O Livro Negro do Empreendedor

Fernando Trías de Bes · Capítulo 2 de 21

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O Livro Negro do Empreendedor

O que Este Livro Tem que Outros Não Têm?

Além do mais, não é necessário ser um doutor em economia ou

administração nem ter feito um curso de gestão empresarial, mestrado

ou pós-graduação para compreender este livro. Este não é um livro

técnico; o que é exposto aqui pode ser assimilado por qualquer pessoa.

Por isso, me corrijo: "Para todos os públicos"... que estão pensando em

empreender um negócio.

O QUE ESTE LIVRO TEM QUE OUTROS NÃO TÊM?

Foram escritos milhares de livros para empreendedores. Provavelmente, na mesma estante de onde este exemplar foi tirado estão expostos vários

títulos dirigidos a este público. O que este tem de diferente? Por que

acrescentar mais um título a uma área sobre a qual já se disse quase

tudo?

Por dois motivos.

Primeiro, porque este livro aborda o que não é dito em quase nenhum

deles, algo que seria "malvisto".

No momento de empreender um negócio, ninguém gosta que lhe

expliquem como reagir quando seu sócio, que dois meses antes estava

fascinado por aquela ideia, lhe diz, de repente, que não vê as coisas

claramente, deixando-o sozinho diante do perigo. Tampouco gostam

que digam que sua grande ideia não é tão importante assim, ou que sua

vontade de empreender é, na verdade, uma reação ao repentino e

universal desejo de dar uma pancada no pescoço de seu chefe, bem ali

onde terminam suas costas, ou que não tem coragem suficiente para ser

um empreendedor.

Em vez disso, os manuais que tratam de novos negócios se concentram

na construção de suposições, nos aspectos técnicos que devem ser

levados em conta (capital, investimentos etc.); abordam modalidades

[5]

legais e formas jurídicas, os diversos (poucos) incentivos públicos e as

fontes de financiamento. Este livro não abordará esses aspectos. Não

porque não sejam necessários, mas porque já foram muito explorados e

— o mais importante — porque, do meu ponto de vista, não são os

motivos do fracasso dos empreendedores.

Os negócios não costumam fracassar por falta de competência técnica de

quem os empreende, mas devido a motivos muito mais simples:

problemas pessoais, desavenças com os sócios, falta de bom-senso,

excesso de expectativas, medos e/ou erros insignificantes que, com o

tempo, se transformam em verdadeiros problemas que acabam

inviabilizando o negócio.

Então, abordaremos aqui o que não é comum encontrar em manuais de

empresas nem em escolas de administração.

É como o filme de Woody Allen: tudo o que você sempre quis saber

sobre empreender, mas tinha medo de perguntar.

O segundo motivo tem a ver com o conceito de fracasso.

Cerca de 90% dos empreendedores fracassam antes de quatro anos.

Algumas fontes apresentam cifras mais lamentáveis, tipo 95% de

fracassos antes de cinco anos. Na Espanha, a cada ano, se dissolvem

cerca de dez mil sociedades mercantis. Por isso não podemos esconder

as verdades relacionadas à aventura de empreender.

Um fracasso acarreta muitos sofrimentos pessoais e familiares que

podem ser evitados quando se conhece de antemão os principais

motivos que levam um empreendedor a fracassar. No entanto, é sur-preendente que a maioria dos livros para empreendedores apresente histórias de sucesso, sobre aqueles que venceram no "mundo global":

Richard Branson, o fundador da Ikea, o pessoal do YouTube...

Estamos diante de uma analogia imperfeita: sabendo por que outros

tiveram êxito você evitará seu fracasso.

[6]

Mentira.

Para evitar que um empreendedor fracasse, é necessário saber por que

aqueles que fracassaram se deram mal.

Além do mais, analisar um êxito não é tão importante como entender

um fracasso. Um êxito é uma oportunidade que já foi aproveitada por

outro, então, por que estudá-la? Bem, está certo, sempre podemos

aprender alguma lição ou levar a outro setor uma ideia inovadora que um empreendedor usou em sua área de atividade. Mas todos sabemos

há séculos que "é errando que se aprende". E não havia (ou eu não soube

encontrar) um livro que tratasse dos principais motivos de fracasso de

um empreendedor. Assim como a literatura de administração cunhou o

termo FCE (Fatores-Chave de Êxito), me proponho a apresentar o FCF

(Fatores-Chave de Fracasso). E por quê? Por um motivo muito simples: os fatores de sucesso só terão alguma oportunidade de serem aplicados

se o terreno estiver previamente livre dos fatores de fracasso.

Não há sentido em abrir um ótimo restaurante numa estação de esqui

onde os teleféricos vivem quebrando. O restaurante pode ser um Fator-

Chave de Êxito, mas o teleférico é um Fator-Chave de Fracasso.

Comprovei empiricamente a necessidade de abordar este tema. Por

curiosidade, digitei no Google "Fatores-Chave de Êxito" (assim, entre

aspas) e a busca apresentou 20.900 ocorrências. Depois teclei "Fatores-

Chave de Fracasso" e o poderoso Google cuspiu nada mais nada menos

do que... duas ocorrências. Duas, em toda a rede!

Claro, coisas do idioma. A literatura de negócios tem sua sede na língua

de Shakespeare. Tentemos em inglês. "Key success factors" oferece 636.000 ocorrências no Google e "key failure factors" apenas 119. Vimos então que,

de cada cem textos que, em inglês ou em castelhano, abordaram fatores

[7] elucidativos da atuação empresarial ou empreendedora, 99,98% trataram

de casos de sucesso e 0,02% de histórias de fracasso.

