário e os

encargos associados. A contratação de serviços implica honorários caros.

No entanto, o sócio é grátis! Isso é verdade?

Não! É mentira! O sócio é o mais caro de todos os recursos porque é

remunerado com os frutos que sua atividade empreendedora seja capaz

de gerar. E se você é uma pessoa que tem o dom, a capacidade, o

estímulo, a tenacidade, a audácia... — chame como quiser — de criar e

manter um negócio, não pense em dividi-lo com ninguém. Não por

 

∗ De preferência, caminhadas ou qualquer esporte de resistência física.

É um exercício mental que desenvolve a capacidade de resistência.

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egoísmo, mas porque no futuro estará pagando muito caro por um momento de fraqueza de vários anos antes, quando ainda tinha de

descobrir e, provavelmente, acreditar que você era capaz de fazer.

 

A solidão do comando

Converse com empreendedores experientes. Você verá como, na intimi-

dade, eles reconhecem que é muito melhor estar sozinho. Não estou di-

zendo que uma companhia não seja boa; estou me referindo ao fato de

que tudo o que um sócio poderá lhe trazer, do ponto de vista

psicológico, você poderá obter conversando com outros empreendedores

ou com seus próprios funcionários, quando se tratar de problemas do

dia a dia.

Em todas as entrevistas que fiz, encontrei poucas vezes consensos

absolutos e arrasadores. Um deles, como já disse, é o que se refere à

importância da esperança como motor de tudo. Mas o segundo é que, diante da pergunta se é melhor caminhar sozinho ou com sócios, 95%

dos entrevistados responderam: sozinho!

Alguns depoimentos:

"Com certeza, é melhor empreender sozinho. Em médio e longo prazo os

objetivos das pessoas são, por definição, opostos. A vida muda, as

circunstâncias mudam. Quando muito, sócios capitalistas e, ainda assim,

entendendo muito bem o que esperam."

"Procurar um sócio é compartilhar o risco e a aventura. Propicia certa segurança. Embora, pessoalmente, eu ache que é melhor empreender

sozinho do que com um sócio."

 

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"Cada vez sou mais contra ter sócios, nunca os tive e talvez um dia me

equivoque e venha a tê-los, mas no momento não estou pensando em

algo assim."

Para quem ainda tem dúvidas: "No caso da editora, fracassei por causa da ideia. Mas, no caso da empresa de serviços educativos, fracassei por

causa dos sócios. Não tive coragem de dar um soco na mesa, pois a

estrutura de poder não estava definida. Nesses casos é melhor parar e

recomeçar. Eu, simplesmente, me enganei."

Foram estabelecidas muitas semelhanças entre o mundo da empresa e o

da guerra. Os termos estratégia, objetivos, recursos, custos, eficiência e

um longo et cetera provêm do campo militar. Eu fui oficial do Exército

espanhol; prestei serviço militar como tenente. E havia um capítulo do

regulamento rançoso cujo título jamais esquecerei: "A solidão do

comando." É rigorosamente verdadeiro. Mandar, dirigir, ordenar,

segurar as rédeas pressupõe solidão.

É necessário existir um superior. Alguém deve ter o poder e a autori-

dade. As empresas em que mais de um manda não funcionam. Quando

há problemas, alguém deve ter o comando e dizer a última palavra em relação ao que é preciso fazer. É necessário deixar muito claro quem é o líder, quem é que manda. Na manada, nem todos podem mandar. Só um

pode.

Hoje, ao contrário do que acontecia no passado, um dos fatores mais

importantes no mundo empresarial é a velocidade no processo de

tomada de decisões. Essa velocidade é difícil de ser aplicada quando é necessário consultar sócios a respeito de qualquer decisão. Decidir so-

 

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zinho permite decidir depressa. No século XXI, esta é uma vantagem

competitiva inquestionável.

