O Mal-estar da Pós-Modernidade
VI. Turistas e vagabundos: os heróis e as vítimas da pós-modernidade
VI
Turistas e vagabundos: os heróis e as vítimas da
pós-modernidade
Convidando-me a fazer esta palestra, o Professor Hunter me pediu que
“tentasse responder à pergunta sobre como a fragmentação, a
desinstitucionalização e o subjetivismo (entre outros processos) que se
desenrolam na vida social contemporânea são mediados dentro das
estruturas da vida contemporânea”. Ele também me disse “para passar além
das abstrações e mesmo das obscuridades da ‘teoria’(…) para a experiência
empírica e concreta dos verdadeiros seres humanos”. Foram instruções
desafiadoras, e um desafio que eu não podia recusar, embora não possa ter
certeza de que estarei à altura disso… Afinal, as filosofias dos filósofos, as
sínteses dos sintetizadores, as teorias dos teóricos só revelam seu sentido
(desde que o tenham) se encararam como tentativas ordenar o desordenado,
simplificar o complexo, destemporalizar o temporário — sendo o ordenado,
o simples, o extratemporal a “teoria”, e sendo o desordenado, o complexo, o
ligado à história a experiência em que eles, como os habitantes de seu
tempo e lugar, estão imersos. As teorias tendem a ser recipientes claros e
bem talhados feitos para receber os conteúdos limosos e lamacentos da
experiência. Mas, para conservá-los aí, suas paredes precisam ser duras;
tendem também a ser opacas. É difícil ver os conteúdos da experiência
através das paredes da teoria. Muitas vezes se tem de furar as paredes —
“desconstruí-las”, “decompô-las” — para ver o que elas escondem.
Há mais uma razão por que achei o desafio difícil de recusar:
Charlottesville é a terra de Richard Rorty — o grande filósofo, talvez o
maior que temos.
Mas o que é um grande filósofo? Costuma-se, comumente, medir a
grandeza dos filósofos por sua destreza em ligar umas às outras as coisas pendentes, em concluir discussões, em pronunciar vereditos que resumem
um ar de finalidade e, no mais, levar a filosofia a um fim. O significado de
tal grandeza teve origem na filosofia dirigida para Tânatos, uma filosofia
que, como o Dasein heideggeriano, vivia para a morte e levava sua vida
ensaiando a própria extinção desta, certa de que o fim era a sua realização.
Depois dos maiores de todos eles, depois de Aristóteles ou de Hegel,
ouvem-se os gritos angustiados: a filosofia tem de chegar a seu fim, tudo o
que valia a pena dizer se disse, nada do ainda não dito merece que se diga,
temos todas as respostas, mas não mais perguntas…
Sugiro que Richard Rorty é um grande filósofo num sentido
inteiramente diverso. É grande na medida em que, depois de Rorty, já não
se pode filosofar do modo como antes se fazia, mesmo se o que alguém
filosofasse a respeito estivesse em desacordo com a filosofia de Rorty;
embora se deva filosofar, porque a impossibilidade de filosofar da antiga
maneira significa precisamente a impossibilidade da espécie de filosofia
que vive para a morte, a impossibilidade da filosofia sempre chegar a seu
fim. A grandeza filosófica de Rorty nasce de uma espécie diferente de
filosofia — da filosofia dirigida para Eros, libidinal, que se realiza em sua
perpétua irrealização, e em fazer tais perguntas como em temer mais as
respostas últimas do que recear a perspectiva de ficarem aquelas não
respondidas. Em função de tal filosofia, Rorty é um grande filósofo. A
grandeza de Rorty, como filósofo, se realiza em ajudar no nascimento dessa
filosofia irrealizável.
