O Livro Negro do Empreendedor
O que Este Livro Tem que Outros Não Têm?
Além do mais, não é necessário ser um doutor em economia ou
administração nem ter feito um curso de gestão empresarial, mestrado
ou pós-graduação para compreender este livro. Este não é um livro
técnico; o que é exposto aqui pode ser assimilado por qualquer pessoa.
Por isso, me corrijo: "Para todos os públicos"... que estão pensando em
empreender um negócio.
O QUE ESTE LIVRO TEM QUE OUTROS NÃO TÊM?
Foram escritos milhares de livros para empreendedores. Provavelmente, na mesma estante de onde este exemplar foi tirado estão expostos vários
títulos dirigidos a este público. O que este tem de diferente? Por que
acrescentar mais um título a uma área sobre a qual já se disse quase
tudo?
Por dois motivos.
Primeiro, porque este livro aborda o que não é dito em quase nenhum
deles, algo que seria "malvisto".
No momento de empreender um negócio, ninguém gosta que lhe
expliquem como reagir quando seu sócio, que dois meses antes estava
fascinado por aquela ideia, lhe diz, de repente, que não vê as coisas
claramente, deixando-o sozinho diante do perigo. Tampouco gostam
que digam que sua grande ideia não é tão importante assim, ou que sua
vontade de empreender é, na verdade, uma reação ao repentino e
universal desejo de dar uma pancada no pescoço de seu chefe, bem ali
onde terminam suas costas, ou que não tem coragem suficiente para ser
um empreendedor.
Em vez disso, os manuais que tratam de novos negócios se concentram
na construção de suposições, nos aspectos técnicos que devem ser
levados em conta (capital, investimentos etc.); abordam modalidades
[5]
legais e formas jurídicas, os diversos (poucos) incentivos públicos e as
fontes de financiamento. Este livro não abordará esses aspectos. Não
porque não sejam necessários, mas porque já foram muito explorados e
— o mais importante — porque, do meu ponto de vista, não são os
motivos do fracasso dos empreendedores.
Os negócios não costumam fracassar por falta de competência técnica de
quem os empreende, mas devido a motivos muito mais simples:
problemas pessoais, desavenças com os sócios, falta de bom-senso,
excesso de expectativas, medos e/ou erros insignificantes que, com o
tempo, se transformam em verdadeiros problemas que acabam
inviabilizando o negócio.
Então, abordaremos aqui o que não é comum encontrar em manuais de
empresas nem em escolas de administração.
É como o filme de Woody Allen: tudo o que você sempre quis saber
sobre empreender, mas tinha medo de perguntar.
O segundo motivo tem a ver com o conceito de fracasso.
Cerca de 90% dos empreendedores fracassam antes de quatro anos.
Algumas fontes apresentam cifras mais lamentáveis, tipo 95% de
fracassos antes de cinco anos. Na Espanha, a cada ano, se dissolvem
cerca de dez mil sociedades mercantis. Por isso não podemos esconder
as verdades relacionadas à aventura de empreender.
Um fracasso acarreta muitos sofrimentos pessoais e familiares que
podem ser evitados quando se conhece de antemão os principais
motivos que levam um empreendedor a fracassar. No entanto, é sur-preendente que a maioria dos livros para empreendedores apresente histórias de sucesso, sobre aqueles que venceram no "mundo global":
Richard Branson, o fundador da Ikea, o pessoal do YouTube...
Estamos diante de uma analogia imperfeita: sabendo por que outros
tiveram êxito você evitará seu fracasso.
[6]
Mentira.
Para evitar que um empreendedor fracasse, é necessário saber por que
aqueles que fracassaram se deram mal.
Além do mais, analisar um êxito não é tão importante como entender
um fracasso. Um êxito é uma oportunidade que já foi aproveitada por
outro, então, por que estudá-la? Bem, está certo, sempre podemos
aprender alguma lição ou levar a outro setor uma ideia inovadora que um empreendedor usou em sua área de atividade. Mas todos sabemos
há séculos que "é errando que se aprende". E não havia (ou eu não soube
encontrar) um livro que tratasse dos principais motivos de fracasso de
um empreendedor. Assim como a literatura de administração cunhou o
termo FCE (Fatores-Chave de Êxito), me proponho a apresentar o FCF
(Fatores-Chave de Fracasso). E por quê? Por um motivo muito simples: os fatores de sucesso só terão alguma oportunidade de serem aplicados
se o terreno estiver previamente livre dos fatores de fracasso.
Não há sentido em abrir um ótimo restaurante numa estação de esqui
onde os teleféricos vivem quebrando. O restaurante pode ser um Fator-
Chave de Êxito, mas o teleférico é um Fator-Chave de Fracasso.
Comprovei empiricamente a necessidade de abordar este tema. Por
curiosidade, digitei no Google "Fatores-Chave de Êxito" (assim, entre
aspas) e a busca apresentou 20.900 ocorrências. Depois teclei "Fatores-
Chave de Fracasso" e o poderoso Google cuspiu nada mais nada menos
do que... duas ocorrências. Duas, em toda a rede!
Claro, coisas do idioma. A literatura de negócios tem sua sede na língua
de Shakespeare. Tentemos em inglês. "Key success factors" oferece 636.000 ocorrências no Google e "key failure factors" apenas 119. Vimos então que,
de cada cem textos que, em inglês ou em castelhano, abordaram fatores
[7] elucidativos da atuação empresarial ou empreendedora, 99,98% trataram
de casos de sucesso e 0,02% de histórias de fracasso.