Agora, sem contemplações: "Houve um momento em que a empresa era

de meus irmãos e minha. Mas não era eficiente. Havia muitos

condicionantes. Ofereci comprar as ações dos meus irmãos para poder

agir com liberdade." ∗

Isso acontece porque empreender implica ter uma visão particular das coisas, e ela não pode ser compartilhada com ninguém. É uma mistura

de intuição e visão de negócio. Algo parecido ao que acontece com os

espigões de pedra usados para construir quebra-mares artificiais. Os

engenheiros conseguem entender por que o mar engole alguns espigões

e outros não. Em seu romance Travessuras da menina má, Mario Vargas

Llosa cria um personagem fabuloso, uma espécie de xamã dos quebra-

mares que, observando o mar, adivinha onde uma obra faraônica como

um espigão permanecerá para sempre e onde não.

Acontece algo parecido com a atividade de empreender. Sua visão

particular das coisas não pode ser racionalizada. Mas é a sua e é a que

deve prevalecer acima de tudo. Nem todo empreendedor é um xamã

que intui onde os espigões não serão engolidos pelas ondas, mas os

empreendedores verdadeiros dão grande valor a sua intuição no pro-cesso de tomada de decisões. E as intuições são, por definição, indivi-

duais e não coletivas.

Associe-se se — e apenas se — não tiver outro remédio. Quer dizer: se

não estiver conseguindo o capital de que precisa no banco. Porque o

restante dos recursos — trabalhadores, fornecedores, sujeitos que fazem

∗

Depoente que prefere permanecer no anonimato.

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o papel de consultores e espaços adequados para caminhadas — há de

sobra.

O bom empreendedor sabe que antes só do que bem acompanhado.

 

Há situações em que é recomendável se associar?

Dito isto, é verdade que há situações em que um sócio capitalista pode ser necessário. Afinal, existem projetos nos quais um banco não confiará

e, no entanto, uma sociedade que lida com capital de risco ou um

business angel, acreditará. São os projetos de empresa que custam muito

mais do que a pessoa dispõe. Neste caso, reconheço que um sócio

capitalista é a única das opções. Insisto: um sócio capitalista.

Sócios, só se forem necessários e, além do mais, se forem capitalistas.

Nunca sócios que trabalharão juntos. Sócio capitalista, que trabalhará na

empresa, é difícil, para não dizer impossível.

A única situação que justifica contar com um sócio é quando houver

uma carência que você não possa cobrir por si mesmo ou terceirizando.

Por exemplo, como veremos no assalto dedicado à escolha do setor de

atividade, talvez você precise de alguém que conheça muito bem o setor

de atividade onde vai empreender, e no qual não tem nenhuma experiência. Ou talvez, diante de um projeto muito complexo, a

colaboração de várias opiniões seja necessária para sua boa execução.

Se você não reconhece em si o talento de empreendedor e, além do mais,

não tem aquele caráter lutador que é um salvo-conduto universal, então procure sócios que tenham tais características. Nos momentos difíceis, e

eles sempre chegam, os sócios o ajudarão a manter a postura. E procurar

sócios não desmerece sua competência. Há pessoas que têm a faculdade

de saber se cercar de gente adequada. Isso também é uma qualidade.

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Finalmente, há uma situação na qual é importante ter sócios. Trata- se do

caso em que o empreendedor, devido a uma doença ou à idade, precisa

de alguém que conduza o barco durante sua ausência temporária ou

definitiva. É certo que um sócio pode substituí-lo diante de uma

eventualidade imprevista relacionada à saúde. Isso é rigorosamente

verdadeiro. Mas quando tais situações surgem repentinamente há tempo

para procurar alguém? Quer dizer, recorrer a um sócio para a even-

tualidade de acontecer algo com você é agir precipitadamente?

No caso de um empreendedor de idade avançada, esta é uma

preocupação mais lógica. A partir de certa idade, o empreendedor se

preocupa em dar continuidade ao seu negócio. Então, resolve vendê-lo

ou procurar sócios.

Lamento não apresentar muitas outras situações. Mas elas não existem.

 

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