O Livro Negro do Empreendedor
Segundo Assalto Empreendedores e Bombeiros
RESUMO
A ideia não é um motivo. Não a leve em conta para tomar sua decisão.
Além da ideia, qualquer outro motivo para empreender, entendido
como detonador, é irrelevante. O importante é a motivação, quer dizer,
estar suficientemente encantado com o fato de empreender.
Primeiro FCF: empreender com um motivo, mas sem motivação.
SEGUNDO ASSALTO EMPREENDEDORES E BOMBEIROS
Como saber se você tem talento de empreendedor
O falso empreendedor
Existem empreendedores autênticos e empreendedores falsos. Não me
refiro às pessoas que pretendem enganar alguém, mas àquelas que estão
enganando a si mesmas.
Vejamos dois estágios extremamente básicos do falso empreendedor
para depois entrarmos na natureza do verdadeiro empreendedor.
No nível mais básico dos falsos empreendedores estão as pessoas que
chamo de "empreendedores CNPJ". Ou seja, as que vão ao cartório e
fundam uma empresa, acreditando que isso as transforma em
empreendedoras. De fato, um dos sintomas da pessoa que, na realidade,
não tem um pingo de caráter empreendedor é o habitual e pomposo
[24] comentário: "No dia tal irei ao cartório", como se ir até lá desse a alguém
um diploma de empreendedor.
Empreender não é inscrever uma empresa no cartório ou se livrar da
empresa onde se trabalha. Esses são apenas trâmites administrativos ou
legais que permitem trabalhar por conta própria em vez de para os
outros. É claro que um negócio deve operar sob um número de
identificação fiscal e uma determinada forma legal. São passos ne-
cessários para empreender, mas não é empreender.
Essa distinção pode parecer óbvia, mas não é. Você ficaria espantado se
soubesse a quantidade de pessoas para quem ter um CNPJ representa
uma incrível tranquilidade e segurança.
Ir ao cartório nos permite dizer em um jantar com amigos que acabamos
de abrir um negócio ou que temos nossa própria empresa, mas, até
aquele momento, nosso único ato foi gastar dinheiro.
No segundo estágio, temos as pessoas que chamo de "empreendedores
com uma ideia feliz". Para estas, uma determinada ideia de negócio,
conseguir uma franquia, exportar ou importar com exclusividade uma
determinada marca ou produto já representa ser um empreendedor. A
ideia se transforma em seu salva-vidas, naquilo que vai resolver tudo.
Veremos mais sobre isso na terceira parte.
Empreender não é registrar uma sociedade, nem montar uma loja, uma
agência de publicidade ou uma empresa de exportação. Empreender não
é montar um negócio. Empreender não é nem mesmo um modo de
trabalho.
[25]
O que é então?
Empreender é uma forma de enfrentar o mundo, uma maneira de en-
tender a vida com a qual nem todo mundo se sente à vontade. E qual é
essa forma de vida? É aquela em que a pessoa desfruta a incerteza e a
insegurança em relação ao que acontecerá amanhã. O verdadeiro
empreendedor é quem sente um prazer especial com o incerto.
Certa ocasião, enquanto esperava numa sala para entrar em um estúdio
de televisão onde seria entrevistado a respeito de um de meus livros,
estava ao meu lado um membro do Corpo de Bombeiros de Barcelona.
Perguntei a ele por que escolhera ser bombeiro. Sua resposta foi
categórica: "Um bombeiro não deseja outra coisa na vida além de ser
bombeiro. É mais que uma vocação. Ser bombeiro proporciona uma
forma de vida que nenhuma outra profissão oferece: a possibilidade de
se arriscar em um cenário real. Não é uma encenação, nem um parque
de diversões onde os riscos são fictícios. Os riscos que corremos todos os
dias são reais: um incêndio, um escapamento de gás, o desabamento de
um edifício... Você não pode imaginar o que sentimos; é pura adrenalina,
uma forma de vida que se transforma em uma droga a qual não
conseguimos largar."
O bombeiro não disse nada sobre salários nem dias de folga. Contou que
havia sido professor e que, no entanto, desde pequeno tivera (e sentira!) a necessidade de ser bombeiro. Enquanto trabalhava como professor, se preparou para as provas de bombeiro e, ao ser aprovado, abandonou as
aulas para colocar um capacete e apagar incêndios. E ali estava, prestes a entrar em um estúdio de televisão para explicar sua última aventura nas
ruas de Barcelona.
[26]
Assim como a pessoa com vocação para bombeiro acaba sendo
bombeiro, quem tem vocação para empreendedor cedo ou tarde também
chegará lá. Não conseguirá evitar que isso aconteça.
