O Mal-estar da Pós-Modernidade
XII. Imortalidade, na versão pós-moderna
XII
Imortalidade, na versão pós-moderna
Um homem livre pensa em tudo menos na morte, e sua sabedoria é uma
meditação não sobre a morte, mas sobre a vida.
Baruch Spinoza, Ética
Existe um conto extraordinário, O imortal,1 deixado pelo extraordinário
escritor argentino Jorge Luis Borges. Nesse conto, Joseph Cartaphilus de
Esmirna, após uma longa e árdua viagem, chega à Cidade dos Imortais.
Perambulando pelo palácio labiríntico que era a cidade, Joseph foi
dominado primeiro pela impressão de espantosa antigüidade, depois pela
impressão do interminável, do estarrecedor e, finalmente, pela do
“completamente insensato”. O palácio “estava repleto de corredores sem
saída, altas janelas inalcançáveis, imponentes portas que conduziam a um
cubículo ou buraco, inacreditáveis escadas invertidas cujos degraus e
balaustradas inclinavam-se para baixo. Outras escadas, unidas aereamente à
lateral da monumental parede, terminavam sem conduzir a parte alguma,
depois de dar duas ou três voltas na majestosa escuridão das cúpulas.” E
assim por diante. Nesse palácio, construído por imortais para imortais, nada
parecia ter sentido, nada servia a nenhuma finalidade — mas, permitam-nos
observar, em cada pormenor havia um vestígio, uma lembrança de formas
concebidas nas cidades habitadas por seres mortais e, desse modo, podia
expressar e brandir seu absurdo, desafiando com estardalhaço os fins para
que foi originalmente inventado. Essa deve ter sido uma cidade não de
quaisquer imortais, mas daqueles imortais que primeiro passaram pela
experiência de ser mortal, aprenderam as habilidades que refletiam tal
experiência e então, certo tempo depois, alcançaram a imortalidade.
Naquele momento, eles ainda sentiam a necessidade de expressar a
chocante descoberta de que tudo aprendido antes se tornou subitamente
inútil e destituído de significado. A essa altura, contudo, haviam abandonado até o palácio que construíram no momento da descoberta.
Joseph encontrou-os jazendo nas covas rasas da areia: “desses lamentáveis
buracos (…) emergiam homens barbudos e macilentos, de pele acinzentada
e nus. (…) Não me espantou que eles não conseguissem falar e que
devorassem serpentes.” Não era isso que Joseph, ao se aventurar na
expedição para escapar à própria e temida morte, esperava que ocorresse
num mundo regido pela bem-aventurança perpétua da vida eterna. Mas
então ele compreendeu:
Ser imortal é coisa comum. Com exceção do homem, todas as criaturas são imortais, pois
ignoram a morte. O que é divino, incompreensível, é saber que se é imortal. (…) Tudo,
dentre os mortais, tem o valor do irrecuperável e do perigoso. Dentre os Imortais, de outro
lado, todo ato (e todo pensamento) é o eco de outros que o precederam no passado, sem
nenhum início visível, ou o constante presságio de outros que, no futuro, o repetirão a um
grau vertiginoso. (…) Nada pode acontecer apenas uma vez, nada é preciosamente
precário.
As conclusões. são tão lúcidas quanto são esmagadoras: na vida humana,
tudo conta, porque os seres humanos são mortais e sabem disso. Tudo o que
os mortais humanos fazem tem sentido devido a esse conhecimento. Se a
morte algum dia fosse derrotada, não haveria mais sentido em todas aquelas
coisas que eles laboriosamente juntam, a fim de injetar algum propósito em
sua vida absurdamente breve. Essa cultura humana que conhecemos — as
artes, a política, a intricada teia de relações humanas, ciência ou tecnologia
— foi concebida no ponto do trágico, mas fatal, encontro entre o período
finito da existência física humana e a infinitude da vida espiritual humana.
O ponto crucial da questão é que o conhecimento da mortalidade
significa, ao mesmo tempo, o conhecimento da possibilidade de
imortalidade. Em conseqüência, não se pode estar ciente da mortalidade
sem encarar a inevitabilidade da morte como uma afronta e uma
indignidade, e sem pensar nas maneiras de corrigir o erro. Estar ciente da
mortalidade significa imaginar a imortalidade, sonhar com a imortalidade,
trabalhar com vistas à imortalidade — ainda que, como adverte Borges, seja
somente esse sonho que enche a vida de significado, enquanto a vida
imortal, se algum dia alcançada, traria somente a morte do significado.
