O Mal-estar da Pós-Modernidade
X. A cultura como consumidor cooperativo
X
A cultura como consumidor cooperativo
À medida que se desenvolvem e amadurecem, os conceitos começam a se
mover por conta própria e, às vezes, alcançam territórios bastante distantes
de seu local de origem. Eles vagueiam pelo passado, que os ignorava na
época em que era ainda presente. Ou fazem uma incursão ao futuro, que —
quem sabe? — pode, de igual modo, ignorá-los quando sobrevier, uma vez
que não os julgará úteis. Dá a impressão de que os conceitos nasceram
como plantas, firmemente enraizados no solo e sorvendo suas seivas —
mas, à medida que o tempo passou, desenvolveram pernas e principiaram a
busca de alimento mais farto e variado.
Na fase inicial de sua vida, semelhante à das plantas, os conceitos são o
que o solo e as circunstâncias da germinação lhes permitiram ser.
Impregnam-se do conteúdo do solo de que brotaram. (Os especialistas não
teriam dificuldade em determinar exatamente a localização de sua origem:
encontrarão em seu tecido os minerais típicos do lugar, ou os traços
duradouros das condições climáticas sob as quais ocorreu a germinação.)
Depois que os conceitos se desenvolvem, a direção e extensão de sua
viagem dependem inteiramente de outras coisas; no entanto, para onde quer
que se dirijam, carregarão consigo os seus sinais de nascença. Afinal,
vieram à luz só uma vez e somente num lugar. Em nenhum outro lugar e em
nenhum outro momento poderiam ter nascido.
O que para a planta é o teor mineral, a umidade e a insolação do solo, é
para o conceito a experiência dos seres humanos, em cujas mentes foi
concebido e em cujas conversas adquiriu uma forma reconhecível por
todos. Por “experiência” não queremos dizer apenas os acontecimentos que
se deram durante a vida das pessoas em questão — mas também (ou, antes,
primeiramente) como essas pessoas viveram durante esses acontecimentos,
como enfrentaram o desafio, que tipo de meios escolheram para lidar com
eles. E isso inclui os recursos de que dispunham ou tinham conhecimento
na época, e de que naturalmente tendiam a lançar mão, para pegar pelos
chifres o seu touro particular. Para exprimir resumidamente, mesmo as mais universais das noções nascem e adquirem forma na experiência particular
das pessoas vinculadas a lugar e tempo específicos.
A noção de cultura, nascida e configurada no terceiro quartel do século
XVIII (nos fecundos anos denominados por Kosseleck “o desfiladeiro da
montanha” — quando a filosofia da história, a antropologia e a estética,
todas reordenando em harmonia a visão do mundo em torno de idéias e
atividades humanas, igualmente nasciam), nos países que se achavam então
no limiar da modernidade, não foi uma exceção a essa regra geral.
Destinada a uma carreira universal, foi, todavia, concebida de uma
experiência específica de pessoas específicas que, por casualidade, viviam
em épocas específicas.
O francês civilisation, o alemão Bildung, o inglês refinement (as três
correntes discursivas destinadas a desembocar conjuntamente no leito do rio
do discurso cultural supranacional) eram todas denominações de atividades
(e, além disso, atividades intencionais). Informavam acerca do que tem sido
feito e do que devia ter sido feito ou deverá ser feito; falavam sobre um
esforço civilizador, sobre educação, aperfeiçoamento moral ou elevação do
gosto. Todos os três termos transmitiam o sentimento de ansiedade e o
ímpeto de fazer algo acerca de suas causas. Todos os três termos continham
a mesma mensagem, clara ou oculta: se deixarmos as coisas à sua sorte e
nos abstivermos de interferir no que as pessoas fazem quando se deixa que
ajam como entenderem, ocorrerão coisas demasiadamente horripilantes de
se contemplar; mas, se abordarmos as coisas com a razão e submetermos as
pessoas ao tipo correto de processo, temos todas as possibilidades de
construir um mundo excelente, nunca antes conhecido por seres humanos.
(Como resumiu Diderot, o teórico: ensinar às pessoas meios de se civilizar;
retire-se o conhecimento e as pessoas reduzir-se-ão ao estado de barbárie
primitiva. E, como expressou incisivamente Saint-Just, o praticante: as
pessoas são eternamente crianças.) Tem-se de fazer algo, imediatamente,
sem demora — e tem-se de continuar a fazê-lo sem parar —, nem por um
único momento a vigilância pode dar um cochilo. A ação, uma ação
combinada e ciente dos objetivos, é o único quebra-mar que protege as
pessoas da maré do caos. Somente por meio da “ação civilizadora” se pode
domar a besta do homem, tornar as pessoas diferentes do que são em seu
atual estado inferior e daquilo em que se transformariam, caso suas inatas
predisposições instintivas não fossem orientadas ou mantidas em xeque — se não fossem instruídas ou preparadas para se conduzir diversamente do
que são.
