O Mal-estar da Pós-Modernidade
XIV. Sobre o comunitarismo e a liberdade humana, ou como enquadrar o círculo
XIV
Sobre o comunitarismo e a liberdade humana, ou
como enquadrar o círculo
No número da primavera de 1994 da Critical Review (v.8, n.2), vários
proeminentes filósofos políticos publicaram suas opiniões sobre as
possibilidades de abarcar os princípios liberais e comunitários num sistema
de pensamento coerente, não-contraditório. Visto que, na ocasião,
praticamente todos os argumentos mais apoiados por parte de cada um dos
dois lados foram enumerados, reafirmados e resumidos, essa compilação de
declarações oferece um excelente ponto de partida para a reflexão sobre
questões discutíveis, implicações e perspectivas da querelle liberal e
comunitária em curso.
A troca de idéias foi inspirada pela publicação de Liberalism,
Community and Culture, de Will Kymlicka (Oxford, Clarendon Press,
1991) — “um livro penetrante, extremamente esclarecedor e
excepcionalmente lúcido”, como escreve Ronald Beiner (ele próprio autor
de outro estudo influente, What’s the matter with liberalism?, University of
California Press, 1992) e com o que outros escritores concordam. Na
opinião deles, o que tornou o livro de Kymlicka tão interessante e
merecedor de prolongado comentário é que confrontou sem rodeios os
argumentos levantados contra a teoria liberal pelos mais influentes
representantes do comunitarianismo (pensadores como Alasdair MacIntyre,
Michael Sandel, Charles Taylor ou Michael Walzer), com a intenção de
desmontar esses argumentos, quer mostrando que sua oposição aos
princípios liberais é inteiramente ilusória, quer acomodando-os numa “nova
e aperfeiçoada” versão do liberalismo; assim como o tom apaziguador do
livro, sua convicção subjacente — revigorante e bem-vinda, após anos de acrimônia — de que, excetuando-se fusão e unidade, pelo menos uma
trégua duradoura e amistosa convivência entre os adversários são viáveis.
Dentre as propostas de Kymlicka, a que seus comentadores mais
apreciam (embora alguns, no partido comunitário da discussão, achem que
não seja suficiente para curar o liberalismo de seus males — para, no
mínimo, dar-lhe um espírito mais comunitário) é que, de fato, a pluralidade
de culturas e fidelidades culturais é algo que o liberalismo, longe de
desaprovar, considera uma vantagem: quando as culturas se multiplicam, o
mesmo ocorre com as escolhas acessíveis ao indivíduo, e o liberalismo é
inteiramente a favor da liberdade de escolha. Os liberais, por conseguinte
— assim dá a entender Kymlicka —, deviam estar interessados em
fomentar ativamente a variedade e resistir a todas as pressões
homogeneizantes.
Parece, à primeira vista, um tanto misterioso por que essa opinião é
considerada, pelos críticos, “extremamente esclarecedora”, visto que pelo
mesmo motivo o pluralismo cultural (mesmo moral) tem sido defendido e
louvado por eminentes pensadores liberais já há bastante tempo.1 Talvez,
porém, o alvoroço seja menos misterioso do que parece. Os argumentos,
apresentados em espírito liberal de uma forma generalizada e, portanto,
relativamente incontroversa e inofensiva, Kymlicka estendeu como um
ramo de oliveira aos críticos comunitários do liberalismo. Pela mesma
razão, ele deu a entender que o repetidamente declarado devotamento
liberal à diferença pode ser alargado o suficiente para abarcar o tipo de
diferença que os comunitários apóiam e, desse modo, torna sem validade as
suas acusações contra o pensamento liberal. Para fazê-lo, Kymlicka confere
à reivindicação liberal de variedade um fraseado destinado a aplacar as
queixas comunitárias sem desagradar a consciência liberal: “Os liberais
deviam preocupar-se com o destino das estruturas culturais, não porque elas
possuam algum status moral próprio, mas porque é somente ao ter uma
estrutura cultural rica e segura que as pessoas podem dar-se conta, de forma
nítida, das opções que lhes estão disponíveis.” Assim, os liberais podem
ficar satisfeitos, já que a “estrutura cultural” agora, como antes, não foi
reconhecida como um valor finito por si mesma; mas os comunitários
podem sentir-se pacificados, já que, sejam quais forem os seus motivos, os
liberais prometem respeitar e até favorecer o tipo de diferença tão caro ao
coração comunitário. (Eles conseguem fazê-lo atribuindo à “estrutura
cultural” um valor instrumental no fomento de objetivos liberais.) A alegria comunitária bem pode tornar-se ainda mais completa pela aceitação, por um
autor liberal, do que eles costumavam asseverar continuamente como um
argumento contra o liberalismo — a saber, que “ter uma estrutura cultural
rica e segura” é algo benéfico e humanitário. (Eles podem ficar
preocupados, porém, assim como desconcertados, por uma surpreendente
sugestão de que uma “estrutura segura” seja algo benéfico porque ela
estimula a consciência das opções — mas, afinal, o que ela apóia ou não é
uma declaração empírica, não uma questão de política e, assim, pode ser
tranqüilamente deixada para futuras discussões entre arquivistas de ciência
social. E, se é assim que os liberais preferem, a bem da conveniência,
enunciar a sua capitulação, por que as pessoas cuja tese foi, desse modo,
admitida deveriam fazer-lhes objeção?)