Refletindo sobre as possibilidades de que alguns futuros habitantes do
Saara se apoderassem do espírito do nosso moderno estilo de vida, Rorty
observou que seria mais útil se eles tomassem Dickens, em vez de
Heidegger, como prova material, e isso apesar do fato de Heidegger ter
decifrado, com tantas palavras, o que significa ser moderno, enquanto
jamais ocorresse a Dickens fazê-lo. Apesar? O que Rorty efetivamente
pensa a esse respeito é porquê. A “condição do que é” a sociedade narrada
por Dickens deve ser constantemente indignada e capaz de desaprovar mais
ou menos tudo o que foi até então e o que provavelmente deve vir a ser —
estar para sempre em guerra consigo mesma e nunca usar o “sim” numa
resposta —, ser, como Bloch teria dito, constantemente noch nicht
geworden (alemão: ainda não amadurecida). A “condição do que é” o
mundo narrado por Dickens é a de sua própria impossibilidade. E isto, diz
Rorty, é mais verdadeiro a propósito da modernidade do que qualquer outra fórmula, por mais sutil e refinada, que os grandes sintetizadores possam
compor. Isso não quer dizer que Dickens seja mais sábio do que Heidegger
(mesmo se tivéssemos um metro com o qual medíssemos e comparássemos
os dois tipos tão distintos de sabedoria). Mas isso de fato significa que
Dickens, sendo um romancista, não um filósofo acadêmico, tentando assim,
como tentou, permanecer fiel à experiência confusa, retorcida, contorcida
de seus contemporâneos, mais do que à vocação de corrigi-la —
endireitando-a e aerodinamizando-a — estava numa melhor posição para
contar a verdadeira história dessa experiência que era realmente a
experiência do retorcimento, da contorção e da confusão.
O que Richard Rorty não diz, e em que surpreendo uma exceção a essa
maneira de contar a história, é que ela requer mesmo muita história para se
atribuir mais valor real ao estilo de Dickens de contar história do que ao de
Habermas ou de Heidegger, e que por isso sua própria descoberta (ou, antes,
sua própria escolha de prioridade) é, por si mesma, um acontecimento na
história. Rorty se recusa a localizar-se, e a seu pensamento, na história. E,
nessa recusa, é perigosamente levado para perto daquele autor e ator da
filosofia ortodoxa que ele, mais do que qualquer outro, fez repudiar e
desautorizar — daquele “sacerdote ascético” que tão engenhosamente ele
distingue em Heidegger. Daquele sacerdote ascético capaz de acreditar que
a verdade se conservara à espera desde o dia da criação e que é apenas um
objeto de suas habilidades e seu bom senso sacerdotal fazê-la sair de seu
esconderijo.
Mas o que estamos fazendo, quando dizemos que a verdade do
romancista é melhor do que a verdade do filósofo? Estamos enunciando
assim um fato que escapou profundamente à visão dos filósofos modernos?
Um fato que eles podiam ter visto se não estivessem, tolamente, desviando
os olhos? Ou estamos, antes, identificando algo novo, que não havia antes?
Ou algo que, se havia, era tão lateral, tão frágil e taciturno ou, sob outros
aspectos, irrelevante para ir ao encontro dos olhos? Em outras palavras,
estamos falando de uma mudança na filosofia, ou na experiência de vida
sobre a qual filosofamos?
Em seu papel tradicional de purificadores e legisladores do senso
comum, os filósofos deviam cortar e separar suas próprias práticas das
práticas do homem comum, de modo que pudessem ser colocadas umas
contra as outras. Dessa operação, as práticas dos não-filósofos emergiam, é
claro, como não-filosóficas. A divisão era nítida e bem arrumada. De um lado estava a filosofia, não poluída pelas práticas inesperadas e oscilantes:
do outro lado, as cruas práticas não poluídas pelo pensamento — uma
matéria-prima não diferente dos piques sobre a tela do acelerador,
esperando o significado a ser dado pelos físicos nucleares. Mas essa divisão
era um subproduto, ou um produto inútil, da autocontribuição da filosofia
no papel correto que tinha escolhido, ou que ela foi escolhida a
desempenhar em toda a era moderna. A ausência da filosofia nas práticas
vivas era de trivial evidência, mas pela decisão de ignorar-lhe a presença ou
negar-lhe as credenciais.
É de trivial evidência, hoje, que a experiência comum não seja
absolutamente como a filosofia moderna (e a sociologia, para essa questão)
a pintava: nem o vazio que espera ser preenchido com o significado, nem o
plasma informe a que profissionais devem dar configuração, equipados de
perícia hermenêutica. Em vez disso, essa experiência é desde o princípio
significativa, interpretada, compreendida pelos impregnados dela — essa
significação, interpretação e compreensão é seu modo de ser. Agora, tornar
de evidência trivial hoje o próprio oposto do que era de evidência trivial
ontem é, sem dúvida, uma realização filosófica. Mas a Coruja de Minerva,
na verdade, não estende as asas apenas no anoitecer… Muito deve ter
acontecido no longo dia da vida que os homens e mulheres modernos
experimentam, para os filósofos, quando a noite veio, reconhecerem a
evidência — para aceitarem a evidência como evidência.
