O Mal-estar da Pós-Modernidade
I. O sonho da pureza
I
O sonho da pureza
Os grandes crimes, freqüentemente, partem de grandes idéias. Poucas
grandes idéias se mostram completamente inocentes quando seus inspirados
seguidores tentam transformar a palavra em realidade — mas algumas
quase nunca podem ser abraçadas sem que os dentes se descubram e os
punhais se agucem. Entre esses tipos de idéia, ocupa posição privilegiada a
da visão da pureza.
“A Solução Final Alemã”, observou a escritora americana Cynthia
Ozick, “era uma solução estética; era uma tarefa de preparar um texto, era o
dedo do artista eliminando uma mancha; ela simplesmente aniquilava o que
era considerado não-harmonioso.”1 O psicólogo alemão Klaus Dörner
chama seus leitores a “die Nazis auch als Bürger zu sehen, die genauso wie
die Bürger vor und nach, ihre Antwort auf die Soziale Frage gesucht
haben”2 — a “questão social” cuja resposta eles procuravam sendo a
questão da “poluição”, da obstinada presença de pessoas que “não se
ajustavam”, que estavam “fora do lugar”, que “estragavam o quadro” — e,
quanto ao mais, ofendiam o senso esteticamente agradável e moralmente
tranqüilizador da harmonia. Nos primeiros anos da idade moderna, como
Michel Foucault nos lembrou, os loucos eram arrebanhados pelas
autoridades citadinas, amontoados dentro de Narrenschiffen (“naus dos
loucos”) e jogados ao mar; os loucos representavam “uma obscura
desordem, um caos movediço (…) que se opõe à estabilidade adulta e
luminosa da mente”; e o mar representava a água, que “leva deste mundo,
mas faz mais: purifica”.3
A pureza é um ideal, uma visão da condição que ainda precisa ser
criada, ou da que precisa ser diligentemente protegida contra as
disparidades genuínas ou imaginadas. Sem essa visão, tampouco o conceito
de pureza faz sentido, nem a distinção entre pureza e impureza pode ser sensivelmente delineada. Uma floresta, uma cadeia de montanhas, uma
campina, um oceano (a “natureza” em geral, distinta da cultura, o produto
humano) não são nem puros, nem impuros — isto é, até serem manchados
pelas sobras de um piquenique de domingo ou impregnados pelo refugo da
indústria química. A intervenção humana decididamente não suja a
natureza, e a torna imunda: ela insere na natureza a própria distinção entre
pureza e imundície, cria a própria possibilidade de uma determinada parte
do mundo natural ser “limpa” ou “suja”.
A pureza é uma visão das coisas colocadas em lugares diferentes dos que
elas ocupariam, se não fossem levadas a se mudar para outro,
impulsionadas, arrastadas ou incitadas; e é uma visão da ordem — isto é, de
uma situação em que cada coisa se acha em seu justo lugar e em nenhum
outro. Não há nenhum meio de pensar sobre a pureza sem ter uma imagem
da “ordem”, sem atribuir às coisas seus lugares “justos” e “convenientes”
— que ocorre serem aqueles lugares que elas não preencheriam
“naturalmente”, por sua livre vontade. O oposto da “pureza” — o sujo, o
imundo, os “agentes poluidores” — são coisas “fora do lugar”. Não são as
características intrínsecas das coisas que as transformam em “sujas”, mas
tão-somente sua localização e, mais precisamente, sua localização na ordem
de coisas idealizada pelos que procuram a pureza. As coisas que são “sujas”
num contexto podem tornar-se puras exatamente por serem colocadas num
outro lugar — e vice-versa. Sapatos magnificamente lustrados e brilhantes
tornam-se sujos quando colocados na mesa de refeições. Restituídos ao
monte dos sapatos, eles recuperam a prístina pureza. Uma omelete, uma
obra de arte culinária que dá água na boca quando no prato do jantar, torna-
se uma mancha nojenta quando derramada sobre o travesseiro.
Há, porém, coisas para as quais o “lugar certo” não foi reservado em
qualquer fragmento da ordem preparada pelo homem. Elas ficam “fora do
lugar” em toda a parte, isto é, em todos os lugares para os quais o modelo
da pureza tem sido destinado. O mundo dos que procuram a pureza é
simplesmente pequeno demais para acomodá-las. Ele não será suficiente
para mudá-las para outro lugar: será preciso livrar-se delas uma vez por
todas — queimá-las, envenená-las, despedaçá-las, passá-las a fio de espada.