Parece que o estratagema de Kymlicka é levar ambas as partes a
concordar com uma declaração de política conjunta, fazendo com que cada
uma acredite que não só a busca de seus objetivos não foi comprometida,
como a assinatura do acordo atesta a intenção de continuar a buscá-los até
ainda melhor resultado.
Isso, no entanto, é atenuar o genuíno pomo da discórdia, não resolver a
controvérsia. A diferença amada (ou dita amada) pelos liberais não é a
diferença amada (ou dita amada) pelos comunitários. Todas as semelhanças,
é-se tentado a dizer, são puramente coincidentes… A diferença que os
liberais estimam e prezam é externa ao indivíduo humano; “diferença”
representa aí a profusão de escolhas entre diversas maneiras de ser humano
e de viver a vida. A diferença por que clamam os comunitários é do tipo
internalizado; “diferença” representa aí a recusa, ou incapacidade, de
considerar outras formas de vida como opções — estar determinado ou
fadado a permanecer o que se é, a se manter dessa maneira aconteça o que
acontecer, e resistir a toda tentação para o contrário. Para exprimi-lo em
poucas palavras, a “diferença” liberal representa a liberdade individual, ao
passo que a “diferença” comunitária representa o poder do grupo para
limitar a liberdade individual. O que o postulado dos comunitários significa
é uma licença para que grupos exerçam tal poder sem interferência.
Os teóricos comunitários, notavelmente MacIntyre, queixam-se da
natureza ilusória, volátil e insegura das identidades obteníveis sob o regime
liberal, e do “desentrincheiramento” de estruturas formativas. Anseiam por
identidades que não sejam falsificadas nem superficiais (ou seja — para
utilizar a metáfora de Weber —, identidades mais semelhantes a túnicas de ferro do que a mantos que pendem levemente dos ombros do indivíduo),
que eles, por motivos de forma alguma óbvios, contudo jamais debatidos
explicitamente, consideram equivalentes à identidade significativa. Mais
uma vez por motivos de forma alguma claros e menos ainda convincentes,
os comunitários querem que o resultado da escolha seja estabelecido antes
que o ato de escolher comece: para uma mentalidade comunitária, uma boa
escolha é uma escolha do que já está dado (exatamente o que Barrès ou
Fichte afirmavam sobre o nacionalismo) — a descoberta e concessão de
expressão consciente à “identidade histórica” transmitida pelo nascimento.
(Dessa vez, pode-se recordar a interpretação de Mao da outrora famosa
política de “deixar cem flores desabrocharem”: o desabrochamento era
inócuo para Mao, na medida em que havia certeza de que uma flor, a única
que merecia desabrochar eternamente, esmagaria e asfixiaria todas as
outras.) O tributo rendido à escolha individual não passa aí de adulação.
Teoricamente, a liberdade deveria ser empregada exclusivamente para
escolher a falta de liberdade; a voluntariedade, aí, significa utilizar a volição
individual para se abster de exercer o livre-arbítrio. A verdadeira escolha
foi feita e assinalada antes do nascimento do indivíduo. A vida que se segue
ao nascimento é (ou deveria ser) dedicada a descobrir qual foi essa escolha
e comportar-se de acordo com isso.
