O Mal-estar da Pós-Modernidade

Zygmunt Bauman · Capítulo 17 de 18

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O Mal-estar da Pós-Modernidade

Notas

 

I. O sonho da pureza

 

1. Cynthia Ozick. Art and Ardour (Nova York, Dutton, 1984, p.165).

2. [verem os nazistas também como cidadãos, os quais, assim como os outros cidadãos, procuravam sua resposta para a questão social.] Klaus Dörner. Tödliches Mitleid: zur Frage der Unerträglichkeit des Lebens (Gütesloh, Verlag Jakob van Hoddis, 1993, p.13).

3. Michel Foucault. Histoire de la folie (Paris, Plon, 1961). Aqui citado conforme a tradução inglesa de Richard Howard, Madness and Civilization: A History of Insanity in the Age of Reason (Londres, Tavistock, 1967, p.13, 11).

4. Mary Douglas, Purity and Danger (Harmondsworth, Penguin, 1970, p.12, 53).

5. Ver particularmente Alfred Schütz, “Common-sense and scientific interpretation of human action”, in Collected Papers (Haia, Martinus Nijhoff, 1967, v.1).

6. Alfred Schütz. “The social world and the theory of social action”, in Studies in Social Theory (Haia, Martinus Nijhoff, 1967, v.2, p.13).

7. Ver Alfred Schütz, “The stranger: an essay in social psychology”, in Studies in Social Theory, v.2, p.95 seg.

8. Ver Zygmunt Bauman, Life in Fragments (Oxford, Blackwell, 1995).

9. Georges Balandier. Le Dédale: pour en finir avec XXe siècle (Paris, Fayard, 1994, p.20).

10. Em francês no original: “O Outro se revela múltiplo, localizável em toda parte, mudando conforme as circunstâncias.” (N.T.)

11. Nils Christie. Crime Control as Industry: Toward Gulags, Western Style? (Londres, Routledge, 1993, p.166-7, 171, 172).

 

II. A criação e anulação dos estranhos

 

1. Ver o capítulo “A catalogue of postmodern fears”, no meu Life in Fragments (Oxford, Blackwell, 1995).

2. Ver Street Wars: Space, Politics and the City, org. G. Crysler e C. Hamilton (Manchester University Press, 1955).

3. David Bennett, “Hollywood’s indeterminacy machine”, in Arena, 3/1994, p.30.

4. Harmondsworth, Penguin, 1970, p.53.

5. Ver Jean-Paul Sartre, Being and Nothingness: An Essay on Phenomenological Ontology, trad. Hazel E. Barnes (Londres, Methuen, 1969, p.608-10).

6. Alain de Benoist. Dix ans de combat culturel pour une Rénaissance (Paris, GRECE, 1977, p.19).

7. Julius Evola. Éléments pour éducation raciale (Paris, Puiseaux, 1985, p.29).

8. Richard Stevers. The Culture of Cynicism: American Morality in Decline (Oxford, Blackwell, 1994, p.119).

9. Ver capítulos 10 e 11 do meu Legislators and Interpreters (Cambridge, Polity, 1987).

 

V. Arrivistas e párias

 

1. Albert Camus. Carnets, janvier 1942 - mars 1951 (Paris, Gallimard, 1964, p.111).

2. Edmond Jabès. Un étranger avec, sous le bras, un livre du petit format (Paris, Gallimard, 1989, p.34).

3. Robert Musil. The Man without Qualities, trad. Eithne Wilkins e Ernst Kaiser (Nova York, Capricorn Books, 1965, v.2, p.174).

4. Wylie Sypher. Rococo to Cubism in Art and Literature (Nova York, Vintage Books, 1960, p.104).

5. Hannah Arendt. Rahel Varnhagen: La Vie d’une Juive allemande à l’époque du Romantisme, trad. Henri Plard (Paris, Tierce, 1986, p.247).

6. Arendt. Rahel Varnhagen, p.31.

7. Agnes Heller e Ferenc Feher. The Grandeur and Twilight of Radical Universalism (New Brunswick, Transactions, 1991, p.303).

8. Pierre V. Zima. “L’Ambivalence dialectique: entre Benjamin e Bakhtine”, in Revue d’Esthétique, 1/1981, p.137.

9. Theodore W. Adorno. “Introduction to Benjamin’s Schriften (1955)”, in On Walter Benjamin, Critical Essays and Recollections, org. Gary Smith (MIT Press, 1988, p.14).