Mais freqüentemente, estas são coisas móveis, coisas que não se cravarão
no lugar que lhes é designado, que trocam de lugar por sua livre vontade. A
dificuldade com essas coisas é que elas cruzarão as fronteiras, convidadas
ou não a isso. Elas controlam a sua própria localização, zombam, assim, dos esforços dos que procuram a pureza “para colocarem as coisas em seu
lugar” e, afinal, revelam a incurável fraqueza e instabilidade de todas as
acomodações. Baratas, moscas, aranhas ou camundongos, que em nenhum
momento podem resolver partilhar um lar com os seus moradores legais (e
humanos) sem pedir permissão aos donos, são por esse motivo, sempre e
potencialmente, hóspedes não convidados, que não podem, desse modo, ser
incorporados a qualquer imaginável esquema de pureza.
A situação torna-se ainda mais ameaçadora e exige ainda mais vigilância
no caso das coisas que não se movem decididamente por sua livre vontade
mas o fazem, além do mais, sem chamar atenção sobre si mesmas: elas
desafiam não exatamente o modelo de pureza, mas o próprio esforço de
protegê-lo, uma vez que, sem estar a par da invasão, não se sabe que chegou
a hora de agir e pode-se facilmente ser tranqüilizado pela ilusão de
segurança. Ácaros de tapete, bactérias e vírus pertencem a essa categoria de
coisas de que nada se acha a salvo, inclusive a busca mesma da salvação.
Os redatores de matéria publicitária para sabões em pó e produtos
detergentes percebem a diferença muito bem — prometendo ao futuro
freguês que aquilo poderá suprimir e destruir “a sujeira que você vê e os
germes que não vê”.
Do que até agora foi dito, podemos deduzir que o interesse pela pureza,
e o associado interesse pela “higiene” (isto é, manter a sujeira longe) tem
uma relação mais do que acidental com a fragilidade da ordem; com uma
situação em que sentimos não poder confiar na ordem cuidando dela
própria, não poder esperar que a ordem sobreviva à nossa complacência, à
nossa inteira inação a esse respeito, conforme seu próprio impulso.
“Ordem” significa um meio regular e estável para os nossos atos; um
mundo em que as probabilidades dos acontecimentos não estejam
distribuídas ao acaso, mas arrumadas numa hierarquia estrita — de modo
que certos acontecimentos sejam altamente prováveis, outros menos
prováveis, alguns virtualmente impossíveis. Só um meio como esse nós
realmente entendemos. Só nessas circunstâncias (segundo a definição de
Wittgenstein da compreensão) podemos realmente “saber como
prosseguir”. Só aí podemos selecionar apropriadamente os nossos atos —
isto é, com uma razoável esperança de que os resultados que temos em
mente serão de fato atingidos. Só aí podemos confiar nos hábitos e
expectativas que adquirimos no decorrer da nossa existência no mundo.
Nós, humanos, somos dotados de memória e de uma capacidade de aprender; por esse motivo, conferimos benefícios a uma “boa organização”
do mundo. Habilidades aprendidas para a ação constituem poderosos bens
num mundo estável e previsível; tornar-se-iam completamente suicidas,
todavia, se os acontecimentos viessem de súbito a se desviar das seqüências
causais, desafiando assim toda previsão e tomando-nos de surpresa.
Talvez ninguém explicasse melhor do que se ocupa todo esse rebuliço
em torno da pureza e de combate à sujeira do que a grande antropóloga
britânica Mary Douglas, em seu surpreendente livro Purity and Danger
(publicado pela primeira vez em 1966). A sujeira, sugeriu Douglas,
é essencialmente desordem. Não há nenhuma coisa que seja sujeira absoluta. Ela existe ao
olhar do observador. (…) A sujeira transgride a ordem. Eliminá-la não é um movimento
negativo, mas um esforço positivo para organizar o ambiente. (…)
Ao perseguir a sujeira, forrar, decorar, arrumar, não estamos dominados pela angústia de
fugir à doença, mas estamos, decididamente, reorganizando o nosso ambiente, adaptando-o
a uma idéia. Não há nada de temível ou irracional em evitarmos a sujeira: é um movimento
criativo, uma tentativa de relacionar a forma com a função, de dar unidade à experiência.
(…)
Para concluir, se o desasseio é coisa inapropriada, devemos atacá-lo através da ordem.
