O Mal-estar da Pós-Modernidade
V. Arrivistas e párias: os heróis e as vítimas da modernidade
V
Arrivistas e párias: os heróis e as vítimas da
modernidade
Socialmente, a modernidade trata de padrões, esperança e culpa. Padrões —
que acenam, fascinam ou incitam, mas sempre se estendendo, sempre um
ou dois passos à frente dos perseguidores, sempre avançando adiante apenas
um pouquinho mais rápido do que os que lhes vão no encalço. E sempre
prometendo que o dia seguinte será melhor do que o momento atual. E
sempre mantendo a promessa viva e imaculada, já que o dia seguinte será
eternamente um dia depois. E sempre mesclando a esperança de alcançar a
terra prometida com a culpa de não caminhar suficientemente depressa. A
culpa protege a esperança da frustração; a esperança cuida para que a culpa
nunca estanque. “L’homme est coupable,” observou Camus, esse
inigualavelmente perspicaz correspondente da terra da modernidade, “mais
il l’est de n’avoir su tirer de lui-même.”1
Psiquicamente, a modernidade trata da identidade: da verdade de a
existência ainda não se dar aqui, ser uma tarefa, uma missão, uma
responsabilidade. Como o restante dos padrões, a identidade permanece
obstinadamente à frente: é preciso correr esbaforidamente para alcançá-la.
E, portanto, se corre, puxado pela esperança e impelido pela culpa, embora
a corrida, por mais rápida que seja, pareça estranhamente arrastada.
Precipitar-se para a frente, em direção à identidade perpetuamente tentadora
e perpetuamente inconsumada, assemelha-se a recuar da defeituosa e
ilegítima realidade do presente.
Tanto social quanto psiquicamente, a modernidade é irremediavelmente
autocrítica: um exercício infindável e, no fim, sem perspectivas, de
autocancelamento e auto-invalidação. Verdadeiramente moderna não é a
presteza em retardar o contentamento, mas a impossibilidade de ficar contente. Toda realização é meramente uma pálida cópia do seu modelo.
“Hoje” é meramente uma incipiente premonição de amanhã; ou, antes, seu
reflexo inferior e desfigurado. O que é é cancelado de antemão por o que
virá. Mas extrai o seu alcance e o seu sentido — seu único sentido — desse
cancelamento.
Em outras palavras, a modernidade é a impossibilidade de permanecer
fixo. Ser moderno significa estar em movimento. Não se resolve
necessariamente estar em movimento — como não se resolve ser moderno.
É-se colocado em movimento ao se ser lançado na espécie de mundo
dilacerado entre a beleza da visão e a feiúra da realidade — realidade que se
enfeiou pela beleza da visão. Nesse mundo, todos os habitantes são
nômades, mas nômades que perambulam a fim de se fixar. Além da curva,
existe, deve existir, tem de existir uma terra hospitaleira em que se fixar,
mas depois de cada curva surgem novas curvas, com novas frustrações e
novas esperanças ainda não destroçadas.
O hábitat dos nômades é o deserto — esse lugar-não-lugar sobre o qual
Edmond Jabès escreveu que, nele, “não há avenidas, bulevares, becos sem
saída nem ruas. Somente — aqui e ali — vestígios fragmentários de passos,
rapidamente apagados e negados.”2 Apagar as pegadas de ontem é tudo o
que resta à quimérica simplicidade do pernoite. Faz com que a chegada dê,
reconfortantemente, a impressão de estar em casa — isto é, até que também
se transforme em um vestígio a ser negado e apagado. A vista de tendas
armadas ontem no local do pernoite é animadora: ela cerca um lote do
deserto, de modo que possa parecer um oásis e dar uma sensação de
propósito às perambulações de ontem. Essas tendas armadas ontem, sendo
apenas tendas, tiram, entretanto, a máscara da autocongratulação. Elas
provam, se fosse necessária prova, o auto-engano da existência que quer
esquecer o seu passado nômade; mostra que a casa é somente um ponto de
chegada, e uma chegada prenhe de uma nova partida.
Onde quer que cheguem e desejem ardentemente permanecer, os
nômades descobrem que são arrivistas. Arrivista, alguém já no lugar, mas
não inteiramente do lugar, um aspirante a residente sem permissão de
residência. Alguém que lembra aos moradores mais antigos o passado que
querem esquecer e o futuro que antes desejariam longe; alguém que faz
com que os moradores mais antigos corram em busca de abrigo em
escritórios do fornecimento de permissões, apressadamente construídos.
Ordena-se ao arrivista que porte o rótulo “recém-chegado”, de modo que todos os outros possam confiar em que suas tendas estejam talhadas na
rocha. A permanência do arrivista deve ser declarada temporária, de modo
que a permanência de todos os outros possa parecer eterna.
