O Livro Negro do Empreendedor
Décimo Quarto Assalto Deus Disse Irmãos, Mas São Primos
A diferença entre empresário e empreendedor
Abandonar a tempo
Finalizo este livro com algo que é fundamental nos negócios e também
em muitos outros âmbitos da vida, como o jogo. A virtude de se retirar a
tempo.
Não me refiro a se retirar no sentido de se aposentar, mas no sentido de que há momentos — por exemplo, quando a empresa vai muito bem —
nos quais o empreendedor precisa refletir se é ele a pessoa que deve
continuar à frente do negócio.
E por quê? Ora, porque é necessário distinguir entre empreendedor e
empresário. Eles não são a mesma coisa. O empreendedor é uma pessoa
que aprecia empreender, ou seja, criar. O empresário é alguém que tem
paixão por gerar crescimento e, sobretudo, gerir.
Gerir é importante para empreender, mas no caso de crescer é condição
sine qua non. Ou você sabe gerir bem ou não saberá crescer e cometerá
erros que poderão desembocar no fracasso. Nem todo empreendedor é
um bom gestor de crescimento. Ou porque não sabe fazer ou porque não
gosta.
Tive a oportunidade de experimentar esta sensação na própria pele.
Gosto muito de criar negócios, mas quando estes adquirem certo
tamanho me aborrece geri-los. E me aborrece tanto que posso até chegar
a administrar mal, apesar de saber como fazer bem. Quando estava há
sete anos à frente de meu negócio, decidi, com meus sócios, que
devíamos sair da gestão em três anos. Preparamos adequadamente o
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terreno e hoje somos apenas acionistas e participamos do conselho da
empresa que fundamos e que, com tanto esforço e esperança,
levantamos.
Atualmente, me dedico a empreender outros negócios e a escrever, que é
uma das minhas paixões. Empreender me diverte e gerir me aborrece, e
já vimos que quando você se dedica àquilo que gosta é quando há mais
possibilidades de que as coisas corram bem.
Mas a razão pela qual um empreendedor nem sempre é um bom
empresário não se limita unicamente a saber ou gostar de gerir. Há
muitas empresas cheias de aspectos negativos provocados pelo fato de o
empreendedor que levantou aquele negócio continuar lá dentro. O
empreendedor arrasta a memória histórica, e esta, que durante muito tempo foi uma vantagem, a partir de certo momento, quando não se é
um bom empresário, se transforma em um peso.
Não estou dizendo que todo empreendedor, depois de um tempo, deva deixar a empresa que criou. Há uma infinidade de casos de pessoas que
criaram e levantaram impérios e sempre estiveram à frente deles. Para
que se firmassem e para que crescessem. São pessoas especiais. O que
quero dizer é que quando um negócio se expande muito você deve
avaliar se continua sendo a pessoa mais adequada para continuar à sua
frente, seja pela necessidade de novas competências fundamentais a essa
nova etapa, seja porque não gosta de gerir o crescimento, ou porque sua
visão geral não vale mais para o momento atual.
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Essa é uma reflexão que um empreendedor tem de fazer. E se chegar à
conclusão de que a partir de certo momento é melhor deixar a gestão ou
a direção do negócio que fundou nas mãos de um CEO independente,
não deve hesitar.
E quando é "a tempo"?
Não há tempo determinado. Não é no primeiro trimestre de tal ano, nem
a partir do momento em que as vendas triplicam ou quando a empresa se internacionalizar. Cada empreendedor é suficientemente inteligente
para perceber o momento certo.
Quando resolvi colocar a gestão da empresa que criei nas mãos de
outros diretores, minha esposa me perguntou se eu não lamentava.
Abandonava a direção daquele que fora meu projeto de vida durante
dez anos, o projeto no qual havia deixado, literalmente, minha pele; ela
também sofrera com as minhas intermináveis inquietações e as decisões
com as quais a chateei durante tantas vezes.
Esse é o problema. O empreendedor costuma desenvolver uma ligação
muito íntima com seu negócio. É uma espécie de dependência mal-
entendida. Sua vida é sua empresa, e, se outro a administra, fica sem
vida.
A dependência emocional de um empreendedor com o negócio que
criou é muito forte e torna difícil achar um momento de abandonar tudo
quando as coisas vão bem.
Este é o último FCF: querer continuar dirigindo e mandando quando
você já não é mais a pessoa indicada para conduzir a empresa.
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RESUMO
É necessário distinguir entre empreendedores e empresários. O primeiro
gosta de criar. O segundo sabe gerir e implementar crescimento e tem
prazer nisso. Se este é seu caso, se você é empreendedor mas não é empresário, prepare o terreno quando perceber que o momento de
deixar o comando de sua empresa está chegando.
Não permita que as ligações emocionais que o unem ao negócio o
impeçam de dar esse passo, quando todas as evidências demonstram
que é o melhor que pode fazer.
Décimo quarto FCF: ser empreendedor e não empresário, e não se
afastar a tempo.
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