O bombeiro aprecia a incerteza e a experiência do risco. Esta é a primeira
prova de fogo (essa expressão nunca foi tão apropriada!) pela qual um
bombeiro e um empreendedor devem passar. Se você é uma pessoa que
não aprecia a incerteza, então não é um empreendedor. É verdade que
uma pessoa pode se acostumar à incerteza e que esta é frequentemente a
causa de muitas das dores de cabeça dos empreendedores, mas uma
coisa muito diferente é saber que se é vencido pela incerteza e o risco.
Há pessoas que preferem a segurança, a rotina ou, simplesmente, que
outras assumam a responsabilidade pela folha de pagamento. Não são
melhores nem piores. É uma opção perfeitamente válida. Mas essas
pessoas, quando montam um negócio, fracassam. Porque não está ali presente a característica essencial que todo empreendedor deve ter: o
desejo de se movimentar em um ambiente de incertezas.
A Associação de Jovens Empreendedores de Murcia convidou- me certa
vez para fazer uma conferência a seus associados. Uma pessoa com
quem compartilhei a clássica mesa-redonda encerrou o evento
apresentando uma definição de empreendedor que não podia ser mais acertada: "O empreendedor é a pessoa que se move num mundo incerto
para que aqueles que trabalham para ele acreditem estar num mundo
seguro."
O mundo é, por definição, incerto. Ninguém pode garantir nada, nem
mesmo o presente. Mas nem todo mundo gosta de sentir isso na própria
pele todos os dias úteis (e de lazer) de sua vida.
Empreender é a ação de reduzir a incerteza numa das práticas mais
antigas da humanidade: o intercâmbio, o comércio.
[27]
Empreender é uma forma de viver e de encarar o mundo: aceitar a
incerteza como o principal dos ingredientes. Além do mais, de fato, a
verdadeira e única razão para que a ação empreendedora tenha sentido
é a própria incerteza.
Jorge Wagensberg escreveu: "A felicidade requer que o futuro seja
incerto." Empreender requer ainda mais.
Um traço que caracteriza os empreendedores autênticos é o fato de eles
não considerarem a possibilidade de fracasso. Não por estarem cegos ou
iludidos. Certamente não estão e suas taxas de realismo são altas. Mas
sua esperança é mais forte que tudo isso. Juan Mateo me disse, emocio-
nado: "Quando você empreende de verdade, não pensa em fracasso.
Tudo começa com um sonho. Você imagina um cenário que o emociona
o suficiente para dar a vida tentando chegar lá. É como quando se casa.
No princípio, é para toda a vida. Tem um quê de loucura, de inconsciên-
cia. O fracasso não entra nos planos, nem mesmo é considerado."
Não perca tempo. Se já descobriu que nunca vai ser capaz de se
adaptar a um ambiente de incerteza, avalie se deve levar adiante o
negócio que ronda sua cabeça. Não pense em sua ideia, mas sim se pode
lidar com o fato de que essa ideia trará incerteza para o resto de sua
vida.
Empreender pelo prazer de empreender
Lembro de outra conversa que tive com um empreendedor nato, dono
de mais de sete negócios, que emprega centenas de pessoas e fatura mais
de 100 milhões de euros por ano. Perguntei-lhe se sempre pensara em
ser empreendedor. Ele me respondeu assim: "Não, quando criança
queria ser médico. Mas, quando sonhava com isso, não me imaginava
[28] com um jaleco branco curando pessoas, mas sim que fundava e era dono
de sete hospitais com mais de mil médicos empregados..."
Vimos neste depoimento a segunda característica do empreendedor.
Empreender se transforma, ao mesmo tempo, em um meio e em um fim.
É semelhante ao que acontece com a criatividade.
Quando um cientista ou um artista tenta criar algo, seu campo de ação,
sua disciplina ou especialidade é instrumento e fim. Um escritor que
deseja criar um estilo literário faz da literatura uma ferramenta e, ao
mesmo tempo, uma meta. Essa é a chamada motivação intrínseca. Sob
essa motivação, qualquer estimativa de risco é estéril. Simplesmente se
deseja o que se faz e ponto.
É um desejo que nasce no interior da pessoa e que não exige mais
explicações. Neste último caso, não é necessário que alguém se pergunte
se a pessoa em questão vai se sentir à vontade diante da incerteza
porque, como ela mesma disse, a única coisa que deseja é consolidar sete
hospitais. Qual o sentido disso? Nenhum. Tem o mesmo sentido que
pintar Guernica ou escrever Cem anos de solidão. Como disse Paul Auster em seu discurso ao receber o Prêmio Príncipe de Astúrias de Literatura
tentando explicar o significado de escrever: "E por que alguém se empenharia em fazer uma coisa dessas? A única resposta que me
ocorreu certa vez foi a seguinte: porque não há outro remédio, porque não consegue fazer outra coisa. Essa necessidade de fazer, de criar, de
inventar é, sem dúvida, um impulso humano fundamental. Mas com
que objetivo? Qual é o sentido? Nenhum que me ocorra..."