O desasseio ou a sujeira é o que não deve ser incluído se um padrão precisa ser mantido.4
Conforme a análise de Mary Douglas, o interesse pela pureza e a
obsessão com a luta contra a sujeira emergem como características
universais dos seres humanos: os modelos de pureza, os padrões a serem
conservados mudam de uma época para a outra, de uma cultura para a outra
— mas cada época e cada cultura tem um certo modelo de pureza e um
certo padrão ideal a serem mantidos intactos e incólumes às disparidades.
Da mesma forma, todas as preocupações com a pureza e a limpeza que
emergem dessa análise são essencialmente semelhantes. Varrer o assoalho e
estigmatizar os traidores ou expulsar os estranhos parecem provir do
mesmo motivo de preservação da ordem, de tornar ou conservar o ambiente
compreensível e propício à ação sensata. Isso bem pode ser assim, mas a
explicação em termos de tão largo espectro, universais e extratemporais,
não adianta muito para a avaliação de várias formas da busca de pureza do
ponto de vista de sua significação política e social e da gravidade de suas
conseqüências para o convívio humano.
Se concentramos a nossa atenção no último, observaremos
imediatamente que, entre as numerosas corporificações da “sujeira” capaz
de minar padrões, um caso — sociologicamente falando — é de importância muito especial e, na verdade, única: a saber, aquele em que são
outros seres humanos que são concebidos como um obstáculo para a
apropriada “organização do ambiente”; em que, em outras palavras, é uma
outra pessoa ou, mais especificamente, uma certa categoria de outra pessoa,
que se torna “sujeira” e é tratada como tal.
O criador da sociologia fenomenológica, Alfred Schütz,5 fez-nos
conscientes das características da vida humana que parecem óbvias no
momento em que são ressaltadas: de que, se nós, humanos, podemos “achar
nossas posições dentro do nosso ambiente natural e sociocultural e
chegamos a um acordo sobre isso”, é graças ao fato de que esse ambiente
foi “pré-selecionado e pré-interpretado (…) por uma série de constructos de
senso comum da realidade da vida diária”. Cada um de nós, em nossas
atividades diárias, e sem muito pensar a esse respeito, utiliza um número
tremendo de produtos dessa pré-seleção e pré-interpretação, que se unem
para o que Schütz chama de “fundo de conhecimentos à mão”. Sem tal
conhecimento, viver no mundo seria inconcebível. Nenhum de nós pode
construir o mundo das significações e sentidos a partir do nada: cada um
ingressa num mundo “pré-fabricado”, em que certas coisas são importantes
e outras não o são; em que as conveniências estabelecidas trazem certas
coisas para a luz e deixam outras na sombra. Acima de tudo, ingressamos
num mundo em que uma terrível quantidade de aspectos são óbvios a ponto
de já não serem conscientemente notados e não precisarem de nenhum
esforço ativo, nem mesmo o de decifrá-los, para estarem invisivelmente,
mas tangivelmente, presentes em tudo o que fazemos — dotando desse
modo os nossos atos, e as coisas sobre as quais agimos, de uma solidez de
“realidade”.
Entre os ingredientes tácitos, mas indispensáveis, do “fundo de
conhecimentos à mão”, essa sabedoria de senso comum que todos nós
recebemos, para usar as palavras schützianas, como uma prenda do “mundo
intersubjetivo da cultura”, dessa “arca do tesouro dos tipos feitos e pré-
constituídos”, o lugar de honra pertence à suposição de “perspectivas
recíprocas”. Aquilo em que acreditamos sem pensar (e, acima de tudo,
enquanto não pensamos a respeito) é que as nossas experiências são típicas
— ou seja, que quem quer que olhe para o objeto “lá fora” vê “o mesmo”
que nós, e que quem quer que aja obedece “aos mesmos” motivos que
conhecemos com a introspecção. Também acreditamos na “permutabilidade
de pontos de vista”; isto é, em que, se nos colocarmos no lugar de uma outra pessoa, veremos e sentiremos exatamente “o mesmo” que ela vê e
sente em sua posição presente — e em que essa façanha ou empatia pode
ser retribuída.
