O Mal-estar da Pós-Modernidade

Zygmunt Bauman · Capítulo 1 de 18

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O Mal-estar da Pós-Modernidade

Introdução: O mal-estar – moderno e pós-moderno

INTRODUÇÃO

 

O mal-estar — moderno e pós-moderno

 

Em 1930, foi publicado em Viena um livro chamado, inicialmente, Das

Unglück in der Kultur (A infelicidade na cultura) e depois rebatizado como

Das Unbehagen in der Kultur (O mal-estar na cultura). O autor era

Sigmund Freud. Quase simultaneamente foi publicada a tradução inglesa —

para a qual Freud sugeriu o título Man’s Discomfort in Civilization (O mal-

estar do homem na civilização). Como nos informa o editor inglês de Freud,

James Strachey, a tradutora inglesa do livro, Joan Riviere, por algum tempo

trabalhou, em vez disso, com o conceito de malaise, mas finalmente

escolheu o título Civilization and its Discontents (que ficou consagrado em

português como O mal-estar na civilização). É sob esse título que o

provocador desafio de Freud ao folclore da modernidade penetrou em nossa

consciência coletiva e, afinal, modelou o nosso pensamento a propósito das

conseqüências — intencionais e não-intencionais — da aventura moderna.

(Sabemos, agora, que era a história da modernidade que o livro contava,

ainda que seu autor preferisse falar de Kultur ou civilização. Só a sociedade

moderna pensou em si mesma como uma atividade da “cultura” ou da

“civilização” e agiu sobre esse autoconhecimento com os resultados que

Freud passou a estudar; a expressão “civilização moderna” é, por essa

razão, um pleonasmo.)

Você ganha alguma coisa mas, habitualmente, perde em troca alguma

coisa: partiu daí a mensagem de Freud. Assim como “cultura” ou

“civilização”, modernidade é mais ou menos beleza (“essa coisa inútil que

esperamos ser valorizada pela civilização”), limpeza (“a sujeira de qualquer

espécie parece-nos incompatível com a civilização”) e ordem (“Ordem é

uma espécie de compulsão à repetição que, quando um regulamento foi definitivamente estabelecido, decide quando, onde e como uma coisa deve

ser feita, de modo que em toda circunstância semelhante não haja hesitação

ou indecisão”). A beleza (isto é, tudo o que dá o sublime prazer da

harmonia e perfeição da forma), a pureza e a ordem são ganhos que não

devem ser desprezados e que, certamente, se abandonados, irão provocar

indignação, resistência e lamentação. Mas tampouco devem ser obtidos sem

o pagamento de um alto preço. Nada predispõe “naturalmente” os seres

humanos a procurar ou preservar a beleza, conservar-se limpo e observar a

rotina chamada ordem. (Se eles parecem, aqui e ali, apresentar tal

“instinto”, deve ser uma inclinação criada e adquirida, ensinada, o sinal

mais certo de uma civilização em atividade.) Os seres humanos precisam

ser obrigados a respeitar e apreciar a harmonia, a limpeza e a ordem. Sua

liberdade de agir sobre seus próprios impulsos deve ser preparada. A

coerção é dolorosa: a defesa contra o sofrimento gera seus próprios

sofrimentos.

“A civilização se constrói sobre uma renúncia ao instinto.”

Especialmente — assim Freud nos diz — a civilização (leia-se: a

modernidade) “impõe grandes sacrifícios” à sexualidade e agressividade do

homem. “O anseio de liberdade, portanto, é dirigido contra formas e

exigências particulares da civilização ou contra a civilização como um

todo.” E não pode ser de outra maneira. Os prazeres da vida civilizada, e

Freud insiste nisso, vêm num pacote fechado com os sofrimentos, a

satisfação com o mal-estar, a submissão com a rebelião. A civilização — a

ordem imposta a uma humanidade naturalmente desordenada — é um

compromisso, uma troca continuamente reclamada e para sempre instigada

a se renegociar. O princípio de prazer está aí reduzido à medida do princípio

de realidade e as normas compreendem essa realidade que é a medida do

realista. “O homem civilizado trocou um quinhão das suas possibilidades de

felicidade por um quinhão de segurança.” Por mais justificadas e realistas

que possam ser as nossas tentativas de superar defeitos específicos das

soluções de hoje, “talvez possamos também familiarizar-nos com a idéia de

que há dificuldades inerentes à natureza da civilização que não se

submeterão a qualquer tentativa de reforma”.