10. Gerschon Sholen. Walter Benjamin: The Story of Friendship (Nova York, Faber & Faber, 1982, p.229, 234).

11. Richard Rorty. Objectivity, Relativity and Truth: Philosophical Papers (Cambridge University Press, 1991, v.1, p.14, 13.

 

VIII. O significado da arte e a arte do significado

 

1. Tradução inglesa de John Rahn, sob o título “Contemporary music and the public”, que apareceu em Perspectives of New Music, v.24 (1985); reimpresso em Politics, Philosophy, Culture: Interviews and Other Writings, 1977-84, ed. Lawrence D. Kritzman (Londres, Routledge, 1988, p.314-22).

2. François Lyotard. Le Postmoderne expliqué aux enfants: Correspondance 1982-85 (Paris, Galilée, 1988, p.30-1).

3. Jean Baudrillard. “The work of art in the electronic age”, entrevista para La Sept, e “Fractal Theory”, entrevista com Nicholas Zubrugg. Citado dos textos reimpressos em Baudrillard Live: Selected Interviews, ed. Mike Gane (Londres, Routledge, 1993, p.147, 165). Da simulação, Baudrillard escreve o seguinte: “A simulação já não é a de um território, um ser de referência ou uma substância. É a geração, por parte de modelos, de um real sem origem na realidade: um hiper-real. O território já não precede o mapa, nem lhe sobrevive. Doravante, é o mapa que precede o território — procissão de simulacros —, é o mapa que engendra o território”. Ver Jean Baudrillard, Selected Writings, org. Mark Poster (Cambridge, Polity, 1988, p.166).

4. Anna Jamroziac. Obraz i Metanarracja: Szkice o postmodernistycznym obrazowaniu (Varsóvia, Instytut Kultury, 1994, p.49-50).

5. Piotr Kawiecki e Romuald Piekarski. Zagadnienia Estetyki Wspótczesnej Sztuka — Wartosci — Poznanie (Gdansk, Gdansk University Publishers, 1994, p.33).

6. Suzi Gablik. Magritte (Nova York, Thames & Hudson, 1985, p.75, 72).

7. Anna Zeidler-Janiszewska. “Oblicza eksperymentowania: O awangardowych impulsach w kulturze wspótczesnej”, in Czy Jeszcze Estetyka? Sztuka uspótczesna a tradycja estetyczna, org. Michat Ostrowicki (Cracóvia, Instytut Kulturi, 1994, p.144).

8. Michel Foucault. “The art of telling the truth”, citado conforme a tradução de Alan Sheridan in Politcs, Philosophy, Culture, p.95.

9. Michel Foucault. “Practicing criticism”, citado conforme a tradução acima, de Alan Sheridan, p.154-5. A nova compreensão da atividade crítica lança uma nova luz sobre o papel do “intelectual crítico” (um pleonasmo, por certo). Esse papel, na opinião de Foucault, é o de “ver até onde a liberação do pensamento pode fazer (…) transformações suficientemente urgentes para as pessoas quererem colocá-las em execução e suficientemente difíceis de executar por estarem profundamente enraizadas na realidade”.

 

IX. Sobre a verdade, a ficção e a incerteza

 

1. Ver Pragmatism, de William James (Indianapolis, Hachett, 1981, p.100).

2. Richard Rorty. “Pragmatism, Davidson and Truth”, in Objectivity, Relativity and Truth (Cambridge University Press, 1991, p.127-8).

3. Richard Rorty. “Heidegger, Kundera, and Dickens”, in Essays on Heidegger and Others (Cambridge University Press, 1991, p.70-1).

4. Immanuel Kant. Critique of Pure Reason, trad. J.M.D. Meiklejohn (Londres, Dent, 1969, p.3-4, 17, 481).

5. Kant. Critique of Pure Reason, p.6.

6. Martin Heidegger. “On the essence of truth”, Basic Writings, org. David Farrell Krell (Londres, Routledge, 1978, p.117-8).

7. Heidegger. “On the essence of truth”, p.135-6.

8. Kant. Critique of Pure Reason, p.19-21.

9. Ver Hilary Putnan. Realism and Reason (Cambridge University Press, 1983).

10. Donald Davidson. “A coherence theory of truth and knowledge”, como citado em Rorty, Objectivity, Relativity and Truth, p.136.