Essa suposição parece bastante direta e inócua, talvez mesmo
profundamente moral em suas conseqüências, já que ela postula a
semelhança essencial dos seres humanos e atribui aos outros, como sujeitos,
características exatamente peculiares à nossa própria subjetividade. E
todavia, para se manter firme, essa suposição de “perspectivas recíprocas”
deve-se basear num pressuposto ainda mais profundo: o de que não sou eu
exatamente quem assume a reciprocidade da perspectiva e se comporta em
conformidade com isso, mas de que essa própria suposição de reciprocidade
é retribuída. Se se levanta a suspeita de que este último não é verdadeiro,
então a construção de sólida rocha da segurança diária cai em pedaços. “Só
posso compreender os atos de outra pessoa”, diz Shütz, “se puder imaginar
que eu mesmo praticaria atos análogos caso estivesse na mesma situação,
regulada pelos mesmos motivos de por quê, ou orientada pelos mesmos
motivos de para quê — todas essas palavras compreendidas no mesmo
sentido restrito da ‘típica’ analogia, da ‘típica’ uniformidade (…).”6 O
inseparável corolário dessa habilidade de me imaginar o outro na minha
própria posição; a expectativa de que, se colocado na minha posição, o
outro pensaria e comportar-se-ia exatamente como eu… em outras palavras,
a idéia da unidade essencial entre mim e o outro, que a suposição da
reciprocidade de pontos de vista promove ostensivamente, precede mais do
que se segue a essa suposição. Para a suposição da nossa reciprocidade de
pontos de vista permanecer, primeiro devo aceitar de modo não
problemático a nossa mútua semelhança, a disposição do outro para pensar
e se comportar ao longo de diretrizes idênticas às minhas.
As receitas ligadas a situações de rotina que eu provavelmente
enfrentarei no curso da vida diária se juntam no que Max Scheler chamou
de relativnatürliche Weltanschauung. Armado com essas receitas, sinto-me
seguro. Para a maior parte das coisas que faço, e para todas as que faço
rotineiramente, elas oferecem um guia suficiente e de confiança. Elas têm
todo “o aspecto de uma suficiente coerência, clareza e solidez para dar a
qualquer pessoa uma oportunidade razoável de compreender e ser
compreendida”. Só ostentam, porém, essa qualidade saudável e maravilhosa
porque são “evidentes”, prosaicamente aceitas, sem muita reflexão — e
essa despreocupada situação só pode existir desde que ninguém ao redor comece a colocá-las em dúvida, pergunte sobre seus fundamentos e razões,
ressalte as discrepâncias, exponha a sua arbitrariedade. É por isso que a
chegada de um estranho tem o impacto de um terremoto… O estranho
despedaça a rocha sobre a qual repousa a segurança da vida diária. Ele vem
de longe; não partilha as suposições locais — e, desse modo, “torna-se
essencialmente o homem que deve colocar em questão quase tudo o que
parece ser inquestionável para os membros do grupo abordado”.7 Ele “tem
de” cometer esse ato perigoso e deplorável porque não tem nenhum status
dentro do grupo abordado que fizesse o padrão desse grupo parecer-lhe
“natural”, e porque, mesmo se tentasse dar o melhor de si, e fosse bem-
sucedido, para se comportar exteriormente da maneira exigida pelo padrão,
o grupo não lhe concederia o crédito da retribuição do seu ponto de vista.
Se a “sujeira” é um elemento que desafia o propósito dos esforços de
organização, e a sujeira automática, autolocomotora e autocondutora é um
elemento que desafia a própria possibilidade de esforços eficientes, então o
estranho é a verdadeira síntese desta última. Não é de surpreender que as
pessoas do lugar, em toda a parte e em todos os tempos, em seus frenéticos
esforços de separar, confinar, exilar ou destruir os estranhos, comparassem
os objetos da suas diligências aos animais nocivos e às bactérias. Não é de
surpreender, tampouco, que comparassem o significado de sua ação a
rotinas higiênicas; combateram os “estranhos”, convencidos de que
protegiam a saúde contra os portadores de doença.
É isso o que “as pessoas do lugar” (que, efetivamente, só podiam pensar
em si próprias como tal, e arvorar-se nisso, na medida em que se opusessem
a “estranhos” — isto é, a algumas outras pessoas que não fossem “pessoas
do lugar”) fizeram, deixem-me repetir, em toda a parte e em todos os
tempos. Mas, em certas situações, a preocupação com os estranhos assumiu
um papel particularmente importante entre as muitas atividades abrangidas
no cuidado diário da pureza, da renovação de um mundo habitável e
organizado. Isso aconteceu assim que o trabalho de purificação e
“colocação em ordem” se tornara uma atividade consciente e intencional,
quando fora concebido como uma tarefa, quando o objetivo de limpar, em
vez de se manter intacta a maneira como as coisas existiam, tornou-se
mudar a maneira como as coisas ontem costumavam ser, criar uma nova
ordem que desafiasse a presente; quando, em outras palavras, o cuidado
com a ordem significou a introdução de uma nova ordem, ainda por cima,
artificial — constituindo, por assim dizer, um novo começo. Essa grave mudança no status da ordem coincidiu com o advento da era moderna. De
fato, pode-se definir a modernidade como a época, ou o estilo de vida, em
que a colocação em ordem depende do desmantelamento da ordem
“tradicional”, herdada e recebida; em que “ser” significa um novo começo
permanente.