A teoria comunitária (exatamente como o liberalismo, no que diz
respeito a isso) é um ideologia moderna, elaborada e preconizada segundo
condições modernas — ou seja, sob as circunstâncias em que a escolha é
não só uma possibilidade, como uma realidade a que é difícil escapar. Os
indivíduos modernos estão “sentenciados” a uma existência de escolha. E,
assim, as alusões comunitárias acerca da natureza irrecuperavelmente
“embaraçada” da identidade individual não chegam a desenvolver uma
teoria madura do determinismo imputado. O determinismo em estilo
comunitário não é automático. Paradoxalmente, sua ação não pode
completar-se sem o papel ativo desempenhado pela vontade e escolha
humanas. O destino só completa a sua trajetória quando espontaneamente (e
alegremente!) aceito pelo indivíduo fadado. Mas, ao admitir isso, a filosofia
comunitária coloca, por bem ou por mal, as comunidades de tradição e
história que ela estimula em pé de igualdade com todos os outros “grupos
de membros” (inclusive aqueles em competição direta ou oblíqua com
grupos de referência “enraizados”). Todos esses grupos “mantêm” os
membros somente na medida em que os membros lhes “são fiéis”. A perpetuação desses grupos depende da intensidade e elasticidade da
lealdade ativa de seus membros. É, por conseguinte, arriscado deixar o
destino dos favorecidos grupos de referência “enraizados” (“comunidades
de tradição”) sob os caprichos da competição aberta. Preferir-se-ia ter o
resultado favorável da competição garantido de antemão — mas isso
significa privilegiar uma escolha acima de todas as outras, tornar
esmagadora a vantagem sobre as outras escolhas e aumentar as apostas
exigidas para tornar a escolha “correta”. Nesse ponto, porém, o
comunitarismo abandona a discussão ostensivamente filosófica do transe
existencial humano para entrar no âmbito da política prática.
O paradoxo não é novo, evidentemente, e não é criado pelos
comunitários. Desde o princípio, ele tem rondado o nacionalismo moderno,
de que o atual comunitarismo é, por assim dizer, uma continuação
descontínua (o racismo era então, como é atualmente, um atalho de fuga
constantemente tentador do paradoxo que o nacionalismo e o
comunitarismo partilham). Maurice Barrès, um dos mais perspicazes e
influentes filósofos do nacionalismo, debateu-se com o mesmo problema:
as opiniões nacionalistas são despropositadas sem uma pressuposição, a de
que existe um ponto “de que todas as coisas podem ser vistas em dimensões
verdadeiras” — mas também sem a premissa de que esse ponto não pode
ser planejado, mas somente achado, recuperado ou perdido. Esse deve ser
um ponto fixado de antemão — mas (e aqui surge a parte crucial) deve ser
ainda descoberto e fortificado por todo indivíduo, usando suas habilidades,
razão e vontade. Em outras palavras, a sorte humana é inevitável, mas essa
inevitabilidade do destino age mediante esforços voluntários…
Eu devo colocar-me no ponto demarcado por meus olhos, tal como eles foram formados no
decorrer de séculos, no ponto em que todas as coisas se fazem segundo o padrão do
francês. A reunião de relações justas e verdadeiras entre os objetos e o homem concreto, o
francês, são a verdade e a justiça francesas; descobrir essas relações é a razão francesa. O
nacionalismo puro nada mais é do que estar ciente da existência de tal ponto, procurá-lo e
— havendo-o alcançado — apegar-se a ele em nossos atos, nossa política e todas as nossas
atividades.2
Sabemos para onde esse lírico encômio das raízes apontou, com um
irresistível ímpeto próprio: para um engolfante impulso de assegurar que o
“eu devo” signifique o que enuncia, que a “descoberta” seja feita por todos
e que cada um “se apegue” ao que foi descoberto em “todas as atividades”.
E havia somente um modo de assegurá-lo: usar a prerrogativa estatal da coerção legislada para tornar “não acertar o ponto” o mais improvável
possível e “achar o ponto” praticamente inescapável. A nação sem um
estado seria, afinal, apenas um “grupo de referência” dentre muitos —
como eles, eternamente incerta de sua sobrevivência, como eles, fustigada
por ondas contrárias de estilos mutáveis, como eles, tendo de recorrer
diariamente a lealdades vacilantes e, como eles, tendo de ir ao extremo para
distribuir provas da vantagem de seus benefícios sobre os oferecimentos
dos competidores. O estado-nação (a idéia de uma nação convertida na
matéria do estado) poderia, de outro lado, legislar a favor da lealdade e
determinar antecipadamente os resultados da livre escolha. As raízes
postuladas poderiam ganhar existência pela legislação e seriam cuidadas
pelos órgãos estatais da lei e ordem, o princípio definido pelo estado de
herança cultural e o currículo autorizado pelo estado de ensino de história.
Permitam-nos recordar que a finalidade de tudo isso foi extinguir o
controle que as “comunidades” (tradições, costumes, dialetos, fidelidades
locais) mantinham sobre os pretensos patriotas da nação una e indivisível.
