O Mal-estar da Pós-Modernidade
III. Os estranhos da era do consumo: do estado de bem-estar à prisão
III
Os estranhos da era do consumo: do estado de
bem-estar à prisão
Em 1981, registraram-se 2,9 milhões de delitos penais na Inglaterra e no
País de Gales. Em 1993, 5,5 milhões. Nos últimos três anos, a população
carcerária subiu de 40.606 para 51.243. Entre 1971 e 1993, os gastos
públicos com a polícia subiram de 2,8 bilhões de libras para 7,7 bilhões de
libras. De 1984 a 1994, o total de advogados elevou-se de 44.837 para
63.628 e o de advogados forenses de 5.203 para 8.093.
Em 1994, 5,6 milhões de pessoas na Grã-Bretanha reivindicaram renda
suplementar. O auxílio-desemprego foi recebido por 2.700.000; mas,
segundo outros cálculos, distintos dos cálculos oficiais do governo, os totais
daqueles que necessitavam de emprego mas haviam sido impedidos, por
normas legais, de solicitar o auxílio-desemprego (e, portanto, haviam sido
excluídos das estatísticas oficiais dos desempregados) eram o dobro.
Durante os últimos vinte e cinco anos, a população de encarcerados e de
todos os que obtêm a sua subsistência da indústria carcerária — a polícia,
os advogados, os fornecedores de equipamento carcerário — tem crescido
constantemente. O mesmo ocorreu com a população de ociosos —
exonerados, abandonados, excluídos da vida econômica e social.
Conseqüentemente, como seria previsível, aumentou o sentimento popular
de insegurança: atualmente, 85% da população da Grã-Bretanha acham que,
há 30 anos, era seguro caminhar pelas ruas à noite, mas 95% acham que,
hoje em dia, não é seguro.
Esses últimos trinta anos, aproximadamente, foram de fato anos
fecundos e decisivos na história do modo como foi moldada e mantida a
sociedade “ocidental” — industrial, capitalista, democrática e moderna. É
esse modo que determina os nomes que as pessoas tendem a dar a seus medos e angústias, ou às marcas nas quais elas suspeitam residir a ameaça à
sua segurança. E esse modo — permitam-me repetir — sofreu uma
alteração extremamente profunda.
O próprio termo “desempregado”, pelo qual os que não podem ganhar o
próprio sustento costumavam ser descritos (e ainda o são — embora
atualmente de uma maneira enganosa), transformou-os na exceção
proverbial que confirma a regra — reafirmando, obliquamente, o princípio
de que “estar empregado” é a norma que a situação de “estar sem trabalho”
está transgredindo. Os “desempregados” eram o “exército de reserva da
mão-de-obra”. Temporariamente sem emprego por motivo de saúde,
enfermidade ou dificuldades econômicas correntes, eles deviam ser
preparados para reassumir o emprego quando aptos — e prepará-los era
então, de um modo geral, a tarefa reconhecida e a incumbência explícita ou
tácita dos poderes públicos.
Já não acontece desse modo. Exceto nos nostálgicos e cada vez mais
demagógicos textos de propaganda eleitoral, os sem emprego deixaram de
ser um “exército de reserva da mão-de-obra”. As melhorias econômicas já
não anunciam o fim do desemprego. Atualmente, “racionalizar” significa
cortar e não criar empregos, e o progresso tecnológico e administrativo é
avaliado pelo “emagrecimento” da força de trabalho, fechamento de
divisões e redução de funcionários. Modernizar a maneira como a empresa
é dirigida consiste em tornar o trabalho “flexível” — desfazer-se da mão-
de-obra e abandonar linhas e locais de produção de uma hora para outra,
sempre que uma relva mais verde se divise em outra parte, sempre que
possibilidades comerciais mais lucrativas, ou mão-de-obra mais submissa e
menos dispendiosa, acenem ao longe. Outrora restrito a aço e concreto, a
pesados prédios de fábricas e maquinaria difícil de manejar, o próprio
capital já se tornou a encarnação da flexibilidade. Dominou os truques de se
puxar a si mesmo, como um coelho, da cartola ou desaparecer sem vestígio
— com a auto-estrada da informação desempenhando o papel da varinha
mágica. No entanto, como o que cura uns mata outros, as mudanças que
significam racionalização e flexibilidade para o capital repercutem nas
extremidades receptoras como catástrofes — como sendo inexplicáveis,
como estando além da capacidade humana e como emperramento de
oportunidades no sólido muro do destino. Empregos vitalícios já não
existem. Na verdade, empregos como tais, da maneira como outrora os
compreendíamos, já não existem. Sem estes, há pouco espaço para a vida vivida como um projeto, para planejamento de longo prazo e esperanças de
longo alcance. Seja grato pelo pão que come hoje e não cogite demasiado
do futuro… O símbolo da sabedoria já não é a conta de poupança.
