O Livro Negro do Empreendedor

Fernando Trías de Bes · Capítulo 6 de 21

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O Livro Negro do Empreendedor

Segundo Assalto Empreendedores e Bombeiros

RESUMO

 

A ideia não é um motivo. Não a leve em conta para tomar sua decisão.

Além da ideia, qualquer outro motivo para empreender, entendido

como detonador, é irrelevante. O importante é a motivação, quer dizer,

estar suficientemente encantado com o fato de empreender.

Primeiro FCF: empreender com um motivo, mas sem motivação.

 

SEGUNDO ASSALTO EMPREENDEDORES E BOMBEIROS

 

Como saber se você tem talento de empreendedor

O falso empreendedor

Existem empreendedores autênticos e empreendedores falsos. Não me

refiro às pessoas que pretendem enganar alguém, mas àquelas que estão

enganando a si mesmas.

Vejamos dois estágios extremamente básicos do falso empreendedor

para depois entrarmos na natureza do verdadeiro empreendedor.

No nível mais básico dos falsos empreendedores estão as pessoas que

chamo de "empreendedores CNPJ". Ou seja, as que vão ao cartório e

fundam uma empresa, acreditando que isso as transforma em

empreendedoras. De fato, um dos sintomas da pessoa que, na realidade,

não tem um pingo de caráter empreendedor é o habitual e pomposo

[24] comentário: "No dia tal irei ao cartório", como se ir até lá desse a alguém

um diploma de empreendedor.

Empreender não é inscrever uma empresa no cartório ou se livrar da

empresa onde se trabalha. Esses são apenas trâmites administrativos ou

legais que permitem trabalhar por conta própria em vez de para os

outros. É claro que um negócio deve operar sob um número de

identificação fiscal e uma determinada forma legal. São passos ne-

cessários para empreender, mas não é empreender.

Essa distinção pode parecer óbvia, mas não é. Você ficaria espantado se

soubesse a quantidade de pessoas para quem ter um CNPJ representa

uma incrível tranquilidade e segurança.

Ir ao cartório nos permite dizer em um jantar com amigos que acabamos

de abrir um negócio ou que temos nossa própria empresa, mas, até

aquele momento, nosso único ato foi gastar dinheiro.

No segundo estágio, temos as pessoas que chamo de "empreendedores

com uma ideia feliz". Para estas, uma determinada ideia de negócio,

conseguir uma franquia, exportar ou importar com exclusividade uma

determinada marca ou produto já representa ser um empreendedor. A

ideia se transforma em seu salva-vidas, naquilo que vai resolver tudo.

Veremos mais sobre isso na terceira parte.

Empreender não é registrar uma sociedade, nem montar uma loja, uma

agência de publicidade ou uma empresa de exportação. Empreender não

é montar um negócio. Empreender não é nem mesmo um modo de

trabalho.

 

[25]

O que é então?

Empreender é uma forma de enfrentar o mundo, uma maneira de en-

tender a vida com a qual nem todo mundo se sente à vontade. E qual é

essa forma de vida? É aquela em que a pessoa desfruta a incerteza e a

insegurança em relação ao que acontecerá amanhã. O verdadeiro

empreendedor é quem sente um prazer especial com o incerto.

Certa ocasião, enquanto esperava numa sala para entrar em um estúdio

de televisão onde seria entrevistado a respeito de um de meus livros,

estava ao meu lado um membro do Corpo de Bombeiros de Barcelona.

Perguntei a ele por que escolhera ser bombeiro. Sua resposta foi

categórica: "Um bombeiro não deseja outra coisa na vida além de ser

bombeiro. É mais que uma vocação. Ser bombeiro proporciona uma

forma de vida que nenhuma outra profissão oferece: a possibilidade de

se arriscar em um cenário real. Não é uma encenação, nem um parque

de diversões onde os riscos são fictícios. Os riscos que corremos todos os

dias são reais: um incêndio, um escapamento de gás, o desabamento de

um edifício... Você não pode imaginar o que sentimos; é pura adrenalina,

uma forma de vida que se transforma em uma droga a qual não

conseguimos largar."

O bombeiro não disse nada sobre salários nem dias de folga. Contou que

havia sido professor e que, no entanto, desde pequeno tivera (e sentira!) a necessidade de ser bombeiro. Enquanto trabalhava como professor, se preparou para as provas de bombeiro e, ao ser aprovado, abandonou as

aulas para colocar um capacete e apagar incêndios. E ali estava, prestes a entrar em um estúdio de televisão para explicar sua última aventura nas

ruas de Barcelona.

 

[26]

Assim como a pessoa com vocação para bombeiro acaba sendo

bombeiro, quem tem vocação para empreendedor cedo ou tarde também

chegará lá. Não conseguirá evitar que isso aconteça.