As idéias de tal ação, sua urgência e a determinação de empreendê-la,
fundiram-se na noção de cultura (para salientar novamente o sentido
“ativista” do termo, nítido na época em que foi cunhado, mas agora em
grande parte embotado e atenuado, seria melhor falar atualmente de
“refinamento”, “parcimônia” ou “civilidade”; o termo “cultura” entrou na
linguagem moderna por intermédio da comparação de Cícero de cultura
animi com agricultura). A necessidade externa de ação e a determinação
interna de agir proporcionaram conjuntamente a estrutura em que o mundo
era apreendido. A estrutura seccionou a visão do mundo, dividindo os seres
humanos em aqueles que fazem e aqueles que “são feitos”, os escultores e
os esculpidos, professores e alunos, os treinadores e os treinados, os guias e
os guiados. Tal divisão constituiu “as pessoas”, alternativamente, como a
turba selvagem açulada por instintos vis e incapaz de se controlar, sendo por
esse motivo tanto desnorteada quanto perigosa, ou como um diamante não
lapidado à espera das mãos hábeis do lapidador especializado, um minério
sem valor de que o professor ainda irá extrair o metal precioso que contém.
A mesma divisão constituiu os pensadores, os cultos, os instruídos como
professores, educadores e mentores morais — simultaneamente, os
domadores de animais selvagens e ourives magistrais. Por fim, constituiu o
mundo como o teatro do seu encontro: o reino da socialização, educação,
ensino e aprendizado.
A vida como o aprendizado de regras e a feitura do dever de casa, o
mundo como uma escola. Como mostrou Michel Foucault, contudo,
somente por sua função designada, e não por sua organização, estrutura e
valores presumidos, a escola (na sua forma moderna) diferiu da fábrica,
prisão, quartel militar, asilo para pobres, instituição de correção, albergue
ou hospital. Todas essas invenções modernas, a despeito de suas funções
designadas, eram também (e talvez acima de tudo) fábricas de ordem,
instalações industriais produzindo situações em que a regra substitui o
acaso e a norma ocupa o lugar da espontaneidade; situações, em que alguns
acontecimentos têm elevada probabilidade, enquanto outros são
virtualmente impossíveis. Para exprimir resumidamente, eram as fábricas
de situações previsíveis e, por conseguinte, controláveis. Todas essas
invenções modernas, além disso, empreenderam a tarefa de estabelecer a
ordem mais ou menos do mesmo modo: todas elas colocavam os pupilos sob a mira do diretor e supervisor, de quem se esperava que punisse as más
ações e recompensasse as boas; todas elas expunham os pupilos a pressões
e estímulos cuidadosamente escolhidos, ao mesmo tempo que tentavam
com empenho neutralizar todas as outras influências, não-planejadas e
desintegradoras. Todas elas, portanto, cuidavam da coerência e coesão das
condições, na esperança de que a unidade das circunstâncias resultasse na
uniformidade da conduta dos pupilos.
Podemos, portanto, ampliar mais a nossa sugestão: a noção de cultura
foi cunhada segundo o modelo da fábrica de ordem. Como no caso de
qualquer outra fábrica de ordem, o estado máximo que se considerava que a
cultura atingiria era o de um sistema, em que cada elemento tem uma
função a cumprir, em que nada é deixado ao acaso, nenhum elemento é
deixado sozinho, mas se ajusta, se combina e coopera com outro; em que
um choque entre os elementos só pode provir de um erro no planejamento
ou na construção, de desatenção ou deficiência; e que só tem lugar para
normas de conduta que desempenhem uma função útil na manutenção do
modelo de ordem concebido. A necessidade detém aí a prioridade
incontestada: em primeiro lugar surge a necessidade, depois a prescrição. É
possível, portanto, pelo menos em princípio, selecionar as regras (isto é, as
normas e padrões culturais) de maneira que melhor atendam às
necessidades já apresentadas e especificadas. É possível, além disso,
aperfeiçoar as regras existentes, considerando-se o conhecimento
progressivo dos professores.
Esses eram os notórios pontos principais da noção de cultura na época
em que foi cunhada, assim como as tácitas, mas incontestáveis,
pressuposições que a dotavam de sentido. Nem todos os pontos do
inventário acima passaram ilesos pelo teste do tempo. Relativamente cedo,
soçobrou a pressuposição de que somente um portão e uma única trilha
conduzem da “selvageria” à “condição civilizada”. A concepção
hierárquica original de cultura (a satisfação das necessidades humanas só
pode ser aperfeiçoada de um modo; a história humana é a narrativa desse
aperfeiçoamento; o termo “cultura” deve, portanto, ser usado somente no
singular) ainda não caiu inteiramente em desuso, mas aparece agora na
companhia de outro conceito diferencial (necessidades humanas
semelhantes devem ser satisfeitas de modos diferentes, não sendo um
forçosamente melhor do que os outros; cada cultura é, até certo ponto, um
produto da escolha arbitrária entre muitas possibilidades; é necessário, portanto, empregar o termo “cultura” no plural). De outro lado, porém, o
que se revelou radicalmente imune à passagem do tempo não foram tanto as
afirmações francas, quanto as pressuposições silenciosas que as
corroboravam. Em especial:
• que a cultura (no sentido de refinamento, aculturação) é uma
entidade ou processo estabelecedor de ordem;
• que, portanto, as normas promovidas ou instaladas por meio
da cultura são (ou pelo menos deviam ser) coerentes e não-
contraditórias, tal como a própria ordem; se acontece de não o
serem — essa é uma situação anormal e mórbida, que
necessita de corretivo e retificação;
• que, sendo a cultura um sistema coerente de prescrições e
proscrições, somente podem pertencer ao sistema as normas e
artefatos culturais que sejam indispensáveis à auto-reprodução
do sistema; se deparamos com uma norma ou um artefato,
temos então o direito a perguntar que papel isso desempenha
no sistema; se não conseguimos determinar-lhe uma função,
devemos presumir que a norma ou o artefato em questão é um
resíduo de um estado anterior do sistema, agora inútil e
destinado a desaparecer — ou uma inserção estranha,
desintegradora da engrenagem do sistema;
• que o sistema cultural possui uma “estrutura”, sendo uma
variedade impessoal da estrutura encontrada em todas as
“fábricas de ordem”: analogamente à mesa de controle ou aos
“objetivos da organização”, deve haver um “sistema de
valores centrais” no topo do sistema cultural — e tudo no
sistema, até a base, deve ser considerado a particularização e
aplicação de tais valores.