A idéia que guiava todos esses esforços do estado-nação era sobrepor um
tipo de adesão ao mosaico de “particularismos” comunitários, em nome do
interesse da nação, que atropela e deixa em suspenso todos os outros
interesses, inclusive o que este ou aquele indivíduo possa julgar ser o seu
“próprio” interesse individual. Sob o aspecto da política prática, isso
significava o desmantelamento ou desabilitação legal de todos os pouvoirs
intermédiaires, da autonomia de qualquer unidade menor que o estado-
nação, que reivindicasse ser mais do que a executora da vontade do estado-
nação e reivindicasse mais do que o poder delegado.
Pela contribuição de Charles Taylor a Critical Review, ficamos sabendo
que, após todos esses esforços de unificação nacional (como transpirou
posteriormente, inconclusivos), as “comunidades minoritárias” estão
“lutando para manter-se”. Elas lutam para manter-se, isto é, como
comunidades. E isso significa, por sua vez, que “essas pessoas estão
empenhando-se por obter mais do que os seus direitos como indivíduos”.
Taylor não se intimida com o fato de que é somente graças ao velho
estratagema de petitio principii que sua afirmação tem sentido: o que devia
ser provado foi apresentado como premissa axiomática. Se existe algo mais
do que os “direitos como indivíduos” (ou seja, se existe algo tão importante
que justifique a suspensão dos direitos dos indivíduos como indivíduos), então, evidentemente, a luta é inevitável e toda pessoa benévola deve aos
combatentes solidariedade e assistência. Mas o que é esse “algo mais”?
“Algo mais” (permitam-nos repetir: esse “algo” que torna determinadas
restrições ao direito individual de escolher aceitáveis e até bem-vindas) é o
“objetivo da sobrevivência” e isso significa, por sua vez, “a continuação da
comunidade por futuras gerações”. Expressa em termos mais simples e,
acima de tudo, práticos, a busca do “objetivo da sobrevivência” exige o
direito de a comunidade limitar ou apropriar-se antecipadamente das
escolhas das gerações mais jovens e ainda não nascidas, para decidir por
elas quais deveriam ser as suas escolhas. Em outras palavras, o que se
requer aí é o poder de imposição, o poder de assegurar que as pessoas ajam
de determinada maneira em vez de outras maneiras, estreitar-lhes a
amplitude de opções, manipular as probabilidades; obrigá-las a fazer o que
elas, de outro modo, provavelmente não fariam (se o fizessem, por que todo
esse estardalhaço?), torná-las menos livres do que de outro modo o seriam.
Por que é importante fazer isso? Taylor salienta que isso deve ser feito
no próprio interesse bem compreendido das pessoas, visto que “os seres
humanos só podem fazer escolhas significativas do seu modo de viver em
contraste com um plano de fundo de alternativas que só pode chegar até
elas por intermédio da língua e tradição cultural de sua sociedade”. Uma
idéia semelhante foi expressa repetidas vezes pelas gerações de profetas e
poetas cortesãos dos estados, agindo em nome das nações majoritárias, e
não é imediatamente óbvio por que, sob a pena de Taylor, deveria ser um
argumento a favor da causa das “minorias em luta”. Para que se justifique a
mudança de tom, é necessário primeiramente revelar um corolário oculto: a
saber, a compreensão de que o estado-nação não cumpriu o prometido; que
por uma ou outra razão ele está agora falido como fonte de “escolha
significativa do modo de viver”; que o nacionalismo, privado de seu
alicerce estatal, perdeu a autoridade sem a qual o espezinhamento dos
direitos individuais de escolha não é exeqüível nem considerado aceitável; e
que, no vácuo resultante, são as “minorias em luta” que passaram
atualmente a ser consideradas a segunda linha de trincheiras onde a
“escolha significativa” pode ser protegida do massacre. Espera-se, agora,
que elas sejam bem-sucedidas na tarefa que o estado-nação
indiscutivelmente não conseguiu cumprir.
A impressionante semelhança entre as esperanças e os paradoxos
nacionalistas e os comunitários não é de forma alguma fortuita. Ambas as visões de “futuro perfeito” são, afinal, as reações dos filósofos à experiência
muito difundida de aguda e abrupta “desencaixe”, provocada pelo acelerado
colapso das estruturas em que as identidades eram habitualmente inscritas.
O nacionalismo foi a resposta à destruição indiscriminada da “manufatura
doméstica de identidades” e a decorrente desvalorização dos padrões de
vida produzidos e sancionados localmente (e prosaicamente). A visão
nacionalista originou-se da desesperada esperança de que a clareza e
segurança da existência possam ser reconstruídas num nível mais elevado e
supralocal da organização social, em torno da associação nacional e da
cidadania estatal fundidas numa só. Devido a razões demasiado amplas e
numerosas para serem aqui relacionadas, essa esperança não conseguiu
realizar-se. O estado-nação revelou-se a incubadora de uma sociedade
moderna regida não tanto pela unidade de sentimentos como pela
diversidade de frios interesses de mercado. Seu meticuloso trabalho de
desarraigar fidelidades locais parece, em retrospecto, não tanto uma
produção de identidades de nível mais elevado, mas uma operação de
limpeza de terreno para a vigarice, conduzida pelo mercado, dos modos de
autodescrição rapidamente montados e ainda mais depressa desmantelados.