11. Rorty. “Heidegger, Kundera, and Dickens”, p.68, 77, 81, 75.

12. Milan Kundera. The Art of the Novel, trad. Linda Asher (Nova York, Grove Press, 1986, p.160); citado in Rorty. “Heidegger, Kundera, and Dickens”, p.73.

13. Ver conferência 5, “Possible woods”, in Umberto Eco, Six Walks in the Fictional Woods (Harvard University Press, 1994).

14. Ortega y Gasset. En torno a Galileo (1550-1650). Ideas sobre las generaciones decisivas en la evolución del pensamiento europeo (uma série de conferências proferidas em 1933); aqui citado conforme a tradução polonesa (Varsóvia, Spacja, 1993, p.150-1).

15. Ver seu La fin des certitudes: Temps, chaos et les lois de la nature (Paris, Odile Jacob, 1995). É apenas agora, diz Prigogine — depois de séculos de determinismo, dos esforços para rejeitar a diferença entre o passado e o futuro — que chegamos à realidade do panorama, também a realidade natural, como invenção contínua, governada não por leis imutáveis, mas pela contingência e probabilidade.

16. Ver Martin Heidegger, “The origin of the work of art”, Basic Writings, p.164-81.

17. Jean Baudrillard. “Simulacra and simulation”, trad. Paul Foss, Paul Patton e Philip Beitchman, in Sémiotext(e), 1983. Aqui citado conforme Jean Braudrillard, Selected Writings, org. Mark Poster (Cambridge, Polity Press, 1988, p.168).

 

XI. Sobre a redistribuição pós-moderna do sexo

 

1. Ver Philippe Ariès, Centuries of Childwood (Londres, Jonathan Cape, 1962, esp. p.10-50).

2. Ver as obras de Edward Shorter, David Hunt, Jack Goody, ou a Critical Theory of the Family, de Mark Poster (Londres, Pluto Press, 1978).

3. Joseph F. Kett. Rites of Passage (Nova York, Basic Books, 1977, p.111).

4. Michel Foucault. The History of Sexuality, (Harmondsworth, Penguin, 1990, v.1, p.40-4, 103-7).

5. Ver Anthony Giddens, The Transformation of Intimacy: Sexuality, Love and Eroticism in Modern Societies (Cambridge, Polity Press, 1992).

6. Ver Henk Kleijer e Ger Tilekens, “Passion, pop and self-control; the body politic and pop music”, in ZSE, 1994/1, p.58-75.

7. Suzanne Moore. “For the good of the kids — and us”, in The Guardian, 15 jun. 1995.

8. Rosie Waterhouse. “So what is child abuse?”, in Independent on Sunday, 23 jul. 1995.

 

XII. A imortalidade, na versão pós-moderna

 

1. Jorge Luis Borges. Labyrinths: Selected Stories and Other Writings, org. Donald A. Yates e James E. Irby (Harmondsworth, Penguin, 1974, p.140-1, 138, 144, 146).

2. “Phaedo”, in Great Dialogues of Plato, trad. W.H.D. Rouse (Nova York, Mentor Books, 1956, p.484, 487); I.V. Vishev (Ploblema lichnogo bessmertia (Novosibirs, Nauka, 1990, p.126) cita um papiro que remonta a 1500 a.C. e que já expressa idéias a serem mais tarde sancionadas por Platão: “Seus [dos escritores] criados foram embora, suas pedras tumulares estão cobertas de lama, suas moradias estão esquecidas. Mas fala-se sobre seus nomes, graças aos livros que eles criaram; sua lembrança viverá para sempre.” Pode-se presumir que o elo entre o trabalho intelectual e a imortalidade individual através da memória pública é tão antigo quanto a invenção da escrita.

3. Ver Michel Foucault. Politics, Philosophy, Culture: Interviews and Other Writings, 1977-84, org. Lawrence D. Kritzman (Londres, Routledge, 1988, p.60).

4. John Carroll. Humanism: The Wreck of Western Culture (Londres, Fontana, 1994, p.2-6).

5. Klaus Dörner. Tödliches Mitleid: zur Frage der Unerträglichkeit des Lebens (Gütesloh, Verlag Jakob van Hoddis, 1993, p.129).

6. e Georges Balandier. Le Dédale: pour en finir avec XX siècle (Paris, Fayard, 1994, p.110-11).