Talvez, se indagado, Freud respondesse que o nosso perpétuo impulso em
direção à imortalidade é, em si, o efeito do instinto da morte… Ou poder-
se-ia falar, acompanhando Hegel, da astúcia da razão: ela consola os
mortais ao acenar-lhes com a perspectiva da imortalidade — mas só ao ocultar o fato de que unicamente enquanto permanecerem mortais a
perspectiva de imortalidade pode afigurar-se um consolo…
É a implacável realidade da morte que torna a imortalidade uma
proposta atraente, mas é a mesma realidade que torna o sonho da eternidade
uma força ativa, um motivo para ação. A imortalidade é, afinal, um
empreendimento — uma condição antinatural, que não surgirá por si
mesma, a não ser engabelada ou obrigada a existir. Realizar o sonho
exigiria muito esforço e estratégia inteligente. E a história humana estava
abarrotada de tais esforços, ditados por duas estratégias básicas.
A primeira era coletiva. Os seres humanos individuais são mortais, mas
não aquelas totalidades humanas de que eles fazem parte — a que
“pertencem”. A Igreja, a Nação, o Partido, a Causa — aqueles, para citar a
memorável expressão de Émile Durkheim, “seres maiores do que eu
mesmo” —, todos eles viverão muito mais do que qualquer de seus
membros, porém viverão mais, talvez até para sempre, exclusivamente
graças ao esforço de cada um e de todos os membros para assegurar-lhes a
vida eterna à custa da própria vida. Desse modo, foi concedido significado à
morte individual: “Não foi em vão.” Mas o significado é derivativo e não
augura preservação do indivíduo sob qualquer aspecto ou forma. A
preocupação com a imortalidade individual dissolve-se no empreendimento
de servir a imortalidade do grupo. Com isso, a própria individualidade
dissolve-se, o que ajuda imensamente o grupo, em seus incessantes esforços
para subordinar preocupações individuais da vida ao que for declarado do
interesse da sobrevivência do grupo. Os túmulos de soldados
desconhecidos, que ornamentam todas as capitais do mundo, sintetizam o
ponto essencial dessa estratégia, visando ao mesmo tempo o seu contínuo
fascínio.
A segunda estratégia era individual. Fisicamente, todos os indivíduos
devem morrer — mas alguns (homens qualificados como “importantes” por
essa mesma razão) podem ser preservados, como indivíduos, na memória
de seus sucessores. Essa outra vida póstuma pode, em princípio, durar tanto
quanto existirem homens com memória. Mas é necessário que a pessoa se
faça gravar nessa memória: por intermédio dos seus feitos,
inconfundivelmente feitos individuais, feitos que ninguém mais realizou.
De um modo geral, embora não exclusivamente, dois tipos de feitos
estiveram em competição por essa espécie de imortalidade — isto é, para
reivindicar o direito de permanecer para sempre na memória humana. Os primeiros eram realizações de governantes e líderes de homens — reis,
legisladores, generais; os segundos eram empreendimentos de autores —
filósofos, poetas, artistas. Nas palavras colocadas por Platão na boca de
Sócrates, “a alma é extremamente semelhante ao divino e imortal” e, em
conseqüência, “na família dos deuses, a menos que se seja um filósofo (…)
não é permitido a ninguém entrar, exceto o amante do estudo”.2
Ao contrário da primeira estratégia, a segunda era particularmente
inadequada para o consumo de massa. Ela era vinculada ao status de
individualidade como privilégio, como a realização do inigualavelmente
dotado, extraordinariamente meritório ou, sob outros aspectos, excepcional.
Era uma tal individualidade que oferecia a chave mestra para a
imortalidade, mas algumas pessoas conseguiram ascender a essa
individualidade somente porque as outras, a multidão, “a massa”, nunca o
fizeram e nunca tiveram uma possibilidade de fazê-lo. Obter a imortalidade
segundo as regras dessa estratégia significava destacar-se da aglomeração e
acima do comum. (Já em Platão, o elogio dos filósofos era subscrito pelo
desprezo e depreciação daqueles que alegadamente viviam só da carne.)