O bombeiro aprecia a incerteza e a experiência do risco. Esta é a primeira

prova de fogo (essa expressão nunca foi tão apropriada!) pela qual um

bombeiro e um empreendedor devem passar. Se você é uma pessoa que

não aprecia a incerteza, então não é um empreendedor. É verdade que

uma pessoa pode se acostumar à incerteza e que esta é frequentemente a

causa de muitas das dores de cabeça dos empreendedores, mas uma

coisa muito diferente é saber que se é vencido pela incerteza e o risco.

Há pessoas que preferem a segurança, a rotina ou, simplesmente, que

outras assumam a responsabilidade pela folha de pagamento. Não são

melhores nem piores. É uma opção perfeitamente válida. Mas essas

pessoas, quando montam um negócio, fracassam. Porque não está ali presente a característica essencial que todo empreendedor deve ter: o

desejo de se movimentar em um ambiente de incertezas.

A Associação de Jovens Empreendedores de Murcia convidou- me certa

vez para fazer uma conferência a seus associados. Uma pessoa com

quem compartilhei a clássica mesa-redonda encerrou o evento

apresentando uma definição de empreendedor que não podia ser mais acertada: "O empreendedor é a pessoa que se move num mundo incerto

para que aqueles que trabalham para ele acreditem estar num mundo

seguro."

O mundo é, por definição, incerto. Ninguém pode garantir nada, nem

mesmo o presente. Mas nem todo mundo gosta de sentir isso na própria

pele todos os dias úteis (e de lazer) de sua vida.

Empreender é a ação de reduzir a incerteza numa das práticas mais

antigas da humanidade: o intercâmbio, o comércio.

[27]

Empreender é uma forma de viver e de encarar o mundo: aceitar a

incerteza como o principal dos ingredientes. Além do mais, de fato, a

verdadeira e única razão para que a ação empreendedora tenha sentido

é a própria incerteza.

Jorge Wagensberg escreveu: "A felicidade requer que o futuro seja

incerto." Empreender requer ainda mais.

Um traço que caracteriza os empreendedores autênticos é o fato de eles

não considerarem a possibilidade de fracasso. Não por estarem cegos ou

iludidos. Certamente não estão e suas taxas de realismo são altas. Mas

sua esperança é mais forte que tudo isso. Juan Mateo me disse, emocio-

nado: "Quando você empreende de verdade, não pensa em fracasso.

Tudo começa com um sonho. Você imagina um cenário que o emociona

o suficiente para dar a vida tentando chegar lá. É como quando se casa.

No princípio, é para toda a vida. Tem um quê de loucura, de inconsciên-

cia. O fracasso não entra nos planos, nem mesmo é considerado."

Não perca tempo. Se já descobriu que nunca vai ser capaz de se

adaptar a um ambiente de incerteza, avalie se deve levar adiante o

negócio que ronda sua cabeça. Não pense em sua ideia, mas sim se pode

lidar com o fato de que essa ideia trará incerteza para o resto de sua

vida.

Empreender pelo prazer de empreender

Lembro de outra conversa que tive com um empreendedor nato, dono

de mais de sete negócios, que emprega centenas de pessoas e fatura mais

de 100 milhões de euros por ano. Perguntei-lhe se sempre pensara em

ser empreendedor. Ele me respondeu assim: "Não, quando criança

queria ser médico. Mas, quando sonhava com isso, não me imaginava

[28] com um jaleco branco curando pessoas, mas sim que fundava e era dono

de sete hospitais com mais de mil médicos empregados..."

Vimos neste depoimento a segunda característica do empreendedor.

Empreender se transforma, ao mesmo tempo, em um meio e em um fim.

É semelhante ao que acontece com a criatividade.

Quando um cientista ou um artista tenta criar algo, seu campo de ação,

sua disciplina ou especialidade é instrumento e fim. Um escritor que

deseja criar um estilo literário faz da literatura uma ferramenta e, ao

mesmo tempo, uma meta. Essa é a chamada motivação intrínseca. Sob

essa motivação, qualquer estimativa de risco é estéril. Simplesmente se

deseja o que se faz e ponto.

É um desejo que nasce no interior da pessoa e que não exige mais

explicações. Neste último caso, não é necessário que alguém se pergunte

se a pessoa em questão vai se sentir à vontade diante da incerteza

porque, como ela mesma disse, a única coisa que deseja é consolidar sete

hospitais. Qual o sentido disso? Nenhum. Tem o mesmo sentido que

pintar Guernica ou escrever Cem anos de solidão. Como disse Paul Auster em seu discurso ao receber o Prêmio Príncipe de Astúrias de Literatura

tentando explicar o significado de escrever: "E por que alguém se empenharia em fazer uma coisa dessas? A única resposta que me

ocorreu certa vez foi a seguinte: porque não há outro remédio, porque não consegue fazer outra coisa. Essa necessidade de fazer, de criar, de

inventar é, sem dúvida, um impulso humano fundamental. Mas com

que objetivo? Qual é o sentido? Nenhum que me ocorra..."

