O Livro Negro do Empreendedor

Fernando Trías de Bes · Capítulo 18 de 21

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O Livro Negro do Empreendedor

Décimo Quarto Assalto Deus Disse Irmãos, Mas São Primos

 

A diferença entre empresário e empreendedor

Abandonar a tempo

Finalizo este livro com algo que é fundamental nos negócios e também

em muitos outros âmbitos da vida, como o jogo. A virtude de se retirar a

tempo.

Não me refiro a se retirar no sentido de se aposentar, mas no sentido de que há momentos — por exemplo, quando a empresa vai muito bem —

nos quais o empreendedor precisa refletir se é ele a pessoa que deve

continuar à frente do negócio.

E por quê? Ora, porque é necessário distinguir entre empreendedor e

empresário. Eles não são a mesma coisa. O empreendedor é uma pessoa

que aprecia empreender, ou seja, criar. O empresário é alguém que tem

paixão por gerar crescimento e, sobretudo, gerir.

Gerir é importante para empreender, mas no caso de crescer é condição

sine qua non. Ou você sabe gerir bem ou não saberá crescer e cometerá

erros que poderão desembocar no fracasso. Nem todo empreendedor é

um bom gestor de crescimento. Ou porque não sabe fazer ou porque não

gosta.

Tive a oportunidade de experimentar esta sensação na própria pele.

Gosto muito de criar negócios, mas quando estes adquirem certo

tamanho me aborrece geri-los. E me aborrece tanto que posso até chegar

a administrar mal, apesar de saber como fazer bem. Quando estava há

sete anos à frente de meu negócio, decidi, com meus sócios, que

devíamos sair da gestão em três anos. Preparamos adequadamente o

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terreno e hoje somos apenas acionistas e participamos do conselho da

empresa que fundamos e que, com tanto esforço e esperança,

levantamos.

Atualmente, me dedico a empreender outros negócios e a escrever, que é

uma das minhas paixões. Empreender me diverte e gerir me aborrece, e

já vimos que quando você se dedica àquilo que gosta é quando há mais

possibilidades de que as coisas corram bem.

Mas a razão pela qual um empreendedor nem sempre é um bom

empresário não se limita unicamente a saber ou gostar de gerir. Há

muitas empresas cheias de aspectos negativos provocados pelo fato de o

empreendedor que levantou aquele negócio continuar lá dentro. O

empreendedor arrasta a memória histórica, e esta, que durante muito tempo foi uma vantagem, a partir de certo momento, quando não se é

um bom empresário, se transforma em um peso.

Não estou dizendo que todo empreendedor, depois de um tempo, deva deixar a empresa que criou. Há uma infinidade de casos de pessoas que

criaram e levantaram impérios e sempre estiveram à frente deles. Para

que se firmassem e para que crescessem. São pessoas especiais. O que

quero dizer é que quando um negócio se expande muito você deve

avaliar se continua sendo a pessoa mais adequada para continuar à sua

frente, seja pela necessidade de novas competências fundamentais a essa

nova etapa, seja porque não gosta de gerir o crescimento, ou porque sua

visão geral não vale mais para o momento atual.

 

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Essa é uma reflexão que um empreendedor tem de fazer. E se chegar à

conclusão de que a partir de certo momento é melhor deixar a gestão ou

a direção do negócio que fundou nas mãos de um CEO independente,

não deve hesitar.

E quando é "a tempo"?

Não há tempo determinado. Não é no primeiro trimestre de tal ano, nem

a partir do momento em que as vendas triplicam ou quando a empresa se internacionalizar. Cada empreendedor é suficientemente inteligente

para perceber o momento certo.

Quando resolvi colocar a gestão da empresa que criei nas mãos de

outros diretores, minha esposa me perguntou se eu não lamentava.

Abandonava a direção daquele que fora meu projeto de vida durante

dez anos, o projeto no qual havia deixado, literalmente, minha pele; ela

também sofrera com as minhas intermináveis inquietações e as decisões

com as quais a chateei durante tantas vezes.

Esse é o problema. O empreendedor costuma desenvolver uma ligação

muito íntima com seu negócio. É uma espécie de dependência mal-

entendida. Sua vida é sua empresa, e, se outro a administra, fica sem

vida.

A dependência emocional de um empreendedor com o negócio que

criou é muito forte e torna difícil achar um momento de abandonar tudo

quando as coisas vão bem.

Este é o último FCF: querer continuar dirigindo e mandando quando

você já não é mais a pessoa indicada para conduzir a empresa.

 

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RESUMO

 

É necessário distinguir entre empreendedores e empresários. O primeiro

gosta de criar. O segundo sabe gerir e implementar crescimento e tem

prazer nisso. Se este é seu caso, se você é empreendedor mas não é empresário, prepare o terreno quando perceber que o momento de

deixar o comando de sua empresa está chegando.

Não permita que as ligações emocionais que o unem ao negócio o

impeçam de dar esse passo, quando todas as evidências demonstram

que é o melhor que pode fazer.

Décimo quarto FCF: ser empreendedor e não empresário, e não se

afastar a tempo.

 

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