Cada ordem tem suas próprias desordens; cada modelo de pureza tem
sua própria sujeira que precisa ser varrida. Mas, numa ordem durável e
resistente, que se reserve o futuro e envolva ainda, entre outros pré-
requisitos, a proibição da mudança, até a ocupação de limpeza e varredura
são partes da ordem. Pertencem à rotina diária e, como a rotina de tudo,
tendem a repetir-se monotonamente, duma forma completamente
transformada em hábito e que torna a reflexão redundante. O que alcança o
nível da consciência e desperta a atenção não é tanto a rotina de eliminar a
sujeira quanto prevenir uma não-habitual e fortuita interrupção da rotina. O
cuidado com a pureza concentra-se não tanto no combate à “sujeira
primária” quanto na luta contra a “metassujeira” — contra afrouxar ou
negligenciar totalmente o esforço de manter as coisas como são… A
situação se altera drasticamente, todavia, quando organização significa o
desmantelamento da ordem existente e sua substituição por um novo
modelo de pureza. Agora, manter a pureza não pode reduzir-se à
manutenção da rotina diária; pior ainda, a própria rotina tem a terrível
tendência a se converter em “sujeira”, que precisa ser esmagada em nome
da nova pureza. No todo, o estado de “começo permanente” gera sempre
novos alvos, “aperfeiçoados”, de pureza e a cada novo alvo ficam de fora
novas categorias de “sujeira” — uma sujeira desconhecida e sem
precedentes. Aparece uma nova condição, em que até as coisas comuns e
tediosamente familiares podem converter-se em sujeira, em pouco tempo ou
sem se dar por isso. Com modelos de pureza que mudam demasiadamente
depressa para que as habilidades da purificação se dêem conta disso, já nada
parece seguro: a incerteza e a desconfiança governam a época.
Podemos dar um passo adiante e dizer que a “colocação em ordem”,
agora, se torna indistinguível da proclamação de sempre novas
“anormalidades”, traçando sempre novas linhas divisórias, identificando e
separando sempre novos “estranhos”. “Vizinhos do lado” inteiramente
familiares e sem nenhum problema podem da noite para o dia converter-se
em estranhos aterrorizantes, desde que uma nova ordem se idealiza;
inventa-se um novo jogo no qual é improvável os vizinhos de ontem competirem placidamente, pela simples razão de que a nova ordem está
prestes a transformá-los em estranhos e o novo jogo está prestes a eliminá-
los — “purificando o local”. Fazer alguma coisa em torno do estranho passa
a ser o verdadeiro centro das preocupações com a organização. Os estranhos
já não são rotina e, desse modo, os meios rotineiros de conservar as coisas
puras não são suficientes. Num mundo constantemente em movimento, a
angústia que se condensou no medo dos estranhos impregna a totalidade da
vida diária — preenche todo fragmento e toda ranhura da condição humana.
No mundo moderno, notoriamente instável e constante apenas em sua
hostilidade a qualquer coisa constante, a tentação de interromper o
movimento, de conduzir a perpétua mudança a uma pausa, de instalar uma
ordem segura contra todos os desafios futuros, torna-se esmagadora e
irresistível. Quase todas as fantasias modernas de um “mundo bom” foram
em tudo profundamente antimodernas, visto que visualizaram o fim da
história compreendida como um processo de mudança. Walter Benjamin
disse, da modernidade, que ela nasceu sob o signo do suicídio; Sigmund
Freud sugeriu que ela foi dirigida por Tânatos — o instinto da morte. As
utopias modernas diferiam em muitas de suas pormenorizadas prescrições,
mas todas elas concordavam em que o “mundo perfeito” seria um que
permanecesse para sempre idêntico a si mesmo, um mundo em que a
sabedoria hoje aprendida permaneceria sábia amanhã e depois de amanhã, e
em que as habilidades adquiridas pela vida conservariam sua utilidade para
sempre. O mundo retratado nas utopias era também, pelo que se esperava,
um mundo transparente — em que nada de obscuro ou impenetrável se
colocava no caminho do olhar; um mundo em que nada estragasse a
harmonia; nada “fora do lugar”; um mundo sem “sujeira”; um mundo sem
estranhos.