Os moradores mais antigos odeiam os arrivistas, por despertarem as
lembranças e premonições que se esforçam, com empenho, para fazer
dormir. Mas eles dificilmente podem passar sem arrivistas, sem que alguns
deles sejam estigmatizados como arrivista, excluídos, acusados de trazer em
seus corpos o bacilo da inquietação: é graças a essa parte estigmatizada, e
somente a ela, que o todo pode achar que os sonhos ruins e as premonições
mórbidas são maledicências de outras pessoas e não se lhes aplicam
inteiramente. O arrivista necessita de um arrivista a fim de não se sentir um
arrivista. E, assim, os nômades disputam com outros nômades o direito de
fornecer permissões de residência uns aos outros. É a única maneira de
fazerem com que a sua própria residência pareça segura. A única maneira
por que podem fixar o tempo que se recusa a permanecer imóvel é marcar o
espaço e proteger as marcas para que não sejam apagadas ou deslocadas.
Pelo menos, tal é a sua desesperada esperança.
Na incisiva descrição de Robert Musil, “a sucessão de acontecimentos é
um trem desenrolando seus trilhos adiante de si. O rio do tempo é um rio
que arrasta as margens consigo.”3 Foi a moderna “fusão de sólidos e
profanação de sagrados” que ocasionou esses trens e esses rios. Os trens
pré-modernos corriam previsível e tediosamente em círculos, mais ou
menos como correm os trens de brinquedo das crianças. E os rios pré-
modernos permaneciam em seus leitos por um tempo suficientemente longo
para parecer imemorial. Como observou Wylie Sypher, “em qualquer
sociedade em que a estrutura de classe é tão fechada que cada um tem o
lugar e o conhece — e o mantém”, não há espaço para um arrivista, nem há
um propósito a que um arrivista pudesse concebivelmente servir; “mas o
século XIX gerou uma horda de arrivistas”.4 Não que desordenadamente
muitas pessoas começassem a contestar as suas definições limitadas por
classe, ou limitadas sob outros aspectos, e se recusassem a prestar atenção a
seus lugares; mas os próprios contornos dos lugares haviam sido lavados —
as margens dos rios havendo sido arrastadas junto com os rios, e a incerteza
denominada o novo, ou o melhor, ou progresso, havendo-se tornado o único
destino oficial dos trens. Os lugares e seus nomes tinham então de ser feitos
(e, inevitavelmente, refeitos) “enquanto se seguia”. Na memorável frase de
Hannah Arendt, a autonomia do homem transformou-se na tirania das possibilidades. O tipo miúdo do importante e moderno Ato de Emancipação
continha uma injunção contra o sossego da certeza.
Definições são inatas; identidades são constituídas. As definições
informam a uma pessoa quem ela é, as identidades atraem-na pelo que ela
ainda não é, mas ainda pode tornar-se. Os arrivistas eram pessoas em busca
frenética de identidades. Eles perseguiam identidades porque, desde o
princípio, as definições lhes haviam sido negadas. Era extremamente fácil
concluir que era a sua inquietação que eliminava as definições e acusá-los
do ato criminoso de violar os postes indicadores de fronteira. Uma vez
arremessados na vasta extensão das possibilidades ilimitadas, os arrivistas
eram uma presa fácil: não havia lugares fortificados onde se esconderem,
nem definições fidedignas para usar como armadura. E de todos os lugares
ainda protegidos por velhas muralhas, e de todos os lugares em que se
esforçavam para construir novas muralhas, foram descarregadas flechas
envenenadas em profusão.
No início da sua vida, o Wilhelm Meister de Goethe descobriu que
somente os jovens aristocratas podem confiar em ser tomados pelo que são;
todos os outros seriam avaliados ou condenados pelo que fizessem. Wilhelm
Meister tirou a única conclusão lógica a ser tirada: entrou para o teatro. No
palco, ele assumiu e despiu papéis. Era o que estava fadado a fazer na vida
de qualquer maneira, mas pelo menos no palco — e somente no palco —
todos esperavam que os papéis fossem apenas papéis, e a serem
representados, abandonados e substituídos por outros papéis. Na vida,
esperar-se-ia que ele fizesse o oposto ou, pelo menos, fingisse que o estava
fazendo; esperar-se-ia que fosse o que ele é, embora precisamente a isso lhe
fosse negado o direito.