Não obstante as suas nítidas diferenças, nenhuma das duas estratégias
poderia sair incólume da revolução moderna, que Michel Foucault
descreveu como, antes de tudo, o entrincheiramento do poder
individualizante, o poder que em princípio constituiu todos os seus objetos
como indivíduos, empregando técnicas de poder que exigiam que a
responsabilidade individual pela formação e exercício das identidades fosse,
simultaneamente, o direito e dever de todos, e que providenciaram para que
a exigência fosse cumprida.3 A modernidade era uma força democrática
(populista?) — ao transformar todos os seres humanos em indivíduos de
facto ou in spe. Mas a fórmula da imortalidade coletiva requeria a supressão
da individualidade, ao passo que a fórmula da imortalidade individual
somente tinha sentido enquanto a individualidade permanecesse o privilégio
dos poucos.
A democracia não era o único desafio que a ascensão da modernidade
lançava aos habituais meios humanos de enfrentar o sonho da imortalidade.
O humanismo moderno era outro. Como resumiu John Carroll em sua
recente reavaliação do legado humanista, “ele tentou substituir Deus pelo
homem, colocar o homem no centro do universo, divinizá-lo. Sua ambição
era instituir uma ordem humana na terra (…) — uma ordem inteiramente
humana.” O novo ponto de Arquimedes sobre o qual a Terra, e com ela o universo, giraria, devia ser a vontade humana, auxiliada e apoiada pela
razão humana. Como se verificou, porém, “a vontade humanista atrofiou-se
até o nada”, de modo que o altivo e arrogante “eu sou” “degenerou naquele
de um inválido crônico que acompanha a vida da janela do hospital”.4
Como isso sucedeu?
MORTE, MODERNA E PÓS-MODERNA
Na ordem divina, a cruciante discrepância entre a intemporalidade do
pensamento e a temporalidade da carne era uma indignidade, mas não uma
provocação, uma causa de dor, mas não de ressentimento. Podia até, embora
não sem a imaginação levada a seu limite, ser imbuída de um sentido mais
profundo, ou louvada como a fonte de todo significado. Não ocorria assim
na nova ordem humana. Ali, tudo devia servir aos planos e desejos
humanos, e tudo o que resistisse à razão e vontade humanas, ou as
desafiasse, era uma abominação. A incomensurabilidade dos períodos de
tempo intelectual e físico, e a morte biológica responsável por ela, tornou-se
então um desafio à inteligência e determinação humanas. Em um mundo
fundamentado na promessa de liberdade para os poderes criativos humanos,
a inevitabilidade da morte biológica era a mais obstinada e sinistra das
ameaças que pairava sobre a credibilidade dessa promessa e, assim, sobre o
fundamento desse mundo.
Ao acompanhar os meios da prática moderna, que sempre tende a dividir
questões grandes e difíceis de tratar em uma série de tarefas menores e
acessíveis, a apavorante e incontestável questão da morte biológica,
assomando na extremidade oposta das buscas humanas, foi, na época
moderna, repartida — desconstruída — em uma profusão de tarefas e
assuntos que preenchem o período total da vida. A modernidade não aboliu
a morte — somos tão mortais atualmente quanto o éramos no início da era
da “ordem humana”. Ela, porém, trouxe enormes avanços na arte de repelir
toda e qualquer causa de morte (isto é, exceto a causa de todas as causas,
que é a própria e inata mortalidade humana) — e impedir que tais causas
ocorram. Ocupados como estamos, tentando observar todas as prescrições e
proscrições que a medicina moderna propõe, pensamos menos, se tanto, na
vaidade suprema dessa observância. O resultado da desconstrução é que o
inimigo invisível, a morte, desapareceu de vista, e do discurso. No entanto, o preço da desconstrução é a vida policiada do princípio ao fim pelas
guarnições ubíquas do inimigo banido. Havendo recusado enfrentar com
coragem a incompatibilidade da promessa moderna com o fato da
mortalidade humana, tornamo-nos de fato, pelo menos temporariamente,
“inválidos acompanhando a vida das janelas do hospital”.
Temporariamente, ou para sempre? Este é, reconhecidamente, um
problema discutível e que eu, um estranho tanto à clínica médica quanto a
ousados projetos biológicos, alguém que não sabe mais sobre o atual e o
esperado potencial de recentes processos biotecnológicos do que um leigo
poderia ou deveria saber, não tenho credenciais para apreciar. Tenho pouco,
se tanto, a dizer acerca das perguntas cruciais de que depende a resposta ao
problema acima: o progresso do conhecimento biológico e da técnica
médica tem probabilidade de avançar além da suspensão do processo de
envelhecimento e chegar a obstar a, até então, inevitável investida dos
processos de desintegração da vida? Ele é, em outras palavras, capaz de
efetuar um salto qualitativo de meramente prolongar a vida — isto é, de
adiar o momento em que a pessoa se depara com a morte, quanto ao mais,
inelutável — para o rebaixamento da ocorrência da morte, de seu atual
status de destino inevitável, para aquele de contingência (isto é, atingir a
imortalidade prática)? Deixo essas perguntas para os especialistas. Farei
uma pergunta diferente: de que forma as descobertas no campo da
“imortalidade prática” têm probabilidades de se acomodarem dentro do tipo
de sociedade em que estamos? E, portanto, quais são os seus prováveis
significado e conseqüências culturais?