É possível achar que o empreendedor quer ganhar dinheiro, ficar

milionário, deixar sua marca no mundo, ser alguém, gerar empregos ou

riquezas em sua região e um longo et cetera de motivações que

justifiquem a utilidade de sua ação empreendedora. Pode haver um

pouco de tudo isso, mas o verdadeiro empreendedor vai mais além. A

[29] realidade é que ele, como Auster afirma no caso do criador literário, não

consegue fazer outra coisa.

Carlos Barrabés, que criou com seu irmão José Cristobal o site líder de

vendas de equipamentos de alpinismo e para montanhas altas,

comentou o seguinte num dos programas de televisão criados pela

Escola Banespyme: "Um empreendedor reconhece a si mesmo porque

tem um vazio interior. Isto não quer dizer que seja infeliz. É provável

que seja feliz. Mas tem um vazio interior realmente profundo a preen-

cher. E a única solução que existe para preencher esse vazio interior é

criar conceitos. Não há muito mais do que isso. Com isso, já é possível

saber se é ou não um empreendedor."

Recomendo ouvir este depoimento na íntegra em444" left="607" width="258" height="36" font="36">442" left="865" width="9" height="21" font="37">560" left="30" width="839" height="36" font="0">Devemos prestar atenção: o conceito mencionado por Carlos Barrabés .

É diferente lê-lo e ouvi-lo na voz alquebrada e emocionada do

empreendedor.

não é muito diferente ao do vazio interior que leva o artista a criar. Há

muito em comum entre os motivos do empreendedor e os do criador aos

quais se referiu Paul Auster.

De fato, vários dos entrevistados me asseguraram que reconheciam um

autêntico empreendedor porque "o vencedor é reconhecido pelo olhar. Você vê em seus olhos, em como olha pra você quando fala do negócio

que vai montar. E, quando fracassa, volta a tentar".

Outro entrevistado me disse: "Sei reconhecer o verdadeiro em-

preendedor. O verdadeiro empreendedor é aquele que, quando me

explica seu projeto e eu lhe pergunto 'Está certo disso?', me responde

que não há nada que deseje mais do que fazer aquilo."

∗

http://banespyme.org/Banespymes.do;jsessionid=19352BCAC7D54DA1A24B

EB2C5CA3A30F?id=38q)refix=/emprendedorespage=/verCapituloTV.do

[30]

A esperança, ao mesmo tempo motor e combustível

Aquele que sonhava com seus sete hospitais e aquele que amava a

incerteza desejavam nada além neste mundo do que ser empresário e

bombeiro, respectivamente. Um queria viver em risco e o outro poder

criar uma coisa grandiosa.

Os dois depoimentos revelam a essência do que significa ser

empreendedor.

O amor à incerteza e o prazer pela própria atividade empreendedora

proporcionam tanto o motor quanto o combustível que move o

empreendedor: a esperança.

Se as dezenas de depoimentos com que contei para a elaboração deste

livro coincidiram em algo foi neste ponto. O empreendedor tira sua

energia de um combustível chamado ESPERANÇA. Como antecipamos

no assalto anterior, para empreender é necessário ter uma esperança

enorme, descomunal, infinita.

Eis aqui vários testemunhos bastante eloquentes:

"Um empreendedor não é formado em uma escola de administração.

Nunca. Empreender é um ato emocional."

"Creio que ser empreendedor não é uma questão de conhecimentos, mas

sim de caráter, e, nestes casos, como diz o provérbio, 'A quem Deus não

dá, ninguém empresta."

"O verdadeiro empreendedor não precisa de motivos externos. Faz tudo

para si mesmo, tem a ver com seu caráter."

 

[31]

Já falamos da esperança no assalto anterior. É o que diferencia o

verdadeiro do falso empreendedor. E digo mais: quando a esperança

acaba, é comum que muitos negócios venham abaixo.

Mas, além do motivo, cuja irrelevância eu já expus claramente, a

natureza do empreendedor, aquilo que o impele a desfrutar o próprio

ato de empreender e da incerteza que implica é seu verdadeiro motor. A

natureza do empreendedor gera nele uma esperança tão infinita como

inesgotável.

Fora isso, qualquer outra motivação tem como resultado um lojista, um

acionista ou um dono de empresa. Mas não um empreendedor com

todas as letras.

Se não é esse o seu caso, você não precisa jogar a toalha. Resta uma

opção: não ter natureza de empreendedor, mas possuir um salvo-

conduto para isso. E é a isso que me refiro no próximo assalto.

 

[32]