Atualmente, pelo menos para os que podem se dar ao luxo de ser sábios,
passou a ser os cartões de crédito e uma carteira cheia deles.
Poucos de nós se lembram hoje de que o estado de bem-estar foi,
originalmente, concebido como um instrumento manejado pelo estado a fim
de reabilitar os temporariamente inaptos e estimular os que estavam aptos a
se empenharem mais, protegendo-os do medo de perder a aptidão no meio
do processo… Os dispositivos da previdência eram então considerados uma
rede de segurança, estendida pela comunidade como um todo, sob cada um
dos seus membros — a todos fornecendo a coragem para enfrentar o
desafio da vida, de modo que cada vez menos membros precisassem algum
dia de utilizá-la e os que o fizessem a utilizassem com freqüência cada vez
menor. A comunidade assumia a responsabilidade de garantir que os
desempregados tivessem saúde e habilidades suficientes para se reempregar
e de resguardá-los dos temporários soluços e caprichos das vicissitudes da
sorte. O estado de bem-estar não era concebido como uma caridade, mas
como um direito do cidadão, e não como o fornecimento de donativos
individuais, mas como uma forma de seguro coletivo. (Quem considera o
pagamento de uma companhia de seguros de vida, ou de imóveis, caridade
ou um donativo?) Como afirmei, atualmente poucos de nós se lembram
disso…
Isso era verdade — ou poderia ser — na época em que a indústria
proporcionava trabalho, subsistência e segurança à maioria da população. O
estado de bem-estar tinha de arcar com os custos marginais da corrida do
capital pelo lucro, e tornar a mão-de-obra deixada para trás novamente
empregável — um esforço que o próprio capital não empreenderia ou não
poderia empreender. Hoje, com um crescente setor da população que
provavelmente nunca reingressará na produção e que, portanto, não
apresenta interesse presente ou futuro para os que dirigem a economia, a
“margem” já não é marginal e o colapso das vantagens do capital ainda o
faz parecer menos marginal — maior, mais inconveniente e embaraçoso —
do que o é. A nova perspectiva se expressa na frase da moda: “Estado de
bem-estar? Já não podemos custeá-lo”…
Como conseqüência, os dispositivos de previdência, antes um exercício
dos direitos do cidadão, transformaram-se no estigma dos incapazes e imprevidentes. “Concentrados nos que necessitam deles”, sujeitos a
verificações dos meios de subsistência cada vez mais estritas e cada vez
mais humilhantes, difamados como sendo um sorvedouro do “dinheiro dos
contribuintes”, associados no entendimento público a parasitismo,
negligência censurável, promiscuidade sexual ou abuso de drogas — eles
tornam-se cada vez mais a versão contemporânea da recompensa do
pecado, e recompensa do pecado que nós não só já não podemos custear,
como para a qual não existe razão moral por que deveríamos tentar fazê-lo.