A nossa sociedade “moderna tardia” (Giddens), “moderna reflexiva”
(Beck), “surmoderne” (Balandier), ou — como prefiro denominá-la — pós-
moderna é marcada pelo descrédito, escárnio ou justa desistência de muitas
ambições (atualmente denegridas como utópicas ou condenadas como
totalitárias) características da era moderna. Dentre tais sonhos modernos
abandonados e desesperançados, está a perspectiva de suprimir as
desigualdades socialmente geradas, de garantir a todo indivíduo humano
uma possibilidade igual de acesso a tudo de bom e desejável que a
sociedade possa oferecer. Mais uma vez, tal como nas etapas iniciais da
revolução moderna, vivemos numa sociedade cada vez mais polarizada.
Ao longo do período moderno, tendeu-se a definir a exclusão social
como um soluço temporário no progresso uniforme e implacável, sob outros
aspectos, em direção à igualdade. Ela era minimizada pelo mau funcionamento ainda não corrigido, mas em princípio corrigível, do sistema
social não suficientemente racionalizado. Os desempregados e sem
vencimentos eram encarados como o “exército de reserva da mão-de-obra”
— o que significava que amanhã, ou no dia seguinte, seriam sem dúvida
convocados ao serviço ativo e se juntariam às fileiras de produtores que, em
princípio, compreenderiam toda a sociedade. Esse não é mais o caso.
Falamos hoje em desemprego “estrutural” (um termo que ainda,
contrariamente aos fatos, alude ao emprego como sendo a norma e dá a
entender que a atual falta maciça de emprego é uma anomalia). Aqueles
sem trabalho não são mais um “exército de reserva da mão-de-obra”: o
progresso econômico não significa mais procura de mão-de-obra; o novo
investimento significa menos, não mais emprego; a “racionalização”
significa reduzir postos de trabalho e colocações. Pode-se dizer que, na
extremidade oposta do espetacular avanço científico e tecnológico, o
“crescimento” do PNB passa a medir a produção maciça de redundância e
pessoas redundantes. Essas pessoas são mantidas vivas mediante o que a
estrutura da nossa economia define, com mais do que uma insinuação da
condenação que toda anormalidade merece, como “transferências
secundárias” — a dependência que as estigmatiza como um fardo para os
assalariados, para os ativamente envolvidos na vida econômica, para os
“contribuintes”. Não requeridas como produtoras, inúteis como
consumidoras — elas são pessoas que a “economia”, com sua lógica de
suscitar necessidades e satisfazer necessidades, poderia muito bem
dispensar. O fato de estarem por perto e reivindicarem o direito à
sobrevivência é um aborrecimento para o restante de nós. Sua presença não
poderia mais ser justificada em função da competitividade, eficiência ou
quaisquer outros critérios legitimados pela razão econômica dominante.
Não há emprego suficientemente significativo para todas essas pessoas
vivas e não há muita perspectiva de, algum dia, equiparar o volume de
trabalho com a multidão daqueles que o querem e o necessitam para escapar
à rede de “transferências secundárias” e ao estigma a ela associado.
Seria insensato — talvez ingênuo, mas certamente arriscado — excluir a
possibilidade de uma ligação estreita entre a premonição de redundância
orgânica e os atuais sinais de reavaliação da nova vida e longa vida.