É de inteira probabilidade, mas em grande parte sem importância, que a
experiência humana tenha produzido, em todas as épocas, o caráter que hoje
consideramos evidente. O problema, porém, é que apenas sob certas
condições, mesmo quando mais ubíquas e teimosamente presentes, as
coisas realmente se tornam “evidentes”. (É evidente para nós, por exemplo,
que já os homens de Cro-Magnon e os de Neanderthal “deviam ter tido uma
cultura”, mas só na segunda metade do século XVIII pôde o conceito de
cultura ser cunhado, e eles dificilmente seriam os Cro-Magnons e os
Neanderthais que foram, se estivessem conscientes de que tinham uma
cultura.) E é sob condições especiais que as percepções leigas, as
interpretações e estratégias de vida resultantes podem ser reconhecidas mais
como conhecimento — um conhecimento válido — do que como
manifestações do “senso comum” endemicamente estragado, prejudicado e,
sob outros aspectos, errôneo; que a compreensão pode ter sido reconhecida
como a realização em curso, sempre repetida e nunca definitiva da vida diária, mais do que o produto de uma refinada metodologia acessível apenas
aos especialistas e que se move inexoravelmente para a resolução final e
conclusiva.
Muito podia ser dito sobre semelhantes condições especiais, esse tipo
especial da experiência de vida comum, que tornou evidente essas coisas
que, antes, talvez também pudessem ser verdadeiras, mas sem dúvida não
eram, anteriormente, consideradas evidentes. Eu gostaria, contudo, de
chamar a sua atenção para uma mudança momentosa nas circunstâncias da
vida — a saber, a destemporalização do espaço social.
A projeção do espacial, distinção contemporânea sobre o contínuo do
tempo, reapresentação da heterogeneidade como série ascendente de
períodos de tempo, talvez tenha sido o mais notável e também
possivelmente o mais fecundo aspecto da mentalidade moderna. Mas as
metáforas transformam ambos os lados que entram na relação metafórica. A
projeção do espaço sobre o tempo forneceu ao tempo traços que só o espaço
possui “naturalmente”: a época moderna teve direção, exatamente como
qualquer itinerário no espaço. O tempo progrediu do obsoleto para o
atualizado, e o atualizado foi desde o início a obsolescência futura. O tempo
tinha sua “frente” e seu “atrás”: uma pessoa era incitada e empurrada a
andar “para a frente com o tempo”. Os turbulentos e auto-homenageados
anciões da cidade que construíram a prefeitura de Leeds na metade do
século XIX, como o monumento a sua própria e milagrosa ascensão no
tempo, gravaram seus princípios morais por todos os lados das paredes da
sua sala de reunião. Perto de outros mandamentos, havia um mais notável
pela sua confiante brevidade: “Avante!” Aqueles que projetaram a
prefeitura não tinham dúvidas onde era “avante”.
E, assim, os homens e as mulheres modernos viveram num tempo-
espaço com estrutura, um tempo-espaço rijo, sólido, durável — exatamente
a correta referência de nível para traçar e controlar o caráter caprichoso e
volátil da vontade humana — mas também um duro recipiente em que os
atos humanos podiam achar-se sensíveis e seguros. Nesse mundo
estruturado, uma pessoa podia perder-se, mas também podia achar seu
caminho e chegar exatamente aonde pretendia estar. A diferença entre se
perder e chegar era feita de conhecimento e determinação: o conhecimento
da estrutura do tempo-espaço e a determinação de seguir, fosse qual fosse, o
itinerário escolhido. Sob tais circunstâncias, a liberdade era de fato a
necessidade conhecida — mais a decisão de agir com esse conhecimento.
A estrutura estava em seu lugar antes de qualquer proeza humana
começar, e durava o tempo suficiente, inabalável e inalterada, para levar a
cabo a proeza. Ela antecedeu toda realização humana, mas também fez a
realização possível: transformou a luta pela vida de cada um, antes uma
disputa despropositada, numa realização coerente. A cada feito se podia
acrescer outro, seguir a estrada passo a passo, cada um destes levando a
outro, graças à estrada; podia-se construir a realização de uma pessoa da
base para cima, desde os alicerces ao telhado. Era esse o mundo da
peregrinação por toda a vida, da vocação, ou — como a Coruja de Minerva
devia proclamar mais tarde pela boca de Jean-Paul Sartre — do “projeto de
vida”. De igual modo David Copperfield e Buddenbrooks estiveram lutando
duramente com indomáveis padrões — elevados mas escorregadios,
obrigatórios mas quase impossíveis de alcançar. E assim eles souberam
desde o início onde procurar o sucesso e souberam, em seguida, se
fracassaram. Nossas lutas pela vida, ao contrário, se dissolvem naquela
insustentável leveza do ser… Nunca sabemos, ao certo, quando rir e quando
chorar. E mal há um momento, na vida, para se dizer sem escuras
premonições: “Tive êxito.”