Os pecados pelos quais o estado de bem-estar original se destinava a pagar
eram os da economia capitalista e da competição de mercado, do capital que
não podia manter-se solvente sem enormes custos sociais em existências
despedaçadas e vidas arruinadas — os custos que, no entanto, ele se
recusava a pagar, ou não podia pagar sob a ameaça da insolvência. Era esse
o prejuízo pelo qual o estado de bem-estar se comprometia a indenizar as
vítimas presentes e a resguardar as vítimas possíveis. Se, atualmente,
ouvimos dizer que nós, os “contribuintes”, “já não podemos custeá-lo”, isso
significa apenas que o estado, a comunidade, já não considera conveniente
ou desejável subscrever os custos sociais e humanos da solvência
econômica (que, sob condições de mercado, é equivalente à lucratividade).
Em vez disso, transfere o pagamento às próprias vítimas, presentes e
futuras. Recusa a responsabilidade por sua má sorte — exatamente como
abandonou a antiga tarefa da “reacomodação” da mão-de-obra. Não há mais
seguro coletivo contra os riscos: a tarefa de lidar com os riscos
coletivamente produzidos foi privatizada.
Todo tipo de ordem social produz determinadas fantasias dos perigos
que lhe ameaçam a identidade. Cada sociedade, porém, gera fantasias
elaboradas segundo sua própria medida — segundo a medida do tipo de
ordem social que se esforça em ser. De um modo geral, tais fantasias
tendem a ser imagens espelhadas da sociedade que as gera, enquanto a
imagem da ameaça tende a ser um auto-retrato da sociedade com um sinal
negativo. Ou, para o expressar em termos psicanalíticos, a ameaça é uma
projeção da ambivalência interna da sociedade sobre seus próprios recursos,
sobre a maneira como vive e perpetua seu modo de viver. A sociedade
insegura da sobrevivência de sua ordem desenvolve a mentalidade de uma
fortaleza sitiada. Mas os inimigos que lhe sitiaram os muros são os seus
próprios “demônios interiores” — os medos reprimidos e circundantes que
lhe permeiam a vida diária e a “normalidade”, e que, no entanto, a fim de se tornar suportável a realidade diária, devem ser dominados, extraídos do
cotidiano vivido e moldados em um corpo estranho, um inimigo tangível
com que se possa lutar, e lutar novamente, e lutar até sob a esperança de
vencer.
De acordo com essa regra, o perigo que acossava o estado moderno
clássico era o da revolução. Os inimigos eram os revolucionários ou
reformistas demasiadamente radicais, as forças subversivas que tentavam
substituir a ordem existente, administrada pelo estado, por outra ordem
administrada pelo estado, por uma contra-ordem que virasse de cabeça para
baixo todo e qualquer princípio sob o qual a ordem corrente vivia, ou
pretendia viver. Como demonstrou Michel Foucault, o estado moderno
clássico, firmemente encarregado dos esforços diários de estabelecimento
da ordem, coletivizou e “demografizou” suas incumbências. O
estabelecimento da ordem era, acima de tudo, a tarefa de generalizar,
classificar, definir e separar categorias. Dessa perspectiva, a contra-ordem
poderia surgir apenas como outra classificação oposta e como inversão da
hierarquia das categorias. Aqueles empenhados em realizar a inversão
poderiam ser encarados somente como aspirantes a classificadores
alternativos e legisladores de categorias. O “demônio interior”, assim
exorcizado e reencarnado no corpo da conspiração revolucionária, era a
tendência autodestrutiva do próprio esforço legislativo do estado: o
descontentamento, a dissenção e a heresia que esse esforço não podia deixar
de gerar, numa intensidade sempre crescente, os lançados às extremidades
receptoras das classificações atuais.