A maioria dos arrivistas não pode acompanhar a escolha de Meister. A
vida é o seu palco, e na vida, ao contrário do teatro, a representação
habilidosa é considerada falsidade, e não sutileza. É precisamente para
forçá-la para fora do cotidiano e da normalidade que a representação como
atividade respeitável foi confinada dentro das paredes do teatro. Na vida, os
papéis devem negar que são papéis e fingir ser identidades, ainda que
identidades não estejam disponíveis em qualquer outro aspecto ou forma
que não o de papéis. Ninguém aprende essa verdade melhor do que os
arrivistas — vivendo, como vivem, sob constante e implacável pressão
(para citar Hannah Arendt) “para ter de adaptar seu gosto, suas vidas, seus desejos”; a quem é “negado o direito de serem eles próprios em qualquer
coisa e em qualquer momento”.5
Ter aprendido as regras do jogo não significa, entretanto, ser mais sagaz.
Significa ainda menos ser bem-sucedido. Pouco podem fazer os arrivistas
para alterar sua difícil situação, por mais ardorosamente que desejem fazê-
lo. “Não se pode modificar a própria imagem: nem o pensamento, nem a
liberdade, mentira, náusea ou repugnância podem ajudar alguém a sair da
sua pele peculiar.”6 No entanto, sair da sua pele peculiar é o que se espera
que a pessoa faça. Pede-se aos arrivistas, orientados, controlados e
avaliados por critérios exteriores, que provem a legalidade da sua presença
sendo orientados, controlados e avaliados por si próprios e sendo vistos
assim. Wilhelm Meister prudentemente escolheu ser ator: seus sucessores
modernos são obrigados a ser atores — embora se arrisquem à condenação
e ao ridículo assim que consentem no seu destino. Um círculo vicioso, se já
existiu algum. E, como para esfregar sal na ferida, existe esse ensurdecedor
silêncio, essa esmagadora indiferença, esse desnorteante alheamento, o
“lavo as minhas mãos”, gesto do Pôncio Pilatos que julga. Como escreveu
Kafka em O processo: “O tribunal não quer nada de você. Recebe-o quando
você chega e coloca-o de lado quando você vai embora.”
O silêncio do tribunal transforma o réu no próprio juiz; ou antes, assim
parece ser. Com o promotor público abstendo-se de discursos reprovadores
e sem juiz para instruir o júri, cabe aos réus provar a sua inocência. Mas
inocência de quê? Sua culpa, afinal, nada mais é senão o próprio fato de
haverem sido acusados, de se acharem em julgamento. E essa é uma culpa
que não podem negar, por mais inteligentemente que demonstrem a sua
inocência e por mais sólida que seja a prova que colijam para sustentar a
demonstração.
Pelo capricho da legislatura francesa, os negros da Martinica e de
Guadalupe foram declarados franceses, diferentemente dos negros do
Senegal ou da Costa do Marfim, ou dos árabes do Marrocos. Tudo o que é
dito ou escrito acerca dos direitos dos franceses se estende a eles; nada resta
a ser provado e, assim, não foi expedida nenhuma intimação judicial, nem
precisou ser expedida. Contudo, a falta de um tribunal não significa
inocência; significa somente que nenhum julgamento final será jamais
proferido e que a inocência nunca será atestada. O silêncio da Lei significa
a perpetuidade do processo. Os negros da Martinica e de Guadalupe têm de
provar que sua condição de franceses não exige prova… Não diferentemente dos calvinistas de Weber, eles devem levar uma vida de
virtude (uma virtude que, no seu caso, é denominada “a condição de
franceses”), sem a certeza de que a virtude será recompensada, e apesar da
torturante suspeita de que, mesmo que o fosse, eles não o saberiam afinal.
Todos em volta concordam que eles se desencumbem admiravelmente da
tarefa. Distinguem-se nas escolas. São os mais leais e dedicados
funcionários públicos. Mais enfaticamente ainda do que os seus
concidadãos de uma tonalidade de pele mais clara, eles exigem que as
fronteiras francesas sejam fechadas àqueles negros estrangeiros do Tchad
ou Camarões, “que não têm direito de estar ali”. Eles até se aliam à Frente
Nacional, de Le Pen, para promover a purificação de La Patrie das hordas
de arrivistas destinados a diluir a própria condição de franceses que desejam
abraçar. Pelos mais minuciosos padrões exigentes, os negros da Martinica e
de Guadalupe são franceses exemplares. Para a maioria dos franceses
exemplares, é exatamente isso o que eles são — martiniquenses e
guadalupenses negros passando por franceses exemplares. Bem, é
precisamente esse extremo empenho para serem franceses exemplares que
faz deles os negros da Martinica ou de Guadalupe… Quanto mais fazem
para se transformar em algo diferente do que são, mais são o que foram
chamados a não ser. Ou foram de fato chamados?