Deixem-me fazer-me mais claro. Não estou dizendo que os homens e
mulheres modernos falavam de tudo isso em tantas palavras, que eles
pensavam a esse respeito, ponderavam e argumentavam enquanto passavam
pelas atividades de sua vida. Em vez disso, estou dizendo que nós, homens
e mulheres do final do século XX, os homens e mulheres recém-modernos,
“supermodernos” ou pós-modernos têm de imputar a eles tal visão do
mundo, quando quer que desejemos dar sentido ao que sabemos de suas
vidas e tentar compreender a espécie de experiência que tornou essa vida
possível, enquanto estava sendo tornada possível por ela. Não estou dizendo
que eles viveram diariamente com o conhecimento do tempo-espaço
severamente estruturado e da solidez, e durabilidade, do mundo — mas que
nós vivemos diariamente com a consciência cada vez maior de que não
podemos tampouco confiar. Estou falando, portanto, acima de tudo, acerca
do choque presente, não da tranqüilidade passada. A experiência passada,
como agora tendemos a reconstruir, retrospectivamente, veio ser-nos
conhecida, principalmente, mediante seu desaparecimento. O que pensamos
que o passado tinha é o que sabemos que não temos.
E o que sabemos que não temos é a facilidade de retirar a estrutura do
mundo da ação dos seres humanos; a solidez firme, de pedra, do mundo exterior à flexibilidade da vontade humana. Não que o mundo se tenha
tornado subitamente submisso e obediente ao desejo humano; assim como,
em vez disso, com demasiada freqüência, ele não dá importância à intenção
e esforço humanos, desvirtuando e desviando facilmente os efeitos dos
trabalhos humanos. Mas esse mundo cada vez mais exterior lembra um de
outro participante do jogo, mais do que o do indomável fixador de normas e
o de um árbitro que não admite apelação; e como que um participante de
um jogo cujas regras são feitas e refeitas no curso da disputa. A experiência
de viver em tal mundo (ou é, antes, a experiência de viver esse mundo?) é a
experiência de um jogador, e na experiência do jogador não há meio de se
falar da necessidade de acidente, determinação da contingência: não há
senão os movimentos dos jogadores, a arte de jogar bem com as cartas que
se tem e a habilidade de fazer o máximo com elas.
A ação humana não se torna menos frágil e errática: é o mundo em que
ela tenta inscrever-se e pelo qual procura orientar-se que parece ter-se
tornado mais assim. Como pode alguém viver a sua vida como peregrinação
se os relicários e santuários são mudados de um lado para o outro, são
profanados, tornados sacrossantos e depois novamente ímpios num período
de tempo mais curto do que levaria a jornada para alcançá-los? Como pode
alguém investir numa realização de vida inteira, se hoje os valores são
obrigados a se desvalorizar e, amanhã, a se dilatar? Como pode alguém se
preparar para a vocação da vida, se habilidades laboriosamente adquiridas
se tornam dívidas um dia depois de se tornarem bens? Quando profissões e
empregos desaparecem sem deixar notícia e as especialidades de ontem são
os antolhos de hoje? E como se pode fixar e separar um lugar no mundo se
todos os direitos adquiridos não o são senão até segunda ordem, quando a
cláusula da retirada à vontade está escrita em todo contrato de parceria,
quando — como Anthony Giddens adequadamente o expressou — todo
relacionamento não é senão um “simples” relacionamento, isto é, um
relacionamento sem compromisso e com nenhuma obrigação contraída, e
não é senão amor “confluente”, para durar não mais do que a satisfação
derivada?
O significado da identidade, como o Christopher Lasch da última fase
ressaltou, se refere tanto a pessoas como coisas. O mundo construído de
objetos duráveis foi substituído pelo de produtos disponíveis projetados
para imediata obsolescência. Num mundo como esse, as identidades podem
ser adotadas e descartadas como uma troca de roupa. O horror da nova situação é que todo diligente trabalho de construção pode mostrar-se inútil;
e o fascínio da nova situação, por outro lado, se acha no fato de não estar
comprometida por experiências passadas, de nunca ser irrevogavelmente
anulada, sempre “mantendo as opções abertas”. Mas o horror e o fascínio,
de igual modo, fazem a vida como peregrinação dificilmente factível como
uma estratégia e improvável de ser escolhida como tal. Não por muitos,
afinal de contas. E não com grande probabilidade de sucesso.