Se o estado já não preside à reprodução da ordem sistêmica, tendo agora
deixado a tarefa às forças de mercado desregulamentadas, e assim não mais
politicamente responsáveis, o centro de gravidade do processo de
estabelecimento da ordem deslocou-se das atividades legisladoras,
generalizadoras, classificadoras e categorizadoras. Gradativa, porém
constantemente, os medos relacionados com a precariedade da ordem
deixaram de se concentrar no estado. O poder político, a questão de quem
governa o estado e de quem faz as leis do país deixa de ser o principal
pomo da discórdia. O inimigo já não é a conspiração revolucionária dos
pretensos administradores do estado. Uma vez que nenhum órgão tangível e
bem definido parece estar encarregado da ordem presente, é difícil, ou antes
impossível, imaginar algum poder ainda não existente que debelasse os
males da ordem corrente no futuro, substituindo-a por outra — ou colocando-a, por assim dizer, sob uma “nova gerência”. Quando o
politicólogo americano Peter Drucker proclamou: “Não existe mais
salvação pela sociedade”, essa foi uma declaração programática e
ideológica, mas foi também, ainda que não conscientemente, a decorrência
de um exame da situação, uma afirmação de neo-realismo. “Não existe mais
salvação pela sociedade” significa que não existem órgãos conjuntos,
coletivos e visíveis encarregados da ordem societária global. A
responsabilidade pela situação humana foi privatizada e os instrumentos e
métodos de responsabilidade foram desregulamentados. Uma rede de
categorias abrangente e universal desintegrou-se. O auto-engrandecimento
está tomando o lugar do aperfeiçoamento socialmente patrocinado e a auto-
afirmação ocupa o lugar da responsabilidade coletiva pela exclusão de
classe. Agora, são a sagacidade e a força muscular individual que devem ser
estirados no esforço diário pela sobrevivência e aperfeiçoamento.
Quando controlava a conduta disciplinada de seus membros por meio de
seus papéis produtivos, a sociedade incitava forças combinadas e a busca de
avanço mediante esforços coletivos. A sociedade que obtém padrões de
comportamento para uma ordem mais estável daqueles seus integrantes que
se viram expulsos, ou estão prestes a ser expulsos, de suas posições de
produtores e definidos em vez disso, primordialmente, como consumidores,
desencoraja a fundamentação da esperança em ações coletivas.
Pensamentos que emergem dentro do horizonte cognitivo moldado pelas
práticas diárias dos consumidores invariavelmente acentuam o agudo
interesse pelo mercado consumidor e ampliam-lhe os poderes de sedução.
Ao contrário do processo produtivo, o consumo é uma atividade
inteiramente individual. Ele também coloca os indivíduos em campos
opostos, em que freqüentemente se atacam.
Os “demônios interiores” desse tipo de sociedade nascem dos poderes de
sedução do mercado consumidor. A sociedade de consumidores não pode
dispensar essa sedução mais do que a sociedade de produtores a podia
dispensar, graças à vigência da regulamentação normativa. Por essa mesma
razão, não pode permitir-se declarar guerra, menos ainda combater, à
tendência do mercado de elevar os sonhos e desejos dos consumidores a um
estado de frenesi e alçá-los às nuvens — por mais prejudicial que essa
tendência possa revelar-se à forma de ordem em que se radica.
E prejudicial à ordem ela o é — tanto quanto lhe é indispensável. Não
existe novidade nesse paradoxo — visto que, desde o momento em que a ordem se tornou uma tarefa a ser realizada, qualquer estratégia de
estabelecimento da ordem se revelou impregnada da mesma e irremediável
ambivalência. O que é, no entanto, singular é o tipo de ordem e o método de
que necessita para o próprio funcionamento e a perpetuação uniforme. O
método é novo e assim o são os descontentes que engendra e os riscos que
incuba. Como a viabilidade de uma redistribuição de itens desejáveis do
consumidor, socialmente iniciada, está-se desvanecendo, mesmo para os
que não podem participar do banquete dos consumidores e, assim, não são
propriamente regidos pelos poderes de sedução do mercado, resta apenas
uma linha de ação a adotar para se atingirem os padrões que a sociedade
consumidora promove: tentar alcançar os fins diretamente, sem primeiro se
aparelharem os meios. Afinal, não se pode aparelhar o que não se possui…