E assim, mais uma vez, é difícil obter identidades “significativas”
(“significativas” no sentido outrora postulado pelos nacionalistas, agora
pelos comunitários), ao passo que mantê-las no lugar e intatas, mesmo que
por um breve momento, sobrecarrega as aprendidas e ensinadas artes de
malabarismo dos indivíduos muito além da sua capacidade. Visto que a
idéia de que a “sociedade” institucionalizada no estado prestará ajuda já não
é hoje convincente, não é de admirar que os olhos se desloquem para uma
direção diferente. Por uma ironia da história, no entanto, eles deixam-se
levar para entidades cuja destruição radical era encarada, desde o início da
modernidade, como a condição sine qua non da “escolha significativa”. São
agora as muito caluniadas “comunidades naturais por sua origem”,
necessariamente menores do que o estado-nação, outrora descritas pela
propaganda modernizante (não sem razão) como tacanhas, atrasadas,
dominadas pelo preconceito, opressivas e embrutecedoras, em que se confia
esperançosamente como as fidedignas executoras dessa atualização,
desaleatorização, impregnação de significado das escolhas humanas que o
estado-nação abominavelmente não conseguiu produzir.
Não há como negar que a vida de quem age independentemente não é
cor-de-rosa. Os tormentos, que os críticos da vida não mais baseada seguramente na atribuição tentam captar na imagem da “identidade
superficial e inexpressiva”, são genuínos. Os tormentos são muitos, mas
todos eles se reduzem ao sentimento pernicioso, penoso e nauseante de
perpétua incerteza em tudo o que diz respeito ao futuro. O ritmo da
mudança rápido, e em contínua aceleração, torna uma coisa indiscutível:
que o futuro não será como o presente. Mas a veloz sucessão de futuros que
se dissolvem numa sucessão de presentes ensina igualmente — além da
dúvida razoável — que o presente de hoje (ou pelo menos sua parte
subjetivamente dominada, “domesticada” e “domada”) não compromete o
futuro, esse presente do amanhã — e, assim, existe pouca coisa que o
indivíduo passa fazer hoje para assegurar o atingimento dos resultados que
ele ou ela deseja manter amanhã. Viver em um Risikogesellschaft (o termo,
extremamente apropriado, cunhado por Ulrich Beck), podemos dizer,
repercute na experiência pessoal como Risikoleben. Como o exprimem
Ulrich Beck e Elisabeth Beck Gernsheim, “as certezas fragmentaram-se em
perguntas que estão agora rodopiando na cabeça das pessoas. Porém, é mais
do que isso. A ação social necessita de rotinas em que seja sancionada.”
Mas é
precisamente esse nível de “habitualizações coletivas”, pré-conscientes, de questões tidas
por certas que está subdividindo-se num grande número de possibilidades a serem
ponderadas e negociadas. A camada profunda de decisões excluídas está sendo forçada
para cima até o nível de tomada de decisões. Daí a irritação, o incessante atrito da ferida
aberta — e a reação defensiva, e agressiva (…) A vida perde o seu caráter evidente por si
mesmo. 3
Ao tentar apreender a identidade enfurecidamente evasiva, exigida com
o mesmo poder sobre-humano com que é negada, os indivíduos travam uma
batalha perdida. Daí a irritação que interrompe e envenena as alegrias de
seus sucessivos avatares. O que torna ainda mais vaga a perspectiva de uma
cura completa é o fato de que os indivíduos, dilacerados entre a liberdade
inebriante e a incerteza aterrorizadora, almejam o impossível. Eles querem
nada menos do que desfrutar de duas vantagens — saborear e exercer sua
liberdade de escolha ao mesmo tempo que têm o “final feliz” garantido e os
resultados assegurados. Seja qual for o nome que selecionem para dar à sua
preocupação, o que os indivíduos verdadeiramente ressentem é o risco inato
à liberdade. Seja como for que descrevam seus sonhos, o que eles almejam
é uma liberdade livre de riscos. A dificuldade, porém, é que a liberdade e o risco aumentam e diminuem somente em conjunto. Assim, a solução
definitiva para o transe do indivíduo moderno não tem probabilidades de
ocorrer.