7. Mark Poster. “A second media age?”, in Arena, 3/1994, p.76, 81.

8. Jean Baudrillard. The Illusion of the End, trad. Chris Turner (Londres, Polity Press, 1994, p.84).

 

XIII. Religião pós-moderna?

 

1. Citado conforme Susan Gablik. Magritte (Nova York, Thames & Hudson, 1985, p.66).

2. O fundamental The Idea of the Holy, de Rudolf Otto (publicado primeiro em 1917 e aqui citado da tradução de John W. Harvey, de 1923, é efetivamente uma exposição rigorosamente fundamentada sobre a impossibilidade de “uma definição racional” da experiência religiosa. Podemos apenas tentar aproximar-nos dela em nossas descrições, apesar da necessidade de lembrar o tempo todo que de sua complexidade realmente não nos podemos apossar: “como todo dado absolutamente primitivo e elementar, enquanto se admite que seja discutido, não se pode estritamente definir” (p.21). As imagens dessa experiência não podem ser “ensinadas”, só “evocadas”. O que aparece na experiência religiosa Otto dá o nome mysterium tremendum: “pode irromper em súbita erupção das profundezas da alma, com espasmos e convulsões, ou levar às mais fortes excitações, ao frenesi inebriado, ao arrebatamento e ao êxtase. Tem suas formas selvagens e demoníacas, e pode cair num quase medonho terror e estremecimento” (p.27). A ausência de coerência lógica estrutural equipara-se à ausência de lógica do comportamento que provoca. O mysterium tremendum é, ao mesmo tempo, “atemorizante” e “fascinante” — combinando-se essas duas qualidades “na estranha harmonia dos contrastes e no resultante caráter duplo da consciência espiritual” que reúne o que não se pode racionalmente ligar um ao outro: “o terror e pavor”, de um lado, e o “poderoso fascínio”, do outro (p.45). Segundo Mircea Eliade (ver seu Traité d’histoire des religions, Paris, 1956), a única coisa que se pode dizer sobre a natureza da hierofântria (e tudo pode adquirir valor hierofântrico, isto é, tornar-se a “expressão” do sacrum) é que ela sempre indica uma seleção; ela divide o mundo no “sagrado” e no restante. A pessoa é tentada a dizer que, por essa descrição, toda tentativa de definição também contém uma medida conveniente de valor hierofântrico…

3. Ver Religio: Ruolo del sacro, coesione sociale e nuove forme di solidarietà nella società contemporanea, orgs. Carlo Mongardini e Marieli Ruini (Roma, Bulzoni Editore, 1994, p.15, 31). No mesmo volume, Johan Goudsblom ressalta, corretamente, que a maior parte da nossa discussão dos fenômenos religiosos permanece, mesmo sem o saber, sob a influência da teologia — misturando desesperançadamente elementos “êmicos” e “éticos” em suas descrições (p.89). Podemos acrescentar que o mesmo se aplica à “ideologia racionalizante”, que também pesa duramente, mesmo se como premissa tácita, em todas as tentativas de definir os fenômenos religiosos. Como resultado, o discurso encontra-se num “dilema”, forçado ou engabelado para absorver elementos de dois universos cognitivos mutuamente exclusivos. No discurso da “ciência religiosa”, os elementos “êmicos” tirados da teologia coexistem incomodamente com elementos “êmicos” inseridos pelo discurso da “racionalização” que, nos últimos dois séculos, se esforçou por indispor e reificar a experiência religiosa como a inteiramente outra da razão. Os esforços atuais de “definir a religião” trazem todos os sinais da influência da guerra do Iluminismo contra a superstição — à rebours…

4. Thomas Luckmann, The Invisible Religion (Londres, Macmillan, 1967, p.82).

5. Michel Foucault. Politics, Philosophy, Culture: Interviews and Other Writings, 1977-84, org. Lawrence D. Kritzman (Londres, Routledge, 1988, p.50, 154).

6. Leszek Kolakowski. Religion: If there is no God… On God, the Devil, Sin and other Worries of the so-called Philosophy of Religion (Londres, Fontana, 1982, p.194, 199, 202). São estas, evidentemente, afirmações que descrevem os atributos comuns e distintivos da religião, não necessariamente os das numerosas instituições religiosas. As últimas seriam mais bem descritas por uma referência a suas funções, mais do que a seus credos constitutivos ou divisas de recrutamento — e as funções são mais variadas do que a reação essencialmente intelectual da “explicação” ou do “estabelecimento de sentido” para a confusão genuína ou induzida, indagações ou medos do fiel. Assim, por exemplo, as igrejas e as seitas podem desempenhar funções políticas integradoras, afirmativas, capacitantes para minorias política e economicamente oprimidas; as paróquias, capelas e congregações são conhecidas por seu importante papel associativo, representado ao aglutinarem comunidades firmemente unidas e ao assegurarem sua contínua auto-reprodução.