Vivemos na época do temor demográfico. Se, durante a era da modernidade
do Sturm und Drang, um elevado índice de natalidade era considerado um
sinal de “saúde da nação” e “mais pessoas” significava mais riqueza e poder, atualmente ambos são receados como uma ameaça à bem-
aventurança dos consumidores e como um imposto exasperante sobre
“recursos limitados”. Cada vez mais, as pessoas são registradas na coluna
de débito, não na de crédito, do cálculo econômico. Seria realmente
estranho se não houvesse vínculo entre a desvalorização econômica dos
totais humanos, com a redundância inerente da população, e a tendência
cultural, cada vez mais acentuada, de recusar a vontade do direito de viver
àqueles que são demasiado fracos ou insignificantes para exigir e assegurar
esse direito. Para qualquer estudioso sério da cultura, seria ingênuo aceitar
pelo valor nominal as justificativas culturalmente ordenadas de padrões
comportamentais — que, como bem sabe qualquer estudioso sério da
cultura, servem para esconder, em vez de revelar, os verdadeiros motivos e
razões, a fim de atenuar as contradições entre os valores exaltados e o
comportamento praticado, assim como tornar aceitável o que os preceitos
culturais condenam explicitamente, mas a vida exige. E, assim, tendemos a
defender o aborto dos ainda não nascidos em função precisamente do
princípio humanitário do direito de escolher dos já nascidos; ou a eutanásia
dos velhos em função do direito de escolher a morte a uma espécie de vida
a que a sociedade recusou conferir significado. Mas, como nos recorda
Klaus Dörner,
Die meistein der heute lebenden alten Menschen, die sich quantitativ inflationieren und
dadurch entwerten, entwerten sich inzwischen auch qualitativ, indem sie im Falle der
Pflegebedürftigkeit nicht mehr leben wollen, weil sie es nicht mehr wert seien, sich von
Jüngeren abhängig zu machen und deren Genus ihrer Jugend zu beeinträchtigen. Daher
auch die Anziehungskraft der “Deutschen Gesellschaft für humanes Sterben” für alte und
chronisch kranke Menschen, die meinen freiwillig sich suizidieren zu müssen.5
É um paradoxo (ou talvez nem tanto um paradoxo, afinal) e ironia da
história (ou talvez não uma ironia, afinal) que um oferecimento realista (de
qualquer maneira, mais realista do que alguma vez antes) de imortalidade
biológica seja prometido pela ciência, numa época em que a mensagem
cultural é o excesso ou redundância de vida, e quando, por conseguinte, o
impedimento, a prevenção e limitação da vida se transforma em valor
culturalmente aprovado e incentivado. Sob essas circunstâncias, pode-se
supor que o oferecimento, se enfim se tornar não só realista mas real, seja
aceito seletivamente — e, assim, se torne outro fator, possivelmente o mais
poderoso que já existiu, estratificador e polarizador. Ao fazê-lo, apenas acompanhará a já visível tendência à “privatização” de tudo, inclusive da
possibilidade de sobrevivência ou de viver mais.
Com a tecnologia de transplante e substituição de órgãos, a ciência
médica contemporânea adquiriu meios eficientes para prolongar a vida.
Mas a própria natureza dessa tecnologia — acima de tudo, embora não
unicamente, o seu custo exorbitante — obsta a sua aplicação universal. O
acesso à vida mais longa já está tecnologicamente estratificado. Poder-se-ia
razoavelmente esperar que esses efeitos estratificadores se tornassem ainda
mais acentuados — uma vez que o prolongamento da vida cruza o limiar da
“imortalidade prática”. Numa inversão drástica da estratégia moderna de
sobrevivência “coletivizada”, a imortalidade biológica tem toda
possibilidade de se transformar em um fator e um atributo da
individualização — a conservação dos “mais merecedores”. Como outrora
foi o direito de viver eternamente na memória humana, o direito à
perpetuidade da existência biológica necessitaria ser obtido (ou herdado, no
que diz respeito a isso). É muito provável que se transforme na aposta mais
valorizada e cobiçada no jogo competitivo da auto-afirmação individual.