É assim que tendemos a pensar na cultura até hoje: como num
dispositivo de antialeatoriedade, um esforço para estabelecer e manter uma
ordem; como numa guerra contínua contra a aleatoriedade e esse caos que a
aleatoriedade ocasiona. Na luta eterna entre ordem e caos, o lugar da cultura
é inequivocamente no lado da ordem. Ao defrontar com a incoerência das
normas, o estado de ambivalência comportamental, a profusão de produtos culturais sem uso óbvio “para o sistema”, pensamos em um conflito entre
culturas, ou em uma crise cultural. Em qualquer dos casos, consideramos a
situação anormal ou nociva. Ficamos alarmados e esperamos uma alteração
mórbida dos acontecimentos.
É cada vez mais difícil, porém, pensar na cultura dessa maneira.
Enquanto nos apegamos às noções herdadas, a crise parece ser uma
condição cotidiana, a anormalidade transforma-se em uma norma, a doença
torna-se crônica. Thomas Kuhn diria que o discurso cultural contém
atualmente todos os sintomas da “crise de paradigma” — uma situação em
que os conceitos que organizam as nossas percepções impelem-nos a tratar
as ocorrências mais típicas e freqüentes como exceções, tornando a
“norma” uma noção cada vez mais nebulosa… Talvez ele também dissesse
que esta é uma situação tipicamente propícia à revolução: é provável que
domine primeiro uma premonição, em seguida uma convicção, de que o
erro não reside nas nossas observações ou na maneira como as temos
registrado, mas em nossas pressuposições tácitas, que nos dizem para
esperar algo diferente do que realmente vemos. Começamos a suspeitar de
que as noções que transmitem tais pressuposições não explicam o que está
acontecendo, mas ao contrário: elas obstruem a visão e tornam o
entendimento mais difícil, se não impossível; de que tais noções são mais
um passivo do que um ativo cognitivo; e de que não temos probabilidade de
ir longe se não nos livrarmos do lastro que elas se tornaram. Em outras
palavras, chegou o momento de se desfazer do velho paradigma e encontrar
um novo, que fará a “normalidade” voltar ao que parece, à luz do velho
paradigma, anormal e excepcional, de modo que aquilo que é
verdadeiramente excepcional será mais uma vez marginal, e os fenômenos
marginais, mais uma vez, se tornarão somente exceções…
Não é inequivocamente nítido de onde surgiu essa “crise dos
paradigmas”. Os fenômenos culturais mudaram tão drasticamente, desde a
época em que foi cunhado o conceito de cultura, que a antiga noção não se
aplica mais a eles? Ou a culpa deveria ser antes atribuída às mudanças na
nossa maneira de encarar o mundo, na torre de observação construída com
nossos novos interesses e experiências, no ponto de apoio da vida cotidiana,
de onde iniciamos nossas viagens exploratórias? Ou talvez o colapso do
poder ordenador cognitivo das noções ortodoxas tenha seguido na esteira da
queda de sua potência ordenadora e prática, uma vez que as sugestões sobre
como ordenar o conhecimento do mundo não possuem autoridade se não são secundadas pelos poderes para ordenar o próprio mundo? Pode-se
imaginar que todas as três causas desempenharam certo papel na atual crise
paradigmática. Mas igualmente pode ser que os três fatores sejam separados
um do outro, cada um sendo dotado da própria lógica.