No jogo da vida dos homens e mulheres pós-modernos, as regras do
jogo não param de mudar no curso da disputa. A estratégia sensível,
portanto, é manter curto cada jogo — de modo que um jogo da vida
sensatamente disputado requer a desintegração de um jogo que tudo abarca,
com prêmios enormes e dispendiosos, numa série de jogos estreitos e
breves, que só os tenha pequenos e não demasiadamente preciosos. Para
novamente citar Christopher Lasch, a determinação de viver um dia de cada
vez, e de retratar a vida diária como uma sucessão de emergências menores,
se tornaram os princípios normativos de toda estratégia de vida racional.
Manter o jogo curto significa tomar cuidado com os compromissos a
longo prazo. Recusar-se a “se fixar” de uma forma ou de outra. Não se
prender a um lugar, por mais agradável que a escala presente possa parecer.
Não se ligar a vida a uma vocação apenas. Não jurar coerência e lealdade a
nada ou a ninguém. Não controlar o futuro, mas se recusar a empenhá-lo:
tomar cuidado para que as conseqüências do jogo não sobrevivam ao
próprio jogo e para renunciar à responsabilidade pelo que produzam tais
conseqüências. Proibir o passado de se relacionar com o presente. Em
suma, cortar o presente nas duas extremidades, separar o presente da
história. Abolir o tempo em qualquer outra forma que não a de um
ajuntamento solto, ou uma seqüência arbitrária, de momentos presentes:
aplanar o fluxo do tempo num presente contínuo.
Uma vez disfarçado e não mais um vetor, não mais uma seta com um
indicador, ou um fluxo com uma direção, o tempo já não estrutura o espaço.
Conseqüentemente, já não há “para a frente” ou “para atrás”; o que conta é
exatamente a habilidade de se mover e não ficar parado. Adequação — a
capacidade de se mover rapidamente onde a ação se acha e estar pronto a
assimilar experiências quando elas chegam — tem precedência sobre saúde,
essa idéia do padrão de normalidade e de conservar tal padrão estável,
incólume. Toda demora, também a “demora da satisfação”, perde seu
significado: não há nenhum tempo como seta legado para medi-la.
E desse modo a dificuldade já não é descobrir, inventar, construir,
convocar (ou mesmo comprar) uma identidade, mas como impedi-la de ser
demasiadamente firme e de aderir depressa demais ao corpo. A identidade
durável e bem costurada já é uma vantagem; crescentemente, e de maneira
cada vez mais clara, ela se torna uma responsabilidade. O eixo da estratégia
de vida pós-moderna não é fazer a identidade deter-se — mas evitar que se
fixe.
A figura do turista é a epítome dessa evitação. De fato, os turistas que
valem o que comem são os mestres supremos da arte de misturar os sólidos
e desprender o fixo. Antes e acima de tudo, eles realizam a façanha de não
pertencer ao lugar que podem estar visitando: é deles o milagre de estar
dentro e fora do lugar ao mesmo tempo. O turista guarda sua distância, e
veda a distância de se reduzir à proximidade. É como se cada um deles
estivesse trancado numa bolha de osmose firmemente controlada; só coisas
tais como as que o ocupante da bolha aceita podem verter para dentro, só
coisas tais como as que ele ou ela permitem sair podem vazar. Dentro da
bolha o turista pode sentir-se seguro: seja qual for o poder de atração do
lado de fora, por mais aderente ou voraz que possa ser o mundo exterior, o
turista está protegido. Viajando despreocupadamente, com apenas uns
poucos pertences necessários à garantia contra a inclemência dos lugares
estrangeiros, os turistas podem sair de novo a caminho, de uma hora para a
outra, logo que as coisas ameaçam escapar de controle, ou quando seu
potencial de diversão parece ter-se exaurido, ou quando aventuras ainda
mais excitantes acenam de longe. O nome do jogo é mobilidade: a pessoa
deve poder mudar quando as necessidades impelem, ou os sonhos o
solicitam. A essa aptidão os turistas dão o nome de liberdade, autonomia ou
independência, e prezam isso mais do que qualquer outra coisa, uma vez
que é a conditio sine qua non de tudo o mais que seus corações desejam.
Este é também o significado de sua exigência mais freqüentemente ouvida:
“Preciso de mais espaço.” Ou seja, a ninguém será permitido discutir o meu
direito de sair do espaço em que atualmente estou trancado.