Não é surpreendente que em toda a idade moderna haja uma estrita
correlação entre a proporção, a radicalidade da “ordem nova e final”
imaginada, sonhada e experimentada na prática, e a paixão com que “o
problema dos estranhos” foi abordado, assim como a severidade do
tratamento dispensado aos estranhos. O que era “totalitário” nos programas
políticos totalitários, eles próprios fenômenos totalmente modernos, era,
mais do que algo além da abrangência da ordem que eles prometiam, a
determinação de não deixar nada ao acaso, a simplicidade das prescrições
de limpeza, e a meticulosidade com que eles atacaram a tarefa de remover
qualquer coisa que colidisse com o postulado da pureza. As ideologias totalitárias foram notáveis pela propensão a condensar o difuso, localizar o
indefinível, transformar o incontrolável num alvo a seu alcance e, por assim
dizer, à distância de uma bala. A angústia disseminada e ubíqua exalada
pelas ameaças igualmente disseminadas e ubíquas à amplitude e ao senso da
ordem foi, assim, estreitada e comprimida de maneira que pudesse ser
“manipulada” e profusamente repartida num único e direto procedimento. O
nazismo e o comunismo primaram por impelir a tendência totalitária a seu
extremo radical — o primeiro, condensando a complexidade do problema
da “pureza”, em sua forma moderna, no da pureza da raça, o segundo no da
pureza de classe. No entanto, os anseios e pendores totalitários também
tornaram sua presença visível, conquanto de uma forma levemente menos
radical, na tendência do estado nacional moderno como tal a escorar e
reforçar a uniformidade da cidadania do estado com a universalidade e
abrangência da filiação nacional.
Por motivos que analisei alhures,8 e que são complexos e numerosos
demais para serem registrados aqui, a tendência a coletivizar e centralizar as
atividades de “purificação” destinadas à preservação da pureza, enquanto de
modo algum extintas ou exauridas, em nosso tempo tendem a ser cada vez
mais substituídas pelas estratégias de desregulamentação e privatização. Por
um lado, observamos em muitos lugares uma crescente indiferença do
estado para com sua antiga tarefa de promover um modelo de ordem tanto
singular como abrangente, e a equanimidade sem precedentes com que a
presença conjunta de vários desses modelos é contemplada pelos poderes
vigentes. Por outro lado, pode-se distinguir o declínio do “impulso para
adiante” tão crucial para o espírito moderno, o afrouxamento da moderna
guerra de atrito empreendida contra a tradição, a falta de entusiasmo (ou
mesmo de ressentimento) pelos esquemas que tudo incluem da ordem
decretada e que promete colocar ou fixar tudo em seu lugar — e, na
verdade, o aparecimento do interesse sui generis conferido à diversificação
persistente, à subdeterminação, à “desordem” do mundo. Um número
sempre crescente de homens e mulheres pós-modernos, ao mesmo tempo
que de modo algum imunes ao medo de se perderem, e sempre ou tão
freqüentemente empolgados pelas repetidas ondas de “nostalgia”, acham a
infixidez de sua situação suficientemente atrativa para prevalecer sobre a
aflição da incerteza. Deleitam-se na busca de novas e ainda não apreciadas
experiências, são de bom grado seduzidos pelas propostas de aventura e, de
um modo geral, a qualquer fixação de compromisso, preferem ter opções abertas. Nessa mudança de disposição, são ajudados e favorecidos por um
mercado inteiramente organizado em torno da procura do consumidor e
vigorosamente interessado em manter essa procura permanentemente
insatisfeita, prevenindo, assim, a ossificação de quaisquer hábitos
adquiridos, e excitando o apetite dos consumidores para sensações cada vez
mais intensas e sempre novas experiências.