Dessa ordem que era o orgulho da modernidade e a pedra angular de

todas as suas outras realizações (quer se apresentando sob a mesma rubrica

de ordem, quer se escondendo sob os codinomes de beleza e limpeza),

Freud falou em termos de “compulsão”, “regulação”, “supressão” ou “renúncia forçada”. Esses mal-estares que eram a marca registrada da

modernidade resultaram do “excesso de ordem” e sua inseparável

companheira — a escassez de liberdade. A segurança ante a tripla ameaça

escondida no frágil corpo, o indômito mundo e os agressivos vizinhos

chamados para o sacrifício da liberdade: primeiramente, e antes de tudo, a

liberdade do indivíduo para a procura do prazer. Dentro da estrutura de uma

civilização concentrada na segurança, mais liberdade significa menos mal-

estar. Dentro da estrutura de uma civilização que escolheu limitar a

liberdade em nome da segurança, mais ordem significa mais mal-estar.

Nossa hora, contudo, é a da desregulamentação. O princípio de

realidade, hoje, tem de se defender no tribunal de justiça onde o princípio

de prazer é o juiz que a está presidindo. “A idéia de que há dificuldades

inerentes à natureza da civilização que não se submeterão a qualquer

tentativa de reforma” parece ter perdido sua prístina obviedade. A

compulsão e a renúncia forçada, em vez de exasperante necessidade,

converteram-se numa injustificada investida desfechada contra a liberdade

individual.

Passados sessenta e cinco anos que O mal-estar na civilização foi escrito

e publicado, a liberdade individual reina soberana: é o valor pelo qual todos

os outros valores vieram a ser avaliados e a referência pela qual a sabedoria

acerca de todas as normas e resoluções supraindividuais devem ser

medidas. Isso não significa, porém, que os ideais de beleza, pureza e ordem

que conduziram os homens e mulheres em sua viagem de descoberta

moderna tenham sido abandonados, ou tenham perdido um tanto do brilho

original. Agora, todavia, eles devem ser perseguidos — e realizados —

através da espontaneidade, do desejo e do esforço individuais. Em sua

versão presente e pós-moderna, a modernidade parece ter encontrado a

pedra filosofal que Freud repudiou como uma fantasia ingênua e perniciosa:

ela pretende fundir os metais preciosos da ordem limpa e da limpeza ordeira

diretamente a partir do ouro do humano, do demasiadamente humano

reclamo de prazer, de sempre mais prazer e sempre mais aprazível prazer —

um reclamo outrora desacreditado como base e condenado como

autodestrutivo. Como se incólume — talvez mesmo fortalecida por dois

séculos de concentrados esforços para conservá-la na luva de ferro das

normas e regulamentos ditados pela razão —, a “mão invisível” recobrou a

verdade e está uma vez mais prestigiada. A liberdade individual, outrora

uma responsabilidade e um (talvez o) problema para todos os edificadores da ordem, tornou-se o maior dos predicados e recursos na perpétua

autocriação do universo humano.

Você ganha alguma coisa e, em troca, perde alguma outra coisa: a antiga

norma mantém-se hoje tão verdadeira quanto o era então. Só que os ganhos

e as perdas mudaram de lugar: os homens e as mulheres pós-modernos

trocaram um quinhão de suas possibilidades de segurança por um quinhão

de felicidade. Os mal-estares da modernidade provinham de uma espécie de

segurança que tolerava uma liberdade pequena demais na busca da

felicidade individual. Os mal-estares da pós-modernidade provêm de uma

espécie de liberdade de procura do prazer que tolera uma segurança

individual pequena demais.