Na vida do turista, a duração da estada em qualquer lugar mal chega a
ser planejada com antecipação; tampouco o é o próximo destino. A
peculiaridade da vida turística é estar em movimento, não chegar. Ao
contrário daqueles seus antecessores, os peregrinos, as sucessivas escalas
dos turistas não são estações pelo caminho, uma vez que não há nenhum
objetivo que lhes acene, no fim das viagens da vida, que pudesse convertê-los em estações. Se os sucessivos endereços se encaixam dentro de um
itinerário, isso só acontece retrospectivamente, quando se descobre ou se
lhe atribui uma lógica que não guia o andarilho durante o tempo de suas
andanças. Quando ainda em movimento, nenhuma imagem da situação
futura se acha à mão para encher a experiência presente com um
significado; cada presente que se sucede, como as obras de arte
contemporâneas, deve explicar-se em função de si próprio e fornecer sua
própria chave para lhe interpretar o sentido.
As escalas são acampamentos, não domicílios. Por mais longo que cada
intervalo da viagem possa mostrar-se no fim, é vivido, em cada momento,
como uma estada de pernoite. Só as mais superficiais das raízes, se tanto,
são lançadas. Só relações epidérmicas, se tanto, são iniciadas com as
pessoas dos lugares. Acima de tudo, não há nenhum comprometimento do
futuro, nenhuma incursão em obrigações de longo prazo, nenhuma
admissão de alguma coisa que aconteça hoje para se ligar ao amanhã. As
pessoas do lugar, afinal, não são as zeladoras de estalagens do meio do
caminho, que os peregrinos tinham de visitar outra vez e outra vez, a cada
peregrinação: as pessoas do lugar, com que os turistas deparam, eles
literalmente “tropeçam com” elas acidentalmente, como um efeito colateral
do empurrão de ontem, que antes de ontem ainda não era imaginado ou
antecipado, e que podia facilmente ser diferente do que era, e levar o turista
para algum outro lugar. A companhia delas tinha nascido de um impulso e
de uma vontade que morreram nos que se seguiram. É verdade que a
companhia é a conseqüência do movimento, mas é uma conseqüência não
antecipada: não foi parte da transação e não tem nenhum direito sobre a
lealdade do viajante.
Tudo isso oferece ao turista a sensação recompensadora de “estar sob
controle”. Não é este, para estar seguro, um controle no sentido agora
antiquado, fora de moda, e heróico, de quem grava a sua forma no mundo,
refazendo o mundo em sua própria imagem, ou querendo-o e conservando-o
como tal. Este não é senão o que se pode chamar o “controle situacional” —
a aptidão para escolher onde e com que partes do mundo “interfacear”, e
quando desligar a conexão. Ligar e desligar não deixam no mundo qualquer
marca duradoura: na verdade, graças à facilidade com que as chaves
funcionam, o mundo (como o turista o conhece) parece infinitamente
flexível, dócil e esboroável. É improvável manter-se qualquer configuração
por muito tempo. As olhadas tomam o lugar das configurações: agora, são os interesses errantes do turista, sua atenção inconstante, e o ângulo móvel
de sua visão que dão ao mundo sua “estrutura” — tão fluidos e tão “até
segunda ordem” quanto a contemplação que os levou a existir. Configurar o
mundo desse modo é fácil, mas é também, pelo menos para o mundo,
inconseqüente.
Um evento que, em princípio, não tem quaisquer conseqüências que
sobrevivam à sua própria duração é chamado um episódio. Como os
próprios turistas, o episódio — assim diz Milan Kundera — passa
rapidamente na história, sem ser parte dela. O episódio é um evento fechado
em torno de si mesmo. Cada novo episódio é, por assim dizer, um começo
absoluto, mas seu fim é igualmente absoluto: “não ser levada adiante” é a
última frase da história (mesmo se, para tornar a situação do incauto ainda
mais amarga, for escrita com tinta invisível). O problema — como Kundera
se apressa a acrescentar — é que a própria decisão sobre a finalidade da
conclusão nunca é definitiva. Nunca se saberia se o episódio está realmente
acabado e consumado. Não obstante todo o esforço de preveni-los, os
eventos passados podem voltar a perseguir os presentes do futuro. Entre os
parceiros das relações do passado, os melhores para serem esquecidos
podem de novo aparecer, dentro de episódios inteiramente diversos,
sacudindo as feridas deixadas pelos encontros de outrora. Suprimir os
episódios, cortar pela raiz as plantas novas das conseqüências futuras,
portanto, supõe um esforço constante, e um esforço constantemente
inconclusivo com isso. É esta uma mosca imunda no ungüento, sob outros
aspectos saboroso, de uma vida em todos os momentos vivida como um
episódio. Ou talvez seja um buraco, através do qual o mundo exterior
repetidamente força o espaço firmemente controlado — anunciando, desse
modo, o logro do controle do turista. É por isso que a vida do turista não é
um mar de rosas. Há um preço a ser pago pelos prazeres que ela traz. A
maneira como o turista põe de lado certas incertezas ocasiona suas próprias
incertezas.