A conseqüência dessa transformação, mais relevante para o nosso tema,
foi bem captada por Georges Balandier: “Aujourd’hui, tout se brouille, les
frontières se déplacent, les catégories deviennent confuses. Les différences
perdent leur encadrement; elles se démultiplient, elles se trouvent presque à
l’état libre, disponibles pour la composition de nouvelles configurations,
mouvantes, combinables et manipulables.”9
As diferenças se amontoam umas sobre as outras, distinções
anteriormente não consideradas relevantes para o esquema global das coisas
e portanto invisíveis agora se impõem à tela do Lebenswelt. Diferenças
outrora consagradas como não-negociáveis são lançadas inesperadamente
no melting-pot ou se tornam objetos de disputa. Quadros de competição se
sobrepõem ou colidem, excluindo toda oportunidade de um mapa de
levantamento topográfico “oficial” e universalmente aglutinante. No
entanto, uma vez que cada esquema de pureza gera sua própria sujeira e
cada ordem gera seus próprios estranhos, preparando o estranho à sua
própria semelhança e medida — o estranho, agora, é tão resistente à fixação
como ao próprio espaço social: “L’Autre se révèle multiple, localisable
partout, changeant selon les circonstances.”10
Será que isso pressagia o fim do sacrifício e martírio do estranho, a
serviço da pureza? Não necessariamente, ao contrário de muitas apologias
da nova tolerância pós-moderna, ou mesmo de seu suposto amor à
diferença. No mundo pós-moderno de estilos e padrões de vida livremente
concorrentes, há ainda um severo teste de pureza que se requer seja
transposto por todo aquele que solicite ser ali admitido: tem de mostrar-se
capaz de ser seduzido pela infinita possibilidade e constante renovação
promovida pelo mercado consumidor, de se regozijar com a sorte de vestir e
despir identidades, de passar a vida na caça interminável de cada vez mais
intensas sensações e cada vez mais inebriante experiência. Nem todos
podem passar nessa prova. Aqueles que não podem são a “sujeira” da
pureza pós-moderna.
Uma vez que o critério da pureza é a aptidão de participar do jogo
consumista, os deixados fora como um “problema”, como a “sujeira” que
precisa ser removida, são consumidores falhos — pessoas incapazes de
responder aos atrativos do mercado consumidor porque lhes faltam os
recursos requeridos, pessoas incapazes de ser “indivíduos livres” conforme
o senso de “liberdade” definido em função do poder de escolha do
consumidor. São eles os novos “impuros”, que não se ajustam ao novo
esquema de pureza. Encarados a partir da nova perspectiva do mercado
consumidor, eles são redundantes — verdadeiramente “objetos fora do
lugar”.
O serviço de separar e eliminar esse refugo do consumismo é, como
tudo o mais no mundo pós-moderno, desregulamentado e privatizado. Os
centros comerciais e os supermercados, templos do novo credo consumista,
e os estádios, em que se disputa o jogo do consumismo, impedem a entrada
dos consumidores falhos a suas próprias custas, cercando-se de câmeras de
vigilância, alarmes eletrônicos e guardas fortemente armados; assim fazem
as comunidades onde os consumidores afortunados e felizes vivem e
desfrutam de suas novas liberdades; assim fazem os consumidores
individuais, encarando suas casas e seus carros como muralhas de fortalezas
permanentemente sitiadas.
Essas preocupações desregulamentadas, privatizadas e difusas com a
preservação da pureza da vida consumista também aparecem juntamente em
duas exigências políticas contraditórias, mas mutuamente corroboradoras,
dirigidas para o estado. Uma é a exigência, por parte dos livres
consumidores, de aumentar mais as liberdades do consumidor: privatizar-se
o uso dos recursos, reduzindo toda intervenção coletiva nos negócios
privados, desmantelando as coações politicamente impostas, cortando
tributos e despesas públicas. Outra exigência é a de negociar mais
energicamente com as conseqüências da primeira exigência: ao vir à tona,
no discurso público, com o nome de “lei e ordem”, essa segunda exigência
é sobre a prevenção do protesto igualmente desregulamentado e privatizado
das vítimas da desregulamentação e privatização. Aqueles que a expansão
da liberdade do consumidor privou das habilidades e poderes do
consumidor precisam ser detidos e mantidos em xeque. Como são um
sorvedouro dos fundos públicos e por isso, indiretamente, do “dinheiro dos
contribuintes”, eles precisam ser detidos e mantidos em xeque ao menor
custo possível. Se a remoção do refugo se mostra menos dispendiosa do que a reciclagem do refugo, deve ser-lhe dada a prioridade. Se é mais barato
excluir e encarcerar os consumidores falhos para evitar-lhes o mal, isso é
preferível ao restabelecimento de seu status de consumidores através de
uma previdente política de emprego conjugada com provisões ramificadas
de previdência. E mesmo os meios de exclusão e encarceramento precisam
ser “racionalizados”, de preferência submetidos à severa disciplina da
competição de mercado: que vença a oferta mais barata…
Neste esclarecedor estudo dos meios pelos quais a “defesa da lei e da
ordem” é hoje levada adiante nos países ricos, Nils Christie delineia o
seguinte quadro de pesadelo a que a tendência presente, se não detida,
provavelmente deve conduzir:
Não há quaisquer limites naturais. A indústria lá está. A capacidade lá está. Dois terços da
população terão um padrão de vida enormemente acima de qualquer um encontrado —
para tão amplas proporções de uma nação — em qualquer outra parte do mundo. Os meios
de comunicação de massa prosperam com relatos sobre os crimes cometidos pelo terço
restante da população. Governantes são eleitos com as promessas de manter o perigoso
terço atrás das grades. Por que isso deve vir a se interromper? Não há qualquer limite
natural para as mentes racionais. (…)
O pior pesadelo nunca se concretizará. A população perigosa não será exterminada, a
não ser aqueles assassinados pela punição do capital. Mas são grandes os riscos de que
aqueles considerados componentes fundamentais da população perigosa possam ser
confinados, armazenados, amontoados e obrigados a viver seus anos mais produtivos como
consumidores de controle. Isso pode ser feito democraticamente, e sob o controle estrito
das instituições legais.
