O Livro Negro do Empreendedor
QUINTA PARTE - Empreender é fácil, o difícil é crescer
QUINTA PARTE - Empreender é fácil, o difícil é
crescer
D É C I M O T E R C E I R O A S S A L T O AS VENDAS NOS ESCRAVIZAM E OS LUCROS NOS REALIZAM
Um negócio que não dá lucro desde o princípio não costuma ser
lucrativo mais tarde
Chegamos à última parte deste livro. Nela, gostaria de falar dos FCF que
acontecem quando parece que o negócio começou bem. Estamos
trabalhando há um ou dois anos e muitas coisas vão se solidificando. As
estatísticas de mortalidade de novas empresas indicam que montar um novo negócio é relativamente simples. Quase todo mundo aguenta um
ano, mais ou menos. Os problemas costumam surgir a partir do
segundo. Os aspectos que abordamos anteriormente — as divergências
com os sócios, a necessidade de alterar a ideia inicial ou a decadência da
economia familiar — podem acontecer tanto no início como mais
adiante. Mas os problemas que serão abordados nesta última parte se
dão única e exclusivamente a partir do segundo ano de funcionamento.
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Planos, objetivos e outros blá-blá-blás
Já escrevi nas preliminares que não há nada mais absurdo do que fazer
planos. Os planos não servem para nada. Ou para quase nada, como
explicarei a seguir. O motivo dessa afirmação polêmica é que a realidade
nunca é a que planejamos. Jamais. Peter Drucker, um dos maiores
teóricos da gestão empresarial, disse que "um plano não é para ser
cumprido, mas sim para que se possa agir quando não se cumpre".
Do meu ponto de vista, os planos têm uma utilidade principal: servem
para calcular o que chamo de "pontos críticos de inflexão na dimensão
do negócio". Este nome tão grandioso é algo muito simples. É muito
comum que uma empresa, que hoje funciona como um relógio e cuja
engrenagem está bem delineada, entre em crise ao crescer. A maquinaria
que era útil quando se faturava 100 não é eficiente a partir de 200. E
quando você encontra um desenho organizacional ou modelo válido para faturar 200 descobrirá que a partir de 300 esse desenho torna-se,
mais uma vez, ineficiente. Os processos precisarão ser diferentes, como
também o perfil de certas pessoas que ocupam alguns cargos, as
necessidades de financiamento, os fluxos de caixa, de recebimentos e
pagamentos, inclusive as próprias funções do fundador ou
empreendedor.
Na minha opinião, fazer planos serve, sobretudo, para identificar quais são os volumes de venda a partir dos quais será necessário tomar certas
decisões. Um plano de negócio lhe dá uma orientação de quanto pode
gastar e de quanto pode investir. São cifras que o empreendedor tem
muito claras em sua cabeça em situações estáticas. Mas, na prática, em
plena mudança ou crescimento, é bem mais complicado ter consciência
das decisões críticas que devem ser tomadas e das mudanças que
precisam ser implementadas para sobreviver ao êxito iniciante.
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Criar uma empresa não é tão complicado. O que é de fato difícil é
administrar seu crescimento. Este é um FCF claríssimo. Há empreen-
dedores geniais na hora de identificar boas ideias de negócio e torná-las
realidade, mas que são um desastre para gerir o crescimento de suas
empresas. Voltaremos a este assunto no último assalto.
Lucros no terceiro ano? Por quê?
Quando são feitos planos e traçados objetivos, há uma tendência de se
adiar a obtenção de lucros. Quando me apresentam planos de negócios,
frequentemente vejo folhas de cálculos onde, no primeiro ano, a última
linha do balanço apresenta uma cifra negativa bastante elevada. No
segundo ano, continua negativa, mas é menor. E no terceiro ano já se
vislumbram lucros. É quase sempre a mesma coisa. Parece que, se não
há perda de dinheiro nos dois primeiros anos os números estão
incorretos.
Todos os empreendedores que planejam o futuro dessa forma deveriam
fazer uma pergunta, a si mesmo. Imagine que seu negócio dê lucro
desde o primeiro ano. O que é possível mudar em seu plano?
A resposta mais comum é que isso é impossível.
Não concordo. Ora, é claro que há negócios que requerem um in-
vestimento inicial tão pesado que nem mesmo as vendas do primeiro
ano podem colocar o balanço no azul. Por exemplo, uma usina nuclear
não dá lucro no primeiro ano. Mas o bom empreendedor é também um
bom gestor, uma pessoa que controla muito bem os gastos necessários e
sabe distingui-los dos desnecessários. Quando as coisas estiverem an-
dando melhor, poderemos nos permitir certas licenças, mas nos pri-
meiros momentos é necessário conseguir, inclusive se precisarmos
equipar uma loja, que os lucros sejam produzidos logo. Não se trata de
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ser avarento, trata-se, repito, de saber diferenciar os investimentos ou gastos inevitáveis e que têm maior impacto sobre as vendas daqueles
que são prescindíveis ou adiáveis e que, além do mais, quase não in-
fluenciam o valor que o cliente percebe em nosso produto ou serviço.
Além do mais, acredito que quando um modelo de negócio não dá
lucros rapidamente é difícil que venha a dar mais tarde. Há alguma
falha. Diante das primeiras perdas, o empreendedor se aferra à sua folha
de cálculo e respira tranquilo porque planejou dois anos de perdas. O
que acontecerá se ainda não obtiver lucros no terceiro ano? Nessa coisa
de empreender é preciso descobrir o quanto antes se o modelo de
negócio que desenhamos torna viável a ideia de negócio.