De outro lado, sobejam pseudo-soluções, graças a uma inesgotável
necessidade de endireitar o laço retorcido de dores e desejos contraditórios.
Às vezes, quando a contínua incerteza é, dramaticamente, empurrada um ou
dois furos adiante, o sonho da segurança caseira predomina sobre o fascínio
da aventura. Isso aconteceu no começo da moderna reestruturação de
estruturas e da reavaliação de valores, preparando o caminho para o êxito
inicial da promessa nacionalista de tranqüilidade caseira. Isso está
acontecendo novamente hoje, com o começo da etapa pós-moderna da
revolução moderna — com a mudança radical nas regras segundo as quais o
jogo da sobrevivência é disputado, com a completa redefinição de todas as
habilidades especiais adquiridas e do significado da habilidade como tal,
com o repúdio dos padrões habituais de parceria e a desvalorização do
conhecimento social que esse padrão requeria — e está preparando o
caminho para a súbita popularidade do comunitarismo, esse “nacionalismo
de segunda”.
Reconhecidamente, o nacionalismo à moda antiga está longe de haver
completado a sua trajetória, particularmente no mundo pós-colonial, na
África ou na Europa oriental, entre os escombros deixados pelos
desmoronantes impérios capitalista ou comunista de igual modo. Ali, a
noção de uma nação que fornece um lar para os perdidos e confusos ainda é
recente e, acima de tudo, não experimentada. Tudo está no futuro (ainda que
o nacionalismo, exatamente como o comunitarismo, empregue com gosto a
linguagem da herança, raízes e passado compartilhado) e o futuro é o lugar
natural para se investirem as esperanças e anseios. Para a Europa (com
exceção de sua parte atualmente pós-colonial), de outro lado, o
nacionalismo, juntamente com sua realização máxima, o estado-nação,
situa-se positivamente no passado. Ele não conseguiu resolver no passado o
que mais uma vez deve ser resolvido agora, e seria tolice esperar que, na
segunda vez, atue melhor. A Europa sabe também o que o mundo pós-
colonial não sabe ou com que não se importa muito: que, quanto mais as
obras do estado-nação se aproximam do ideal de alicerces sólidos e um lar
seguro, menos liberdade existe para se mover em torno ou para fora da casa,
e o ar no interior da casa fica espesso e viciado. Por essas e outras razões,
que tenho tentado explicar alhures,4 nada que os estados-nação da atualidade estão acostumados, capacitados ou dispostos a fazer parece
adequado à angústia da incerteza que devora as reservas psíquicas do
indivíduo pós-moderno.
Em tais circunstâncias, o que torna tão atraentes as visões de
“comunidade natural” evocadas em obras comunitárias é, acima de tudo, o
fato de que ela foi imaginada independentemente do estado e mesmo em
oposição a ele. Dá a impressão de que o estado, refletindo os sentimentos
populares, foi abandonado pelos filósofos comunitários ao lado “gerador de
riscos” da existência humana: ele cuida da liberdade mas, ao fazê-lo, deixa
os indivíduos entregues a seus recursos manifestamente inadequados, na
luta para navegar entre os riscos da liberdade, a fim de chegar ao porto da
“escolha significativa”. Como outrora a nação, do mesmo modo agora a
“comunidade natural” simboliza esse sonho de um porto seguro. Esse porto
está situado longe dos itinerários explorados, havendo sido removido para
locais que os marinheiros solitários foram dissuadidos de visitar. Por mais
sôfregos que estejam os comunitários de “enraizar” tais locais num genuíno
ou inventado passado pré-moderno, é o moderno espírito de aventura, de
explorar o inexplorado, de experimentar o não experimentado, que os torna
atraentes tanto para os filósofos como para seus leitores. Talvez desta vez…
Espera-se que a “comunidade” dos filósofos comunitários encante e
atraia pela mesma razão que as nações dos filósofos nacionalistas outrora o
fizeram: por seu aconchego caseiro, pela promessa de apoio e compreensão
mútuos, harmonia de interesses, unidade de aspirações. Mais uma vez, o
dilema tão antigo quanto a própria modernidade é negligenciado ou
atenuado:
• ou a “comunidade” é um resultado de escolhas individuais,
uma entidade constituída e livremente escolhida (nas palavras
de Roberto Unger — “fortuita, forjada, colada” como o
resultado de coalizões imprevisíveis, conseqüências
imprevistas e oportunidades perdidas)5 e, portanto, a sua
própria existência e as escolhas que sustentam essa existência
são irremediavelmente sobrecarregadas com as mesmas
ansiedades de correr riscos que todos os outros aspectos da
vida das pessoas completamente individualizadas, que agem
sob a condição de incerteza permanente;
• ou essa “comunidade” precede toda escolha, no sentido de
predispor a priori os indivíduos a permanecerem fiéis a seus
valores e preceitos comportamentais (mediante doutrinação,
treinamento, controle) — e, assim, a associação à comunidade
entra em conflito direto com a liberdade individual de
autoconstituição, auto-afirmação e autodefinição.