O habitual, o cotidiano, o familiar, o “mundo próximo”, o
“conhecimento pré-reflexivo” — tudo o que não intriga e não requer
indagação e exame minucioso — são simultaneamente o ponto de partida e
o porto seguro de todo entendimento. “Entender” significa adaptar a
percepção dos fenômenos experimentados a esse mundo comum, que é
entendido sem o esforço para entendê-lo e sem o esforço para entender o
que significa entender. Daí o papel cognitivo da metáfora: ela justapõe o
obscuro ao óbvio; sugere assim uma afinidade (sempre eletiva!) entre os
dois; salienta que, em certos aspectos, “lá” não é distinto de “aqui” e, desse
modo, permite-nos empregar linguagem destinada ao transparente “aqui” (a
que torna esse “aqui” transparente) para referir o opaco, e anteriormente
inexprimível, “lá”. Para a noção ortodoxa de cultura, tal “empurrão
metafórico” foi fornecido pelas imagens conhecidas de uma fábrica, escola
ou outros estabelecimentos geradores de ordem semelhantes (sempre
sistêmicos em suas intenções). Outra metáfora — talvez crucial — foi
proporcionada pelo estado moderno, com seu projeto de uma cultura
nacional homogênea, uma língua nacional, um currículo de história
nacional, um calendário unificado de festividades e comemorações. (No
relato sociológico ortodoxo, as imagens tanto de “sociedade” quanto de
“cultura” foram incluídas, aberta ou sub-repticiamente, na estrutura do
território submetido ao poder soberano do estado. Sua “inteireza” era
somente um reflexo da integridade desse poder.) Pode-se discutir
infindavelmente sobre se, na época em que as noções ortodoxas dominavam
praticamente incontestadas todo o pensamento acerca de cultura, as
metáforas relacionadas eram convenientemente selecionadas e, assim,
dirigir o olhar para coisas verdadeiramente cruciais e decisivas, ou se elas
sempre, desde o início, desviaram os olhos do que era a real natureza dos
fenômenos culturais. Muito mais importante, contudo, do que essa disputa
infrutífera é reparar que as metáforas tradicionais perderam atualmente (ou
estão perdendo depressa) muito de sua capacidade cognitiva original e isso
porque os fenômenos a que se referem ocupam, na experiência
contemporânea, um lugar continuamente reduzido e mais marginal.
Poder-se-ia argumentar que os primeiros sinais da iminente rebelião
contra o ortodoxo paradigma da cultura “estabelecedora da ordem”
surgiram na obra de Claude Lévi-Strauss. (O real significado revolucionário
e verdadeiro dessa obra foi erroneamente menosprezado pela sua
apresentação como uma versão sucessiva — não a primeira e obviamente
não a última — do “estruturalismo”.) Três idéias orientadoras de Lévi-
Strauss, em particular, afiguram-se fecundas na busca contemporânea do
novo arcabouço do estudo cultural.
1. Não existe “estrutura” global da cultura “como um todo” (nem da
“sociedade como um todo”). As culturas, como as sociedades, não são
“totalidades”. Em vez disso, existem processos de estruturação contínuos e
perpétuos em diversas áreas e dimensões da prática humana, raramente
coordenados e submetidos a um plano abrangente. A contribuição cultural à
natureza, ou “superestrutura” cultural sobre a natureza, não consiste na
provisão de um modo de viver artificialmente produzido e reproduzido,
total e normativamente regulado, mas no incessante impulso para
diferenciar, separar, dividir, classificar; para a evocação de novos sentidos
mediante a prática diacrítica.
2. A estrutura que surge das práticas acima (isto é, o privilégio conferido
a determinadas probabilidades com relação às outras; como exprimiu Pierre
Boulez, a cultura consiste em transformar o inacreditável no inevitável) não
é uma entidade estacionária, mas um processo (posteriormente, Anthony
Giddens daria a esse processo o nome de “estruturação”), algo assemelhado
ao vento, que não é senão o soprar, ou a um rio, que não é senão o fluir. A
cultura não é senão uma atividade perpétua e a “estrutura” não é senão a
constante manipulação de possibilidades. A atividade diacrítica é
“estruturada” na medida em que existe um conjunto finito de permutações
possíveis (realísticas) — mas qual das permutações possíveis ocorrerá não é
de modo algum “determinado estruturalmente”.
3. Pode-se (e deve-se) relatar a prática cultural sem fazer referência a
“necessidades” que a cultura deve supostamente satisfazer, ou “sentidos”
preestabelecidos a que deve dar expressão. Pode-se (e deve-se) dispensar o
presumir uma prioridade de necessidades sobre usos e de sentidos sobre
sinais. As necessidades vivem e morrem juntamente com os usos, os
sentidos juntamente com os sinais… Eles passam a existir juntos e juntos
deixam o palco. A cultura não serve a nenhum propósito, não é uma função
de nada, não há nada que ela possa avaliar “objetivamente” com seu sucesso ou “correção”, não há nada (exceto o seu impulso e dinâmica
internos) que lhe possa explicar a presença.
Juntas, essas três idéias geram uma visão da cultura inteiramente
diferente daquela petrificada no paradigma ortodoxo: visão de uma ação
perpetuamente inquieta, insubordinada e rebelde, ordenadora, porém ela
mesma não ordenada, desconsiderando profanamente a sacrossanta
distinção entre o substantivo e o marginal, o necessário e o acidental (uma
atitude desconcertante, se encarada da perspectiva instaladora da ordem).