7. Anthony Giddens, The Consequences of Modernity (Cambridge, Polity Press, 1990, p.82). Como Giddens ressalta, “os filósofos propõem questões sobre a natureza do ser, porém eles não são, pelo que podemos supor, ontologicamente inseguros em seus atos comuns” (p.93). De fato, Arthur Schopenhauer, enquanto subjugado por perguntas como “Por que não há absolutamente nada mais do que este mundo?”, e torturando-se em torno do fato de que “nenhum fundamento, nenhuma causa final pode ser achada” (The World as Will and Representation, Nova York, Dover, 1966, p.637), levou uma vida ordeira e segura, bürgerliche [burguesa], e ficou verdadeiramente aterrado quando seu ritmo vagaroso foi abruptamente quebrado pelos acontecimentos da revolução de 1848. Schopenhauer foi muito além do apelo do dever para restaurar o mundo da “fundamentação”, sem uma causa final para a busca da rotina de suas causas cotidianas — inclusive o convite aos soldados do governo para ir a sua casa, da qual os insurrectos eram claramente visíveis e podiam, assim, ser mortos a tiro com facilidade (ver seu Gesammelte Briefe, org. A. Hürbscher, Bonn, 1978). Ele voltou à insegurança escatológica e ontológica, quando a revolução fora seguramente esmagada.

8. Politics, Philosophy, Culture, p.70.

9. Politics, Philosophy, Culture, p.70, 62.

10. Ver Edmund Husserl, The Paris Lectures (Haia, Martinus Nijhoff, 1967, p.14); Edmund Husserl, The Idea of Phenomenology (Haia, Martinus Nijhoff, 1968, p.13).

11. Afirmações nesse sentido são tão abundantes que, com uma constância demasiada, nos iludimos ao tomar a freqüência da repetição como um sinal de auto-evidência. Elas são todas moldadas segundo um padrão semelhante: na verdade, a religião mudou sua forma para além de seu reconhecimento, e as pessoas vivem suas vidas dando significação religiosa ao que elas fazem, mas isso apenas porque não vêem, através dos seus motivos, como nós, os cientistas sociais, o fazemos… E, desse modo, lemos na dissertação de Jeffrey C. Alexander, que “a sacralidade e a busca da experiência do transcendente continuam aspectos fundamentais da vida. (…) Os referenciais já não estão no céu, mas o processo de significados e significantes continua religioso: sua finalidade [cuja finalidade? Z.B.] é colocar um ator, grupo ou sociedade, em contato com as forças puras e impuras de que o mundo parece, na imaginação mítica e existencial [cuja imaginação? Z.B.], finalmente provir” (Religio, p.19). Thomas Luckmann, por sua vez, sugere que são os “temas religiosos” que têm sido “adotados” por virtualmente todas as instituições que servem, hoje, ao funcionamento da vida diária: “colunas publicadas de informação, literatura de ‘inspiração’ que vai dos folhetos sobre pensamento positivo até a revista Playboy, versões de psicologia popular do Reader’s Digest, ou as letras de sucessos populares, e assim por diante, especificado o que são, de fato, os elementos dos modelos de significação ‘última’” (The Invisible Religion, p.104).

12. John Carroll. Humanism: The Wreck of Western Culture (Londres, Fontana, 1993, p.2-3). Carroll considera a sublevação humanista anunciadora de um período relativamente breve, e de precisa limitação no tempo, que agora chega ao fim. Também acha suas conseqüências uniformemente desastrosas para o caráter da civilização ocidental. Proponho separar-se o lúcido diagnóstico que Carroll faz da estratégia humanística dessas duas opiniões, altamente controversas.

13. Ver Alain Touraine, The Post-Industrial Society: Tomorrow’s Social History: Classes, Conflicts and Culture in the Programmed Society, trad. Leonard F.H. Mayhew (Londres, Wildwood House, 1974, p.213-4).

14. th th Jean Delumeau, Sin and Fear: The Emergence of a Western Guilt Culture, 13-18 Centuries (Nova York, St. Martin’s Press, 1990, p.112-3).