Esse dilema assinala uma situação. O valor adquirido e acalentado
necessita ser sacrificado, a fim de obter o valor perdido. Mas o aconchego
caseiro da não-escolha deve seu fascínio exclusivamente aos contratempos
da liberdade cotidiana. Sem essa liberdade, a difícil situação da não-escolha
tem toda a atração da vida na prisão.
Esse dilema permanece hoje tão genuíno e não resolvido quanto sempre
o foi e nenhuma argumentação, seja em que quantidade for, tem
probabilidades de fazer a quadratura desse específico círculo. Ele preocupa
os filósofos, mas também satura a experiência do indivíduo pós-moderno
reiterada, cotidianamente, num mundo que é fragmentado, episódico e
hostil à ação constante e conseqüente; o indivíduo sobrecarregado com a
tarefa de escolhas cotidianas e a tarefa cotidiana de “confirmar” e validar as
escolhas entre a cacofonia de ideais e preceitos contraditórios e efêmeros.
Tal experiência gera uma necessidade aguda de restabelecer a confiança, o
que na sociedade contemporânea é procurado em dois tipos de autoridade
— a autoridade dos especialistas, ou a autoridade dos números.
Existe hoje uma proliferação de analistas, conselheiros e consultores que
se refestelam na glória da “última palavra” da ciência, assim como dos
manuais de autodidatismo que escrevem. Sua mensagem global é: “Escolha,
mas escolha inteligentemente.” E há o restabelecimento da confiança
extraído do conhecimento de que muitos “outros como eu” compartilham a
minha difícil situação e escolhem “soluções” semelhantes para “problemas”
semelhantes. Aí, a mensagem é: “Escolha o que outros escolheram e você
não pode errar.” Entre si, as duas autoridades traçam uma linha que separa
os tormentos da individualidade da agonia da loucura.
É a procura do segundo tipo de autoridade, a dos números, que
sedimenta as “neotribos” (ou, mais precisamente, tribos postuladas) —
conjuntos que, no cômputo final (e ao contrário de sua promessa),
raramente revelam ser mais do que a soma de suas partes, e cuja imputada
autoridade é medida pela determinação de cada parte para compor os totais. Tais “neotribos” são resultados de escolhas múltiplas e não são mais
duradouras do que as escolhas que as compuseram — isto é, contanto que
os que escolhem conservem a sua liberdade de escolher, de modo que
estejam livres para anular sua decisão, quando surgir essa necessidade. As
neotribos, evocadas com a intenção de conferir àquelas escolhas essa
firmeza de que os que escolhem sentem intensa falta, participam da
inconseqüência das escolhas e mudam pouco no espisodismo da vida de
quem escolhe.
Esses são os problemas que assediam aqueles que estão em condição de
escolher. A liberdade de escolha é, no entanto, um atributo graduado.
Realmente, ela tornou-se uma variável estratificadora importante
(controvertivelmente, a principal) em nossa sociedade
multidimensionalmente estratificada. Na sociedade pós-moderna e de
consumo, escolher é o destino de todos, mas os limites de escolhas realistas
diferem e também diferem os estoques de recursos necessários para fazê-
las. É a responsabilidade individual pela escolha que é igualmente
distribuída, não os meios individualmente possuídos para agir de acordo
com essa responsabilidade. Sabidamente, lançar a todos igualmente na
situação de “quem escolhe por necessidade” não estimula a igualdade da
capacidade prática de escolher. Ao que nos é dado supor, o efeito é
exatamente o oposto. Como salientou Jerzy Jedlicki, o que a visão liberal
do universal e igualmente concedido direito de escolha não conseguiu levar
em conta é que “acrescentar liberdade de ação à desigualdade fundamental
da condição social resultará em desigualdade ainda mais profunda do que
antes”.6 O que a sociedade liberal oferece com uma das mãos ela tende a
retirar com a outra. O dever da liberdade sem os recursos que permitem
uma escolha verdadeiramente livre é, para muitos, uma receita para a vida
sem dignidade, preenchida, em vez disso, com humilhação e
autodepreciação.