Reconhecidamente, essa é uma visão muito menos atraente e animadora do
que a ortodoxa: ela destrói a esperança de algum dia atingir uma
semelhança completa e autorizada de qualquer “cultura” determinada e,
assim, de algum dia completar a tarefa empreendida pelo estudioso dos
fenômenos culturais. Na realidade, essa não é de forma alguma uma visão
da cultura, mas um conjunto de linhas gerais heurísticas para relatar-lhe as
obras. Mas essas linhas gerais são suficientes para engendrar um novo
paradigma de discurso cultural?
Estive procurando uma metáfora que desembaraçasse o caminho que
conduz a um novo paradigma, uma metáfora que captasse precisamente a
inquietação, adaptabilidade, subdeterminação endêmica e imprevisibilidade
das atividades culturais. Após apreciar e rejeitar diversas possibilidades,
escolhi o modelo da cooperativa de consumidores.
Para afastar inevitáveis vozes de protesto, desejo esclarecer desde o
início que, ao falar em cooperativa de consumidores, não me refiro à
Cooperativa da atualidade, a organização completamente burocratizada e
estritamente hierárquica muito semelhante a outras instituições comerciais,
somente (em seu próprio detrimento) em maior grau. Reporto-me ao
modelo ideal, assemelhado ao que inspirou os pais espirituais da Sociedade
de Pioneiros Eqüitativos quando, em 1844, inauguraram sua primeira loja
em Toad Lane, em Rochdale. Vale a pena recordar que a loja, destinada a
ser administrada pelas mesmas pessoas que a utilizavam, foi inventada
como um protesto (e um recurso) contra a lógica da arregimentação
esmagadora e desalmada, muitíssimo conhecida pela experiência da vida de
fábrica, que era a forma de os Pioneiros ganharem o sustento diário. Essa
liberdade, de que haviam sido despojados no papel de produtores, os
Pioneiros desejavam reaver no papel de consumidores. Para evitar novas
objeções, admito que o sonho dos Pioneiros não se realizou inteiramente na
distante descendente da loja de Toad Lane, a imensa instituição nacional da Cooperativa. Como explicar isso? Talvez os Pioneiros tenham sonhado cedo
demais, num mundo em que praticamente todas as partes da realidade
investiam e avançavam em direção oposta àquela que eles sonhavam seguir;
ou talvez uma fatal tendência à petrificação esteja inerradicavelmente
presente em todo ato livre, e todo regato livre escave a tempo um leito
seguro… Se a segunda explicação é apropriada, a capacidade cognitiva da
nossa metáfora talvez até aumente em volume…
Mas que traços do ideal do consumidor cooperativo a torna adequada
como metáfora da cultura nessa forma, a qual a nossos olhos desponta das
ruínas do paradigma ortodoxo?
Comecemos com uma observação de que, em suas premissas, a
cooperativa de consumidores cancela ou priva de sentido (exatamente como
faz a cultura na prática) as próprias distinções que constituem a espinha
dorsal da noção “estabelecedora de ordem” da cultura. As coisas que
ocorrem no interior da cooperativa de consumidores ideal não são
administradas, nem fortuitas. Movimentos não-coordenados encontram-se e
vinculam-se em diversas partes da armação total, apenas para se libertarem
de novo de todos os nós previamente atados. A espontaneidade aí não
exclui mas, ao contrário, exige uma ação organizada e intencional, todavia
essa ação não se destina a abrandar, mas a fortalecer a espontaneidade da
iniciativa. Muito à maneira do plasma prigoginiano, de quando em quando
as atividades difusas se reúnem e se condensam, estabelecendo
concentrações locais ou estruturas, mas somente para que seus caminhos em
breve se separem de novo e se dispersem. As ações não são determinadas
inequivocamente — ou de forma causal, por causas precedentes ou, de
forma teleológica, por metas presumidas. O que ocorre, de fato, é uma
interação de ambos os fatores, o estado de coisas que por si mesmo coloca
um ponto de interrogação na própria idéia de “determinação”. Sob tais
circunstâncias, é difícil decidir se a ação foi inevitável ou acidental. É
melhor falar da contingência dos acontecimentos.
A mesma observação pode ser comunicada de outro modo: o território
social “cooperativo”, muito semelhante ao âmbito da cultura, não é
monocentricamente administrado, nem o sítio da anarquia. É algo diferente
de ambos: um território de autogoverno. Permitam-me advertir
imediatamente o leitor de que esse conceito também perdeu muito do seu
sentido original, em conseqüência do desgaste durante a longa história de
seu uso excessivo e impróprio. Sentimo-nos atualmente autorizados a falar de “autogoverno” sempre que os legisladores e os que mandam são eleitos
pelos que lhes são inferiores, em vez de nomeados pelos que lhes são
superiores — sem levar em conta a extensão de poder concentrado em suas
mãos, ou o grau de monocentralidade do mando. Permitam-me declarar,
portanto, que o termo “autogoverno” é aqui utilizado em outro sentido mais
forte. Ele inclui a exigência de poder policêntrico, porém igualmente algo
ainda mais crucial: o requisito de que as fontes de mando devam ser não só
plurais e não-hierárquicas como, além disso, móveis. Sua quantidade e
localização devem ser mutáveis. Num verdadeiro autogoverno, o poder
deve portar-se segundo o modelo de Prigogine: ele não flui, para se
solidificar em cargos nomeados ou cargos a serem nomeados, mas se
desloca ao longo de rotas impossíveis de se prever de antemão, na crista da
autoridade — isto é, de uma espécie de influência que, para se implementar
como influência, deve ser sempre negociada mais uma vez e sempre
sustentada e aceita mais uma vez. É precisamente essa emancipação da
autoridade do entrelaçamento de cargos institucionalizados, e da dispersão
das possibilidades de exercer influência, que reside no cerne do verdadeiro
autogoverno. Numa entidade autogovernada, não há como decidir de
antemão em que lugar nascerá a autoridade, assim como com que poder e
de que maneira moldará o rumo dos acontecimentos.