15. Citado conforme a tradução inglesa de Patricia Lipscomb, Man in the Age of Technology (Nova York, Columbia University Press, 1980, p.52-3, 75).

16. Ver Zygmunt Bauman, “A catalogue of postmodern fears”, in Life in Fragments (Oxford, Blackwell, 1995, cap.4).

17. Abraham H. Maslow, Religions, Values and Peak-Experiences (Columbus, Ohio State University Press, 1964, p.19-24). Maslow deixou amplos relatos das narrativas que obteve de pessoas que lhe expuseram “experiências máximas”. Entre elementos que se repetem nessas exposições, encontramos muitos aspectos que caracterizam o tipo ideal de experiência tal como foi promovido pela cultura pós-moderna: por exemplo, sensações de inabitual concentração da atenção e reunião de todos os poderes espirituais, o apagamento da diferença entre a figura e o fundo (impressão de “totalidade”), a egotranscendência, natureza autojustificadora do momento que se sentiu como “experiência final” mais do que “experiência dos meios”, perda de consciência do tempo e espaço, percepção do mundo como sendo belo, bom e desejável — e, acima de tudo, a experiência de “uma perda, ainda que transitória, do medo, da ansiedade, da inibição, da defesa e do controle, da perplexidade, confusão, conflito, demora e restrição” (p.66) — ou seja, todos os mais sinistros pesadelos que assombram os indivíduos pós-modernos atormentados com a ansiedade da identidade.

18. Ver Edith Wyschogrod, Saints and Postmodernism: Revisioning Moral Philosophy (University of Chicago Press, 1990, p.252 seg).

19. Gilles Kepel. The Revenge of God: The Resurgence of Islam, Christianity and Judaism in the Modern World, trad. Alan Braley (Cambridge: Polity Press, 1994, p.11). Também endosso completamente a hipótese de trabalho de Kepel, de que “o que esses movimentos dizem e fazem é significativo e não resulta dum destronamento da razão ou da manipulação por forças ocultas; em vez disso, é a evidência inegável de um profundo mal-estar na sociedade, que já não pode ser interpretado em função das nossas tradicionais categorias de pensamento” (p.11).

20. Para um argumento mais satisfatório, ver o capítulo “Two nations, mark two: the oppressed”, no meu Legislators and Interpreters (Cambridge, Polity Press, 1987).

 

XIV. Sobre o comunitarismo e a liberdade

 

humana

 

1. Por exemplo, tanto a necessidade como a conveniência do pluralismo foram enfaticamente demonstradas por John Rawls — para quem a multiplicidade das crenças religiosas, filosóficas e morais, que são todas racionais mas mutuamente incompatíveis, é a marca registrada da sociedade liberal-democrática. Rawls ressalta que a variedade de opiniões é, em si mesma, uma coisa boa — numa sociedade bem construída, os integrantes são justos, desejando que seus planos sejam diversificados (ver seu “A Theory of justice”, Liberalism and its Critics, org. Michael Sandel, New York University Press, 1984). O que se não precisa dizer é que os pensadores liberais nunca condenaram a vontade de defender livremente as crenças escolhidas, enquanto o estado autoritário tenta impor escolhas à força. Como Jerzy Szacki o resume tão sucinta como convincentemente, ressaltando essas duas questões, se o governo pode ser um lado do conflito moral, e se tais conflitos podem ser sempre superados: o “liberalismo responde com a negativa” (Jerzy Szacki, Liberalizm po Komunizmie, Cracóvia, Znak, 1994, p.245).

2. Ver Maurice Barrès, Scènes et doctrines du nationalisme (Paris, Émile Paul, 1902, p.8-13). Há apenas uma coisa que eu posso, segundo Barrès, desejar em qualquer sentido: estar em tudo o que penso e faço determinado por la terre et les morts, dizer-me: “quero viver com esses mestres e, fazendo-os conscientemente objeto do meu culto, participar plenamente de sua força” (p.1). A alternativa é o déracinement — um pavoroso estado de depauperamento, um corpo mole sem coluna vertebral.