Às muitas versões da resposta de Abraão ao chamado de Deus,
consideradas por Kierkegaard, Franz Kafka, o grande porta-voz dos
arrivistas deste mundo, acrescentou a sua: outro Abraão — “que na verdade
quer realizar o sacrifício corretamente (…) mas que não consegue acreditar
que ele foi escolhido, o velho repulsivo e seu filho sujo”. “Embora tivesse
medo de ser ridicularizado, e ainda mais medo de aderir ao riso, seu maior
temor era de que, se fosse ridicularizado, pareceria ainda mais velho e ainda
mais repulsivo, e seu filho ainda mais sujo. Um Abraão que chega sem ser
chamado!”
Para os arrivistas, o jogo não pode ser vencido, pelo menos enquanto
continuar a ser disputado segundo as regras estabelecidas, ao passo que a
saída do jogo significa rebelião contra as regras; na verdade, uma inversão
das regras. Embora, como expressou Max Frisch, sempre e para todos, no
nosso inquieto mundo da modernidade, “a identidade signifique recusar ser
o que os outros querem que se seja”, é recusado à pessoa o direito de
recusar. Não se tem tal direito, não neste jogo, não enquanto os árbitros
impuserem a sua vontade. E, assim, a dedicação frustrada transforma-se em motim. Explode o mito de fazer parte e a ofuscante luz da explosão arranca
da sua escuridão de exílio a verdade da incompletude, o até-segunda-ordem
da existência do errante. Estar no mundo da maneira como se está (ou se
imagina estar, ou se quer estar) em casa poderia consumar-se unicamente
em outro mundo, um mundo que se pode alcançar somente mediante o ato
da redenção.
Para arrivistas como Lukács e Benjamin, como observou Ferenc Feher,
“a maneira natural de fazer parte, cujo desejo nunca abandonou nenhum dos
dois, foi bloqueada (…) nenhum conseguiu tornar-se assimilado ou um
nacionalista”. O desejo de fazer parte só podia apontar em direção ao
futuro, além do sufocante confinamento do aqui e agora. Não havia fazer
parte à vista, exceto no lado oposto da redenção. E a redenção “pode surgir
na forma do Juízo Final — onde há um único padrão de comparação com
que se confrontar, e onde a Suprema Autoridade julga —, ou na forma de
um ato conciliatório de redimir todos aqueles que participam da
comunidade do infindável sofrimento humano”.7 Poder-se-ia lutar por uma
nova certeza para eliminar as incômodas pretensões da atual certeza; buscar
a autoridade ainda não desacreditada que se espera que proclame e imponha
novos cânones e novas normas. Ou poder-se-ia abandonar certezas antigas,
novas e ainda por vir — e seguir a recomendação de Adorno, pela qual só
as experiências são legítimas, quando as certezas já não o são. Ambas as
alternativas foram adotadas e tentadas.
O arrivistas Lukács passou a vida procurando a autoridade
suficientemente destemida e poderosa para descartar os juízos de hoje e
proclamar o próprio juízo como se fosse o Final — seja a forma
esteticamente perfeita, ou a distante aliança dos sofrimentos proletários com
a verdade universal. Nisso, ele acompanhou uma longa série de outros
arrivistas, de Karl Marx — anunciando a iminência da universalidade do
fazer parte assim que o homem universal for despido dos humilhantes e
degradantes uniformes provincianos —, passando por Karl Mannheim,
esforçando-se por remodelar o desabrigo do sofista itinerante na patente de
juízo superior a todas as opiniões estabelecidas — até Husserl, tornando
transcendental a subjetividade que contém a verdade e, portanto, habilitada
a remover as pretensões reconhecidamente falsas das subjetividades deste
mundo.