Esse é um problema demasiado real numa sociedade organizada em
torno de princípios liberais, e um problema que os comunitários pretendem
atacar e resolver. No entanto, o problema consiste em contrapor a
capacidade prática de escolher aos requisitos impostos aos indivíduos pela
necessidade de escolher, ao passo que os comunitários propõem, em vez
disso, sanar as penosas conseqüências da desproporção, não elevando os
direitos ao nível das possibilidades que a condição de liberdade acarreta in
potentia, mas convertendo em virtude as restrições impostas ao exercício do direito de escolher e, assim, dificultar ainda mais a efetivação desse
potencial de liberdade. Como tantas vezes na prática da engenharia social, o
remédio proposto tem toda possibilidade de tornar a enfermidade mais
grave.
“Os valores são mais importantes do que os direitos dos indivíduos”, ou
a tarefa da “sobrevivência” que deve ter primazia sobre habilitações
individuais, são lemas que agradam a consciência humanitária e têm todo
direito a importunar a complacência liberal, uma vez que procedem das
camadas excluídas, que se afligem com a falta da possibilidade de escolher
numa sociedade em que ser um indivíduo é equivalente a ser um livre
selecionador, mas em que a liberdade de escolha prática é um privilégio, e
uma vez que esses lemas são empregados como advertências de que a obra
de promoção da liberdade está longe de completa, e que a sua conclusão
exigirá fazer algo para retificar a atual distribuição de recursos, que priva
grandes setores de pretensos indivíduos do exercício da sua individualidade.
É, porém, demasiado fácil o fato de que, além de serem eficazes “pontos de
negociação” na luta legítima pela redistribuição de recursos a serviço da
liberdade individual, esses lemas trazem consigo uma proposta que, se
aceita acriticamente, terá exatamente o efeito oposto: a saber, a redução
dessa liberdade. Ronald Beiner chama corretamente a atenção para que, em
seu empenho para acomodar os postulados comunitários na promoção
liberal da liberdade, Kymlicka “não enfrenta plenamente e com decisão o
fato de que aquilo que está defendendo como uma herança inalienável do
liberalismo é a assistência a uma comunidade para rechaçar a liberalização
do seu modo de vida”. Recordamo-nos, de bom ou mau grado, da proposta
dos governantes soviéticos de que o objetivo comunista máximo da
abolição do estado devia ser atingido mediante o aumento radical do poder
coercitivo do estado. E recordamo-nos também das conseqüências desse
caso particular de acreditar simultaneamente em duas idéias contraditórias.
Com excessiva freqüência, os simpatizantes filosóficos em ambos os
lados da linha divisória liberal e comunitária são chantageados ou
intimidados a cortesmente fechar os olhos às realidades dessas “minorias”,
cuja causa são impelidos a defender por sua louvável solidariedade aos
abandonados e excluídos. Mas, com excessiva freqüência, a realidade,
quando contemplada de muito perto e sobretudo de dentro, parece muito
pouco sedutora. Na maioria das vezes, o postulado da “sobrevivência”
converte-se em uma aterradora arma de sujeição e tirania, empregada pelos guardiães às vezes aclamados, e mais freqüentemente autoproclamados, dos
valores tradicionais (étnicos, raciais, religiosos) da “comunidade”, a fim de
exigir reverência de seus infelizes tutelados e reprimir toda insinuação de
uma escolha autônoma. Os valores dos direitos e da liberdade, caros ao
coração liberal, são invocados para promover o rebaixamento dos direitos
individuais e a negação da liberdade. As “minorias” são produtos das
práticas iliberais do estado, mas estas são demasiado convenientes para
serem utilizadas a serviço das práticas iliberais dos “líderes da
comunidade”.
O comunitarismo não é um remédio para as falhas inerentes do
liberalismo. A contradição entre eles é genuína e não há ginástica filosófica
que possa saná-la. Tanto o comunitarismo quanto o liberalismo são
projeções de sonhos nascidos da contradição real inerente à difícil situação
dos indivíduos autônomos. Cada um é apenas uma projeção unilateral que,
a bem da própria coerência, tende a atenuar o fato de que nenhuma das
virtudes da difícil situação do indivíduo pode sobreviver à eliminação de
seus infortúnios. Em todas as circunstâncias, a vida do indivíduo autônomo
não pode deixar de ser atravessada entre os dois extremos igualmente sem
atrativos, e essa travessia requer que a liberdade seja aceita juntamente com
os riscos que acarreta. Passar ao largo da tentação de sacrificar a liberdade
em nome da condição livre de riscos é toda a possibilidade de vida
significativa e dignificada que os indivíduos humanos podem sensatamente
esperar, por mais que os filósofos façam para impedi-los de encarar essa
verdade.
OceanofPDF.com