É possível achar que o empreendedor quer ganhar dinheiro, ficar
milionário, deixar sua marca no mundo, ser alguém, gerar empregos ou
riquezas em sua região e um longo et cetera de motivações que
justifiquem a utilidade de sua ação empreendedora. Pode haver um
pouco de tudo isso, mas o verdadeiro empreendedor vai mais além. A
[29] realidade é que ele, como Auster afirma no caso do criador literário, não
consegue fazer outra coisa.
Carlos Barrabés, que criou com seu irmão José Cristobal o site líder de
vendas de equipamentos de alpinismo e para montanhas altas,
comentou o seguinte num dos programas de televisão criados pela
Escola Banespyme: "Um empreendedor reconhece a si mesmo porque
tem um vazio interior. Isto não quer dizer que seja infeliz. É provável
que seja feliz. Mas tem um vazio interior realmente profundo a preen-
cher. E a única solução que existe para preencher esse vazio interior é
criar conceitos. Não há muito mais do que isso. Com isso, já é possível
saber se é ou não um empreendedor."
Recomendo ouvir este depoimento na íntegra em444" left="607" width="258" height="36" font="36">442" left="865" width="9" height="21" font="37">560" left="30" width="839" height="36" font="0">Devemos prestar atenção: o conceito mencionado por Carlos Barrabés .
É diferente lê-lo e ouvi-lo na voz alquebrada e emocionada do
empreendedor.
não é muito diferente ao do vazio interior que leva o artista a criar. Há
muito em comum entre os motivos do empreendedor e os do criador aos
quais se referiu Paul Auster.
De fato, vários dos entrevistados me asseguraram que reconheciam um
autêntico empreendedor porque "o vencedor é reconhecido pelo olhar. Você vê em seus olhos, em como olha pra você quando fala do negócio
que vai montar. E, quando fracassa, volta a tentar".
Outro entrevistado me disse: "Sei reconhecer o verdadeiro em-
preendedor. O verdadeiro empreendedor é aquele que, quando me
explica seu projeto e eu lhe pergunto 'Está certo disso?', me responde
que não há nada que deseje mais do que fazer aquilo."
∗
http://banespyme.org/Banespymes.do;jsessionid=19352BCAC7D54DA1A24B
EB2C5CA3A30F?id=38q)refix=/emprendedorespage=/verCapituloTV.do
[30]
A esperança, ao mesmo tempo motor e combustível
Aquele que sonhava com seus sete hospitais e aquele que amava a
incerteza desejavam nada além neste mundo do que ser empresário e
bombeiro, respectivamente. Um queria viver em risco e o outro poder
criar uma coisa grandiosa.
Os dois depoimentos revelam a essência do que significa ser
empreendedor.
O amor à incerteza e o prazer pela própria atividade empreendedora
proporcionam tanto o motor quanto o combustível que move o
empreendedor: a esperança.
Se as dezenas de depoimentos com que contei para a elaboração deste
livro coincidiram em algo foi neste ponto. O empreendedor tira sua
energia de um combustível chamado ESPERANÇA. Como antecipamos
no assalto anterior, para empreender é necessário ter uma esperança
enorme, descomunal, infinita.
Eis aqui vários testemunhos bastante eloquentes:
"Um empreendedor não é formado em uma escola de administração.
Nunca. Empreender é um ato emocional."
"Creio que ser empreendedor não é uma questão de conhecimentos, mas
sim de caráter, e, nestes casos, como diz o provérbio, 'A quem Deus não
dá, ninguém empresta."
"O verdadeiro empreendedor não precisa de motivos externos. Faz tudo
para si mesmo, tem a ver com seu caráter."
[31]
Já falamos da esperança no assalto anterior. É o que diferencia o
verdadeiro do falso empreendedor. E digo mais: quando a esperança
acaba, é comum que muitos negócios venham abaixo.
Mas, além do motivo, cuja irrelevância eu já expus claramente, a
natureza do empreendedor, aquilo que o impele a desfrutar o próprio
ato de empreender e da incerteza que implica é seu verdadeiro motor. A
natureza do empreendedor gera nele uma esperança tão infinita como
inesgotável.
Fora isso, qualquer outra motivação tem como resultado um lojista, um
acionista ou um dono de empresa. Mas não um empreendedor com
todas as letras.
Se não é esse o seu caso, você não precisa jogar a toalha. Resta uma
opção: não ter natureza de empreendedor, mas possuir um salvo-
conduto para isso. E é a isso que me refiro no próximo assalto.
[32]