Depreende-se do que até aqui se disse que, numa cooperativa de
consumidores, exatamente como na cultura, não é fácil distinguir em seus
padrões emergentes de interação o “autor” do “agente”. Espera-se que cada
membro seja tanto autor quanto agente. A condição de autor e a condição
de agente são dois aspectos da ação (aspectos presentes, embora com
diferente intensidade, em toda ação humana) —, não características de
categorias humanas distintas. As ações atingem raramente, se alguma vez,
esse radical e puro caráter repetitivo que a tecnologia moderna alcançou em
alguns dos seus artefatos produzidos em massa. Nenhum ato humano é uma
imitação completa e exata, cópia fiel, reprodução precisa de um modelo ou
papel redigido de antemão. (Nos termos de Derrida, todo ato é uma
iteração, e não uma reiteração.) Em todo ato, os modelos são mais uma vez
reproduzidos, em formas nunca totalmente idênticas. Todo ato é, até certo
ponto, uma permutação original, uma versão única do modelo. Os modelos
não existem de nenhum outro modo, a não ser no processo de contínua e
inescapável transformação. Com a passagem do tempo, as transformações
atingem diversos graus de visibilidade, mas as mudanças são esparsas — e, no momento em que adquirem proeminência, assim como a novidade que
se torna proeminente, elas são imprevisíveis, já que emergem de uma
profusão de minúsculos, imperceptíveis e esparsos desvios. Na prática da
cultura, ao contrário da teoria social, não existe separação entre “estática” e
“dinâmica”, “continuidade” e “mudança”.
Todos os traços acima relacionados distinguem qualquer cooperativa
genuína. Até esse ponto, não é nítido por que a cooperativa de
consumidores, em vez de outras formas de cooperação, deveria ajustar-se
melhor ao papel de metáfora da cultura. Uma característica da cooperativa
inventada particularmente pelos Pioneiros de Rochdale fala, contudo, em
favor dessa escolha: a decisão de que o quinhão de cada membro no
empenho comum é calculado pelas proporções do seu consumo, não pela
sua contribuição produtiva. Quanto mais o membro consome, maior é o seu
quinhão na riqueza comum da cooperativa. A distribuição e a apropriação,
não a produção, são portanto o eixo da atividade cooperativa. Os esforços
para aumentar o consumo e obter consumidores em maior número (e mais
ávidos) são a principal fonte da sua dinâmica (permitam-nos recordar que,
segundo Danto e Becker, os “mundos das artes” que regem a vida das artes
consistem primordialmente nos consumidores de arte e naqueles que
incitam e satisfazem o seu consumo). A verdadeira linha de produção das
cooperativas de consumidores é, em princípio, a produção de consumidores
(cada vez mais numerosos, cada vez mais exigentes, experientes e
perspicazes).
Essa não é uma questão secundária. Todos os modelos ortodoxos de
cultura eram concentrados no criador. Mesmo quando não construídos
diretamente em torno da categoria de criadores de cultura, eles eram
organizados em torno do correlato espiritual dessa categoria — “valores
centrais”, “fórmulas filosóficas” ou “ethos”, cuja concepção e defesa eram
consideradas a tarefa e a realização de uma classe particular de “produtores
culturais”. Mesmo na estratégia de Clifford Geertz de “descrição cerrada”,
sob outros aspectos original, pode-se discernir um tributo rendido a essa
tradição: ao exigir a passagem da conduta observada para “camadas mais
profundas da cultura”, Geertz insinua que a verdade ou essência da cultura
reside em suas “pressuposições fundamentais”, que dão sentido a tudo o
mais, e de que tudo o mais é uma expressão ou aplicação. A metáfora da
cooperativa de consumidores sugere, de outro lado, uma alteração decisiva
na ênfase: é precisamente nos atos de consumo, nas cotidianas condições de autor e de agente de “consumidores comuns” (eles são, afinal,
“consumidores comuns” somente na medida em que são vistos a partir dos
gabinetes de pensadores, dos estúdios de artistas e torres de controle dos
administradores culturais), que tudo o que é cultural adquire sentido. É aí
que as carapaças vazias dos signos se enchem de significado; aí os signos
(já tornados significativos) ganham ou perdem valor, que repercute nas
oscilações da procura. A pressuposição de que o criador, e unicamente o
criador, é o autor e o juiz do significado e valor levou os estudiosos da
cultura a apresentar a transformação sofrida pelos significados e valores, no
decurso de movimentos transculturais dos signos, como casos de “distorção
de sentido”. Mas todo uso de um sinal cultural contém certo grau de
autoria: cada um é, portanto, uma “distorção” exatamente no mesmo
sentido.