3. Ver Ulrich Beck e Elisabeth Beck-Gernsheim, “Individualization in modern societies — perspectives and controversies of a subject-orientated sociology”, Detraditionalization (Oxford, Blackwell, 1995). O processo de “individualização”, compreendido primordialmente como um nível ininterruptamente ascendente da incerteza e “subjetivização” dos riscos, foi mais extensa e persuasivamente analisado em outras obras dos autores acima, sobretudo in Das ganz normale Chaos der Liebe (Suhrkamp, 1990), que eles escreveram conjuntamente, e Riskante Freiheiten: Individualisierung in modernen Gesellschaften (Suhrkamp, 1994), que eles editaram conjuntamente. Neste último livro, eles sintetizam incisivamente suas descobertas: “Seja do que for que você queira tratar — Deus, natureza, verdade, ciência, tecnologia, moralidade, amor, casamento —, a modernidade transformou tudo em ‘liberdades arriscadas’…” Por exemplo, “o casamento — como dirigir com velocidade excessiva numa estrada cheia de curvas — um empreendimento pessoal e arriscado, não aceitável para o seguro” (p.11, 25). Consultar também o essencial The Minimal Self: Psychic Survival in Troubled Times de Christopher Lasch (Londres, Pan Books, 1984).

4. Ver o meu Life in Fragments (Oxford, Blackwell, 1995), capítulo “Europe of nations, Europe of tribes”.

5. Roberto Unger. Politics: A Work in Constructive Social Theory, (Cambridge University Press, 1987, v.1, p.167). Unger ressalta que “se o triunfo de certas instituições e idéias foi relativamente acidental, também mais facilmente se pode imaginar sua substituição como realística”. Compare o estudo de Will Kymlicka por Unger no número revisto da Critical Review.

6. Jerzy Jedlicki. “Antynomie liberalnej koncepcji wolnosci”, in Zle urodzeni, czyli o doswiadczeniu historycznym (Londres, Aneks, 1993, p.35).

 

Posfácio: A última palavra — e ela pertence à

 

liberdade

 

1. O termo “l’insécurisation” foi cunhado por Jean-Luc Mathieu (ver seu L’insécurité, Paris, Presses Universitaires de France, 1995).

2. Ver André Gorz, “Vers une societé post-marchande”, Transversales science culture, set.-out. 1995; Bernard Cassen, “Chômage, des illusions au bricolage”, Le Monde Diplomatique, out. 1995.

3. Ver Jeremy Rifkin, The End of Work: The Decline of the Global Force and the Dawn of the Post-Market era (Nova York, Tarcher-Putnam, 1995).

4. Este processo é habitualmente apelidado “desregulamentação”. É de admirar, porém, em que extensão este nome acriticamente aceito concebe, mais do que revela, a verdadeira natureza do processo. Certamente, algumas espécies de atividade são “desregulamentadas”, enquanto outras espécies — ou grupos inteiros de atividades da vida — são submetidas simultaneamente a regulamentação cada vez mais estrita e às vezes opressiva; e a coincidência dos dois processos opostos não parece de todo contingente. Acima de tudo, os estados, na atualidade, não aprovam menos leis do que costumavam fazê-lo no passado: eles não “regulamentam” menos; e a parte da renda nacional utilizada para sustentar os esforços regulamentadores não mostra nenhum sinal de corte. Só que os objetivos e as estratégias de regulamentação são redefinidos, e a despesa administrada pelo estado destinada a itens diferentes. Mais notoriamente, os novos pobres são o motivo de mais severa e meticulosa legislação, tendo em vista mais a obstrução do que o desatamento da sua liberdade de escolha e seu direito à iniciativa. Como Martin Woollacott exprimiu apropriadamente (ver seu “Dismembering values”, in The Guardian, 9 dez. 1995), os custos “migram do cuidado para a guarda, do estado do bem-estar para o estado do aprisionamento”.

5. Guido de Ruggiero. The History of European Liberalism, trad. R.G. Collingwood (Boston, Beacon Press, 1959, p.350-1).

6. Ver o meu Freedon (Milton Keynes, Open University Press, 1989).

7. Ver Sir William Beveridge, “Liberal radicalism and liberty”, Western Liberalism: A History in Documents from Locke to Croce, orgs. E.K. Bransted e K.J. Melhuish (Londres, Longman, 1978, p.712-7).

8. Michael Walzer. Interpretation and Social Criticism (Cambridge, Mass., Harvard University Press, 1987, p.32).

9. Chantal Mouffe. “Liberal socialism and pluralism: which citizenship?”, Principled Positions: Postmodernism and the Rediscovery of Value, org. Judith Squires (Londres, Lawrence & Wishart, 1993, p.81).

10. David Harvey. “Class relations, social justice and the politic of difference”, Principled Positions, p.118.

 

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