O que se tem registrado, em anos recentes, como criminalidade cada vez
maior (um processo, observemos, paralelo ao decréscimo da associação ao
partido comunista ou a outros partidos radicais da “ordem alternativa”) não
é um produto de mau funcionamento ou negligência — muito menos de
fatores externos à própria sociedade (embora assim seja descrito cada vez
mais freqüentemente —, quando, de forma típica, a correlação entre
criminalidade e imigração, afluxo de pessoas estranhas, de raças ou culturas
estrangeiras, se especula ou se declara). É, em vez disso, o próprio produto
da sociedade de consumidores, logicamente (se não legalmente) legítimo; e,
além disso — também um produto inevitável. Quanto mais elevada a
“procura do consumidor” (isto é, quanto mais eficaz a sedução do
mercado), mais a sociedade de consumidores é segura e próspera. Todavia,
simultaneamente, mais amplo e mais profundo é o hiato entre os que
desejam e os que podem satisfazer os seus desejos, ou entre os que foram
seduzidos e passam a agir do modo como essa condição os leva a agir e os
que foram seduzidos mas se mostram impossibilitados de agir do modo
como se espera agirem os seduzidos. A sedução do mercado é,
simultaneamente, a grande igualadora e a grande divisora. Os impulsos
sedutores, para serem eficazes, devem ser transmitidos em todas as direções
e dirigidos indiscriminadamente a todos aqueles que os ouvirão. No
entanto, existem mais daqueles que podem ouvi-los do que daqueles que
podem reagir do modo como a mensagem sedutora tinha em mira fazer
aparecer. Os que não podem agir em conformidade com os desejos
induzidos dessa forma são diariamente regalados com o deslumbrante
espetáculo dos que podem fazê-lo. O consumo abundante, é-lhes dito e mostrado, é a marca do sucesso e a estrada que conduz diretamente ao
aplauso público e à fama. Eles também aprendem que possuir e consumir
determinados objetos, e adotar certos estilos de vida, é a condição
necessária para a felicidade, talvez até para a dignidade humana.
Se o consumo é a medida de uma vida bem-sucedida, da felicidade e
mesmo da decência humana, então foi retirada a tampa dos desejos
humanos: nenhuma quantidade de aquisições e sensações emocionantes tem
qualquer probabilidade de trazer satisfação da maneira como o “manter-se
ao nível dos padrões” outrora prometeu: não há padrões a cujo nível se
manter — a linha de chegada avança junto com o corredor, e as metas
permanecem continuamente distantes, enquanto se tenta alcançá-las. Muito
adiante, recordes continuam a ser quebrados. Deslumbradas e
desconcertadas, as pessoas ficam sabendo que, nas companhias recém-
privatizadas, e assim “liberadas”, de que se lembram como instituições
públicas que eram austeras e constantemente famintas de dinheiro, os atuais
diretores recebem salários calculados em milhões, enquanto os que
perderam os cargos de diretores são indenizados, mais uma vez em milhões
de libras, por seu trabalho desleixado e malfeito. De todos os lugares, por
intermédio de todos os meios de comunicação, a mensagem surge forte e
clara: não existem modelos, exceto os de apoderar-se de mais, e não
existem normas, exceto o imperativo de “saber aproveitar bem as cartas de
que se dispõe”.
Em nenhum jogo de cartas são idênticas as cartas recebidas, portanto o
conselho para se aproveitar bem as cartas de que se dispõe sugere que
devem ser usados quaisquer recursos que se consiga reunir. Do ponto de
vista dos proprietários do cassino, alguns recursos — os que eles próprios
alocam ou põem em circulação — são moeda legal; no entanto, todos os
outros recursos — os fora de seu controle — são proibidos. A linha que
separa o lícito do ilícito não parece a mesma, contudo, do lado dos
jogadores; e, particularmente, do lado dos pretensos jogadores aspirantes e,
mais particularmente, do lado dos jogadores aspirantes incapacitados, que
não têm acesso à moeda legal. Estes devem lançar mão dos recursos que de
fato possuem, quer reconhecidos como legais ou declarados ilegais — ou
optar por sair totalmente do jogo. A força sedutora do mercado, porém,
tornou este último movimento quase impossível de se pretender.
O desarmamento, a inabilitação e a supressão de jogadores
insatisfatórios constituem, pois, um suplemento indispensável da integração mediante sedução numa sociedade de consumidores guiada pelo mercado.