Qualquer valor só é um valor (como Georg Simmel, há muito, observou)

graças à perda de outros valores, que se tem de sofrer a fim de obtê-lo.

Entretanto, você precisa mais do que mais falta. Os esplendores da

liberdade estão em seu ponto mais brilhante quando a liberdade é

sacrificada no altar da segurança. Quando é a vez de a segurança ser

sacrificada no templo da liberdade individual, ela furta muito do brilho da

antiga vítima. Se obscuros e monótonos dias assombraram os que

procuravam a segurança, noites insones são a desgraça dos livres. Em

ambos os casos, a felicidade soçobra. Ouçamos Freud, novamente:

“Estamos supondo, assim, que só podemos extrair intenso deleite de um

contraste, e muito pouco de um estado de coisas.” Por quê? Porque “o que

chamamos felicidade (…) vem da (preferivelmente repentina) satisfação de

necessidades represadas até um alto grau e, por sua natureza, só é possível

como fenômeno episódico”. Sem dúvida: liberdade sem segurança não

assegura mais firmemente uma provisão de felicidade do que segurança

sem liberdade. Uma disposição diferente das questões humanas não é

necessariamente um passo adiante no caminho da maior felicidade: só

parece ser tal no momento em que se está fazendo. A reavaliação de todos

os valores é um momento feliz, estimulante, mas os valores reavaliados não

garantem necessariamente um estado de satisfação.

Não há nenhum ganho sem perda, e a esperança de uma purificação

admirável dos ganhos a partir das perdas é tão fútil quanto o sonho

proverbial de um almoço de graça — mas os ganhos e perdas próprios a

qualquer disposição da coabitação humana precisam ser cuidadosamente

levados em conta, de modo que o ótimo equilíbrio entre os dois possa ser

procurado, mesmo se (ou, antes, porque) a sobriedade e sabedoria duramente conquistadas nos impedem, aos homens e mulheres pós-

modernos, de nos entregar a uma fantasia sobre um balanço financeiro que

tenha apenas a coluna de créditos.

Pretende-se que este livro seja uma coleção de contribuições pequenas, e

parciais, a essa tarefa.

 

Este livro tem uma significação especial para mim, já que, neste último

quartel do século, foi a primeira vez que escrevi alguns capítulos

originalmente em polonês, minha língua de origem, assim como os

apresentei e discuti com professores e estudantes poloneses. Meus laços

com minha Alma Mater, a Universidade de Varsóvia, foram restaurados.

Assim como o intercâmbio esclarecedor e entusiasmante com os amigos e

colegas, sociólogos e filósofos poloneses, todos perspicazes e argutos em

seus comentários, numerosos demais para serem mencionados

nominalmente, aos quais sou grato por elucidarem e aperfeiçoarem muitas

das idéias contidas neste livro.

Agradeço especialmente a Anthony Giddens: sem seu contínuo interesse

pelo meu trabalho, sua gentil mas implacável, amistosa mas determinada

pressão, este livro nunca teria sido composto.

E, como no caso de cada um dos meus trabalhos dos últimos dez anos,

quero agradecer a meu editor, David Roberts. Não acredito que nenhum

autor pretenda melhor entendimento com seu editor: ambos lutamos pelo

mesmo resultado — que, nas palavras do próprio Roberts, é produzir um

texto “capaz de fazer os leitores se debruçarem sobre coisas que tenderiam

a não considerar”, sendo o papel do editor “eliminar embaraços

desnecessários à compreensão dos leitores, sem privar o autor de sua voz

individual”. E ninguém que eu conheça converte mais competentemente

essas palavras em realidade do que David Roberts.

 

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