Um exame mais atento da cena cultural pós-moderna sugere fortemente
tal reviravolta nos acontecimentos. Para o consumo de massa, a nossa
cultura tem uma mensagem que, se tanto, desvaloriza ou dilui o sonho da
vida eterna, e isso mediante o exorcismo do horror da morte. Esse efeito é
alcançado por meio de duas estratégias aparentemente opostas, porém de
fato suplementares e convergentes. Uma é a estratégia de esconder de vista
a morte daqueles próximos à própria pessoa e expulsá-la da memória;
colocar os doentes terminais aos cuidados de profissionais; confinar os
velhos em guetos geriátricos muito antes de eles serem confiados ao
cemitério, esse protótipo de todos os guetos; transferir funerais para longe
de locais públicos; moderar a demonstração pública de luto e pesar; explicar
psicologicamente os sofrimentos da perda como casos de terapia e
problemas de personalidade. De outro lado, porém, como recentemente nos
lembrou Georges Balandier, a morte
se banalise par la prolifération des images; elle s’y insinue, surgit, puis s’efface. Autrefois,
la mort donnée à voir avait la qualité d’un spetacle édifiant. (…) aujourd’hui, elle devient
un moment médiatique, un événement qui libère une émotion fugace, vite affaiblie par son
“peu de réalité” pour ceux que l’observent. Cette omni-présence imagière, par quoi la mort
se galvaude, fait fonction d’exorcisme; elle la montre et la dissipe dans un même
mouvement, car il s’agit toujours d’une mort étrangère et lointane, celle des autres.6
A morte próxima de casa é dissimulada, enquanto a morte como um
transe humano universal, a morte dos anônimos e “generalizados” outros, é
exibida espalhafatosamente, convertida num espetáculo de rua nunca findo
que, não mais evento sagrado ou de carnaval, é apenas um dentre muitos
dos acessórios da vida diária. Assim banalizada, a morte torna-se
demasiado habitual para ser notada e excessivamente habitual para
despertar emoções intensas. É a coisa “usual”, excessivamente comum para
ser dramática e certamente demasiado comum para se ser dramático a
respeito. Seu horror é exorcizado pela sua onipresença, tornado ausente
pelo excesso de visibilidade, tornado ínfimo por ser ubíquo, silenciado pelo
barulho ensurdecedor. E, enquanto a morte se desvanece e posteriormente
desaparece pela banalização, assim também o investimento emocional e
volitivo no anseio por sua derrota…
É como se a multidão houvesse sido sub-reptícia, mas persistentemente,
treinada a não desejar o que é improvável que consiga de qualquer modo, a
não ambicionar a vida eterna quando — e se — ela se tornar viável. Tanto
aqueles elegíveis para a imortalidade pessoal quanto aqueles deixados para
trás concordariam que somente um determinado tipo de vida merece ser
prolongado para sempre — embora ambos os lados o aceitassem, um
conjeturaria, por diferentes razões e inspirado por uma experiência de vida
diferente. O tipo de sociedade com probabilidades de ser construída sobre
tal consenso não é muito difícil de imaginar, mas talvez demasiado
apavorante — por enquanto, isto é, em momento próximo demais às
ingênuas, mas emocionantes, ambições da civilização moderna e das
práticas da civilização pós-moderna.
IMORTALIDADE, MODERNA E PÓS-MODERNA
Como observamos antes, foi ela a única e original obra e ato que, durante a
maior parte da história humana, resultou na individualidade das condições
de autor e de agente, assegurando assim, ou se esperou que assegurasse, a
imortalidade do indivíduo como indivíduo — se bem que somente uma
imortalidade individual, composta de recordações e ritos comemorativos. A
modernidade fortaleceu e democratizou essa estratégia de imortalidade
individual, outrora disponível principalmente para príncipes e filósofos,
tornando-a acessível ao crescente número dos que exercem sempre novos ofícios e profissões. Contudo, o início da era nitidamente pós-moderna
coincidiu com a proclamação da “morte do autor”. De Roland Barthes e
Michel Foucault até Jacques Derrida e Jean Baudrillard, todos os
observadores mais perspicazes dos meandros da cultura contemporânea, e
fornecedores de suas mais influentes auto-interpretações, chamam a atenção
para o anonimato dos textos que se autodesdobram, para os quais os autores
perderam o seu outrora estimado acesso privilegiado, sendo privados, no
caminho, do seu anterior monopólio de elaboração do significado e da
interpretação.
Os mais meditativos e filosoficamente perspicazes artistas pós-
modernos, ao se esforçarem para representar o espírito e a tendência de sua
era em sua obra e nas técnicas com que as obras são executadas, mais do
que qualquer outra coisa retratam e expressam a ausência do “original”.
Compositores de discos populares gravam o que já foi gravado; Andy
Warhol pinta o que já foi pintado; Sherrie Levine fotografa o que já foi
fotografado; eles e muitos outros citam, cotejam, rearranjam, recompõem e,
acima de tudo, copiam e multiplicam as imagens já criadas, fazendo circular
a questão da autoria e originalidade, e providenciando para que a questão
não possa ser formulada novamente de nenhum modo significativo. Andy
Warhol deu-se ao trabalho de eliminar o “original” de seu processo artístico.
Desenvolveu técnicas que permitiam a criação de qualquer número de
cópias, mas impossibilitavam que se selecionasse qualquer uma delas como
a original ou a primeira.