Os jogadores incapazes e indolentes devem ser mantidos fora do jogo. Eles
são o refugo do jogo, mas um produto que o jogo não pode parar de
sedimentar sem emperrar. Além disso, há uma outra razão por que o jogo
não se beneficiaria em deter a produção de refugo: é necessário mostrar aos
que permanecem no jogo as horripilantes cenas (como se lhes diz) da outra
única alternativa — a fim de que estejam aptos e dispostos a suportar as
agruras e tensões geradas pela vida vivida como jogo.
Dada a natureza do jogo agora disputado, as agruras e tormentos dos que
dele são excluídos, outrora encarados como um malogro coletivamente
causado e que precisava ser tratado com meios coletivos, só podem ser
redefinidos como um crime individual. As “classes perigosas” são assim
redefinidas como classes de criminosos. E, desse modo, as prisões agora,
completa e verdadeiramente, fazem as vezes das definhantes instituições do
bem-estar.
A crescente magnitude do comportamento classificado como criminoso
não é um obstáculo no caminho para a sociedade consumista plenamente
desenvolvida e universal. Ao contrário, é seu natural acompanhamento e
pré-requisito. É assim, reconhecidamente, devido a várias razões, mas eu
proponho que a principal razão, dentre elas, é o fato de que os “excluídos
do jogo” (os consumidores falhos — os consumidores insatisfatórios,
aqueles cujos meios não estão à altura dos desejos, e aqueles que recusaram
a oportunidade de vencer enquanto participavam do jogo de acordo com as
regras oficiais) são exatamente a encarnação dos “demônios interiores”
peculiares à vida do consumidor. Seu isolamento em guetos e sua
incriminação, a severidade dos padecimentos que lhes são aplicados, a
crueldade do destino que lhes é imposto, são — metaforicamente falando
— todas as maneiras de exorcizar tais demônios interiores e queimá-los em
efígie. As margens incriminadas servem de esgotos para onde os eflúvios
inevitáveis, mas excessivos e venenosos, da sedução consumista são
canalizados, de modo que as pessoas que conseguem permanecer no jogo
do consumismo não se preocupem com o estado da própria saúde. Se,
contudo, esse for, como sugiro ser, o estímulo primordial da atual
exuberância do que o grande criminologista norueguês Nils Christie
denominou “a indústria da prisão”, então a esperança de que o processo
possa ter a marcha abrandada, para nem se falar em ser suspensa ou
invertida, numa sociedade inteiramente desregulamentada e privatizada, animada e dirigida pelo mercado consumidor, é vaga — para se dizer o
mínimo.
Em nenhum lugar a conexão é exposta mais completamente do que nos
Estados Unidos, onde o domínio incondicional do mercado consumidor
chegou, nos anos da livre competição reaganista, mais longe do que em
qualquer outro país. Os anos de desregulamentação e desmantelamento dos
dispositivos de bem-estar foram também os anos de criminalidade
ascendente, de força policial e população carcerária cada vez maiores.
Foram também anos em que uma sorte cada vez mais sangrenta e
espetacularmente cruel precisava ser reservada àqueles declarados
criminosos, para corresponder aos aceleradamente crescentes medos e
ansiedades, ao nervosismo e à incerteza, raiva e fúria da maioria silenciosa,
ou não tão silenciosa, de consumidores ostensivamente bem-sucedidos.
Quanto mais poderosos se tornavam os “demônios interiores”, mais
insaciável se fazia o desejo daquela maioria de ver “o crime punido” e “a
justiça distribuída”. O liberal Bill Clinton venceu a eleição presidencial
prometendo multiplicar os efetivos da polícia e construir novas e mais
seguras prisões. Alguns observadores (dentre eles Peter Linebaugh, da
Universidade de Toledo, Ohio, autor de The London Hanged) acreditam que
Clinton deve a eleição à execução amplamente divulgada de um retardado
mental, Ricky Ray Rector, a quem permitiu, quando governador do
Arkansas, ir para a cadeira elétrica. Recentemente, adversários de Clinton
dos setores de direita radical do Partido Republicano levaram tudo nas
eleições congressistas, havendo convencido o eleitorado de que Clinton não
fizera o suficiente para combater a criminalidade, e que eles fariam mais.