A metáfora da cooperativa de consumidores é complementada de forma
bastante neutra pela metáfora do mercado. (Só no ambiente do mercado
pode conceber-se o modelo de uma cooperativa de consumidores.) O
mercado, por sua vez, pode ser mais bem visualizado não como um sistema,
mas como um campo de esportes — o local do jogo de oferta e procura.
Ostensivamente, a venda de mercadorias é o interesse do jogo — porém, na
realidade, algo mais ocorre aí: é somente no decurso do jogo que sinais são
transformados em mercadorias. A oferta fornece entidades destinadas a se
tornarem mercadorias — mas é a procura que as converte nisso. Além
disso, o processo de “mercadorização” é simultaneamente o ato de
nascimento do consumidor: mercadorias potenciais e compradores
potenciais realizam-se juntos. É útil pensar na cultura, tal como no
mercado, como um campo de esportes, um local do jogo de oferta e
procura. O local é percorrido por signos em busca de significados e por
significados que buscam signos. Se, para seu “funcionamento normal”, o
mercado requer um determinado excesso de oferta sobre a procura existente
e, se somente no momento da compra o potencial de mercadoria dos bens
de mercado é satisfeito, na cultura pode-se observar um contínuo excesso
de signos, que somente na atividade de seu uso e consumo têm uma
probabilidade de satisfazer o seu potencial significativo, ou seja, de
transformar-se em símbolos culturais. Os significados são escolhidos pelos
sinais, em vez de o contrário. Nessa circunstância, a não-instrumentalidade
essencial, o caráter imotivado dos fenômenos culturais revela-se. Tais
fenômenos culturais não servem a nada, certamente nem no momento do seu nascimento. Se passam posteriormente a servir a algo na vida social,
essa relação inventada não pode explicar-lhe as origens.
Como aconteceu com tanta freqüência anteriormente, os artistas
intuíram essa complexa dialética de signos e significados bem antes de ela
ser identificada e observada pelos teóricos da cultura. Antes de ser descrita
na prosa científica, ela havia sido dramatizada no teatro da vanguarda
artística. Foi, porém, expressa não como drama, mas como tragédia — no
sentido clássico, euripidiano, raciniano ou ibseniano da palavra: como o
entrechoque de desejos incompatíveis, como salvação e perdição se
abraçando estreitamente, da pureza extraindo o seu aroma de conspurcação,
da vida encontrando sua realização somente na morte, de uma epopéia
destituída da esperança de catarse, do retorno ao porto seguro da ordem
normativa e normas ordenadas… Nada aterrorizava mais a vanguarda do
que a perspectiva da realização de seu sonho legislativo, a perceptível
proximidade de seu sucesso legislativo — e nada provocava um pânico
maior do que o som do aplauso público e o espectro da unanimidade. A
brutalidade da vanguarda punha a nu o inato vazio dos signos, definindo a
própria liberdade como o direito de preenchê-los com significado — mas
também (talvez inadvertidamente) revelava que a liberdade consiste nos
direitos, não em sua satisfação. A liberdade diz respeito à satisfação, mas a
liberdade somente pode durar enquanto permanecer irrealizada.
Abarrotados até a borda de significados, signos pesados e inertes não mais
perambularão e pairarão livremente. A liberdade, a aparente infinidade de
possibilidades criativas, acompanha unicamente o excesso de signos, sua
redundância, falta de função e finalidade — essa é uma situação
sabidamente desagradável, suportável apenas graças à esperança de que
será superada: de encontrar os fins e usos presentemente negados. Mas a
liberdade criativa não sobreviverá à realização dessa esperança…
No entanto, o que foi apresentado como tragédia pseudo-intelectual no
palco vivamente iluminado da arte de vanguarda pode ser, afinal, apenas o
relato da vida diária da cultura, do comum e da rotina… A vanguarda
conseguiu fazer surgir um lamento veemente e um gesto heróico da calma e
silenciosa prática da cotidianidade humana. O abismo entre a aventura da
vanguarda e a experiência da cultura comum pode ser muito mais estreito
do que os porta-vozes e autores de textos da vanguarda desejavam que seus
espectadores e ouvintes acreditassem. A vanguarda interpretava o comum, o
usual, “o vulgar” como um oposto de si mesma. Apresentava a espécie de cultura que combatia (aquela que denominava “popular” quando de humor
benévolo, “de massa” quando desesperada e furiosa) como uma entidade
imóvel e inabalável, semelhante a um rochedo, entrincheirada contra todo
novo e insólito, petrificada em seus hábitos e hostil a tudo o que se movia e
mudava. Essa imagem era, porém, uma ficção em todas as épocas. Quando
examinada atentamente e sem antolhos, a atividade diária da cultura revela-
se surpreendentemente semelhante à da vanguarda, sendo a única diferença
significativa a falta de representações teatrais. Joanna Tokarska-Bakir, uma
destacada antropóloga polonesa, encontrou na área rural próxima a