Os turistas iniciam suas viagens por escolha — ou, pelo menos, assim
eles pensam. Eles partem porque acham o lar maçante ou não
suficientemente atrativo, demasiadamente familiar e contendo
demasiadamente poucas surpresas, ou porque esperam encontrar em outro
lugar uma aventura mais excitante e sensações mais intensas do que a rotina
doméstica jamais é capaz de transmitir. A decisão de abandonar o lar com o
fim de explorar terras estranhas é positivamente a mais fácil de tomar pela confortadora percepção de que sempre se pode voltar, se for preciso. Os
incômodos dos quartos de hotel podem, de fato, provocar nostalgia, assim
como consola e recompensa recordar que há uma casa — em algum lugar
—, um refúgio do tumulto e em que a pessoa podia abrigar-se, para estar
não-ambiguamente e não-problematicamente chez soi — puxar as cortinas,
fechar os olhos e ligar os ouvidos a novas sensações, cerrar a porta a novas
aventuras… Bem, a questão é que tal perspectiva fica consoladora e
recompensadora contanto que permaneça uma perspectiva. O “lar”,
enquanto na “nostalgia”, não é nenhuma das verdadeiras edificações de
tijolo e argamassa, madeira ou pedra. O momento em que a porta é trancada
do lado de fora, o lar se torna um sonho. O momento em que a porta é
trancada do lado de dentro, ele se converte em prisão. O turista adquiriu o
gosto pelos espaços mais vastos e, acima de tudo, completamente abertos.
Os turistas se tornam viajantes e colocam os sonhos da nostalgia acima
das realidades da casa — porque eles exigem isso, porque eles o
consideram a mais razoável estratégia de vida “sob as circunstâncias”, ou
porque foram seduzidos pelos prazeres verdadeiros ou imaginários de uma
vida de quem acumula sensações. Mas nem todos os viajantes estão em
movimento por preferirem estar em movimento a ficar em seu lugar. Muitos
talvez se recusassem a se aventurar numa vida de perambulação se fossem
solicitados a isso, mas eles não foram inicialmente solicitados. Se estão em
movimento, é porque foram impelidos por trás — tendo sido,
primeiramente, desenraizados por uma força demasiadamente poderosa, e
muitas vezes demasiadamente misteriosa, para que se lhe resista. Vêem sua
situação como qualquer coisa que não a manifestação da liberdade.
Liberdade, autonomia, independência — se elas de algum modo aparecem
no seu vocabulário — invariavelmente vêm no tempo futuro. Para eles,
estar livre significa não ter de viajar de um lado para o outro. Ter um lar e
ser permitido ficar dentro dele. São esses os vagabundos, luas escuras que
refletem o brilho de sóis brilhantes, os mutantes da evolução pós-moderna,
os refugos inaptos da brava espécie nova. Os vagabundos são os restos do
mundo que se dedicaram aos serviços dos turistas.
Os turistas se demoram ou se movem segundo o desejo de seus
corações. Abandonam o local quando novas oportunidades não
experimentadas acenam em outra parte. Os vagabundos, porém, sabem que
não ficarão por muito tempo, por mais intensamente que o desejem, uma
vez que em lugar nenhum em que parem são bem-vindos: se os turistas se movem porque acham o mundo irresistivelmente atrativo, os vagabundos se
movem porque acham o mundo insuportavelmente inóspito. Eles vão para
as estradas não quando arrancaram a última gota de diversão que as pessoas
do lugar podiam oferecer, mas quando estas perdem a paciência e se
recusam a tolerar sua presença estranha. Os turistas viajam porque querem;
os vagabundos, porque não têm nenhuma outra escolha. Os vagabundos,
pode-se dizer, são turistas involuntários. Mas a noção de “turista
involuntário” é uma contradição em termos. Ainda que muito da estratégia
do turista possa ser uma necessidade num mundo marcado por paredes
movediças e por estradas instáveis, a liberdade de escolha é o corpo vivo do
turista. Subtraia-se isso e a atração, a poesia e, na verdade, a afabilidade da
vida do turista estão quase liquidadas.