O mundo de Benjamin, por outro lado, era uma série de momentos
históricos prenhe de premonições, no entanto juncada de cadáveres de esperanças malogradas. Um momento, por essa razão, não é
particularmente diferente de outro. Os perigos gêmeos combatidos pelo
trabalho de toda a vida de Benjamin são, nas palavras de Pierre V. Zima, “la
différence absolue et la disjonction idéologique (la position d’un des deux
termes” e “le dépassement (hégélien, marxien) vers l’affirmation, vers la
position d’un troisième terme sur un plan plus élevé”.8 Sob a pena de
Benjamin, a ambivalência transforma-se no cesto da gávea de que se pode
divisar o arquipélago de possibilidades reprimidas; em vez de uma
enfermidade a ser curada, a ambivalência é então o valor a ser acalentado e
protegido. Os anjos — anotou Benjamin em seu Agesilaus Santander (o
anagrama decifrado por Scholem como Der Angelus Satanus) —, “novos a
cada momento em incontáveis hostes, são criados de modo que, após
haverem cantado o seu hino diante de Deus, deixam de existir e se
extinguem no nada”. E Adorno comentou: Benjamin foi um dos primeiros a
observar que o “indivíduo que pensa se torna problemático até o âmago,
todavia sem a existência de qualquer coisa supra-individual em que o
sujeito isolado pudesse adquirir transcendência sem ser oprimido; foi isso o
que ele expressou ao se definir como alguém que deixou a sua classe sem,
contudo, pertencer a outra”.9 Ora, como Lukács, Benjamin não estava
sozinho no caminho que escolheu. Simmel, com sua excepcional aptidão
para decompor qualquer estrutura, por maior que seja, em um agrupamento
de pensamentos e emoções humanos, demasiado humanos, estava ali
primeiro; e muitos outros se sucederiam, para mencionar apenas Lévi-
Strauss, desmascarando com uma deixa a história progressiva como mais
um mito tribal, Foucault, com os discursos que geraram, por si mesmos,
todos os limites capazes de se erguer para confinar e canalizar sua
disposição, ou Derrida, com realidades dissimuladas nos textos que se
abarcam uns aos outros na interminável quadrilha das interpretações.
Como em tantos casos semelhantes, a revolução moderna terminou em
parricídio — poeticamente intuído por Freud, no seu desesperado esforço
para discernir o mistério da cultura. Os mais brilhantes e mais fiéis filhos da
modernidade não podiam expressar sua lealdade filial senão se tornando os
seus coveiros. Quanto mais eles se dedicavam à construção do artifício que
a modernidade se pôs a erigir, havendo primeiro destronado e legalmente
incapacitado a natureza — mais solapavam os alicerces do prédio. A
modernidade, poder-se-ia dizer, estava desde o princípio prenhe de sua
própria Aufhebung pós-moderna. Seus filhos estavam geneticamente determinados a ser seus detratores e — em última análise — seu pelotão de
demolição. Aqueles rejeitados como arrivistas (aqueles que chegaram), no
entanto recusaram o conforto da chegada, estavam fadados a, cedo ou tarde,
denegrir a segurança de quaisquer portos seguros. No fim, estavam fadados
a contestar a própria chegada como um fim plausível ou desejável da
viagem.
Daí o assombroso caso de uma cultura absorvida numa luta de unhas e
dentes com a realidade social que se presumia, como devem fazer todas as
culturas, que refletisse e servisse. Nessa desarticulação e na decorrente
inimizade entre a cultura e a existência reificada, a modernidade talvez
esteja sozinha dentre todas as disposições societárias conhecidas. Pode-se
seguramente definir a modernidade como uma forma de vida marcada por
tal desarticulação, como uma condição social sob a qual a cultura não pode
servir à realidade senão minando-a.
Mas daí também o caráter incomparavelmente trágico — ou é
esquizofrênico? — da cultura moderna, a cultura que só se sente
verdadeiramente à vontade em seu desabrigo. Nessa cultura, o desejo é
manchado pelo medo, ao passo que o horror possui atrações a que
dificilmente se resiste. Essa cultura sonha fazer parte, no entanto teme
fechaduras e janelas cerradas; tem pavor à solidão chamada liberdade, no
entanto ainda mais do que qualquer outra coisa se ressente com juramentos
de lealdade. Para qualquer direção que se volte, essa cultura — como os
ratos famintos do labirinto de Miller e Dollard — se vê suspensa à beira da
ambivalência, onde se cruzam as linhas do fascínio decrescente e da repulsa
crescente. Walter Benjamin censurou seu companheiro de aprisionamento e
adversário na busca da fuga, Gershon Sholem: “Quase acredito que você
deseje esse estado intermediário, no entanto deve acolher bem qualquer
meio de lhe pôr fim.” A que Scholem replicou: “Você está mais ameaçado
pelo seu esforço pela comunidade (…) do que pelo horror da solidão que
fala em tantos dos seus escritos.”10
No sistema de castas hindu, o pária era um membro da casta mais baixa
ou de nenhuma casta. Numa intocável ordem de fazer parte, quem poderia
ser mais intocável do que os que não faziam parte de nenhum lugar? A
modernidade proclamou que nenhuma ordem era intocável, visto que todas
as ordens intocáveis deviam ser substituídas por uma nova ordem artificial,
em que são construídos caminhos que levam da parte mais baixa ao topo e,
portanto, ninguém faz parte de nenhum lugar eternamente. A modernidade foi, assim, a esperança do pária. Mas o pária podia deixar de ser pária
somente ao se tornar — ao se esforçar para se tornar — um arrivista. E o
arrivista, por nunca haver apagado a mácula da sua origem, vivia sob a
constante ameaça de deportação de volta à terra de que tentou escapar.