Não entendi nada. Como 95% dos empreendedores fracassam antes do

quinto ano e apenas 0,02% dos textos que tratam de administração se

dedicam a analisar os motivos desse fenômeno? Por outro lado, insiste-

se em escrever detalhadamente sobre os bem-sucedidos. Não seria muito

mais lógico revelar quais são as pedras em que tropeçam 95% dos

empreendedores do que analisar cerca de 5% de homens ou mulheres

que tiveram sucesso?

Claro, talvez cada pessoa fracasse por um motivo diferente e não exista

uma lista universal de fatores de fracasso. Não acredito. Porque, se

honrarmos a condição humana, acabaremos concordando que o ser

humano sempre tropeça nas mesmas pedras. Portanto, saber que pedras

são estas pode ajudar muita gente.

Creio firmemente que seremos muito mais úteis aos empreendedores

ajudando-os a identificar primeiro o essencial, aquilo em que não podem

falhar. Resolvendo isso, cada empreendedor terá capacidade e

inteligência suficientes para identificar seus próprios fatores de êxito.

Mas este livro é mais do que isso. O subtítulo já diz: "Não diga que não

foi avisado".

Empreender é um assunto sério. Não estamos falando de abrir uma loja

de bonecas ou uma barraquinha de pulseiras numa praia de Ibiza.

Estamos falando de empreender, de arriscar o próprio dinheiro e uma

carreira profissional, de comprometer a economia familiar do empreen-

dedor e, na maioria das vezes, seu próprio patrimônio.

A Fundação Cultural Banespyme do Banesto, um dos maiores bancos

espanhóis, tem como objetivo fomentar o espírito empreendedor na

Espanha. Mas, assim como se fala do consumo responsável e da

[8]

responsabilidade social corporativa ∗, agora que ser responsável está tão

na moda, também é necessário incentivar o espírito empreende dor de

uma maneira responsável.

O que estou querendo dizer? Que fomentar o espírito empreendedor não

deve ter como objetivo, apenas aumentar o número de empreendedores;

é necessário, também, garantir que estes tenham melhor qualidade.

Incentivar pessoas que não estão preparadas para empreender não é

fomentar o espírito empreendedor — é um exercício de

irresponsabilidade. Por isso, a Fundação Cultural Banespyme do

Banesto resolveu dedicar recursos e tempo à exploração desta questão.

Está certo, empreender é muito importante. É inconcebível, portanto, que não exista um livro que advirta sobre os lados mais difíceis deste

ofício.

Pretendi escrever um livro realista, sobre a verdade a respeito do que

significa empreender, uma atividade que dá muita satisfação, mas

também traz muitas dores de cabeça e muitos momentos difíceis. É bom que o empreendedor saiba quais são eles, e tenha uma noção do que vai

encontrar.

Não é minha intenção desmotivar o empreendedor em potencial. Isso seria, simplesmente, sadismo. Mas uma pessoa que, depois da leitura

dessas linhas, resolver não seguir adiante, seria, com quase toda

probabilidade, o agente de um provável fracasso empresarial, a própria

crônica de uma morte anunciada. Às vezes, a ingenuidade é positiva,

mas, quando se trata de empreender, ela é muito perigosa. E, por isso,

quanto mais informação a pessoa tiver e mais realista ela for, melhor.

∗

Políticas empresariais destinadas a melhorar a imagem social da empresa através

do mecenato voltado para políticas relacionadas à arte, à cultura, ao Terceiro

Mundo, à ecologia etc.

[9]

Insisto: o propósito deste livro não é desestimular o empreendedor, mas

exatamente o contrário: deixar que o verdadeiro empreendedor se

reconheça e vá se aventurar.

Em resumo, este livro é a prova de fogo definitiva. Se, ao virar a última página, você ainda quiser seguir em frente com sua ideia, sem dúvida é

um autêntico empreendedor. Garanto que vou lhe apresentar mais

entraves do que a entidade financeira para a qual você pedirá

financiamento para seu novo negócio.

Na verdade, este livro será como uma luta de boxe. Proponho-lhe o

seguinte jogo: você é um dos pugilistas, o aspirante a empreendedor, E

suponhamos que o livro é o campeão mundial dos pesos-pesados, que

defende o título mundial. Vamos travar uma luta de 14 assaltos. O livro

vai desferir muitos golpes de direita em seu fígado e veremos se você,

querido leitor ou leitora, aspirante ao título, vai suportá-los.

Por isso o livro está apresentado em 14 assaltos, organizados em cinco

partes. Se, ao final dos 14 assaltos, você ainda se mantiver de pé no

ringue e manifestar que quer seguir adiante com sua ideia de negócio,

então o aspirante terá derrotado o campeão. Nesse caso, lhe asseguro

que você é um autêntico empreendedor e tem condições de manter com

bravura o título em seu poder durante anos e anos.

Mas não me limitarei apenas a distribuir socos. Apresentar um problema

sem sugerir uma solução é próprio de uma mentalidade destrutiva. E

este livro não é assim. Procurei apontar soluções e contribuir com ideias

que permitam ao empreendedor minimizar ao máximo os Fatores-Chave

de Fracasso que identifiquei através das minhas pesquisas, da minha

experiência e do meu trabalho de campo.

 

[10]