Przemysl, uma pequena cidade polonesa, práticas de forma alguma distintas
das mais avançadas experiências de um Andy Warhol: manjedouras
construídas com latas de cerveja vazias, por exemplo. Toda cultura,
inclusive o tipo menos complexo segundo os padrões da vanguarda, está
diariamente envolvida naquilo a que Lévi-Strauss deu o memorável nome
de bricolage: ela infere continuamente novos signos de qualquer coisa que,
por acaso, se ache à mão e verte continuamente novos significados em tudo
o que, por acaso, se ache próximo, à espera de se tornar um signo…
Jean-François Lyotard escreveu que os seres humanos atingem a mais
plena e verdadeira humanidade na infância (as crianças vivem em um
mundo repleto de possibilidades, ainda não bloqueadas, trivializadas ou
desacreditadas, sedutoras graças a seu mistério e aparente infinidade) —,
mas os seres humanos tomaram o abandono das características infantis
como sinal de amadurecimento e, em conseqüência, esforçaram-se ao
máximo para se livrar de suas essências mais humanas… Proponho que
essa concepção de Lyotard não seja menosprezada como mais uma versão
da imagem maniqueísta do homo duplex: de um ente dilacerado por duas
essências incompatíveis, duas “naturezas” ou origens distintas, empenhadas
na infindável guerra de atrito. (A versão mais famosa, durkheimiana, de
homo duplex apresenta os seres humanos como o campo de batalha entre o
legado da evolução biológica e as influências civilizadoras, entre natureza e
cultura, entre a esmagadora força dos instintos e o impacto emancipador das
normas de coabitação socialmente impostas.) O ser humano de Lyotard não
é um agrupamento de naturezas heterogêneas e contraditórias, enfurecidas
por sua indesejada proximidade. O oposto está aí em jogo: essa contradição
que satura a vida humana provém, inteiramente, da lógica coerente da
existência especificamente humana e não necessita de outras explicações.
Tanto a liberdade quanto a dependência, tanto a alegria da criação quanto a amargura da submissão, nascem da mesma condição humana, demasiado
humana, de autoconstituição, autoconstrução e auto-afirmação, que a noção
de cultura tenta de diversos modos captar. Ambas provêm do mesmo
tronco. Além do mais, não são ramos distintos desse tronco, mas uma se
torna a outra — sendo uma um prolongamento, um desenvolvimento da
outra: a liberdade realiza-se na exposição a dependências; a sujeição, no ato
da emancipação…
A tragédia dos signos que vivem da procura de significado e expiram no
momento em que o encontram, apesar de haver sido representada no
exclusivo teatro da arte de vanguarda, pode ser lida em termos mais amplos.
Pode-se interpretar essa tragédia como uma narrativa acerca do destino da
cultura em geral, acerca de sua infindável auto-realização no ato de auto-
aniquilamento, acerca do sucesso que parece estranhamente um revés,
acerca da liberdade que pode completar-se unicamente na abnegação. A
esse destino, não existe fuga. A cultura não é uma gaiola nem a chave que a
abre. Ou, antes, ela é tanto a gaiola quanto a chave simultaneamente.
A imagem da cooperativa de consumidores pode também ajudar a
apreender essa aporia da cultura. A escolha é o atributo do consumidor e a
natureza cooperativa da comunidade de consumidores significa liberdade
de escolha. A escolha é, contudo, um epítome de tudo o que dissemos
anteriormente acerca do destino da cultura. A escolha é um tubo de ensaio
da vida individual, em que se pode observar o processo ocorrendo no
grandioso universo da cultura. A liberdade de escolha assenta na
multiplicidade de possibilidades. No entanto, seria uma liberdade vazia que
negasse o direito de colocar uma possibilidade acima das outras — de
reduzir a multiplicidade de perspectivas, de bloquear e rejeitar as
possibilidades indesejadas —; em outras palavras, de podar ou cancelar
totalmente a escolha. Tal como no caso dos signos repletos de possibilidade
enquanto permanecem livres de significados, a essência da livre escolha é o
esforço para abolir a escolha.
Nisso, na minha opinião, pode ser encontrado o segredo da perpétua
não-satisfação do desejo de mais ampla escolha dos consumidores (e, de
modo mais geral, da eterna não-satisfação do desejo de liberdade). O
ímpeto de consumo, exatamente como o impulso de liberdade, torna a
própria satisfação impossível. Necessitamos sempre de mais liberdade do
que temos — mesmo que a liberdade de que achamos que necessitamos seja
liberdade para limitar e confinar a liberdade atual. A liberdade é sempre um postulado e expressa-se numa constante reprodução e reaguçamento de sua
força postulativa. É nessa abertura em relação ao futuro, na ultrapassagem
de toda situação encontrada e preparada de antemão ou recém-estabelecida,
nesse entrelaçamento do sonho e do horror da satisfação, que se acham as
raízes mais profundas do turbulento, refratário e autopropulsor dinamismo
da cultura.
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