Uma palavra de advertência: turistas e vagabundos são as metáforas da
vida contemporânea. Uma pessoa pode ser (e freqüentemente o é) um
turista ou um vagabundo sem jamais viajar fisicamente para longe — assim
como os puritanos de Max Weber eram peregrinos através da vida mesmo
se mal olhassem algum dia além do limite de sua cidade natal e estivessem
atarefados demais, nas atividades de suas vocações, para algum dia tirar um
tempo e visitar a praia. Tendo isso em mente, sugiro-lhes que, em nossa
sociedade pós-moderna, estamos todos — de uma forma ou de outra, no
corpo ou no espírito, aqui e agora ou no futuro antecipado, de bom ou de
mau grado — em movimento; nenhum de nós pode estar certo/a de que
adquiriu o direito a algum lugar uma vez por todas, e ninguém acha que sua
permanência num lugar, para sempre, é uma perspectiva provável. Onde
quer que nos aconteça parar estamos, pelo menos, parcialmente deslocados
ou fora do lugar. Mas aqui termina o que há de comum na nossa situação e
começam as diferenças.
Sugiro-lhes que a oposição entre os turistas e os vagabundos é a maior, a
principal divisão da sociedade pós-moderna. Estamos todos traçados num
contínuo estendido entre os pólos do “turista perfeito” e o “vagabundo
incurável” — e os nossos respectivos lugares entre os pólos são traçados
segundo o grau de liberdade que possuímos para escolher nossos itinerários
de vida. A liberdade de escolha, eu lhes digo, é de longe, na sociedade pós-
moderna, o mais essencial entre os fatores de estratificação. Quanto mais
liberdade de escolha se tem, mais alta a posição alcançada na hierarquia
social pós-moderna. As diferenças sociais pós-modernas são feitas com a
amplitude e estreiteza da extensão de opções realistas.
Mas o vagabundo é o alter ego do turista — exatamente como o
miserável é o alter ego do rico, o selvagem o alter ego do civilizado, ou o
estrangeiro o alter ego do nativo. Ser um alter ego significa servir como um
depósito de entulho dentro do qual todas as premonições inefáveis, os
medos inexpressos, as culpas e autocensuras secretas, demasiadamente
terríveis para serem lembrados, se despejam; ser um alter ego significa
servir como pública exposição do mais íntimo privado, como um demônio
interior a ser publicamente exorcizado, uma efígie em que tudo o que não
pode ser suprimido pode ser queimado. O alter ego é o escuro e sinistro
fundo contra o qual o eu purificado pode brilhar.
Não admira que a metade turística da sociedade pós-moderna vacile na
medida em que se interesse pela outra metade, a do vagabundo. Este zomba
do estilo turístico, e zombar significa ridículo. Os vagabundos são a
caricatura que revela a fealdade escondida sob a beleza da maquiagem. Sua
presença é enfadonha e enraivecedora. Não há nenhum proveito evidente
que se lhes possa tirar: pelo que se sabe, pode-se dar-lhes destino sem
nenhuma perda ou pena — nem mesmo deles próprios.
Mas lembremos: os vagabundos são os depósitos de entulho para a
imundície do turista; desguarneça-se o sistema de recolhimento dos detritos
e as pessoas saudáveis desse mundo serão sufocadas e envenenadas no meio
de seus próprios restos… Ainda mais decisivamente, os vagabundos —
lembremos isso — são o fundo de cena escuro contra o qual o sol do turista
brilha tão reluzentemente que os projetores mal se vêem. Quanto mais
escuro o segundo plano, mais reluzente o brilho. Quanto mais repulsiva e
detestável a sorte do vagabundo, mais toleráveis são os pequenos
incômodos e os grandes riscos da vida do turista. Pode-se viver com as
ambigüidades da incerteza que saturam a vida do turista só porque as
certezas da vagabundagem são tão inequivocamente asquerosas e
repugnantes. O turista precisa de uma alternativa cuja contemplação é
pavorosa demais para se manter repetindo, nas horas de tensão, que “não há
nenhuma alternativa”.
Os vagabundos, as vítimas do mundo que transformou os turistas em
seus heróis, têm, afinal, suas utilidades. Como os sociólogos gostam de
dizer, eles são “funcionais”. É difícil viver em suas imediações, mas é
inconcebível viver sem eles. São suas privações gritantes demais que
reduzem as preocupações das pessoas com as inconveniências marginais. É a sua evidente infelicidade que inspira os outros a agradecerem a Deus,
diariamente, por tê-los feito turistas.
Conferência proferida na Universidade de Virginia,
em outubro de 1995.
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