“E os teóricos da criminologia e do direito”, observa Christie
melancolicamente, “estão ali dando uma mão de ajuda. Já ninguém acredita
em tratamento, mas a incapacitação tem sido uma das mais apreciadas
(…).”11 A preocupação dos nossos dias com a pureza do deleite pós-
moderno expressa-se na tendência cada vez mais acentuada a incriminar
seus problemas socialmente produzidos.
Que a ordem inteira tende a incriminar a resistência a ela própria e a pôr
fora da lei seus supostos ou genuínos inimigos é evidente até o plano da
trivialidade. O que é menos óbvio, conquanto pareça emergir do nosso
breve exame das formas que a busca da pureza vem ganhando nos tempos
modernos e pós-modernos, é que os objetos da excitação particularmente
intensa e zelosa de pôr fora da lei são as conseqüências radicais dos
próprios princípios constitutivos da ordem. A modernidade viveu num
estado de permanente guerra à tradição, legitimada pelo anseio de coletivizar o destino humano num plano mais alto e novo, que substituísse a
velha ordem remanescente, já esfalfada, por uma nova e melhor. Ela devia,
portanto, purificar-se daqueles que ameaçavam voltar sua intrínseca
irreverência contra os seus próprios princípios. Uma das mais inquietantes
“impurezas” na versão moderna da pureza eram os revolucionários, que o
espírito moderno tinha tudo para gerar: os revolucionários eram, afinal,
nada mais do que entusiastas da modernidade, os mais fiéis entre os crentes
da moderna revelação, ansiosos por extrair da mensagem as lições mais
radicais e estender o esforço de colocar em ordem além da fronteira do que
o mecanismo de colocar em ordem podia sustentar. A pós-modernidade, por
outro lado, vive num estado de permanente pressão para se despojar de toda
interferência coletiva no destino individual, para desregulamentar e
privatizar. Tende, pois, a fortalecer-se contra aqueles que — seguindo suas
intrínsecas tendências ao descompromisso, à indiferença e livre competição
— ameaçam exibir o potencial suicida da estratégia, ao estender sua
implementação ao último grau da lógica. A mais odiosa impureza da versão
pós-moderna da pureza não são os revolucionários, mas aqueles que ou
desrespeitam a lei, ou fazem a lei com suas próprias mãos — assaltantes,
gatunos, ladrões de carro e furtadores de loja, assim como seus alter egos
— os grupos de punição sumária e os terroristas. Novamente, eles não são
mais do que entusiastas da pós-modernidade, aprendizes vorazes e devotos
crentes da revelação pós-moderna, ávidos por levar as receitas de vida
sugeridas por aquela lição até sua conclusão radical.
A busca da pureza moderna expressou-se diariamente com a ação
punitiva contra as classes perigosas; a busca da pureza pós-moderna
expressa-se diariamente com a ação punitiva contra os moradores das ruas
pobres e das áreas urbanas proibidas, os vagabundos e indolentes. Em
ambos os casos, a “impureza” no centro da ação punitiva é a extremidade
da forma incentivada como pura; a extensão até os limites do que devia ter
sido, mas não podia ser, conservou-se em região fronteiriça; o produto-
refugo, não mais do que uma mutação desqualificada do produto, passou
como se fosse ao encontro dos modelos.
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