Não entendi nada. Como 95% dos empreendedores fracassam antes do
quinto ano e apenas 0,02% dos textos que tratam de administração se
dedicam a analisar os motivos desse fenômeno? Por outro lado, insiste-
se em escrever detalhadamente sobre os bem-sucedidos. Não seria muito
mais lógico revelar quais são as pedras em que tropeçam 95% dos
empreendedores do que analisar cerca de 5% de homens ou mulheres
que tiveram sucesso?
Claro, talvez cada pessoa fracasse por um motivo diferente e não exista
uma lista universal de fatores de fracasso. Não acredito. Porque, se
honrarmos a condição humana, acabaremos concordando que o ser
humano sempre tropeça nas mesmas pedras. Portanto, saber que pedras
são estas pode ajudar muita gente.
Creio firmemente que seremos muito mais úteis aos empreendedores
ajudando-os a identificar primeiro o essencial, aquilo em que não podem
falhar. Resolvendo isso, cada empreendedor terá capacidade e
inteligência suficientes para identificar seus próprios fatores de êxito.
Mas este livro é mais do que isso. O subtítulo já diz: "Não diga que não
foi avisado".
Empreender é um assunto sério. Não estamos falando de abrir uma loja
de bonecas ou uma barraquinha de pulseiras numa praia de Ibiza.
Estamos falando de empreender, de arriscar o próprio dinheiro e uma
carreira profissional, de comprometer a economia familiar do empreen-
dedor e, na maioria das vezes, seu próprio patrimônio.
A Fundação Cultural Banespyme do Banesto, um dos maiores bancos
espanhóis, tem como objetivo fomentar o espírito empreendedor na
Espanha. Mas, assim como se fala do consumo responsável e da
[8]
responsabilidade social corporativa ∗, agora que ser responsável está tão
na moda, também é necessário incentivar o espírito empreende dor de
uma maneira responsável.
O que estou querendo dizer? Que fomentar o espírito empreendedor não
deve ter como objetivo, apenas aumentar o número de empreendedores;
é necessário, também, garantir que estes tenham melhor qualidade.
Incentivar pessoas que não estão preparadas para empreender não é
fomentar o espírito empreendedor — é um exercício de
irresponsabilidade. Por isso, a Fundação Cultural Banespyme do
Banesto resolveu dedicar recursos e tempo à exploração desta questão.
Está certo, empreender é muito importante. É inconcebível, portanto, que não exista um livro que advirta sobre os lados mais difíceis deste
ofício.
Pretendi escrever um livro realista, sobre a verdade a respeito do que
significa empreender, uma atividade que dá muita satisfação, mas
também traz muitas dores de cabeça e muitos momentos difíceis. É bom que o empreendedor saiba quais são eles, e tenha uma noção do que vai
encontrar.
Não é minha intenção desmotivar o empreendedor em potencial. Isso seria, simplesmente, sadismo. Mas uma pessoa que, depois da leitura
dessas linhas, resolver não seguir adiante, seria, com quase toda
probabilidade, o agente de um provável fracasso empresarial, a própria
crônica de uma morte anunciada. Às vezes, a ingenuidade é positiva,
mas, quando se trata de empreender, ela é muito perigosa. E, por isso,
quanto mais informação a pessoa tiver e mais realista ela for, melhor.
∗
Políticas empresariais destinadas a melhorar a imagem social da empresa através
do mecenato voltado para políticas relacionadas à arte, à cultura, ao Terceiro
Mundo, à ecologia etc.
[9]
Insisto: o propósito deste livro não é desestimular o empreendedor, mas
exatamente o contrário: deixar que o verdadeiro empreendedor se
reconheça e vá se aventurar.
Em resumo, este livro é a prova de fogo definitiva. Se, ao virar a última página, você ainda quiser seguir em frente com sua ideia, sem dúvida é
um autêntico empreendedor. Garanto que vou lhe apresentar mais
entraves do que a entidade financeira para a qual você pedirá
financiamento para seu novo negócio.
Na verdade, este livro será como uma luta de boxe. Proponho-lhe o
seguinte jogo: você é um dos pugilistas, o aspirante a empreendedor, E
suponhamos que o livro é o campeão mundial dos pesos-pesados, que
defende o título mundial. Vamos travar uma luta de 14 assaltos. O livro
vai desferir muitos golpes de direita em seu fígado e veremos se você,
querido leitor ou leitora, aspirante ao título, vai suportá-los.
Por isso o livro está apresentado em 14 assaltos, organizados em cinco
partes. Se, ao final dos 14 assaltos, você ainda se mantiver de pé no
ringue e manifestar que quer seguir adiante com sua ideia de negócio,
então o aspirante terá derrotado o campeão. Nesse caso, lhe asseguro
que você é um autêntico empreendedor e tem condições de manter com
bravura o título em seu poder durante anos e anos.
Mas não me limitarei apenas a distribuir socos. Apresentar um problema
sem sugerir uma solução é próprio de uma mentalidade destrutiva. E
este livro não é assim. Procurei apontar soluções e contribuir com ideias
que permitam ao empreendedor minimizar ao máximo os Fatores-Chave
de Fracasso que identifiquei através das minhas pesquisas, da minha
experiência e do meu trabalho de campo.
[10]