Todos nós que confiamos nossos pensamentos a computadores, em vez
de a folhas manuscritas ou datilografadas, e interagimos com a tela,
incessantemente reescrevendo e reordenando o que escrevemos; sabemos
muitíssimo bem que cada versão seguinte torna as versões anteriores não-
existentes, apagando todos os traços do caminho que nos conduziu até onde
então estamos. A escrita em computador extinguiu a outrora sagrada idéia
da “versão original”. Os estudantes formados do próximo século sentirão
muita falta dos temas prediletos das dissertações deste século: reconstituir
as sucessivas etapas da luta do autor com os próprios pensamentos até o
“início”, até o ato original da inspiração, e assim recontar o drama da
criação individual. Assim, os computadores lançam uma sombra gigantesca
sobre a nossa imagem herdada do escritor como autor: o próprio nome do
programa que usamos para escrever não sugere um processador de palavras
em vez de um compositor de idéias, pensador e criador?
Em sua brilhante apreensão das conseqüências culturais da “Segunda
Era dos Meios de Comunicação”, que começou com o estabelecimento das
redes de computadores interligados, a Internet e a realidade virtual, Mark
Poster salienta que as palavras e imagens “procriam com indecente rapidez,
não arboreamente, (…) como numa fábrica centralizada, mas
rizomicamente, em qualquer localização descentrada. A mudança para uma
rede de comunicações descentralizada transforma os transmissores em
receptores, os produtores em consumidores, os governantes em governados
[e — permitam-me acrescentar — transforma os autores nos processadores
do material cada vez mais anônimo e órfão — Z.B.], perturbando a lógica
de entendimento da primeira era dos meios de comunicação.” Realmente,
quem “‘possui’ os direitos do texto dos quadros de aviso da Internet e, por
conseguinte, é responsável por ele: o autor, o operador do sistema, a
comunidade de participantes?”7 Ou, permitam-me acrescentar, o próprio
“sistema”, que certamente envolve todas essas pessoas, mas não pode ser
reduzido à vontade às intenções de nenhuma delas? Os direitos de
propriedade e reivindicações autorais perdem muito do seu sentido depois
que a informação foi liberada para se movimentar e se multiplicar, como se
por sua livre vontade e seu momento, na terra de ninguém do “espaço
cibernético”. Os operadores humanos não fazem parte desse momento. Eles
acionam processos que não comandam e quase nunca são capazes de
monitorar, quanto mais supervisionar. Ninguém controla a lógica desse
impulso cultural que ocorre no interior do espaço cibernético — que é
espaço cibernético. Como afirmou certa vez Jean Baudrillard, esse meio
interage unicamente consigo mesmo… “Os signos expandem-se, eles
concatenam-se e produzem a si mesmos, sempre um sobre o outro — de
modo que não existe absolutamente nenhuma referência básica que possa
sustentá-los.”8
O receptáculo em que a imortalidade dos feitos humanos individuais foi
armazenada para preservação foi a memória humana. O anseio por tornar o
receptáculo ainda mais seguro, e com capacidade suficiente para acomodar
a democratização da imortalidade individual, deve ter proporcionado um
poderoso ímpeto para a invenção e o desenvolvimento de computadores
como, acima de tudo, uma “memória artificial”. Mas o resultado não
inteiramente previsto desse anseio foi que o ser humano, sozinho dentre as
espécies (e não admira que ele esteja sozinho — uma vez que todas as
outras espécies são “imortais” por omissão, não por ação, graças a não se darem conta da sua mortalidade, em vez de por realizarem a tarefa da auto-
imortalização), “está buscando construir seu duplo imortal, uma espécie
artificial inaudita”. Uma conseqüência foi a substituição da imortalidade
dos vivos pela imortalidade de objetos mortos: “Ao visar à imortalidade
virtual (técnica) e garantir a sua exclusiva perpetuação por uma projeção em
artefatos, a espécie humana está precisamente perdendo a própria
imunidade e especificidade, e tornando-se imortalizada como uma espécie
inumana; está abolindo em si mesma a mortalidade dos vivos em favor da
imortalidade dos mortos.”9
Mas outra conseqüência foi a elevação desses “objetos mortos” a uma
espécie virtual, com suas próprias leis de evolução, seus indiscriminados
modelos de procriação, suas mutações, mutantes, vírus e imunidades, assim
como seus tropismos e mecanismos de assimilação, metabolismo e
adaptação. Ninguém controla essa nova espécie, nem mesmo a própria nova
espécie: o dispositivo inventado para extinguir a mais cruciante das
contingências tornou-se ele próprio, como todas as espécies, a contingência
encarnada. Programado para tornar a imortalidade humana segura, ele
emancipou o destino da imortalidade dos esforços humanos. Expropriou a
imortalidade dos indivíduos humanos que ansiavam por tornar as suas
façanhas individuais eternamente vivas. Em vez de garantir imortalidade
aos autores, ele aboliu a autoria da vida eterna. A imortalidade individual de
grandes atos e pensamentos seguiu o caminho da imortalidade coletivizada
do hoi polloi. Também a imortalidade dos indivíduos como indivíduos foi
então coletivizada. Entregue aos caprichos da espécie, alimenta-se da morte
do indivíduo. A imortal espécie dos computadores revelou-se uma grande
igualadora: não porque elevou todos às fileiras outrora reservadas
exclusivamente aos “grandes homens”, mas porque extinguiu a noção dos
“grandes homens” como uma categoria que tinha probabilidade de um tipo
de imortalidade diferente dos mortais comuns, aqueles a que era sempre
oferecida a imortalidade por procuração, mediante o sacrifício de suas vidas
no altar da espécie, ou de uma parte selecionada da espécie.