Em 1972, exatamente quando a era de bem-estar atingia o auge e
exatamente antes de sua queda se iniciar, a Suprema Corte dos Estados
Unidos, refletindo a disposição de ânimo do público na época, decidiu que a
pena de morte era arbitrária e caprichosa e, como tal, inadequada para servir
à causa da justiça. Após várias outras decisões, em 1988 a corte permitiu a
execução de sexagenários, em 1989 a execução de retardados mentais, até
que finalmente, em 1992, no infamante caso Herrera contra Collins, ela
decidiu que o acusado talvez fosse inocente, mas ainda assim poderia ser
executado se o julgamento fosse apropriadamente conduzido e
constitucionalmente correto. O recente Projeto de Lei do Crime aprovado
pelo Senado e Câmara de Deputados amplia o total de delitos puníveis com
a morte para cinqüenta e sete ou mesmo, segundo determinadas interpretações, setenta. Com grande publicidade e muita fanfarra, foi
construída, na penitenciária de Terre Haute, Indiana, uma moderníssima
câmara de execução federal, com um corredor da morte planejado para
comportar cento e vinte condenados. No início de 1994, ao todo 2.802
pessoas estavam aguardando execução em prisões americanas. Destas,
1.102 eram afro-americanas, enquanto 33 foram sentenciadas à morte
quando muito jovens. A esmagadora maioria dos reclusos no corredor da
morte provém da chamada “classe baixa”, esse imenso e crescente depósito
onde se armazenam os fracassados e rejeitados da sociedade consumidora.
Como sugere Linebaugh, o espetáculo da execução é “cinicamente utilizado
pelos políticos para aterrorizar uma crescente classe baixa”. Mas, ao exigir
a aterrorização da classe baixa, a maioria silenciosa americana tenta
aterrorizar os seus próprios terrores interiores…
A reforma da pena de morte talvez seja o sintoma mais drástico, porém
não o único, do papel mutável da criminalidade — e da alterada mensagem
simbólica que ela transmite. O sangue, não somente o suor, tende a ser
tirado da parte encarcerada da “classe baixa”. Em Dead Man Walking, a
freira Helen Prejean, dirigente da Coalizão Nacional contra a Pena de
Morte, descreve o “embuste do plasma” organizado pela Prisão de Angola,
no estado de Indiana, em que se coletavam “doações” de sangue, com os
pagamentos baixando, em março de 1994, dos originais 12 dólares para 4
dólares por doação. Enquanto isso, o dr. Jack Kevorkian, defensor da linha
de frente da eutanásia, faz campanha pela inclusão das “doações” de órgãos
compulsórias no processo da execução. Esses poucos fatos anunciam o
novo papel atribuído aos pobres na nova versão da “classe baixa”, ou da
“classe além das classes”: ela não é mais o “exército de reserva da mão-de-
obra” mas, verdadeiramente, a “população redundante”. Para que serve?
Para o fornecimento de peças sobressalentes para consertar outros corpos
humanos?
Todo ano, um milhão e meio de americanos povoam as prisões
americanas. Cerca de quatro e meio milhões de americanos adultos estão
sob alguma forma de controle judicial. Como o exprime Richard Freeman,
economista de Harvard: “Se aos desempregados, na Europa, se paga
compensação, nos Estados Unidos nós os colocamos nas prisões.” Cada vez
mais, ser pobre é encarado como um crime; empobrecer, como o produto de
predisposições ou intenções criminosas — abuso de álcool, jogos de azar,
drogas, vadiagem e vagabundagem. Os pobres, longe de fazer jus a cuidado e assistência, merecem ódio e condenação — como a própria encarnação do
pecado. Nesse aspecto, pouco há a distinguir entre Bill Clinton e Newt
Gingrich, concorrentes que são entre si para captar a disposição de ânimo
da “maioria silenciosa”. Como o expressou o New York Herald Tribune, em
25 de dezembro de 1994, os americanos — conservadores, moderados,
republicanos — consideram direito seu culpar os pobres pelo seu destino e,
simultaneamente, condenar milhões de seus filhos à pobreza, fome e
desespero.