Deportação caso fracassasse; deportação caso fosse bem-sucedido de
maneira demasiadamente espetacular para o bem-estar daqueles à sua volta.
Nem por um momento o herói deixou de ser uma vítima potencial. Herói
hoje, vítima amanhã — o muro divisório entre as duas situações era muito
estreito. Estar em movimento significava não fazer parte de nenhum lugar.
E não fazer parte de nenhum lugar significava não contar com a proteção de
ninguém: de fato, a quintessência da existência do pária era não poder
contar com proteção. Quanto mais depressa se corre, mais rápido se
permanece no lugar. Quanto maior o frenesi com que alguém luta para se
isolar da casta dos párias, mais se expõe, como o pária, a não fazer parte.
Foi a tentadora imagem de um majestoso artifício tremeluzindo no fim
do túnel que instigou o pária à sua viagem e o converteu no arrivista. Foi a
agonia da infindável jornada que obscureceu o brilho do artifício e lhe
amorteceu a atração: recordando o caminho percorrido, os que buscavam
lares descartariam as esperanças passadas como uma miragem — e
considerariam sua nova sobriedade frustrada o fim da utopia, o fim da
ideologia, o fim da modernidade, ou o advento da era pós-moderna.
E, assim, eles diriam: pátrias artificiais são alucinações na melhor das
hipóteses, ilusões perversas na pior das hipóteses. Basta de revoluções para
acabar com todas as revoluções. Basta de se estender em direção ao doce
futuro, que fica amargo no momento em que se torna presente. Basta de reis
filósofos. Basta de salvação pela sociedade. Basta de sonhos acerca de
identidades que não são — sonhos que estragam o contentamento de
definições que são. A viagem não proporcionou redenção ao arrivista.
Quem sabe se, quando não houver nenhum lugar a que chegar, a triste
condição do arrivista será cancelada juntamente com a sua viagem?
Com o ocaso do sol universal, escreveu o estudante Karl Marx, as
mariposas reúnem-se junto à lâmpada doméstica. Com o secamento do
artificial e sofisticado lago da universalidade, os putrescentes pântanos de
provincianismo do passado recente cintilam convidativamente, como os
refúgios naturais para todos os que precisam nadar em segurança. Basta de
salvação pela sociedade — mas talvez a comunidade torne a salvação
desnecessária? “Não devemos procurar ganchos suspensos do céu, mas somente apoios para as pontas dos pés”, é como Richard Rorty resume a
disposição de ânimo dos despojados, e passa a elogiar o etnocentrismo e a
advertir-nos para, em vez de desperdiçarmos nosso tempo na busca vã de
objetividade e pontos de vista universais, concentrarmo-nos nas perguntas:
“Com que comunidades você deve identificar-se?” e “O que devo fazer com
o meu isolamento?”11 Isaiah Berlin, por outro lado, diz a seus
entrevistadores que existe nacionalismo ganancioso, intolerante, cruel e
nocivo em muitos outros aspectos, mas que também existe nacionalismo
cordial, aconchegante, em paz com a natureza e consigo mesmo e, portanto,
também, é de se esperar, com os seus vizinhos: “le doux nationalisme”,
como o chamam conscienciosos franceses, desconcertados pelos
espetaculares êxitos de Le Pen, e tentando desesperadamente passar à frente
do sinistro adversário. O fatigado caminhante sentenciado à vida de uma
agonia arrivista ainda quer fazer parte. Mas desistiu da esperança de que
fazer parte pode ser atingido por meio da universalidade. Já não acredita em
longas vias indiretas. Sonha agora com atalhos. Ou, ainda melhor, sonha em
chegar sem viajar; ir para casa sem realmente sequer sair.
O que quer que costumava ser virtude transformou-se em vício. E os
vícios de outrora foram (e espera-se: não postumamente) reabilitados. O
veredito foi anulado; os que o proferiram, condenados ou dispensados como
juízes incompetentes. O que a modernidade se pôs a destruir tem o seu dia
de doce vingança. Comunidade, tradição, a alegria de estar chez soi, o amor
ao que se possui, o aferramento ao próprio modo de ser, o orgulho de ser
assim aferrado, as raízes, os laços de sangue, o solo, a nacionalidade — eles
já não se acham condenados. Ao contrário, são os seus críticos e detratores,
os profetas da humanidade universal, que são então desafiados a comprovar
suas alegações, e há dúvidas sobre se o conseguirão.