Com a capacidade infinita e o apetite insaciável da memória artificial,
ser registrado não é mais a recompensa dos poucos eleitos, nem
necessariamente o resultado do próprio empreendimento de alguém. Agora
todos têm a possibilidade e a probabilidade de ter o nome e registro de vida
conservados para sempre na memória artificial dos computadores. Pela
mesma razão, ninguém tem a possibilidade de obter um acesso privilegiado à comemoração perpétua. A fama, essa premonição da imortalidade, foi
suplantada pela notoriedade, essa imagem da contingência, infidelidade e
inconstância do destino. Quando todos podem ter um quinhão dos
refletores, ninguém permanece sob os refletores para sempre, mas
tampouco ninguém submerge para sempre na escuridão. A morte, a
irrevogável e irreversível ocorrência, foi suplantada pelo ato do
desaparecimento: os refletores movem-se para outro local, mas sempre
podem voltar-se, e de fato se voltam, para o outro lado. Os desaparecidos
estão temporariamente ausentes; não totalmente ausentes, porém — eles
estão tecnicamente presentes, armazenados em segurança no depósito da
memória artificial, sempre prontos a serem ressuscitados sem muita
dificuldade, e a qualquer momento.
Se a modernidade se esforçou para desconstruir a morte, em nossa época
pós-moderna é a vez de a imortalidade ser desconstruída. Mas o efeito
global é a obliteração da oposição entre morte e imortalidade, entre o
transitório e o duradouro. A imortalidade não é mais a transcendência da
mortalidade. É tão instável e extinguível quanto a própria vida, tão irreal
quanto se tornou a morte transformada no ato do desaparecimento: ambas
são receptivas à interminável ressurreição, mas nenhuma à finalidade.
Foi a consciência da morte que insuflou vida na história humana. Por
trás da ilimitada inventiva sedimentada na cultura humana, achava-se o
conhecimento da morte, que convertia a brevidade da vida numa ofensa à
dignidade humana — um desafio à inteligência humana, que requeria
transcendência, alargava a imaginação, incitava à ação. Sem conhecer a
morte, os animais vivem na imortalidade sem realmente se esforçar por
isso; os seres humanos devem merecer, conquistar, construir a sua
imortalidade. Eles enfim o conseguiram, mas somente ao ceder a
imortalidade a uma espécie artificial, vivendo a própria imortalidade como
uma realidade virtual. Com as oposições entre realidade e representação,
signo e significado, virtual e “real” progressivamente obliteradas, a
imortalidade técnica e virtual não se apoderaria do que a imortalidade
outrora possuiu como um empreendimento, como sonho irrealizado? A
nova imortalidade virtual e técnica, a imortalidade por procuração, não é
um desvio, um sinuoso retorno à imortalidade a priori, imortalidade por
desconhecimento da espécie não-humana (e inumana!)?
O conhecimento da morte é a tragédia especificamente humana.
Costumava ser também a fonte imperecível da grandeza especificamente humana, o móvel das melhores realizações humanas. Não sabemos se a
grandeza sobreviverá à tragédia; ainda não a experimentamos, não
estivemos aqui antes. O mundo que temos habitado até aqui está salpicado
pelas marcas e traços deixados pelos nossos esforços em escapar para a
imortalidade. Depois que obtivemos um equivalente eletrônico do retrato de
Dorian Gray, podemos ter conquistado para nós um mundo sem rugas, mas
também sem paisagem, história e objetivo. Bem podemos ter achado o
caminho para a Cidade dos Imortais de Jorge Luis Borges.
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