As vendas escravizam e os lucros realizam
O importante não é faturar muito e sim ganhar dinheiro e, de novo, o
quanto antes possível. Conheço o caso de dois irmãos empresários que
faturavam 20 milhões de euros com seu negócio têxtil, mas lucravam
apenas meio milhão no final do ano.
A empresa era grande, tinha um número expressivo de trabalhadores e o
esforço despendido em horas de gestão era descomunal. O faturamento
de um negócio é diretamente proporcional ao número de problemas e
dores de cabeça que causa.
Acreditaram, durante muito tempo, que era impossível diminuir o
faturamento total. Os bancos se assustariam e retirariam suas linhas de
crédito. Eles achavam que seria difícil demonstrar que evoluíam
enquanto as vendas diminuíam; isso seria considerado um fracasso e
representaria uma ameaça. Tinham uma qualidade de vida desastrosa.
Mal dormiam e se viam obrigados a resolver diariamente uma
quantidade infinita de problemas.
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Um dia lhes ocorreu analisar seus clientes. Um a um. E perceberam que
havia muitos clientes — justamente aqueles que davam mais dores de
cabeça e mais pediam descontos — que mal propiciavam lucros, às
vezes, inclusive, por morosidade e atraso nos pagamentos.
Por outro lado, havia toda uma série de clientes que, pelo motivo que
fosse, pagava mais, melhor e criava menos problemas. Ao fazer uma
análise das vendas e da atribuição de custos, cliente a cliente, chegaram à
conclusão de que estavam perdendo dinheiro com muitos clientes. Isso
significava que os bons clientes financiavam os preços competitivos e as
exigências excessivas.
Depois de pensar muito, e expondo previamente seus planos ao banco
que lhes fornecia o capital de giro de que precisavam para funcionar, decidiram abandonar os piores clientes e reduzir o faturamento de 20
para 15 milhões de euros.
Os problemas do dia a dia diminuíram, os proprietários puderam se
concentrar mais e inovar para o futuro. Com isso, os lucros subiram de
500 mil para 1,5 milhão de euros. Puderam evitar muitos fins de semana
de trabalho e passaram a jantar em casa em horários um pouco mais
decentes.
No ano seguinte, resolveram abdicar de mais 5 milhões de faturamento e
trabalhar em um nível que representava a metade de dois anos antes. A qualidade da empresa aumentou como também sua qualidade de vida;
e, o mais importante: os lucros subiram. Na última conversa que tive
com eles, me garantiram que queriam faturar 8 milhões de euros, mas
não sabiam como fazê-lo, pois isso afetaria clientes muito antigos que
não queriam deixar na mão. Porém, eles me disseram que quando
pudessem o fariam. E acrescentaram: "Manter vendas tão altas nos
escraviza. A felicidade não está no faturamento, mas no lucro."
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As escolas de administração gravam na mente das pessoas essa ideia de
que é "crescer ou morrer". Isso é uma bobagem. O crescimento nem
sempre é obrigatório. O bom empreendedor sabe encontrar o tamanho
que melhor se adapta, às suas capacidades e às do modelo de negócio
que criou. Crescer é bom, mas nem sempre é necessário e, dependendo
do quanto, pode ser a ruína.
José Maria Ruiz me disse: "A dificuldade está em manter ao longo do
tempo a motivação que gerou o projeto e não trair algo tão vulnerável
como o conceito de “êxito” que se considerou no início."
Modelo de negócio
Isso nos leva a uma questão essencial à tarefa do empreendedor, que é o
desenho do modelo de negócio de que falávamos antes. O empre-
endedor, além de ser uma pessoa com um olhar singular sobre uma
ideia corrente, é também alguém que sabe desenhar o modelo de ne-
gócio adequado a essa ideia.
O modelo tem a ver com a forma, mas não apenas isso. Quando falo de
modelo de negócio me refiro à combinação entre a ideia e o modo de
[125] conceber o universo da empresa. Digamos que é como a forma da ideia
se relaciona com os elementos que definem um negócio: fornecedores,
clientes, instalações, relações de trabalho, administração financeira,
entorno...
Como dissemos no oitavo assalto, toda ideia tem um ou vários modelos
de negócio que a tornam sustentável, mas também vários modelos de
negócio que a tornam inviável. Portanto, a forma tem a ver com a
estimativa de seu valor e com a capacidade de emoldurá-la em um
modelo de negócio compatível. Em outras palavras: há muitas ideias que
mesmo sem serem modificadas, mas com um modelo de negócio
diferente, não teriam fracassado.
Portanto, o melhor modelo de negócio não é aquele que proporciona
mais crescimento, e sim aquele que gera lucros mais fácil e rapidamente
dentro de uma sustentabilidade.
O bom empreendedor dedica tanto tempo a pensar na ideia e em sua
forma quanto no modelo de negócio que deve acolhê-la. E faz isso sem
perder de vista que o melhor desenho é sempre o mais rentável e
sustentável.
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RESUMO
Fazer planos serve, principalmente, para detectar os momentos em que
será necessário modificar o modelo de negócio com o qual se deu a
partida. O modelo de negócio é o marco empresarial que acolhe a ideia.
A cada ideia correspondem modelos inviáveis e modelos que a tornam
sustentável.
O modelo de negócio mais adequado à forma de sua ideia é aquele que
propicia lucros mais rapidamente e é sustentável a médio e longo prazo.
A sustentabilidade é mais importante do que o crescimento.
Décimo terceiro FCF: criar modelos de negócio que não dão lucro
rapidamente e de modo sustentável.
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