Talvez nós vivamos em uma era pós-moderna, talvez não. Mas de fato
vivemos em uma era de tribos e tribalismo. É o tribalismo, miraculosamente
renascido, que injeta espírito e vitalidade no louvor da comunidade, na
aclamação de fazer parte, na apaixonada busca da tradição. Neste sentido,
pelo menos, o longo desvio da modernidade levou-nos aonde nossos
antepassados outrora principiaram. Ou assim talvez pareça.
O fim da modernidade? Não necessariamente. Sob outro aspecto, afinal,
a modernidade está muito conosco. Está conosco na forma do mais
definidor dos seus traços definidores: o da esperança, a esperança de tornar
as coisas melhores do que são — já que elas, até então, não são suficientemente boas. De igual maneira, pregadores vulgares de tribalismo
desadornado e elegantes filósofos das formas de vida comunalmente
baseadas ensinam-nos o que fazem, em nome de mudar as coisas para
melhor. “Qualquer benefício que as idéias de ‘objetividade’ e
‘transcendência’ tenham feito à nossa cultura poderia ser obtido igualmente
bem pela idéia de comunidade”, afirma Rorty — e é precisamente isso que
torna a última idéia atraente para os que procuravam ontem os caminhos
universais para um mundo adequado à habitação humana. Projetos racionais
de perfeição artificial, e as revoluções destinadas a imprimi-los na
configuração do mundo, fracassaram abominavelmente em cumprir sua
promessa. Talvez as comunidades, cordiais e hospitaleiras, cumpram o que
elas, as frias abstrações, não puderam cumprir. Ainda queremos que o
trabalho seja feito. Apenas deixamos cair as ferramentas que se revelaram
inúteis e procuramos obter outras — que, quem sabe, ainda possam realizar
a tarefa. Pode-se dizer que ainda concordamos em que a felicidade conjugal
é uma coisa boa; somente já não apoiamos a opinião de Tolstoi de que todos
os casamentos felizes são felizes da mesma forma.
Sabemos perfeitamente bem por que não gostamos das ferramentas que
abandonamos. Durante mais ou menos dois séculos, pessoas que mereciam
ou reclamavam ser ouvidas com atenção e respeito contaram a história de
um hábitat humano que curiosamente coincidia com o do estado político e
do domínio de seus poderes legislativos e ambições. O mundo humano era,
na memorável expressão de Parsons, o espaço “principalmente coordenado”
— o domínio sustentado, ou prestes a ser sustentado, por princípios
uniformes, mantidos pelos esforços conjuntos dos legisladores e dos
executantes, armados ou desarmados, da sua vontade. Era esse espaço
artificial que era descrito como um hábitat que “supre naturalmente” as
necessidades humanas e — de forma mais importante — supre a
necessidade de satisfazer as necessidades. A sociedade “principalmente
coordenada”, talvez racionalmente projetada e controlada, devia ser essa
boa sociedade que a modernidade se pôs a construir. Dois séculos é um
longo tempo — suficiente para todos nós aprendermos o que grandes
mentes solitárias do tipo de Jeremy Bentham intuíram desde o princípio:
que a “principal coordenação” racionalmente projetada se ajusta igualmente
bem a uma escola e a um hospital, assim como se ajusta a uma prisão e a
um asilo de pobres; e descobrirmos que tal universalidade de aplicação faz
com que mesmo a escola e o hospital pareçam uma prisão ou um asilo de pobres. Esse período mostrou também que a parede que separa a espécie
“benigna” de engenharia racional da sua variedade maligna e genocida é tão
frágil, instável e porosa que — para parafrasear Bertrand Russell — não se
sabe quando se deve começar a gritar…
Quanto às comunidades — esses organismos alegadamente não
planejados, que cresceram naturalmente, apoios para as pontas dos pés em
vez de ganchos suspensos do céu —, ainda não conhecemos todas essas
coisas que conhecemos extremamente bem acerca do Grandioso Artifício
que a modernidade prometeu construir. Mas podemos imaginar. Sabemos
que o gosto moderno pela perfeição projetada condensou a, sob outros
aspectos, difusa heterofobia e, repetidamente, canalizou-a, à maneira de
Stalin ou de Hitler, em direção a saídas genocidas. Podemos somente
presumir que o tribalismo desordenado, desconfiado de soluções universais,
tenderia para saídas de exílio, em vez de saídas genocidas, para a
heterofobia. Separação, em vez de sujeição, confinamento ou aniquilação.