O “estado de bem-estar está morto”, anunciou um importante porta-voz
da direita americana que afirma ser, e a cada dia mais parece isso, a maioria
americana — um dos diretores da Fundação para o Progresso e a Liberdade,
criada em 1993 para fornecer idéias à maioria republicana no Congresso.
“Precisamos pegar o cadáver e enterrá-lo antes que o fedor se torne
insuportável.” Esta vem a ser uma profecia que se cumpre por si mesma. O
desmantelamento — não só do dispositivo do bem-estar, mas de tudo o que
restou do New Deal americano — está hoje em pleno curso. De um lado, a
nova maioria congressista quer que as jovens mães solteiras sejam privadas
do auxílio mensal de 377 dólares e quer enviar seus filhos a orfanatos — o
que confirma simbolicamente a criminalidade e a inadequação social das
mães. De outro, no alto da agenda da reforma legal está a revogação dos
últimos embaraços colocados às atividades bancárias e a inserção de
“flexibilidade” nas leis antipoluição, que torna mais difícil o recurso contra
procedimentos das empresas. A radical privatização do destino humano
acompanha aceleradamente a radical desregulamentação da indústria e das
finanças.
Pergunto-me o que Willem Adriaan Bonger deduziria disso, se não
houvesse optado pela morte à vida sob os nazistas — aqueles outros e
passados promotores de “soluções radicais”, que, como Klaus Dörner
salientou em Tödliche Mitleid, seu livro esclarecedor, deviam ser também
considerados Bürger — que, como todas as pessoas comuns tanto antes
como depois, buscaram respostas para tudo o que os irritava como
“problemas sociais”. Infelizmente, Bonger não está aqui para nos dizer. Não
viveu o suficiente para assistir ao nascimento do Admirável Mundo Novo
da desregulamentação, da privatização, da escolha do consumidor — e da
incriminação dos impossibilitados de escolher. Precisamos entender este
mundo sem a sua ajuda.
Não estou afirmando que, aqui na Europa, já nos vemos na situação
americana. Tampouco estou afirmando que o presente dos Estados Unidos
necessariamente revela o futuro da Europa. Mas creio que o sinal que envia
é suficientemente claro: há provas esmagadoras da íntima vinculação da
tendência universal para uma radical liberdade do mercado ao progressivo
desmantelamento do estado de bem-estar, assim como entre a desintegração
do estado de bem-estar e a tendência a incriminar a pobreza. Espero
sinceramente que o testemunho americano nos sirva de advertência, não de
exemplo. Quisera, porém, que as minhas esperanças fossem mais bem
fundamentadas. Ibrahim Warde, de Berkeley, escreveu recentemente (Le
Monde Diplomatique, de maio de 1995) sobre a progressiva tirania do
“economicamente correto”. De fato, de maneira gradual mas inexorável,
torna-se um axioma do discurso público que tudo o que economicamente
“tem sentido” não necessita do apoio de nenhum outro sentido — político,
social ou categoricamente humano. Num mundo em que os principais atores
já não são estados-nações democraticamente controlados, mas
conglomerados financeiros não-eleitos, desobrigados e radicalmente
desencaixados, a questão da maior lucratividade e competitividade invalida
e torna ilegítimas todas as outras questões, antes que se tenha tempo e
vontade de indagá-las… Teme-se pensar no que possa ocorrer na Europa,
amedrontada pelo ascendente desemprego estrutural e pelo rapidamente
crescente setor “improdutivo” da população, se a atual tendência dos
Estados Unidos continuar inalterada, e se for reconhecida como
“economicamente correta”, graças ao avanço dos lucros e da capacidade
competitiva…
Texto da Conferência Willem Bonger,
proferida na Universidade de Amsterdam,
em maio de 1995.
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