Como o exprimiu Le Pen: “Eu adoro os africanos do norte. Mas o seu lugar
é no Maghreb.” Sabemos igualmente que o principal conflito do cenário
moderno surgiu da inerente ambivalência das pressões assimiladoras, que
incitavam em direção a apagar as diferenças em nome de um padrão
humano universal, embora simultaneamente recuassem diante do êxito da
operação — mas só podemos formular a hipótese de que uma ambivalência
analogamente prenhe de conflito será revelada no reconhecimento pós-
moderno da diferença, que hesita entre os igualmente repulsivos e
indefensáveis extremos do “liberalismo desfibrado”, que docilmente
renuncia ao direito de comparar e avaliar os outros, e do turbulento
tribalismo, que nega aos outros o direito de comparar e avaliar.
Não há certeza — nem mesmo uma alta probabilidade — de que no
universo povoado por comunidades não restará nenhum espaço para o pária.
O que parece mais plausível, contudo, é que a via de fuga do arrivista ao
status de pária será fechada. A miscifilia bem pode ser substituída pela
miscifobiaa; a tolerância da diferença bem pode ser aliada à categórica
recusa da solidariedade; o discurso monológico, em vez de dar lugar a um
discurso dialógico, cindir-se-á em uma série de solilóquios, com os falantes
não mais insistindo em ser ouvidos, mas se recusando também a escutar.
Essas são perspectivas reais, suficientemente reais para provocar
hesitação no alegre coro de sociólogos que dão as boas-vindas ao novo e
agradável mundo das comunidades.
A sociologia tem uma longa e notável crônica de servilismo. Desde o
seu nascimento, firmou-se como o principal poeta oficial da corte de uma
sociedade centralizada e coordenada pelo estado, do estado resolvido a
proibir tudo o que não foi antes tornado obrigatório. Com o estado não mais
interessado em uniformidade, perdendo interesse pela cultura enquanto uma
rotina de discursos repetitivos, e de bom grado deixando a tarefa da
integração social a forças de mercado amantes da variedade, a sociologia
está desesperadamente procurando novas cortes, em que as habilidades e a
experiência de cortesãos pensionistas pudessem ser rendosamente
empregadas. Para muitos, as minicortes endemicamente fissíparas de
comunidades imaginadas, ideologias domésticas e tradições tribalmente
inventadas parecem exatamente aquilo de que necessitam. Mais uma vez,
embora de maneira surpreendentemente diferente da anterior, pode-se
adular a prática com fundamentos teóricos, traçando elegantes diagramas da
realidade desordenada. Mais uma vez, pode-se anunciar uma nova
ambivalência como uma solução lógica e um definitivo aperfeiçoamento da
antiga. Hábitos de cortesãos teimam em não morrer.
No decorrer da longa, tortuosa e intricada marcha da modernidade,
devíamos ter aprendido a nossa lição: que o transe existencial humano é
incuravelmente ambivalente, que o bem está sempre combinado ao mal, que
é impossível traçar com segurança a linha entre a dose benigna e a venenosa
de um remédio para as nossas imperfeições. Devíamos ter aprendido essa
lição. Mas quase nunca o fazemos. Havendo desacreditado o remédio, nos
esquecemos da enfermidade a cuja cura ele se destinava. Mais uma vez
participamos, jubilosamente, a descoberta de uma droga milagrosa para os
males humanos — só que dessa vez é a antiga doença que se proclamou ser
o remédio. Mais uma vez tentamos, confiantemente, prescrever a dose certa
da cura. Existe uma boa, facilitadora, progressiva forma de fazer parte —
dizem-nos — e se chama etnicidade, tradição cultural, nacionalismo. As
pessoas são diferentes e elas que permaneçam assim. Bem, existe também
uma atitude feia denominada heterofobia, xenofobia ou racismo — uma
opinião e uma prática de separar, banir, exilar. Mas as duas têm algo em
comum? Não é uma pequena dose da droga um antídoto infalível contra os
seus efeitos venenosos?
O consenso ortodoxo da sociologia foi declarado culpado de ajudar e se
acumpliciar com as práticas perniciosas demasiado freqüentes do estado-
nação. Algum tempo ainda passará antes que a nova sociologia “comunalisticamente orientada”, agora deleitando-se com seu período de
lua-de-mel e alegremente autocongratulando-se, se ache acusada de
cumplicidade nos pouco atraentes efeitos dos modelos atuais de construção
da identidade. Isso, presumivelmente, não acontecerá (não por comum
acordo, de qualquer maneira) antes que esses modelos sejam considerados,
como de costume em retrospecto, escolhas erradas e oportunidades
perdidas.
a Cunhamos as palavras “miscifilia” e “miscifobia” como equivalentes às do inglês mixophilia e mixophobia, e de acordo com os respectivos prefixos e afixos já existentes, com regularidade, em nossa língua. (N.T.)
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